CÂMERA, PRIVACIDADE E UMA DÍVIDA Entrei no quarto e bati a porta, mas não tranquei. Trancar portas naquela casa parecia uma piada de mau gosto, já que o dono tinha a chave de tudo, inclusive da minha vida. Joguei a camisa preta na poltrona e fiquei só de regata, deixando a marca no meu pescoço respirar. O Vincent tinha razão: estava quente demais para tentar ser digna. Eu sentia uma inquietação estranha. A notícia do meu pai deveria ter me feito pular de alegria, mas o tom que o Vincent usou — aquele "sob minha supervisão" — grudou em mim como suor. Ele não soltou o Roberto. Ele só mudou o velho de cela. Caminhei até o espelho da penteadeira para prender o cabelo. Foi quando notei. Um reflexo. Um ponto milimétrico que não deveria estar ali, bem no encaixe da moldura de madeira trabalhada. Aproximei o rosto. Não era um defeito na madeira. Era uma lente. Uma câmera profissional, minúscula, instalada com a precisão de quem não queria apenas vigiar, mas capturar cada detalhe.
Última actualización : 2026-03-05 Leer más