FAZER LOGINEle me olha atentamente, sem nada expressar.
— Já lhe disse que não tem emprego. Mas não vou deixar uma moça andar sozinha à noite por aí. Você dorme na fazenda e amanhã vai embora.
Minha alegria desaparece.
— A propósito, me chamo Adriano Pinheiro — ele fala com voz seca, nada amigável.
— Marja — falo rápido, sem encará-lo.
E assim, seguimos todo o percurso em silêncio.
Voltamos para a fazenda em silêncio. Sentada ao lado dele na picape, entendi que ali tudo é do jeito do “Todo Poderoso, Senhor das Terras”. Entendi que ele faz e desfaz as coisas na hora que acha conveniente. E eu tentava conter a raiva que sentia dele, afinal de contas, ele voltou e me salvou quando eu estava entrando em pânico naquela estrada escura e sinistra.
Quando chegamos, uma mulher me espera no pé da escada. Ela é negra, alta, postura firme, olhos atentos.
— Sou Benedita — ela se apresenta. — Venha comigo.
Atravessamos uma sala espaçosa e subimos a escada de madeira.
O quarto de hóspede fica no andar de cima. É grande e limpo. Cama arrumada, colcha clara.
— Qualquer coisa, é só chamar — ela diz, antes de sair.
Tomo um banho frio. Volto com uma toalha enrolada no corpo, cabelos molhados e me jogo na cama.
***
Acordo com o sol entrando no quarto.
Me levanto devagar e vou até o banheiro para fazer minha higiene matinal. Em seguida, desço a escada sentindo o cheiro de café vindo da cozinha.
Quitéria está lá, concentrada, os movimentos precisos, cantarolando. Mas assim que me vê, se cala. Sento-me à mesa sem saber se devo falar. Ela coloca uma caneca na minha frente. Café forte.
Crio coragem e pergunto:
— Cadê o patrão?
— Não está — ela responde, sem me olhar — Ele sempre sai muito cedo.
— E a… a pequena?
— Tá no quarto.
— Cheguei ontem e ainda não a vi. Ela não sai do quarto?
Silêncio.
— Onde está a mãe dela?
Mais silêncio.
Quitéria mexe no fogão com força maior do que o necessário, como se a panela tivesse culpa de alguma coisa.
— Olha o cuscuz, está quentinho. Por que não come antes que esfrie? — ela muda de assunto.
Obedeço. Mas as perguntas continuam girando dentro de mim. Há algo estranho naquela casa. Ali as respostas não chegam completas, como se todos soubessem de alguma coisa, mas ninguém quer falar.
Levanto-me da mesa quando acabo de comer. Quitéria recolhe a louça suja sem comentar nada. Dou alguns passos em direção à porta da sala quando sinto uma presença.
Ela está ali, na soleira. A garotinha.
Deve ter entre quatro e cinco anos. Pele branca, cabelos castanhos escuros, cacheados. Usa um vestido de babados, largo demais para o corpo miúdo. Os olhos… os olhos me prendem: são grandes, sérios; tristes demais para uma criança, melancólicos ao extremo para quem ainda é tão pequena!
Abaixo-me um pouco, instintivamente.
— Oi — digo suave.
Ela não responde. Apenas me observa. Eu insisto:
— Meu nome é Marja e o seu?
A garotinha continua me fitando. Apenas isso.
— Quantos anos você tem?
— Ela não fala — Quitéria diz atrás de mim, num tom que é mais aviso do que explicação. — O nome dela é Cecília e ela tem seis anos.
Olho para Quitéria e pergunto:
— O que houve com ela?
Quitéria não responde.
Volto a olhar para Cecília que desvia o olhar e caminha em direção à varanda. Seus passos são lentos, quase cuidadosos demais. Sigo com os olhos. Ela se deita no chão frio, de bruços, vira a cabeça de lado e encosta o ouvido no piso. Ela está buscando seu espaço pessoal.
Sigo meu instinto e caminho até a varanda. Me deito ao lado dela. Seguro a sua mão e me vejo nela. Seus dedos se fecham nos meus, com força inesperada.
Quitéria observa da porta. Não diz nada.
