Compartilhar

Capítulo 5

Autor: Cat Freitas
last update Data de publicação: 2026-01-15 05:57:00

Luna

Clara demora a adormecer.

Eu já esperava por isso.

O quarto dela é delicado demais para alguém que perdeu tanto. Tons claros, brinquedos organizados, livros alinhados por cor. Tudo parece tentar compensar algo que não pode ser devolvido. A luz do abajur projeta sombras suaves nas paredes, e ela está deitada de lado, abraçando um coelho de pelúcia com força excessiva.

— Luna? — ela chama baixinho, como se tivesse medo de quebrar o silêncio.

— Sim? Estou aqui — respondo, sentando na beira da cama. — Não vou embora.

Ela relaxa um pouco ao ouvir isso. Não muito. Só o suficiente para respirar mais fundo.

Fico em silêncio por alguns segundos. Aprendi que crianças dizem mais quando não são pressionadas. Passo a mão devagar por seus cabelos, respeitando o espaço que ela me permite.

— Você vai dormir aqui pra sempre? — ela pergunta de repente.

A pergunta me atravessa.

— Não sei — respondo com honestidade cuidadosa. — Mas hoje eu estou aqui. E amanhã também.

Ela parece pensar sobre isso.

— Minha mãe dizia que amanhã sempre chega — Clara diz, olhando para o teto.

Engulo em seco.

— Ela estava certa.

— Mas às vezes ele demora — Clara continua. — Às vezes fica escuro antes.

— Fica — concordo. — E tudo bem ter medo no escuro.

Ela vira o rosto para mim.

— Você tem medo?

Sorrio de leve.

— Tenho.

— De quê?

Penso por um instante.

— De perder pessoas que eu gosto.

Ela aperta o coelho com mais força.

— Eu perdi minha mãe.

— Eu sei — digo suavemente.

O silêncio que se segue é pesado, mas não desconfortável. É um silêncio que pede cuidado, não fuga.

— Ela e o tio brigavam às vezes — Clara diz, a voz quase um sussurro. — Mas ele gostava dela. Muito.

— Eu sei disso também.

— Ele fica triste quando acha que ninguém vê — ela continua. — Ele pensa que eu não percebo.

Meu peito aperta.

— Crianças percebem mais do que os adultos imaginam.

— Você percebe — Clara diz.

Não é uma pergunta.

— Percebo.

Ela se mexe na cama, virando-se de frente para mim.

— Você vai contar para o tio?

— O quê?

— Que ele fica triste.

— Não — respondo imediatamente. — Isso é algo que ele precisa dizer quando estiver pronto.

Ela parece satisfeita com a resposta.

— A mamãe dizia que segredos não são sempre ruins — Clara diz. — Só quando machucam.

— Sua mãe era sábia.

Clara sorri pela primeira vez desde que entramos no quarto. É um sorriso pequeno, mas real. Sinto algo se apertar dentro de mim, como se aquela expressão carregasse uma responsabilidade silenciosa.

— Luna?

— Sim?

— A mamãe consegue ver a gente?

A pergunta vem de repente, simples demais para o peso que carrega.

Respiro fundo, com cuidado.

— O que você acha?

Ela pensa.

— Às vezes acho que sim. Porque eu sonho com ela. E às vezes acho que não, porque ela não responde quando eu falo.

— Sonhos são uma forma de lembrar — digo. — E lembrar é uma maneira de manter alguém perto.

— Mas ela vê? — insiste.

Olho para o teto, onde pequenas estrelas fluorescentes estão coladas, formando constelações infantis.

— Algumas pessoas acreditam que quem a gente ama vira estrela — digo. — Que não falam mais, mas iluminam caminhos. Especialmente quando está escuro.

— Elas veem a gente dormir?

— Talvez não como pessoas veem — respondo. — Mas talvez como luz vê.

Ela franze a testa.

— Como assim?

— A luz não precisa de olhos pra saber onde está — explico. — Ela só… está. Aquece. Mostra o caminho.

Clara fica em silêncio por um tempo longo. Tão longo que penso que ela dormiu. Então, ela fala:

— Eu gosto dessa ideia.

Sorrio.

— Eu também.

— Então quando eu fico com medo… — ela começa.

