INICIAR SESIÓNLouis Seagal, ex-soldado das Forças Especiais americanas e homem marcado por cicatrizes físicas e emocionais, retorna ao Rio de Janeiro após anos de guerra no exterior. Filho de uma brasileira e de um militar americano, ele carrega no sangue a ginga da capoeira herdada da mãe e a disciplina implacável aprendida nos campos de batalha. O que encontra no Morro do Coiote é pior do que qualquer zona de conflito: o colégio onde estudou agora é território do tráfico, os alunos estão perdidos na violência e a comunidade vive refém do medo constante. Mestre de capoeira por herança materna, Louis decide transformar os piores alunos da escola em guerreiros de disciplina e respeito. O que começa como um projeto humilde logo se torna uma revolução silenciosa no morro. Seu sucesso, porém, atrai a fúria de Silverio Oliveiras, o impiedoso traficante e mestre de artes marciais que domina o território com punho de ferro e sangue. Entre a roda de capoeira e o fogo cruzado, Louis conhece Helena Costa, a professora obstinada e mãe solo que nunca desistiu dos alunos, mesmo quando o sistema e o crime tentaram quebrá-la. Uma noite, após treinar os meninos sob a chuva fina do morro, Louis a encontra sozinha na sala de aula vazia. O suor escorria pelo peito dele; o olhar dela, cansado e desafiador, o prendeu. Sem palavras, ela tocou a cicatriz em seu ombro. Ele a puxou pela cintura. O beijo foi fome, alívio e perigo — uma paixão intensa e proibida que ameaça curar feridas antigas ou destruir tudo o que estão construindo. Em um morro onde amor e morte dançam juntos, Louis terá que escolher: fugir do passado ou lutar com tudo o que tem para proteger os jovens, a mulher que ama e o futuro que o Coiote merece.
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Voltei ao Morro do Coiote para enterrar o que restava da minha mãe e, de alguma forma, recuperar o pedaço de mim que os anos de guerra tinham engolido, mas o ar quente e o cheiro de pólvora velha me lembraram, já no primeiro passo fora do Galeão, que a favela não perdoa quem foge e depois ousa regressar com cicatrizes e segredos. A mochila militar pesava no ombro esquerdo como se ainda carregasse o fuzil e o rádio de combate. O corpo, aos trinta e oito, continuava acostumado ao peso de coletes, munição e a tensão constante de quem passou anos esperando o próximo tiro. O calor úmido do Rio me acertou no rosto assim que saí do terminal. Maresia, diesel, suor e fritura de comida de rua invadiram os pulmões e, por um segundo, me senti outra vez com dezoito anos, a mesma idade em que tinha subido aquela ladeira pela última vez com uma mala de plástico e o coração em pedaços. Dezoito anos depois eu voltava mais alto, mais marcado, com o cabelo raspado e fios brancos precoces, a pele morena clara cortada por cicatrizes que o sol do deserto e o frio das montanhas tinham deixado, e os olhos verdes que ninguém no Coiote nunca esqueceu. Peguei o Uber e mandei o motorista seguir direto pro morro. Ele me olhou pelo retrovisor com a cara de quem já viu de tudo. — Tem certeza, irmão? O Coiote tá brabo hoje. Tiroteio ontem de novo, os cria tão agitados. — Não te preocupa. Eu sei exatamente onde estou me enfiando. A voz saiu rouca, baixa, a mesma que usava para dar ordens em inglês no meio da poeira afegã. Ele ainda tentou falar mais, mas eu já tinha fechado a cara. As cicatrizes no rosto e o corpo tatuado de símbolos que só quem viveu o inferno reconhece faziam o resto do trabalho. O carro subiu as ruas estreitas. Casas grudadas umas nas outras, fios elétricos enrolados como cobras nos postes, crianças descalças correndo entre poças de esgoto, mulheres gritando de janela pra janela. O grave de um funk pesado batia no peito como um segundo coração. Era familiar e ao mesmo tempo distante, como se eu fosse um fantasma voltando pra assombrar o próprio passado. Desci no início da subida principal e continuei a pé. O