INICIAR SESIÓNJADE
Henrique continuou me encarando como se estivesse tentando descobrir de que planeta eu tinha saído. O silêncio no escritório era tão denso que chegava a ser incômodo daqueles que pesam no ar e fazem cada segundo parecer uma eternidade. Resolvi quebrá-lo antes que ele terminasse de me dissecar com aquele olhar clínico. — O senhor... quer dizer, Henrique... tá esperando eu fazer o quê? Dar uma rodadinha para avaliar o vestido? Ele respirou fundo, puxando o ar pelo nariz como se estivesse reunindo até a última gota de paciência do seu estoque pessoal. — Você fala muito. — Ouço isso com frequência. — Imagino — respondeu, sem alterar o tom. Aproveitei para olhar ao redor do escritório impecável. Livros organizados por ordem de tamanho e tom, móveis de linhas modernas e austeras, um bar de carvalho abastecido com garrafas de rótulos indecifráveis que deviam custar o valor do meu aluguel anual. E, curiosamente, nenhuma fotografia. Nenhuma memória. — Bonito aqui — comentei, dando dois passos pelo tapete felpudo. — Obrigado. — Mas está faltando uma coisa. Pela primeira vez desde que entrei, ele levantou os olhos dos papéis e fixou-os diretamente em mim. — O quê? — Vida. Ele franziu a testa, o vinco entre suas sobrancelhas se aprofundando. — Vida? — Parece quarto de hotel de luxo — dei de ombros, passando a ponta dos dedos pelas costas de uma poltrona de couro. — Nem uma planta, nem uma foto... ninguém diria que alguém realmente vive ou trabalha aqui. Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos. Não consegui descobrir se tinha gostado da observação, se tinha ficado incomodado ou se simplesmente decidira me ignorar. Sem dizer uma palavra, pegou um envelope pardo espesso sobre a mesa e o estendeu na minha direção. — Aqui está o combinado. Olhei para o papel rígido, depois para ele. — Mas o jantar nem começou. — Prefiro resolver a parte financeira antes. Evita ruídos. Peguei o envelope. O peso dele entre meus dedos dizia tudo. Quando espiei discretamente o conteúdo, precisei de um esforço monumental para não arregalar os olhos. Era muito dinheiro. Mais do que eu esperava ver junto tão cedo. Respirei fundo, mantendo a postura de quem estava acostumada àquilo, e guardei o envelope com cuidado na bolsa. — O senhor paga bem. — Eu pago pela discrição — ele corrigiu, a voz firme. — E pela simpatia também? Ele arqueou uma sobrancelha, sem alterar a expressão. — Simpatia não faz parte do contrato. Soltei uma risada curta, balançando a cabeça. — Que pena. Henrique deu a volta na mesa de madeira maciça e parou a poucos passos de mim. A presença dele parecia ocupar todo o espaço do ambiente. — Existem algumas regras simples — disse ele, cruzando as mãos atrás das costas. Cruzei os braços, sustentando a postura. — Lá vem. — Durante o jantar, você será minha namorada. — Certo. — Nada de exageros. — Tá bom. — Nada de cenas. — Essa eu consigo. — E, acima de tudo: nada de improvisar. Sorri de canto, deixando o desafio transparecer. — Vou tentar. Ele fechou os olhos por um breve instante, soltando um suspiro imperceptível. — Eu imaginei. Dei um passo discreto na direção dele, diminuindo a distância interpessoal que ele tanto tentava preservar. — Você sempre fala desse jeito? — Desse jeito como? — Como se cada palavra custasse dinheiro e você estivesse tentando economizar. Ele sustentou meu olhar sem piscar. — Apenas digo o que precisa ser dito. Balancei a cabeça, soltando um estalo com a língua. — Definitivamente você não sabe conversar fiado. — Nunca vi utilidade em jogá-la fora. Antes que eu pudesse rebater, batidas discretas e ritmadas ecoaram na porta dupla do escritório. Um segurança de terno escuro e postura rígida colocou a cabeça para dentro. — Senhor Montenegro, a imprensa já está posicionada na entrada principal do saguão. Os convidados da mesa diretora começaram a chegar. Henrique fez um breve aceno com a cabeça, a imagem impecável do executivo no controle. — Obrigado, Carlos. Já descemos. Assim que a porta se fechou novamente, ele voltou a atenção para mim. A atmosfera no ambiente mudou instantaneamente. O ar parecia mais pesado, carregado de expectativa. — Vamos. Saímos do escritório para o corredor silencioso e iluminado por luzes embutidas. A cada passo, o som dos meus saltos ecoava no mármore. Ele diminuiu o ritmo, emparelhando a caminhada comigo. — Jade. — Hã? — Assim que as portas do elevador abrirem no térreo, haverá dezenas de fotógrafos. Assenti, ajustando a alça da bolsa no ombro. — Certo. Já entendi o enredo. Ele parou de andar abruptamente, virando-se para mim. Deu mais um passo em minha direção, encurtando o espaço até que eu pudesse sentir o aroma amadeirado do seu perfume. Meu coração deu um salto dentro do peito. Por um segundo, um