Só percebo que o tempo passou quando ouço o barulho dos carros da fazenda chegando. Levanto os olhos, ainda segurando a mão da pequena. Vejo Adriano a uma certa distância olhando a cena com expressão indecifrável.
Me levanto do chão, ajeito o cabelo e caminho em direção à porta da sala. Mas repentinamente, sinto uma mãozinha segurando a minha. É Cecília que me acompanha. Volto a olhar para Adriano. Ele está no mesmo lugar, imóvel, enigmático. Apenas observando.
Cecília e eu passamos pela sala de mãos dadas, subimos as escadas e seguimos pelo corredor que leva aos quartos. Ela anda à frente, confiante de que eu estou atrás.
Ela para diante de uma porta branca, a segunda à direita. Empurra devagar. O quarto é muito claro. A janela grande deixa entrar toda a luz do sol e ilumina a mobília.
Há uma cama de madeira, uma estante baixinha cheia de livros infantis, uma penteadeira sem espelho e uma caixa de brinquedos no canto.
Sento-me na cama ao lado dela, com cuidado. Ela é doce, é frágil; uma criança que parece ter vivido mais dor do que seis anos deveriam carregar.
— O que quer fazer agora? — pergunto carinhosamente.
Cecília me guia. Saímos da cama e sentamos juntas no piso. Ela encosta o ouvido no chão novamente e eu faço o mesmo. Ela estende a mão para mim e eu dou a minha. Ela aperta minha mão mais forte e eu aperto de volta.
Tudo é silêncio.
Até que alguém abre a porta abruptamente. É Adriano.
Serena e Pedro-49Eu estava no terraço da suíte, quando ouvi o toque de um celular. O som vinha de dentro do quarto, mas não era o toque do meu aparelho. Era o toque do celular antigo de Pedro, o que ele achava ter perdido.Deixei a varanda, entrei no quarto e segui o toque até o closet. Abri a porta e o som ficou mais próximo. Comecei a procurar entre as coisas de Pedro. Foi então que encontrei o celular no meio de algumas caixas de sapato. E naquele momento eu pensei:“Pedro esqueceu o celular no meio dos sapatos e pensou que tivesse perdido.”Estendi a mão e peguei o aparelho, com a tela acesa. O nome de Mayneth apareceu e meu coração quase parou. Por que ela estava ligando para Pedro? Fiquei olhando para a foto do perfil dela toda sorridente e não atendi.A ligação terminou. Poucos segundos depois, Mayneth ligou novamente. Meu dedo permaneceu suspenso sobre a tela. Eu poderia simplesmente guardar o celular. Poderia esperar Pedro chegar. Poderia esquecer aquilo. Mas alguma coisa
Serena e Pedro-48Na manhã seguinte, acordei no sitio da vovó no meu antigo quarto, com uma sensação diferente. Pela primeira vez em muitos dias, não havia aquela angústia pesada pressionando meu peito.Eu estava tranquila. Talvez fosse porque finalmente havia tomado a decisão de continuar com a gravidez. Sabia dos riscos que a doutora Bárbara havia explicado. Sabia que meu corpo precisaria de cuidados especiais e acompanhamento contínuo. Sabia que não seria uma gestação simples. Mas eu havia escolhido meu filho. E isso era suficiente para me fazer feliz.Levantei cedo, tomei banho e me arrumei para ir à escola. Enquanto dirigia, percebi que meus pensamentos estavam diferentes. Naquela manhã, eu pensava no futuro. Conseguia até imaginar os três juntos. Eu, Pedro e nosso bebê.Cheguei à escola como de costume. Cumprimentei os funcionários, passei pela secretaria e segui para minha sala. O dia transcorreu tranquilamente: aulas; reuniões, professores entrando e saindo, alunos correndo pe