sol queimava, mas nada comparável ao deserto que eu tinha atravessado com a mesma mochila nas costas. O Morro do Coiote estava igual ao que eu lembrava, só que pior. As vielas apertadas, o cheiro de esgoto aberto misturado com maconha e churrasco de laje, o lixo acumulado nas esquinas, as pichações de facção que agora eu não sabia mais distinguir. Um grupo de moleques parou de jogar bola para me encarar. — Eita, quem é esse maluco aí? Ignorei. Passo firme, ombros retos, queixo baixo. O treinamento militar não sai do corpo. Eu, quase um metro e noventa, alto demais para aqueles becos, dava pinta de gringo, de forasteiro, de alguém que não pertencia mais. Uma senhora na janela fez o sinal da cruz quando me viu passar. Eu baixei a cabeça e segui. Não estava ali para causar confusão. Pelo menos era o que eu queria acreditar. Saí do Coiote ainda moleque, cara cheia de espinha, coração já pesado de quem tinha visto demais cedo demais. Agora voltava outro homem. As Forças Especiais americanas me transformaram numa máquina de guerra: noites sem dormir, missões que nunca deveriam ter existido, mãos que aprenderam a matar antes de aprender a tocar o berimbau que minha mãe me deu. Nada, absolutamente nada, me preparou para o que vi quando pisei de novo naquela ladeira. O asfalto rachado, as casas subindo a favela ainda mais apertadas, como se lutassem por espaço para respirar. O som distante do funk misturado com grito de criança, latido de cachorro e ronco de moto subindo a rampa. Dentro da mochila velha — a mesma que carreguei no Afeganistão e na Síria — só o essencial: roupa limpa, passaporte, o berimbau de madeira escura que minha mãe me entregou antes de morrer e a cicatriz enorme no ombro esquerdo que ainda doía quando o tempo fechava. Caminhei devagar pela rua principal sentindo os olhares grudarem na minha nuca. Aqui um homem da minha estatura, pele clara demais para o morro, cabelo curto com fios brancos e olhos verdes não passa despercebido. Cada passo ecoava memórias: a saída da escola, a mão da minha mãe me puxando pela ladeira, o cheiro de feijão e café que saía da nossa casa de madeira. Tudo aquilo tinha virado cinza quando ela morreu. A notícia chegou por mensagem curta, fria, de uma tia que eu mal lembrava. O funeral tinha sido rápido. Eu não consegui voltar a tempo. Agora o corpo dela já estava enterrado, mas o vazio que ela deixou ainda ardia no peito como pólvora úmida. A Escola Municipal Professora Maria Clara ficava no mesmo lugar de sempre, no meio do morro, onde a ladeira dava uma pequena folga. Quando cheguei na frente do portão enferrujado, o peito apertou com força. O prédio estava destruído. Paredes rabiscadas com pichações de gangues, janelas quebradas, parte do telhado caído. O pátio que um dia foi pintado de verde agora era terra batida misturada com lixo e cacos de vidro. Parecia um cenário de guerra, e de certa forma era. Eu fiquei parado ali, lembrando da minha mãe me esperando na saída da aula com o sorriso cansado e a lancheira na mão, quando o primeiro tiro rasgou o ar. Pá! O som seco ecoou entre os prédios como um chicote. Meu corpo reagiu antes da mente: joelhos flexionados, peso deslocado para a frente, mão direita indo automaticamente para a cintura onde outrora eu carregava a pistola. O coração disparou, a visão estreito, o suor frio escorreu pela nuca. O cheiro de pólvora fresca misturou-se ao de esgoto e maconha. Alguém gritou mais acima. Uma moto acelerou. Eu fiquei imóvel por dois segundos que pareceram minutos, sentindo o metal imaginário sob os dedos e a adrenalina queimando nas veias como nos velhos tempos. Não estava mais em zona de conflito. Ou estava? A pergunta ficou presa na garganta enquanto eu ouvia o segundo tiro e sentia o joelho direito tremer contra o asfalto quente.Helena Costa Seagal Dois anos depois do nascimento de Ana Vitória, eu entrei no cartório de mão dada com Louis achando que o dia