FAZER LOGINNo momento em que me ajoelhei ao lado de Cecília e falei que ia ficar um pouco mais, pude ver alegria em seus olhos. Mais tarde a deixei no quarto dela e lhe dei um beijo de boa noite.
Quando finalmente entrei no quarto e fechei a porta atrás de mim, senti como se o peso do dia inteiro caísse de uma vez sobre minhas costas.
Joguei minha sacola no chão e sentei na beira da cama. Lembrei do celular e peguei o aparelho no fundo da sacola. Eu o tinha desligado logo que subi no ônibus. O medo ainda estava tão grudado em mim que o simples ato de ver a tela acender me deu arrepios.
Assim que o celular ligou, vibrou sem parar. Mensagens. Chamadas perdidas. Notificações. O nome de Jana piscava várias vezes. O coração disparou. Meu único pensamento naquele momento foi: “meu padrasto morreu ao cair da escada”.
Abri a primeira mensagem. Depois a segunda. Depois todas.
“Marja, pelo amor de Deus, onde você está?”
“Você sumiu! Estou surtando!”“Me liga assim que vir isso.”“Eu fui na sua casa. Aconteceu alguma coisa?”“Marja, atende!”Engoli seco. As mensagens continuavam, cada uma mais desesperada do que a outra. Respirei fundo, procurando coragem, e apertei o número dela. A ligação completou antes mesmo de dar o segundo toque.
— MARJA?! — a voz dela ecoou tão alta que eu tive que afastar o celular. — Onde você está? Meu Deus, você está viva? Por que sumiu assim?!
— Eu estou bem — murmurei. — Desculpa, eu… eu precisei ir.
— “Precisou ir”?! — ela repetiu, indignada. — Você foge de casa, some, não atende ninguém! Eu pensei que você… sei lá! Você não faz ideia do que passou pela minha cabeça!
— Eu deixei uma mensagem, Jana…
— Deixou, uma mensagem rápida, que não explicava nada e que só aumentou a minha preocupação. Quando eu fui na sua casa e encontrei aquele… aquele desgraçado lá, com a cabeça enfaixada e não vi você, quase tive um troço.
Meu coração quase parou.
— Então, ele está vivo?
— Claro que está; infelizmente.
— Ele… falou alguma coisa? — minha voz saiu fina. Pequena.
— Falou. Disse que vai te encontrar. Que você vai pagar caro. E nós o conhecemos bem. Sabemos que ele não vai desistir.
Senti o chão do quarto sumir por um instante.
— Aconteceu algo, não foi, Marja?— Jana perguntou.
Houve um rápido silêncio. Em seguida Jana perguntou novamente:
— Ele te estuprou?
— Não! Ele tentou, mas eu me defendi e ele caiu da escada. Caiu sozinho, não foi culpa minha.
— Ele mereceu.
— Por isso...eu não posso voltar. Não posso. Ele vai acabar comigo.
— Eu sei — ela disse rápido. — Olha, você não fez nada de errado, só se defendeu. Mas precisava ter me falado! Eu ia te ajudar!
— E por isso mesmo eu não falei — respondi, sentindo uma dor apertar meu peito. — Eu não queria te colocar em perigo. Se ele descobre que você sabe onde eu estou…
— Eu não me importo — ela cortou, firme. — Eu só quero você viva.
Uma lágrima quente escorreu antes que eu pudesse impedir. Limpei rápido com as costas da mão.
— Como disse antes, estou bem viva. E trabalhando — Não quis dizer que estava em fase de teste no emprego. Não quis preocupar mais a minha amiga.
— Que bom que conseguiu logo um emprego. Onde?
— Estou num lugar seguro no interior… uma fazenda. Só… não posso dizer onde. Não quero te envolver.
— Está trabalhando para gente boa? — ela perguntou.
Eu pensei em Adriano. Frio, duro, arrogante. Parecendo estar sempre a ponto de explodir ou quebrar alguma coisa dentro de si. E pensei na filha dele, uma menina silenciosa e doce.
— Sim.
Ela respirou fundo.
— Marja… cuidado. Por favor. Se esse lugar for estranho, se esse patrão for perigoso, me liga. Eu dou um jeito, eu vou até você se precisar. Mas não fica sozinha nesse tipo de situação.