Serena e Pedro-47Meus dedos tocaram o teclado e eu digitei: “Pedro, eu estou grávida”.Era tão simples escrever, mas tão difícil enviar. Imaginei o rosto dele ao ler aquilo. Imaginei o silêncio, as perguntas. Talvez a felicidade, talvez o medo. Talvez uma mistura de tudo.Mas eu não tive coragem de enviar e apaguei a frase toda. Ainda não era o momento certo. Eu precisava de mais tempo. Precisava organizar meus pensamentos antes de colocar aquela verdade diante dele.Voltei à conversa e digitei outra coisa:"Estou na casa da minha avó. Vou dormir aqui."Fiquei olhando para a frase durante alguns segundos. Então enviei. A resposta de Pedro veio pouco depois."Mas você está bem?"Digitei:"Estou."Alguns segundos depois, apareceu a resposta."Ok."Guardei o celular dentro da bolsa.[***]Quando sai do banho, a noite já havia tomado conta do sítio. Eu estava sentada à mesa com Vó Moema quando senti o cheiro maravilhoso vindo do forno. Era o bolo de milho de Tia Jaci.— Está pronto! — E
Serena e Pedro-46Naquele momento, uma onda de pânico subiu pelo meu peito. E algo dentro de mim dizia: “Não faça isso! Não mate o seu filho!”Eu me sentei na maca e a enfermeira se virou imediatamente.— Senhora?Eu olhei para ela com a respiração curta, o peito parecia pequeno demais para o ar que eu precisava. Olhei novamente para a seringa, depois para a porta, sentindo que precisava urgentemente sair dali. Então pulei da maca no chão.— Senhora, está tudo bem? — A enfermeira perguntou.Balancei a cabeça, enquanto puxava o acesso do meu braço. A enfermeira deu um passo na minha direção, eu me afastei.— Eu preciso sair daqui. — Falei ofegante.— Calma! Tenha calma! — Ela disse.— Eu preciso sair! Por favor... eu tenho que sair daqui!Minha voz estava trêmula. Eu sentia como se as paredes estivessem se aproximando e fossem me esmagar. Como se aquele lugar estivesse me sufocando, tirando o meu ar.— Eu quero sair daqui agora.A enfermeira me encarou. Por um instante, pensei que ela
Serena e Pedro-45Naquela noite, eu permanecia sentada no sofá do terraço privativo da suíte, envolvida pelo silêncio da casa. O céu parecia mais escuro do que de costume, salpicado por algumas estrelas. Ao longe, eu podia ouvir apenas os sons noturnos da propriedade. Normalmente, aquele silêncio me dava paz. Naquela noite, porém, ele parecia aumentar o barulho dentro da minha alma.Eu mantinha os braços cruzados sobre o corpo, sentindo o ar fresco tocar meu rosto. Não queria pensar. Era exatamente isso que eu vinha tentando fazer desde que havia tomado minha decisão.Eu estava totalmente distraída quando naquele momento ouvi passos dentro do quarto. Não precisei me virar para saber que era Pedro quem havia chegado. Mesmo assim levantei os olhos. Poucos segundos depois, ele apareceu na porta que dava acesso ao terraço. Parou por um instante, observando-me. — Oi — ele disse.— Oi — respondi.— Você está com algum problema, Serena? — Ele perguntou.Respirei fundo antes de responder.—
Serena e Pedro-44 POV- CARLOTASaí do escritório de Pedro com a mesma confiança com que havia entrado.Eu sabia que havia conseguido esconder minhas verdadeiras intenções sob uma camada de palavras cuidadosamente escolhidas. Pedro podia ser inteligente, desconfiado e até mesmo difícil de manipular, mas ainda havia uma coisa que ele não compreendia: eu sabia jogar aquele jogo muito antes de ele aprender as regras.Enquanto descia a enorme escadaria eu sorria por dentro. Dessa vez tudo iria dar certo. Dessa vez não haveria erros, nem haveria imprevistos. E eu tiraria aquela maldita Serena para sempre do meu caminho.Aquela mulher havia chegado ali acreditando que poderia ocupar um lugar que nunca lhe pertenceu. Uma mulher sem nome, sem fortuna, sem tradição. Uma intrusa que havia conseguido fazer Pedro se apaixonar cegamente por ela. Mas isso acabaria em breve porque eu não iria permitir que uma mulher como Serena destruísse tudo aquilo que levei anos para construir.Terminei de descer







