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Capítulo 5

last update Data de publicação: 2026-05-08 08:54:21

De volta ao condomínio, Felícia passou a manhã inteira ao telefone.

Tinha uma lista com dez escritórios de advocacia considerados referência na cidade. Foi ligando um por um, explicando a situação em linhas gerais — casamento deteriorado, histórico de agressão, necessidade urgente de dar entrada no divórcio. As respostas variavam na forma, mas convergiam no conteúdo: não podemos assumir esse caso no momento, nossa agenda está cheia, infelizmente não é nossa área de atuação.

Felícia conhecia aquelas desculpas. Eram a linguagem educada de quem não quer se indispor com a família Jortan.

O sogro dela era prefeito. E prefeito, nessa cidade, não era apenas um cargo — era uma rede de favores, dívidas e lealdades que se espalhavam muito além do gabinete municipal. Nenhum advogado que dependesse de boas relações com o poder público ia se arriscar a defender a esposa que queria divorciar do filho daquele homem. Os honorários não compensavam o preço.

Ela passou o dia todo nisso. Fez mais ligações do que conseguiu contar. Tomou café frio sem perceber. Olhou pela janela às vezes sem ver nada.

À noite, finalmente, uma resposta diferente.

Uma advogada chamada Dra. Sandra Lima, do escritório Queiroz & Associados, atendeu com uma voz firme e direta e disse que estava disposta a ouvir o caso. Combinaram de se encontrar numa casa de chá no centro — lugar escolhido pela própria Dra. Sandra, que justificou ser mais tranquilo e discreto do que um escritório.

Felícia deixou Clara com Renata, chamou um táxi e foi.

---

A casa de chá era um daqueles lugares que tentam ser sofisticados com muito esforço — paredes de madeira escura, iluminação baixa, música instrumental baixinha que ninguém estava realmente ouvindo. Reservado o suficiente para uma conversa sigilosa, movimentada o suficiente para que ninguém prestasse atenção em mais ninguém.

Dra. Sandra já estava lá quando Felícia chegou, sentada numa mesa no fundo, com um bule de argila roxa e duas xícaras sobre a bandeja. Era uma mulher de quarenta anos, cabelos curtos, sorriso simpático e aquele jeito de inclinar levemente a cabeça quando você fala que dá a impressão de que está realmente prestando atenção.

— Sra. Montes, que bom que conseguiu vir. Deve estar cansada. — Ela pegou o bule e serviu o chá com um gesto fluido. — Toma, é um assam. Aquece.

— Obrigada. — Felícia segurou a xícara, mas não levou aos lábios imediatamente.

Observou, sem que parecesse que estava observando, a advogada tomar o próprio chá sem hesitar. Bebeu até o fundo. Colocou a xícara de volta na bandeja com um clique suave.

Felícia tomou um gole pequeno do seu.

Trocaram as primeiras palavras — o tipo de conversa inicial que serve para as duas partes avaliarem uma à outra. Depois, a Dra. Sandra passou ao assunto.

— Me conta melhor sobre o seu caso, Sra. Montes. Você mencionou violência doméstica no telefone.

Felícia começou a explicar. A noite da agressão. Lucas chegando bêbado. Os hematomas que ainda estavam ali embaixo do corretivo. A fuga noturna com Clara. O boletim de ocorrência que a polícia registrou, mas Lucas havia sumido antes de eles chegarem.

A Dra. Sandra ouvia com o queixo levemente apoiado na mão, o sorriso simpático no lugar.

— Você tem alguma prova concreta? Vídeo, testemunha presencial, laudo médico?

— Não tenho vídeo. Não sabia que ia acontecer. — Felícia manteve a voz firme. — Mas tenho o boletim de ocorrência.

— O boletim registra que você ligou para a polícia. Registra que quando chegaram, seu marido não estava presente. — A Dra. Sandra ergueu levemente uma sobrancelha. — Mas como podemos provar que ele de fato cometeu violência contra você? Tecnicamente, sem ele presente e sem testemunha direta, como afastamos a possibilidade de que os ferimentos foram causados de outra forma?

Felícia ficou olhando para ela.

— O que a senhora está insinuando?

— Estou dizendo que, sem evidências sólidas, existe a interpretação oposta. — A voz da Dra. Sandra continuava suave, quase gentil, o que tornava as palavras ainda mais cortantes. — Que não houve violência doméstica. Que a senhora criou a situação deliberadamente para ter vantagem no processo de divórcio e garantir uma parte maior dos bens do casal.

O silêncio durou dois segundos.

— Isso é uma mentira absurda — disse Felícia, com uma calma que custou caro.

— A senhora sabe melhor do que ninguém o que é verdade.

— Se a Dra. Sandra é o tipo de profissional que faz esse tipo de acusação sem nenhuma base sobre a própria cliente — Felícia colocou a xícara na bandeja e pegou a bolsa —, então eu acho que não temos mais nada para conversar.

Ela se levantou.

E o chão oscilou.

Não foi gradual. Foi de repente — como se alguém tivesse puxado o tapete de baixo dos seus pés e ao mesmo tempo apagado metade das luzes da sala. Felícia piscou, tentando focar, mas o rosto da Dra. Sandra à sua frente começou a se multiplicar, duas, três versões sobrepostas, todas com aquele sorriso que agora parecia distorcido.

— Eu... — Ela tentou dar um passo. As pernas não obedeceram direito. — Você colocou alguma coisa no meu chá.

— Que absurdo, Sra. Montes. — A voz da Dra. Sandra chegou de longe, como se houvesse água entre elas. A mulher deu a volta na mesa e segurou seu braço com uma firmeza que não tinha nada de gentil. — A senhora pode estar com hipoglicemia. Precisa sentar e descansar um pouco.

Felícia quis responder. Quis se soltar. Quis fazer qualquer uma das várias coisas que o cérebro estava ordenando e que o corpo simplesmente se recusava a executar.

O mundo girou.

Ela caiu — não de forma dramática, mas com aquele desabamento lento e inevitável de quem perdeu o controle do próprio corpo. A cabeça bateu no braço duro da cadeira. Deveria ter doido mais do que doeu, mas o torpor já havia se espalhado por tudo.

Através das pálpebras pesadas, ela viu a Dra. Sandra de pé ao lado dela. O sorriso simpático havia sumido completamente — no lugar havia apenas a expressão neutra de quem acabou de concluir uma tarefa.

A mulher levou o celular ao ouvido.

— Confirmado — disse ela, com uma voz completamente diferente da que havia usado durante toda a conversa. Mais fria. Mais objetiva. — Não há registro de provas concretas de violência doméstica. Ela não tem nada que sustente a acusação. — Uma pausa. — Sim, exatamente como o senhor orientou. Ela...

As palavras seguintes chegaram borradas, misturadas ao zumbido crescente dentro da cabeça de Felícia.

Mas o suficiente havia chegado.

Como o senhor orientou.

A Dra. Sandra não era uma advogada que havia aceitado seu caso.

Era uma armadilha montada por Lucas Jortan.

Ele sabia, foi o último pensamento coerente que Felícia conseguiu formar antes que a escuridão fechasse. Ele sabia que eu estava procurando advogado. E foi na minha frente primeiro.

E então não houve mais nada.

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