INICIAR SESIÓNAquela noite era importante pro futuro da Lotus; vários possíveis investidores estavam no evento e eu precisava passar uma boa impressão.
Os stands estavam espalhados com perfumes, cremes e linhas de maquiagem da coleção "Beleza Verdadeira".
Garçons circulavam com bandejas de champagne e canapés para os convidados, enquanto Marina, nossa perfumista, já se adiantava em conversar com um dos figurões que poderia garantir a nossa próxima campanha.
Era tudo uma farsa.
Todos fingiam que a Lotus nunca estivera melhor, que nossos números só cresciam.
Frases como “Nossas vendas aumentaram 40% nos últimos seis meses” e “Nossos clientes nunca estiveram mais satisfeitos.” ao lado do nosso slogan “Lotus apoia a Beleza Verdadeira” piscavam nos telões entre as fotos da campanha.
A verdade era que a campanha tinha sido um fracasso. As vendas despencaram. As mulheres comuns que deveríamos alcançar continuavam comprando marcas importadas ou produtos mais baratos. E a nossa elite? Bom, a elite nunca compraria Lotus. Éramos a perfumaria nacional tentando competir com Chanel e Dior.
Levei a mão até a garganta, a maldita gravata de novo drenando meu ar, apertando a respiração. Senti a mão de alguém no meu ombro.
— Olha só quem conseguiu aparecer.
Era o Márcio. Assim que me virei para encará-lo, percebi que estava sorrindo.
— Claro que consegui. Sou o presidente dessa empresa, tinha que vir.
— Então a monstrenga sobreviveu ao seu filho? Ou foi o contrário?
Balancei a cabeça, incrédulo, e comecei a caminhar pelo salão, distribuindo sorrisos e acenos para todos que cruzavam meu olhar.
Sorrisos falsos. Acenos automáticos. Tudo parte do show.
Um investidor acenou de volta. Levantei minha taça na direção dele, como se estivéssemos brindando ao sucesso. Ele sorriu, satisfeito.
Idiota.
Se soubesse que a empresa estava afundando, sairia correndo daqui.
— Você acha que tá funcionando? — perguntei, apontando o queixo na direção de Marina.
— Ah, tenho certeza. A Marina dá conta. — Márcio respondeu, pegando algo da bandeja que passava perto dele.
Assim era o meu melhor amigo e sócio: não dava a mínima. Eu realmente o invejava.
Muitas vezes pensei se não seria melhor ter sido mais como ele, e simplesmente viver a vida de herdeiro.
Mas eu nunca conseguiria. Desde criança, meu sonho era ser o CEO da Lotus e provar para o meu pai que podia ser tão bom quanto ele.
Que piada.
Meu pai construiu um império. Eu estava afundando ele.
— Relaxa, irmão — Márcio deu um tapinha nas minhas costas. — Você tá tenso demais. Aproveita a festa, bebe um pouco, pega umas minas…
— Minas? Que linguajar é esse, você tem quinze anos? E não vim aqui pra isso.
— Você nunca vem pra nada além de trabalhar. Por isso que você tá assim, todo travado. Precisa dar uma aliviada.
Ignorei o comentário dele e continuei andando pelo salão.
Em meio aos meus pensamentos derrotistas, vi Karina, irmã do Márcio, se aproximar.
Merda.
Karina era deslumbrante: loira, alta, corpo escultural, olhos azuis e um sorriso perfeito em lábios carnudos. Usava um vestido vermelho justo que marcava cada curva do corpo dela. O decote era generoso. Proposital.
Se não fosse a irmã do meu melhor amigo e se não tivéssemos crescido juntos, quase como família, eu certamente me sentiria atraído por ela.
— Aí estão vocês! Estava procurando. Vocês gostam de se esconder, né?
Ela se aproximou perigosamente, e senti um perfume inebriante. E não, não era da Lotus, provando mais uma vez que a elite jamais priorizaria nossas fragrâncias. Karina, como a maioria das ricas do país, usava perfume importado. Sinal de status e poder.
Tom Ford, provavelmente. Ou Creed. Algo caríssimo que custava mais que o salário mensal de uma pessoa normal.
— Vini, vamos dançar? — ela fez sinal para o DJ, que havia colocado uma música mais romântica, e percebi alguns casais mais desinibidos arriscando passos pelo salão.
Neguei de imediato.
— Dançar? Acabei de chegar. Preciso estar disponível caso algum investidor queira me perguntar alguma coisa... não posso me…
— Divertir? Viver?
Karina se inclinou ainda mais, os seios praticamente saltando do vestido. A mão dela subiu pelo meu braço, dedos percorrendo o tecido do terno lentamente.
— Você trabalha demais, Vini. Precisa relaxar um pouco.
Márcio fazia uma careta pra mim e se afastava, nos deixando a sós.
Traidor.
Eu não entendia qual era a dele. Desde criança, Karina me seguia por todos os cantos, mas eu, por respeito ao Márcio, nunca me atrevi a corresponder. Era a irmã dele.
O curioso é que meu amigo nunca ligou, mesmo sabendo que eu era mulherengo e não me apegava a ninguém. Parecia não fazer diferença se eu acabasse brincando com os sentimentos da irmã dele ou não.
De qualquer forma, depois de tantos anos me forçando a tratá-la como parte da família, já não restava nenhum interesse.
Karina era bonita. Tinha dinheiro. Era bem relacionada. No papel, era perfeita.
Mas era vazia. Superficial. Só falava de festas, viagens e fofocas. Conversas com ela eram torturantes.