Eu fechei os olhos e curvei a cabeça.
— Eu prometo.
—Bom... e qual é o plano? — Jana perguntou ainda apreensiva.
— Não tenho um plano.
— Pelo menos está empregada. Já não é tão ruim.
— Sim — concordei com ela.
— E me manda mensagem sempre que puder. Não desaparece de novo.
Nos despedimos, e quando a ligação termina, jogo meu corpo para trás, a cabeça caindo sobre os travesseiros.
Seguro o celular por um tempo, observando a tela escura refletir meu rosto cansado.
Penso em minha mãe e uma dor funda me invade sem pedir licença. Fico inerte, deixo o celular cair ao lado. E muito tempo depois ainda estou deitada na cama, na mesma posição, olhando para o teto.
Percebo que não tive tempo de viver o luto com tudo ao meu redor acontecendo tão depressa.
De repente sou tomada por uma crise de riso nervoso. Depois do riso, vem o choro. Não um choro contido, mas um choro alto, descontrolado. Me sinto uma criança abandonada.
Não sei se vou conseguir sem minha mãe. Mas agora tudo acabou. Eu estava sozinha no mundo. Não tinha irmãos, nem parentes próximos. Minha mãe também era filha única. Então, não me sobrou ninguém.
Naquele momento, a casa toda estava quieta. Um silêncio assustador, medonho. E a frase de Jana ficou ecoando na minha cabeça:
“Ele disse que vai te encontrar e que você vai pagar caro”
Fechei os olhos e inspirei fundo.
Não. Aqui ele não me encontraria. Eu só precisava continuar invisível.
Serena e Pedro-49Eu estava no terraço da suíte, quando ouvi o toque de um celular. O som vinha de dentro do quarto, mas não era o toque do meu aparelho. Era o toque do celular antigo de Pedro, o que ele achava ter perdido.Deixei a varanda, entrei no quarto e segui o toque até o closet. Abri a porta e o som ficou mais próximo. Comecei a procurar entre as coisas de Pedro. Foi então que encontrei o celular no meio de algumas caixas de sapato. E naquele momento eu pensei:“Pedro esqueceu o celular no meio dos sapatos e pensou que tivesse perdido.”Estendi a mão e peguei o aparelho, com a tela acesa. O nome de Mayneth apareceu e meu coração quase parou. Por que ela estava ligando para Pedro? Fiquei olhando para a foto do perfil dela toda sorridente e não atendi.A ligação terminou. Poucos segundos depois, Mayneth ligou novamente. Meu dedo permaneceu suspenso sobre a tela. Eu poderia simplesmente guardar o celular. Poderia esperar Pedro chegar. Poderia esquecer aquilo. Mas alguma coisa
Serena e Pedro-48Na manhã seguinte, acordei no sitio da vovó no meu antigo quarto, com uma sensação diferente. Pela primeira vez em muitos dias, não havia aquela angústia pesada pressionando meu peito.Eu estava tranquila. Talvez fosse porque finalmente havia tomado a decisão de continuar com a gravidez. Sabia dos riscos que a doutora Bárbara havia explicado. Sabia que meu corpo precisaria de cuidados especiais e acompanhamento contínuo. Sabia que não seria uma gestação simples. Mas eu havia escolhido meu filho. E isso era suficiente para me fazer feliz.Levantei cedo, tomei banho e me arrumei para ir à escola. Enquanto dirigia, percebi que meus pensamentos estavam diferentes. Naquela manhã, eu pensava no futuro. Conseguia até imaginar os três juntos. Eu, Pedro e nosso bebê.Cheguei à escola como de costume. Cumprimentei os funcionários, passei pela secretaria e segui para minha sala. O dia transcorreu tranquilamente: aulas; reuniões, professores entrando e saindo, alunos correndo pe
