INICIAR SESIÓNAdrian
Eu não confio em decisões tomadas rápido demais. E aceitar Luna Azevedo foi exatamente isso. Estou no escritório, mas não trabalho. A tela do computador está acesa há tempo demais no mesmo relatório, intocado. Minha atenção não está nos números, nem nos contratos, nem nas reuniões que cancelei sem explicação naquela noite. Está nela. No andar de cima. No quarto que preparei para ser temporário, mas que já não me soa como algo passageiro. A casa mudou desde que Luna cruzou a porta. Não de forma óbvia. Não há barulho excessivo, nem desordem, nem invasões. É algo mais sutil. Como se o ar estivesse diferente. Menos pesado. E isso me incomoda profundamente. Mudanças costumam preceder perdas. Apoio os cotovelos na mesa e pressiono os dedos contra as têmporas. Tenho um histórico impecável de controle. Pessoas entram e saem da minha vida conforme critérios claros. Funcionários são eficientes. Relações são úteis. Emoções são administradas. Luna não se encaixa em nenhuma dessas categorias. Ela não tenta agradar. Não exagera. Não se impõe. Apenas existe, com uma naturalidade que me obriga a notá-la. Isso é perigoso. Desbloqueio a tela do celular e acesso o relatório que mandei levantar sobre ela antes mesmo da entrevista terminar. Faço isso com todos. Não é pessoal. É precaução. Luna Azevedo. Vinte e seis anos. Formação sólida. Histórico profissional limpo. Nenhuma pendência financeira relevante. Nenhuma ligação suspeita. Vida simples. Simples demais. Esse é o problema. Pessoas simples geralmente querem algo. Estabilidade. Ascensão. Dinheiro. Segurança. Luna quer… silêncio. Presença. Tempo. Coisas que não se compram. Fecho o arquivo com mais força do que o necessário. Ouço passos no corredor e meu corpo reage antes da mente. Reconheço o ritmo. Leve. Contido. Ela não anda como quem pede permissão, mas também não invade. Mantém uma distância precisa. — Adrian? — a voz dela surge do outro lado da porta. Respiro fundo antes de responder. — Entre. Ela abre a porta devagar. Usa roupas neutras, o cabelo preso de forma simples. Não tenta parecer profissional demais, nem casual demais. É como se tivesse entendido o código da casa sem que ninguém precisasse explicar. — Clara já dormiu — ela diz. — Teve um pouco de dificuldade, mas… acabou cedendo. — Obrigado — respondo. — Alguma crise? — Não. Só saudade. A palavra se instala entre nós como algo palpável. — Ela perguntou da mãe? — pergunto. Luna hesita por um segundo. Um detalhe pequeno. Importante. — Não com palavras — responde. — Mas perguntou se as estrelas veem a gente quando dormimos. Meu maxilar se contrai. — E o que você disse? — Que algumas pessoas acreditam que sim. Outras, que elas apenas iluminam o caminho. Ela me observa enquanto fala, como se estivesse medindo o impacto de cada frase. — Clara gostou da segunda opção — completa. Assinto lentamente. — Você não mente para ela. — Não — Luna diz. — Mas também não digo tudo. Inteligente. — Isso pode ser perigoso — respondo. — Crianças interpretam o que não é dito. — Adultos também — ela rebate, sem desafio, apenas constatação. Nossos olhares se cruzam. Há algo ali. Não tensão física. Ainda não. É outra coisa. Um jogo silencioso de limites. — Quero que saiba — digo — que esta casa tem regras claras. — Eu sei. — Não tolero surpresas. — Eu também não gosto delas. Cruzo os braços. — Ainda assim, você entrou. — Entrei — ela confirma. — Porque algumas coisas valem o risco calculado. Risco. A palavra ecoa de forma desconfortável. — E eu? — pergunto. — Eu sou um risco aceitável? Ela me encara por longos segundos. Pela primeira vez desde que chegou, não responde de imediato. — O senhor é uma variável — ela diz por fim. — E variáveis exigem observação. Uma resposta elegante. Precisa. Fria o suficiente para não se