— Você pode olhar pra cima — completo. — E lembrar que alguém quis muito que você estivesse segura.

Ela se aproxima um pouco mais, estendendo a mão pequena até tocar meus dedos.

— Você também quer isso?

A pergunta me pega desprevenida.

— Quero — digo, com a voz firme apesar do nó na garganta. — Muito.

Ela solta minha mão e se ajeita no travesseiro.

— Boa noite, Luna.

— Boa noite, Clara.

Levanto devagar, mas antes de chegar à porta, ouço:

— Luna?

— Sim?

— Obrigada por não ir embora quando fica silencioso.

Paro.

— Obrigada por me deixar ficar — respondo.

Apago a luz principal, deixando apenas o abajur aceso, e fecho a porta com cuidado.

No corredor, apoio a mão na parede por um instante. Meu coração b**e forte demais para algo que deveria ser apenas profissional. Mas não é só isso. Nunca foi.

Clara não precisa de promessas eternas. Precisa de presença real.

E, sem perceber, eu ofereci exatamente isso.

Quando chego ao meu quarto, demoro a deitar. Fico olhando pela janela, as estrelas reais agora, espalhadas pelo céu escuro. Penso em Adrian. No jeito como ele carrega o luto como uma armadura pesada demais. No modo como observa tudo para não sentir.

Ele perguntou se eu me sentia segura aqui.

A verdade é que ainda não sei.

Mas sei que Clara se sentiu.

E, por enquanto, isso basta.

Porque algumas decisões não são feitas com a cabeça.

São feitas com o cuidado de quem escolhe ficar mesmo quando o silêncio pesa.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • A BABÁ DA MINHA SOBRINHA    BONUS CLARA

    O Despertar de Clara: Entre a Razão e a Sedução Aos dezoito anos, Clara Valmont não era apenas a herdeira de um império; ela era uma força da natureza que carregava o fogo de Luna e a determinação implacável de Adrian. Quando os portões da prestigiosa Saint-Germain University se abriram para ela, o mundo não via apenas uma caloura de Direito, mas uma mulher que cresceu ouvindo que o amor não precisava de gaiolas e que a verdade era a única bússola válida. No entanto, a liberdade que ela tanto prezava estava prestes a ser testada por dois polos magnéticos opostos. O Professor: Dr. Julian Sterling A primeira vez que ela o viu, o ar na sala de aula pareceu rarefeito. Dr. Julian Sterling, trinta e seis anos, professor de Filosofia do Direito e dono de um olhar que parecia dissecar a alma de qualquer um. Ele não era apenas bonito; ele carregava uma aura de autoridade e mistério que fazia o sangue de Clara ferver. Julian era o proibido. O homem que falava sobre ética com uma voz rouca

  • A BABÁ DA MINHA SOBRINHA    Epílogo

    Adrian Dez Anos Depois: O tempo é um conceito curioso. Para alguns, ele desgasta; para mim, ele apenas solidificou o que eu construí sobre as cinzas do meu antigo eu. Dez anos se passaram desde que coloquei aquela aliança no dedo de Luna. A mansão Valmont não é mais um mausoléu de mármore; é um organismo vivo, pulsante, protegido por camadas de segurança que o mundo mal consegue conceber, mas governado pelo riso.********* O sol da manhã batia na mesa de carvalho da sala de jantar. Eu observava minha família. Enzo, aos dez anos, já exibia a mandíbula travada e o olhar analítico dos Valmont, focado em seu tablet de investimentos juvenis. E à minha direita, Clara. Aos dezesseis anos, ela herdou a beleza etérea da mãe e a audácia que, eu suspeito, veio de conviver comigo. Mas havia algo diferente nela hoje. Um brilho de descoberta nos olhos. — Tio Adrian... Luna... — Clara começou, deixando o talher de lado. Ela ainda me chamava de tio por costume, mas o vínculo era de pai e filha.