Serena e Pedro-47Meus dedos tocaram o teclado e eu digitei: “Pedro, eu estou grávida”.Era tão simples escrever, mas tão difícil enviar. Imaginei o rosto dele ao ler aquilo. Imaginei o silêncio, as perguntas. Talvez a felicidade, talvez o medo. Talvez uma mistura de tudo.Mas eu não tive coragem de enviar e apaguei a frase toda. Ainda não era o momento certo. Eu precisava de mais tempo. Precisava organizar meus pensamentos antes de colocar aquela verdade diante dele.Voltei à conversa e digitei outra coisa:"Estou na casa da minha avó. Vou dormir aqui."Fiquei olhando para a frase durante alguns segundos. Então enviei. A resposta de Pedro veio pouco depois."Mas você está bem?"Digitei:"Estou."Alguns segundos depois, apareceu a resposta."Ok."Guardei o celular dentro da bolsa.[***]Quando sai do banho, a noite já havia tomado conta do sítio. Eu estava sentada à mesa com Vó Moema quando senti o cheiro maravilhoso vindo do forno. Era o bolo de milho de Tia Jaci.— Está pronto! — E
Serena e Pedro-46Naquele momento, uma onda de pânico subiu pelo meu peito. E algo dentro de mim dizia: “Não faça isso! Não mate o seu filho!”Eu me sentei na maca e a enfermeira se virou imediatamente.— Senhora?Eu olhei para ela com a respiração curta, o peito parecia pequeno demais para o ar que eu precisava. Olhei novamente para a seringa, depois para a porta, sentindo que precisava urgentemente sair dali. Então pulei da maca no chão.— Senhora, está tudo bem? — A enfermeira perguntou.Balancei a cabeça, enquanto puxava o acesso do meu braço. A enfermeira deu um passo na minha direção, eu me afastei.— Eu preciso sair daqui. — Falei ofegante.— Calma! Tenha calma! — Ela disse.— Eu preciso sair! Por favor... eu tenho que sair daqui!Minha voz estava trêmula. Eu sentia como se as paredes estivessem se aproximando e fossem me esmagar. Como se aquele lugar estivesse me sufocando, tirando o meu ar.— Eu quero sair daqui agora.A enfermeira me encarou. Por um instante, pensei que ela
Serena e Pedro-45Naquela noite, eu permanecia sentada no sofá do terraço privativo da suíte, envolvida pelo silêncio da casa. O céu parecia mais escuro do que de costume, salpicado por algumas estrelas. Ao longe, eu podia ouvir apenas os sons noturnos da propriedade. Normalmente, aquele silêncio me dava paz. Naquela noite, porém, ele parecia aumentar o barulho dentro da minha alma.Eu mantinha os braços cruzados sobre o corpo, sentindo o ar fresco tocar meu rosto. Não queria pensar. Era exatamente isso que eu vinha tentando fazer desde que havia tomado minha decisão.Eu estava totalmente distraída quando naquele momento ouvi passos dentro do quarto. Não precisei me virar para saber que era Pedro quem havia chegado. Mesmo assim levantei os olhos. Poucos segundos depois, ele apareceu na porta que dava acesso ao terraço. Parou por um instante, observando-me. — Oi — ele disse.— Oi — respondi.— Você está com algum problema, Serena? — Ele perguntou.Respirei fundo antes de responder.—
Serena e Pedro-44 POV- CARLOTASaí do escritório de Pedro com a mesma confiança com que havia entrado.Eu sabia que havia conseguido esconder minhas verdadeiras intenções sob uma camada de palavras cuidadosamente escolhidas. Pedro podia ser inteligente, desconfiado e até mesmo difícil de manipular, mas ainda havia uma coisa que ele não compreendia: eu sabia jogar aquele jogo muito antes de ele aprender as regras.Enquanto descia a enorme escadaria eu sorria por dentro. Dessa vez tudo iria dar certo. Dessa vez não haveria erros, nem haveria imprevistos. E eu tiraria aquela maldita Serena para sempre do meu caminho.Aquela mulher havia chegado ali acreditando que poderia ocupar um lugar que nunca lhe pertenceu. Uma mulher sem nome, sem fortuna, sem tradição. Uma intrusa que havia conseguido fazer Pedro se apaixonar cegamente por ela. Mas isso acabaria em breve porque eu não iria permitir que uma mulher como Serena destruísse tudo aquilo que levei anos para construir.Terminei de descer