terminaria ali — mas a comunidade do Coiote tinha preparado uma festa surpresa no pátio do Colégio Maria Clara, e foi nesse pátio cheio de gente, de comida e de música que o nosso casamento civil virou celebração coletiva. O cartório foi rápido. Mesa de madeira clara, bandeira do Brasil na parede, uma escrevente simpática e cansada. Eu vestia um vestido branco simples, sem véu, sem excesso, só o tecido leve caindo sobre o corpo. Louis estava de camisa social azul, a manga dobrada no braço marcado. O Lucas, agora com quase quinze anos, segurava a Ana Vitória no colo. Ana estava com dois anos, usava um vestidinho amarelo e insistia em puxar a gravata improvisada do irmão. — Vocês aceitam um ao outro como cônjuges? — perguntou a escrevente. — Aceito — eu disse. — Aceito — Louis repetiu. Assinamos. O carimbo bateu. O Lucas gritou “isso!” baixo demais para
Helena Costa Seis meses depois do nascimento de Ana Vitória, o Colégio Maria Clara estava de pé, enfeitado e barulhento, e eu observava da beira do pátio o dia em que os alunos do terceiro ano se formavam — com Louis preparando o discurso em memória do Ratão e a roda inteira ensaiando a apresentação de capoeira que fecharia a cerimônia. O pátio não era mais o mesmo pedaço de terra queimada e rachada de antes. Tinha piso novo em parte da área, muro repintado, bandeirinhas improvisadas estendidas de um lado a outro e um palco de madeira montado na pressa, mas com orgulho. O cheiro de tinta ainda misturava com o de quitute que as mães tinham começado a chegar cedo para montar. Caixas de som testavam microfone. Menino de terno emprestado puxava a gravata. Menina de vestido arrumava o cabelo no reflexo do celular. O Coiote, pela primeira vez em muito tempo, parecia festejar sem olhar por cima do ombro a cada segundo. Eu carregava a Ana Vitória num pano amarrado contra o peito. Ela já es
Eu segurava a minha filha recém-nascida nos braços enquanto Helena dormia no quarto ao lado, e quando olhei pela janela para o Morro do Coiote acendendo luz por luz, senti pela primeira vez na vida que não havia mais nenhum outro lugar para onde eu precisasse ir. Ana Vitória pesava pouco. Quase nada. Mas o peso dela era o mais real que eu já tinha sentido. A cabecinha cabia na palma da minha mão. A pele ainda vermelha, amassada pelo nascimento, quente demais para alguém tão pequena. De vez em quando ela abria a boca num bocejo torto, ou cerrava o punhozinho com uma força absurda, ou fazia um som baixo de protesto quando eu mudava de posição. Eu andava devagar pelo corredor da maternidade, de um lado para o outro, porque ela tinha reclamado no momento em que eu tentei colocá-la no berço. Então eu fiquei. Andando. Segurando. Existindo no silêncio iluminado por lâmpadas frias e pelo bip distante de algum equipamento. Helena estava exausta. O parto tinha sido longo, bruto e bonito de um
Alguns meses depois Meses se passaram e a vida no Coiote foi encontrando um ritmo novo, até que uma madrugada qualquer as primeiras contrações me acordaram em casa e, poucas horas depois, eu segurava nos braços a menina que Louis tinha visto no sonho: Ana Vitória, viva, saudável e gritando mais alto que o medo. Eu estava dormindo de lado quando a dor veio. Não era a dor comum da barriga pesada, nem o chute forte que eu já conhecia. Era um aperto fundo, bruto, que começou nas costas e veio para a frente como uma garra. Eu abri os olhos no escuro e fiquei quieta, contando. A dor passou. Voltou. Mais forte. O corpo inteiro endureceu. O relógio do criado-mudo marcava 3h17. A casa estava em silêncio, só o barulho distante de uma moto e o respirar do Louis ao meu lado. — Louis — eu chamei, a voz já falhando. — Louis, acorda. Agora. Ele se virou na hora, o corpo em alerta, a mão buscando a minha. — Que foi? Aconteceu alguma coisa? — Eu acho que começou. Não é igual às outras. Isso aqui






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