INICIAR SESIÓNLuna
A Mansão Valmont é ainda mais imponente ao vivo. Estou parada diante de portões de ferro negros, altos demais para que eu consiga ver o que existe além deles. O endereço que o e-mail indicava não mencionava “mansão”, mas não há outra palavra que descreva aquilo. Meu estômago se revira enquanto aperto a alça da bolsa contra o corpo. — Calma — murmuro para mim mesma. — É só uma entrevista. Mas não é só uma entrevista. O carro que me trouxe — um serviço de transporte solicitado por eles — já se foi, deixando-me sozinha diante daquele lugar que parece existir fora do tempo. Antes que eu possa reconsiderar minhas escolhas de vida, os portões começam a se abrir lentamente, silenciosos demais para algo tão grande. Engulo em seco e entro. O caminho até a casa principal é longo, ladeado por jardins perfeitamente cuidados, fontes discretas e árvores altas que bloqueiam a vista do mundo exterior. Tudo aqui parece pensado para manter distância. Privacidade. Controle. A palavra me arrepia. Sou recebida por uma mulher elegante, de postura rígida e expressão neutra. Ela deve ter cerca de cinquenta anos, cabelos presos em um coque impecável. — Senhorita Luna Azevedo? — pergunta, a voz baixa e firme. — Sim — respondo, tentando soar confiante. — Sou Helena. Acompanhe-me, por favor. Ela caminha à frente, e eu a sigo, observando cada detalhe do interior da mansão. O piso de mármore reflete a luz suave dos lustres modernos. Nada aqui parece exagerado, mas tudo grita dinheiro. Um dinheiro silencioso, frio, calculado. Paramos diante de uma porta dupla de madeira escura. — O senhor Valmont a receberá agora. Meu coração dispara. Senhor Valmont. Helena abre a porta e me faz um gesto para entrar. Dou dois passos hesitantes e, quando percebo, estou sozinha em um escritório amplo, minimalista, com janelas do chão ao teto. E então eu o vejo. Adrian Valmont está de pé, próximo à janela, de costas para mim. Alto. Muito alto. Usa um terno escuro perfeitamente ajustado, como se tivesse sido feito sob medida para intimidar. Ele se vira lentamente, e quando seus olhos encontram os meus, sinto como se o ar fosse sugado do ambiente. Seus olhos são escuros, profundos, atentos demais. — Senhorita Azevedo — ele diz, a voz grave, controlada. — Obrigado por vir. — Obrigada pela oportunidade — respondo, sentindo minhas mãos ficarem levemente úmidas. Ele faz um gesto para que eu me sente. A cadeira é confortável demais para uma entrevista, o que só aumenta minha sensação de deslocamento. Adrian se senta do outro lado da mesa, cruzando as mãos com calma excessiva. Ele me observa. Não de forma óbvia. Não como homens costumam olhar. É diferente. Avaliador. Preciso. Como se estivesse tentando entender não apenas quem eu sou, mas tudo o que eu poderia ser. — Seu currículo é impressionante — ele começa. — Mas não costumo confiar apenas em papéis. Assinto. — Entendo. — Diga-me, Luna — ele usa meu nome sem pedir permissão —, por que deseja trabalhar aqui? A pergunta é simples. A forma como ele a faz, não. Respiro fundo. — Porque acredito que crianças precisam mais do que supervisão — respondo. — Precisam de presença. Segurança emocional. E porque estou disponível para oferecer isso. Ele inclina levemente a cabeça. — Não mencionou o salário. — Não — confirmo. — Dinheiro é importante, claro. Mas não é o principal motivo pelo qual escolhi essa área. Um silêncio pesado se instala. Adrian continua me encarando, e por um momento tenho a sensação absurda de que ele consegue enxergar além das minhas palavras. — Clara perdeu a mãe há oito meses — ele diz, de repente. Meu peito aperta. — Sinto muito — respondo, com sinceridade. — Ela não confia facilmente em estranhos — continua. — E eu não tolero erros quando se trata dela. — Eu entendo — digo com cuidado. — Crianças em luto precisam de tempo. E respeito. Algo muda em sua expressão. Muito sutil, mas muda. — Como lidaria com crises emocionais? — ele pergunta. — Medo. Raiva. Silêncio. — Eu não tentaria “consertar” — respondo. — Apenas estar presente. Validar o que ela sente. Crianças precisam saber que não estão erradas por sentir dor. Adrian se recosta na cadeira. — Você parece calma. — Aprendi a ser — digo antes de pensar. Seus olhos se estreitam levemente. — Aprendeu como? Droga. — A vida ensina — respondo, mantendo a voz firme. Ele aceita a resposta, mas não parece satisfeito. Tenho a sensação incômoda de que ele guarda cada detalhe para depois. — Há