  • A BABÁ DA MINHA SOBRINHA    Capítulo 54

    Luna A luz da manhã entrava pelas frestas da cortina de seda da nossa suíte, tingindo o quarto de um dourado suave que parecia surreal. Eu pisquei os olhos devagar, sentindo o peso reconfortante do braço de Adrian sobre a minha cintura. Olhei para a minha mão esquerda sobre o lençol e vi a aliança brilhando, um círculo perfeito de platina que selava o que meu coração já sabia há muito tempo: eu era dele, e ele era meu. Às vezes, eu ainda sentia vontade de me beliscar. Se alguém me dissesse, um ano atrás, que a babá tímida que entrou naquela mansão com medo da própria sombra se tornaria a Sra. Valmont, eu teria rido. Mas a vida com Adrian não era uma comédia romântica; era uma epopeia de fogo, perigo e uma intensidade que poucas pessoas suportariam. O Casamento sob meus olhos Durante a cerimônia, enquanto caminhava em direção a ele, eu não vi as centenas de convidados influentes ou a decoração milionária. Eu vi apenas os olhos de Adrian. Aqueles olhos que costumavam ser poços de ge

  • A BABÁ DA MINHA SOBRINHA    Capítulo 53

    AdrianO planejamento de um casamento para um homem como eu nunca foi sobre escolher flores ou provar bolos. Foi sobre erguer um monumento. Eu queria que o dia em que Luna oficialmente se tornasse uma Valmont fosse gravado na história não pelo luxo, mas pela mensagem implícita: o que eu amo, eu protejo; o que é meu, é sagrado.Os meses que precederam a cerimônia foram um borrão de reuniões táticas que pareciam mais conselhos de guerra do que preparativos matrimoniais. Enquanto Luna se perdia em tecidos de renda francesa e discussões sobre o tom exato das orquídeas brancas, eu cuidava da logística de ferro.Contratei uma empresa de inteligência privada para filtrar cada um dos quinhentos convidados. Cada garçom, cada músico da orquestra e cada florista passou por uma investigação de antecedentes. Eu não correria riscos. Maicon estava morto, mas o mundo dos negócios é povoado por abutres, e eu não permitiria que uma única sombra cruzasse o altar.Lembro-me de uma noite, duas semanas ant

  • A BABÁ DA MINHA SOBRINHA    Capítulo 52

    Três meses se passaram desde que Enzo chegou para redefinir o que eu entendia por "caos sob controle". Minha vida, que antes era pautada por cronogramas de fusões e aquisições, agora é regida por ciclos de amamentação, o cheiro de lavanda de Luna e o som de pequenos suspiros vindos do berço de carvalho. Eu nunca fui um homem de esperar. No mundo dos negócios, se você hesita, você perde. E eu já havia decidido, no momento em que vi Luna segurando nosso filho pela primeira vez, que ela nunca mais seria "apenas" a mulher que eu amava. Ela seria a dona de tudo. A mansão estava mergulhada naquela calmaria profunda do início da madrugada. Deixei o meu escritório e caminhei em direção aos quartos. No caminho, parei diante da porta entreaberta do quarto do bebê. Helena estava lá. Ela não me viu. A luz suave do abajur em formato de estrela iluminava o seu rosto cansado, mas sereno. Ela estava parada entre o berço de Enzo e a cama de transição que havíamos colocado para Clara — que se recusa

  • A BABÁ DA MINHA SOBRINHA    Capítulo 51

    Adrian O ambiente estéril do centro cirúrgico do hospital — que eu fiz questão de isolar completamente para este momento — cheirava a antisséptico e a uma tensão que eu nunca havia experimentado antes. Nem mesmo quando tive bilhões em jogo no mercado financeiro meu coração bateu com essa violência desgovernada.Eu estava paramentado, segurando a mão de Luna com tanta força que temia quebrar seus dedos, mas era ela quem estava me esmagando. O rosto dela, antes sereno e doce, era agora uma máscara de suor, esforço e uma fúria divina. — Vamos, Luna! Respira, amor. Você está quase lá! — eu incentivei, inclinando-me sobre ela, limpando a testa dela com uma compressa fria. — CALA A BOCA, ADRIAN! — ela gritou, a voz saindo em um rosnado que faria um soldado recuar. — Você fez isso comigo! Você e essa sua mania de me querer toda hora!Dei um sorriso de lado, um brilho de adoração nos olhos. Mesmo sofrendo, ela era a mulher mais poderosa que eu já tinha visto.— Eu sei, eu sei. A culpa é t

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status