único segundo em que o mundo pareceu desacelerar, achei que ele fosse me beijar ali mesmo. Prendi a respiração, o corpo inteiro em alerta. Mas ele apenas ergueu a mão devagar e afastou delicadamente uma mecha do meu cabelo que havia se soltado e caído sobre meu rosto. Seus dedos roçaram a minha pele por um milissegundo. Quentes. Firmes. Absolutamente controlados. Depois, sem hesitação, sua mão deslizou naturalmente até a minha cintura. Sem pressa. Sem intimidade exagerada, mas com uma firmeza natural que fez meu estômago dar uma volta completa. Como se aquele gesto tivesse sido ensaiado dezenas de vezes diante de um espelho. Ele se aproximou apenas o suficiente para que sua respiração roçasse a curva do meu ouvido. — Quando a porta abrir, olhe para mim e sorria. Um arrepio involuntário subiu pela minha espinha, da nuca até a cintura onde os dedos dele descansavam. — As câmeras estão à direita — completou ele, a voz num sussurro grave. As portas metálicas do elevador abriram com um bipe suave. O clarão dos flashes começou imediatamente, uma tempestade de luzes brancas e gritos distantes de jornalistas chamando pelo seu nome. Instintivamente, o piloto automático assumiu o controle. Fiz exatamente o que ele havia mandado. Virei o rosto para ele e sorri um sorriso leve, apaixonado, perfeitamente ensaiado para as lentes. Ele manteve a mão na minha cintura pelo tempo exato necessário para os cliques. Nem um segundo a mais. Nem um segundo a menos. Assim que a porta de vidro do elevador privativo se fechou, isolando-nos do caos do saguão, ele recolheu a mão e deu um passo para o lado, recompondo a distância profissional. Cruzei os braços, encarando o painel digital que marcava a descida. — Você fez isso de propósito. Ele nem piscou. — Sim. Inclinei a cabeça, analisando o perfil esculpido do seu rosto refletido no aço escovado. — Achei que você fosse me beijar. Pela primeira vez naquela noite, ele desviou os olhos dos números cadentes do painel e fixou-os em mim. O olhar dele era uma mistura perigosa de intensidade e advertência. — Se eu tivesse essa intenção... Fez uma pequena pausa, deixando o peso das palavras pairar no ar. — ...você não teria dúvidas. Fiquei completamente sem resposta. A trava da minha língua simplesmente desapareceu. As portas abriram novamente. Ajeitei a postura e olhei meu reflexo no espelho do elevador, tentando desesperadamente recuperar a pose de mulher inabalável. Eu tinha entrado naquele hotel acreditando que sabia exatamente como lidar com homens como Henrique Montenegro. Achava que entendia o jogo, que conhecia as regras e que tinha o controle da narrativa. Mas bastaram alguns minutos ao lado dele para perceber que, pela primeira vez em muito tempo, eu não fazia a menor ideia de qual seria a próxima jogada.JADE Meus olhos se abriram num estalo. Olhei para o teto branco do quarto. A luz do sol mal começava a rasgar a fresta da cortina. Girei o corpo devagar para encarar o relógio na mesa de cabeceira. Seis. Da. Manhã. Em uma segunda-feira? Ou melhor, em qualquer dia da minha vida em que eu não estivesse sendo perseguida por um incêndio ou por um prazo fatal? — Isso não é normal... — resmunguei para o quarto vazio, a voz rouca de sono, cobrindo o rosto com o lençol. — Definitivamente contra a minha natureza. Fiquei encarando o teto por mais alguns segundos, completamente indignada comigo mesma por ter perdido o sono tão cedo. Mas então, uma ideia começou a se desenhar na minha mente. A lembrança do dia anterior na casa de dona Cecília e, principalmente, do tênis encharcado no jardim voltou como um raio. Um sorriso nasceu sozinho no meu rosto. Hoje seria o dia da minha vingança. Estiquei o braço e peguei o celular na mesma hora. Sem pensar duas vezes, abri a conversa com Henriqu
JADEDepois do almoço, o jardim da casa de dona Cecília virou o ponto de encontro da família.As crianças corriam atrás de uma bola colorida, enquanto os tios ocupavam as cadeiras de vime espalhadas pela varanda, discutindo futebol, política e qualquer outro assunto que aparecesse.E eu... bom. Eu estava deitada em uma espreguiçadeira, completamente em paz com a vida, terminando a última colherada do pudim.Do Henrique.Sim. O dele. O meu já tinha acabado fazia tempo.— Jade.Levantei os olhos devagar. Henrique estava parado bem na minha frente, as mãos nos bolsos e a mesma expressão calma de sempre.— Hum?Ele olhou para o pratinho vazio. Depois para mim.— Você comeu os dois pudins.Olhei para o prato. Depois para ele.— Nossa...— O quê?— Agora que você falou... — Pisquei algumas vezes. — Comi mesmo.Ele respirou fundo.— Impressionante.— Você não vai comer.— Como sabe?— Porque ficou conversando.— E então?Dei de ombros.— Pudim parado é um pudim desperdiçado.Ele me encarou.