regras — ele diz. — Muitas. Horários, rotinas, confidencialidade absoluta. O que acontece nesta casa não sai daqui. — Concordo — digo prontamente. — Discrição faz parte da profissão. — Não poderá receber visitas — continua. — Nem falar sobre sua rotina aqui. — Entendo. — Terá acesso limitado a certas áreas da casa. — Sem problemas. Cada resposta minha parece ser testada, medida, pesada. Não me sinto entrevistada. Me sinto analisada. — Você mora sozinha? — ele pergunta. A pergunta me pega desprevenida. — Sim. — Sem família próxima? — Tenho, mas… não na cidade. Ele assente, como se aquilo confirmasse algo que ele já suspeitava. — Disponibilidade integral não é apenas um termo no anúncio — ele diz. — Significa estar aqui quando eu precisar. Quando Clara precisar. — Eu estou ciente. Outro silêncio. Então, algo inesperado acontece. — Olhe para mim — ele diz. Já estou olhando, mas a forma como ele fala me faz endireitar a postura. Seus olhos se fixam nos meus com intensidade quase desconcertante. — Você se considera confiável, Luna? A pergunta não é profissional. É pessoal. — Sim — respondo, sem hesitar. — E não aceitaria esse trabalho se não fosse. Ele me observa por longos segundos. Sinto como se estivesse sendo colocada em algum tipo de balança invisível. Por fim, ele se levanta. — Clara está no jardim — diz. — Quero que a conheça. Meu coração dispara de novo. — Agora? — Agora. Sigo Adrian pelos corredores até uma porta de vidro que dá acesso a um jardim interno. Uma menina pequena está sentada no chão, desenhando com giz colorido. Ela ergue os olhos quando nos aproximamos. — Clara — Adrian diz, a voz suavizando de um jeito que me surpreende. — Esta é Luna. A menina me observa com curiosidade silenciosa. — Oi, Clara — digo, me agachando para ficar na altura dela. — Posso ver seu desenho? Ela olha para o tio, depois para mim, e empurra o papel lentamente na minha direção. É um desenho simples. Uma casa. Uma árvore. E uma figura pequena, sozinha. Meu peito aperta, mas sorrio. — É bonito — digo. — Posso sentar aqui com você? Clara dá de ombros. É um sim tímido. Enquanto me sento no chão ao lado dela, sinto o olhar de Adrian sobre mim. Não preciso virar o rosto para saber que ele está observando cada gesto, cada palavra. Mas, pela primeira vez desde que entrei naquela mansão, eu não penso nele. Penso apenas na menina ao meu lado. E, sem saber, dou o primeiro passo para dentro de um mundo que não permitirá saídas fáceis.O Despertar de Clara: Entre a Razão e a Sedução Aos dezoito anos, Clara Valmont não era apenas a herdeira de um império; ela era uma força da natureza que carregava o fogo de Luna e a determinação implacável de Adrian. Quando os portões da prestigiosa Saint-Germain University se abriram para ela, o mundo não via apenas uma caloura de Direito, mas uma mulher que cresceu ouvindo que o amor não precisava de gaiolas e que a verdade era a única bússola válida. No entanto, a liberdade que ela tanto prezava estava prestes a ser testada por dois polos magnéticos opostos. O Professor: Dr. Julian Sterling A primeira vez que ela o viu, o ar na sala de aula pareceu rarefeito. Dr. Julian Sterling, trinta e seis anos, professor de Filosofia do Direito e dono de um olhar que parecia dissecar a alma de qualquer um. Ele não era apenas bonito; ele carregava uma aura de autoridade e mistério que fazia o sangue de Clara ferver. Julian era o proibido. O homem que falava sobre ética com uma voz rouca
Adrian Dez Anos Depois: O tempo é um conceito curioso. Para alguns, ele desgasta; para mim, ele apenas solidificou o que eu construí sobre as cinzas do meu antigo eu. Dez anos se passaram desde que coloquei aquela aliança no dedo de Luna. A mansão Valmont não é mais um mausoléu de mármore; é um organismo vivo, pulsante, protegido por camadas de segurança que o mundo mal consegue conceber, mas governado pelo riso.********* O sol da manhã batia na mesa de carvalho da sala de jantar. Eu observava minha família. Enzo, aos dez anos, já exibia a mandíbula travada e o olhar analítico dos Valmont, focado em seu tablet de investimentos juvenis. E à minha direita, Clara. Aos dezesseis anos, ela herdou a beleza etérea da mãe e a audácia que, eu suspeito, veio de conviver comigo. Mas havia algo diferente nela hoje. Um brilho de descoberta nos olhos. — Tio Adrian... Luna... — Clara começou, deixando o talher de lado. Ela ainda me chamava de tio por costume, mas o vínculo era de pai e filha.