entregar. Perigosa o suficiente para me interessar. — Eu observo tudo que acontece sob este teto — digo. — Eu sei — ela responde, e há algo em seu olhar que sugere que isso não a intimida tanto quanto deveria. Quando Luna se vira para sair, percebo o impulso antes de controlá-lo. — Luna. Ela para. — Sim? — Não crie expectativas aqui. Ela se vira devagar. — Não se preocupe — diz. — Eu aprendi a viver sem elas. A porta se fecha atrás dela, deixando um silêncio mais pesado do que antes. Caminho até a janela e observo o jardim escuro. A fonte está desligada. As luzes baixas. Tudo exatamente como deveria estar. E ainda assim, algo saiu do lugar. Penso na forma como Clara relaxou ao ouvir a voz de Luna. No modo como segurou sua mão sem perceber. No jeito como Luna não tentou ocupar o espaço de mãe, nem o de salvadora. Ela apenas permaneceu. Permanência é uma ameaça para alguém como eu. Porque pessoas que ficam criam raízes. E raízes quebram estruturas rígidas quando crescem onde não foram previstas. Fecho os olhos por um instante. Não posso permitir envolvimento. Não posso baixar a guarda. Não posso confundir gratidão com dependência. Muito menos interesse com necessidade. Mas, ao me afastar da janela, percebo algo que me irrita ainda mais do que a dúvida. Estou curioso. Curioso para saber o que Luna não diz. O que ela esconde atrás da calma. O que a fez aceitar uma casa cheia de regras, um homem desconfiado e uma criança em luto. Curiosidade leva à proximidade. Proximidade leva a falhas. E falhas… custam caro. Apoio a mão na mesa, firme, como se pudesse ancorar a decisão no próprio corpo. Luna Azevedo é temporária. Ela precisa ser. Mas, pela primeira vez desde a morte da minha irmã, percebo que não sou o único observando. Ela também está me estudando. E isso muda tudo.O Despertar de Clara: Entre a Razão e a Sedução Aos dezoito anos, Clara Valmont não era apenas a herdeira de um império; ela era uma força da natureza que carregava o fogo de Luna e a determinação implacável de Adrian. Quando os portões da prestigiosa Saint-Germain University se abriram para ela, o mundo não via apenas uma caloura de Direito, mas uma mulher que cresceu ouvindo que o amor não precisava de gaiolas e que a verdade era a única bússola válida. No entanto, a liberdade que ela tanto prezava estava prestes a ser testada por dois polos magnéticos opostos. O Professor: Dr. Julian Sterling A primeira vez que ela o viu, o ar na sala de aula pareceu rarefeito. Dr. Julian Sterling, trinta e seis anos, professor de Filosofia do Direito e dono de um olhar que parecia dissecar a alma de qualquer um. Ele não era apenas bonito; ele carregava uma aura de autoridade e mistério que fazia o sangue de Clara ferver. Julian era o proibido. O homem que falava sobre ética com uma voz rouca
Adrian Dez Anos Depois: O tempo é um conceito curioso. Para alguns, ele desgasta; para mim, ele apenas solidificou o que eu construí sobre as cinzas do meu antigo eu. Dez anos se passaram desde que coloquei aquela aliança no dedo de Luna. A mansão Valmont não é mais um mausoléu de mármore; é um organismo vivo, pulsante, protegido por camadas de segurança que o mundo mal consegue conceber, mas governado pelo riso.********* O sol da manhã batia na mesa de carvalho da sala de jantar. Eu observava minha família. Enzo, aos dez anos, já exibia a mandíbula travada e o olhar analítico dos Valmont, focado em seu tablet de investimentos juvenis. E à minha direita, Clara. Aos dezesseis anos, ela herdou a beleza etérea da mãe e a audácia que, eu suspeito, veio de conviver comigo. Mas havia algo diferente nela hoje. Um brilho de descoberta nos olhos. — Tio Adrian... Luna... — Clara começou, deixando o talher de lado. Ela ainda me chamava de tio por costume, mas o vínculo era de pai e filha.