Olhei para baixo e paralisei.— Ah, não…Peguei rapidamente o guardanapo de pano do meu colo.— Deixa que eu tento limpar…Minha mão mal teve tempo de encostar no tecido. Henrique segurou delicadamente o meu pulso, interrompendo o meu movimento com uma firmeza surpreendente.— Não — disse ele, com a voz baixa e tranquila.Olhei para ele, surpresa.— Henrique...— Se você esfregar, vai espalhar a mancha e tingir o tecido.Antes que eu pudesse reagir, Henrique já havia pegado outro guardanapo de papel limpo que estava sobre a mesa. Inclinou-se no meu espaço apenas o suficiente. Os movimentos dele eram calmos, precisos e extremamente focados, exatamente da mesma forma que ele resolvia qualquer pendência no escritório.Não havia pressa. Não havia hesitação. Apenas concentração pura.Eu permaneci absolutamente imóvel. Podia sentir o calor do corpo dele tão perto do meu e o aroma amadeirado do seu perfume preenchendo os meus sentidos. Meu coração começou a bater rápido demais para uma reles
JADEDona Cecília aproximou-se batendo as mãos, plenamente satisfeita com o rumo das coisas.— Agora sim! — declarou ela.Ajeitei o vestido, tentando disfarçar a onda de calor que teimava em insistir no meu rosto.— Agora sim o quê, dona Cecília?— Agora vocês estão com cara de casal de verdade. Sem aquela formalidade toda que o Henrique gosta de inventar.Henrique caminhou até o aparador no canto da sala e serviu um copo de água com gelo.— Vó... — murmurou ele, numa tentativa branda de conter o entusiasmo dela.— Não adianta reclamar, Henrique. Vocês combinam e pronto.Aproximei-me dele a passos lentos e falei baixinho, numa frequência que só ele podia ouvir.— Ela está muito emocionada com a gente.Ele tomou um gole de água, mantendo os olhos na movimentação da casa.— Muito.— Coitada. Vai se decepcionar quando descobrir a verdade.— Bastante — concordou ele, num tom seco, mas sem nenhum ressentimento.Olhei para o perfil dele por um segundo. Depois, não aguentei e comecei a rir b
Em questão de minutos, a sala de estar virou o cenário de uma pequena operação militar. As crianças foram empurradas para sentar no tapete à frente; os mais velhos foram acomodados no sofá principal; os tios discutiam no fundo sobre quem era mais alto e quem estava tapando a luz da janela. Dona Cecília, no centro de tudo, distribuía as pessoas como uma maestrina experiente.— Henrique! — chamou ela, acenando.Ele ergueu os olhos do canto onde tentava passar despercebido.— Aqui, meu filho. Do lado da Jade.Olhei discretamente para ele. Henrique soltou uma respiração lenta, mas não argumentou. Caminhou até o espaço vago ao meu lado, parando a uma distância socialmente aceitável.O tio ergueu a câmera ao nível dos olhos.— Mais juntinhos, pessoal. Não cabe todo mundo no enquadramento.Dei um passinho discreto para a direita, aproximando meu ombro do dele.— Mais um pouquinho, Henrique. Parece que você está do lado de uma estranha — ordenou o tio Sebastião.Olhei de relance para Henrique
JADEChegamos à casa de dona Cecília exatamente às meio-dia e quinze.Henrique mal havia desligado o motor da SUV quando a cortina de renda da janela da frente se moveu. Um segundo depois, a porta de entrada se abriu de par em par.Olhei para ele, apoiando as mãos no painel.— Ela estava esperando na janela?Ele nem se deu ao trabalho de responder. Não precisou.Dona Cecília desceu os três degraus da varanda com uma agilidade surpreendente para a idade, ostentando um sorriso tão amplo e radiante que dava a impressão de que não via o neto há anos. Ou talvez... de que a verdadeira convidada de honra fosse eu.Abri a porta do carro e desci. Antes que eu pudesse ajustar a bolsa no ombro ou ensaiar um cumprimento formal, fui completamente envolvida por um abraço apertado, daqueles que cheiram a sabonete de alfazema e conforto.— Minha querida! Que bom que você veio! — exclamou ela, dando dois tapinhas carinhosos nas minhas costas.Rendi-me ao abraço, rindo de surpresa.— Eu também fiquei m