Luna A luz da manhã entrava pelas frestas da cortina de seda da nossa suíte, tingindo o quarto de um dourado suave que parecia surreal. Eu pisquei os olhos devagar, sentindo o peso reconfortante do braço de Adrian sobre a minha cintura. Olhei para a minha mão esquerda sobre o lençol e vi a aliança brilhando, um círculo perfeito de platina que selava o que meu coração já sabia há muito tempo: eu era dele, e ele era meu. Às vezes, eu ainda sentia vontade de me beliscar. Se alguém me dissesse, um ano atrás, que a babá tímida que entrou naquela mansão com medo da própria sombra se tornaria a Sra. Valmont, eu teria rido. Mas a vida com Adrian não era uma comédia romântica; era uma epopeia de fogo, perigo e uma intensidade que poucas pessoas suportariam. O Casamento sob meus olhos Durante a cerimônia, enquanto caminhava em direção a ele, eu não vi as centenas de convidados influentes ou a decoração milionária. Eu vi apenas os olhos de Adrian. Aqueles olhos que costumavam ser poços de ge
AdrianO planejamento de um casamento para um homem como eu nunca foi sobre escolher flores ou provar bolos. Foi sobre erguer um monumento. Eu queria que o dia em que Luna oficialmente se tornasse uma Valmont fosse gravado na história não pelo luxo, mas pela mensagem implícita: o que eu amo, eu protejo; o que é meu, é sagrado.Os meses que precederam a cerimônia foram um borrão de reuniões táticas que pareciam mais conselhos de guerra do que preparativos matrimoniais. Enquanto Luna se perdia em tecidos de renda francesa e discussões sobre o tom exato das orquídeas brancas, eu cuidava da logística de ferro.Contratei uma empresa de inteligência privada para filtrar cada um dos quinhentos convidados. Cada garçom, cada músico da orquestra e cada florista passou por uma investigação de antecedentes. Eu não correria riscos. Maicon estava morto, mas o mundo dos negócios é povoado por abutres, e eu não permitiria que uma única sombra cruzasse o altar.Lembro-me de uma noite, duas semanas ant
Três meses se passaram desde que Enzo chegou para redefinir o que eu entendia por "caos sob controle". Minha vida, que antes era pautada por cronogramas de fusões e aquisições, agora é regida por ciclos de amamentação, o cheiro de lavanda de Luna e o som de pequenos suspiros vindos do berço de carvalho. Eu nunca fui um homem de esperar. No mundo dos negócios, se você hesita, você perde. E eu já havia decidido, no momento em que vi Luna segurando nosso filho pela primeira vez, que ela nunca mais seria "apenas" a mulher que eu amava. Ela seria a dona de tudo. A mansão estava mergulhada naquela calmaria profunda do início da madrugada. Deixei o meu escritório e caminhei em direção aos quartos. No caminho, parei diante da porta entreaberta do quarto do bebê. Helena estava lá. Ela não me viu. A luz suave do abajur em formato de estrela iluminava o seu rosto cansado, mas sereno. Ela estava parada entre o berço de Enzo e a cama de transição que havíamos colocado para Clara — que se recusa
Adrian O ambiente estéril do centro cirúrgico do hospital — que eu fiz questão de isolar completamente para este momento — cheirava a antisséptico e a uma tensão que eu nunca havia experimentado antes. Nem mesmo quando tive bilhões em jogo no mercado financeiro meu coração bateu com essa violência desgovernada.Eu estava paramentado, segurando a mão de Luna com tanta força que temia quebrar seus dedos, mas era ela quem estava me esmagando. O rosto dela, antes sereno e doce, era agora uma máscara de suor, esforço e uma fúria divina. — Vamos, Luna! Respira, amor. Você está quase lá! — eu incentivei, inclinando-me sobre ela, limpando a testa dela com uma compressa fria. — CALA A BOCA, ADRIAN! — ela gritou, a voz saindo em um rosnado que faria um soldado recuar. — Você fez isso comigo! Você e essa sua mania de me querer toda hora!Dei um sorriso de lado, um brilho de adoração nos olhos. Mesmo sofrendo, ela era a mulher mais poderosa que eu já tinha visto.— Eu sei, eu sei. A culpa é t