Luna A luz da manhã entrava pelas frestas da cortina de seda da nossa suíte, tingindo o quarto de um dourado suave que parecia surreal. Eu pisquei os olhos devagar, sentindo o peso reconfortante do braço de Adrian sobre a minha cintura. Olhei para a minha mão esquerda sobre o lençol e vi a aliança brilhando, um círculo perfeito de platina que selava o que meu coração já sabia há muito tempo: eu era dele, e ele era meu. Às vezes, eu ainda sentia vontade de me beliscar. Se alguém me dissesse, um ano atrás, que a babá tímida que entrou naquela mansão com medo da própria sombra se tornaria a Sra. Valmont, eu teria rido. Mas a vida com Adrian não era uma comédia romântica; era uma epopeia de fogo, perigo e uma intensidade que poucas pessoas suportariam. O Casamento sob meus olhos Durante a cerimônia, enquanto caminhava em direção a ele, eu não vi as centenas de convidados influentes ou a decoração milionária. Eu vi apenas os olhos de Adrian. Aqueles olhos que costumavam ser poços de ge
AdrianO planejamento de um casamento para um homem como eu nunca foi sobre escolher flores ou provar bolos. Foi sobre erguer um monumento. Eu queria que o dia em que Luna oficialmente se tornasse uma Valmont fosse gravado na história não pelo luxo, mas pela mensagem implícita: o que eu amo, eu protejo; o que é meu, é sagrado.Os meses que precederam a cerimônia foram um borrão de reuniões táticas que pareciam mais conselhos de guerra do que preparativos matrimoniais. Enquanto Luna se perdia em tecidos de renda francesa e discussões sobre o tom exato das orquídeas brancas, eu cuidava da logística de ferro.Contratei uma empresa de inteligência privada para filtrar cada um dos quinhentos convidados. Cada garçom, cada músico da orquestra e cada florista passou por uma investigação de antecedentes. Eu não correria riscos. Maicon estava morto, mas o mundo dos negócios é povoado por abutres, e eu não permitiria que uma única sombra cruzasse o altar.Lembro-me de uma noite, duas semanas ant
Três meses se passaram desde que Enzo chegou para redefinir o que eu entendia por "caos sob controle". Minha vida, que antes era pautada por cronogramas de fusões e aquisições, agora é regida por ciclos de amamentação, o cheiro de lavanda de Luna e o som de pequenos suspiros vindos do berço de carvalho. Eu nunca fui um homem de esperar. No mundo dos negócios, se você hesita, você perde. E eu já havia decidido, no momento em que vi Luna segurando nosso filho pela primeira vez, que ela nunca mais seria "apenas" a mulher que eu amava. Ela seria a dona de tudo. A mansão estava mergulhada naquela calmaria profunda do início da madrugada. Deixei o meu escritório e caminhei em direção aos quartos. No caminho, parei diante da porta entreaberta do quarto do bebê. Helena estava lá. Ela não me viu. A luz suave do abajur em formato de estrela iluminava o seu rosto cansado, mas sereno. Ela estava parada entre o berço de Enzo e a cama de transição que havíamos colocado para Clara — que se recusa
Adrian O ambiente estéril do centro cirúrgico do hospital — que eu fiz questão de isolar completamente para este momento — cheirava a antisséptico e a uma tensão que eu nunca havia experimentado antes. Nem mesmo quando tive bilhões em jogo no mercado financeiro meu coração bateu com essa violência desgovernada.Eu estava paramentado, segurando a mão de Luna com tanta força que temia quebrar seus dedos, mas era ela quem estava me esmagando. O rosto dela, antes sereno e doce, era agora uma máscara de suor, esforço e uma fúria divina. — Vamos, Luna! Respira, amor. Você está quase lá! — eu incentivei, inclinando-me sobre ela, limpando a testa dela com uma compressa fria. — CALA A BOCA, ADRIAN! — ela gritou, a voz saindo em um rosnado que faria um soldado recuar. — Você fez isso comigo! Você e essa sua mania de me querer toda hora!Dei um sorriso de lado, um brilho de adoração nos olhos. Mesmo sofrendo, ela era a mulher mais poderosa que eu já tinha visto.— Eu sei, eu sei. A culpa é t