Por isso, quando ela me abraçou e passou a mão atrás da minha nuca, puxando meu rosto pra perto do dela, tive o reflexo involuntário de me afastar.
— Nossa, você já foi mais divertido, sabia?
— Fui? — perguntei, genuinamente intrigado.
— Não muito, mas já foi menos sério. É só trabalho, trabalho... deixa eu te ajudar a relaxar um pouquinho essa noite.
A mão dela desceu pelo meu peito, devagar, provocante.
— Karina…
— Shhh. — Ela colocou o dedo nos meus lábios. — Para de falar. Você fala demais.
Eu literalmente não tinha falado nada.
Senti o calor dos lábios de Karina deslizando da minha bochecha até o pescoço e me surpreendi com a ousadia dela.
Porra. Ela estava ficando muito atrevida.
— Karina, o que você tá fazendo?
— Você não gosta? — Ela mordeu levemente o lóbulo da minha orelha.
Senti meu corpo reagir. Involuntariamente.
Merda.
A mão dela desceu mais, perigosamente perto do cinto da minha calça.
— Você tá tão tenso — ela sussurrou no meu ouvido. — Deixa eu te ajudar com isso.
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, meu celular tocou.
Graças a Deus.
Karina soltou um gemido de lamentação e, relutante, se afastou.
— Preciso atender — falei, firme.
— Agora? — Ela fez biquinho. — Sério?
— É importante.
Quando vi o número no visor, fiquei surpreso. Era de casa.
Merda. Não podia ser nada bom.
— Alô.
— Doutor Vinícius... — a voz da babá soou do outro lado, esganiçada de nervoso.
— O que aconteceu?
— O Thales sumiu.
Entrei no quarto com a Bela no colo, a porta batendo atrás de mim. O menino do hotel, provavelmente recém-saído do ensino médio, quase tropeçou nas próprias pernas pra largar a mala e sumir do corredor. Eu tinha demonstrado a minha impaciência pra me ver logo livre de terceiros. Precisava ficar sozinho com Bela o mais rápido possível. — Obrigado, agora nos deixe sozinhos logo —, falei antes dele fechar a porta. — Você gostou de me carregar por aí, né? — ela brincou, a voz rouca manhosa demonstrava as segundas intenções. Sorri de canto. — Gosto. Joguei ela na cama. Estava linda. Já era, desde sempre, mas agora, essa confiança a deixava ainda mais sexy. E era minha mulher, minha, e eu nem sabia se merecia tanto. Ela ficou de joelhos no colchão, me puxou pela gravata. — Vem cá. Beijei seu pescoço, mordisquei a pele até sentir ela arrepiar, o cheiro do perfume dela me deixando louco. Bela me empurrou contra a cama, subiu em cima de mim com a agilidade, ajeitando o tecido do vestid
Margô me ligou numa quarta de manhã e disse que estava na cidade e queria tomar um chá. Só isso. Nenhum aviso, nenhuma explicação. Tentei me acalmar. Vinícius também disse que eu não tinha motivos para me preocupar. Fácil para ele dizer. Meu pai adorava ele. Só faltava erguer uma estátua em sua homenagem. Agora, a família do Vinícius não era exatamente calorosa. O lugar que ela escolheu para conversar era uma cafeteria chiquérrima, um lugar que eu nem tinha sonhado em pisar antes de conhecer o Vinícius. Era bem silencioso, com poucas pessoas. Assim que entrei, já a encontrei. Ela fez um sinal com a mão para mim e pediu que eu me aproximasse. — Você tá bem? — perguntei, porque alguém precisava começar e, pelo silêncio da Margô, não seria ela. — Estou. Ela olhou para o chá que estava tomando, sinal de que eu tinha me atrasado um pouco. Ótimo. Que beleza. Tinha começado bem. — Você sabe que não gosto de enrolar. Sou uma mulher direta. — Eu sei. — Então você entende que, qua
O burburinho da festa se calou assim que Vinícius subiu no palanque. — Boa tarde — ele disse. Estávamos em uma confraternização da Lotus pra comemorar os ótimos resultados da coleção Beleza Verdadeira e o sucesso da filial de São Carlos. Mais um braço da empresa que agora estava forte o suficiente, sem riscos de fechar como pouco tempo atrás. Em parte, devíamos isso à Marisa, pela ótima administração. Fiquei do lado do palco com um copo de suco na mão, ouvindo ele agradecer à equipe, mencionar os resultados da campanha Beleza Verdadeira e dizer que a filial de São Carlos estava de volta aos trilhos. Alguém no fundo assobiou quando ele mencionou as metas cumpridas. — Tem uma outra coisa que não tem nada a ver com resultado de campanha. Senti o coração acelerar. Porque ele disse aquilo olhando pra mim. Momentos depois, desceu do palco. A fábrica inteira ficou em silêncio nos observando. — Isabela — ele falou comigo, ainda com o microfone na mão. — Sei que já pedi isso em part
Valéria simplesmente apareceu sem avisar, o que, se tratando dela, já era o esperado. Quando ouvi a campainha tocar na mansão, fui até a porta atender e lá estava ela. — Posso entrar? — perguntou. Fiz um gesto pra que entrasse e me afastei da porta. Já sentadas no sofá da sala, Valéria disse sem cerimônias: — Não vou entrar com o recurso. Fiquei sem ter o que dizer, surpresa. — O processo acabou — ela continuou. — A guarda é do Vinícius e eu vou cumprir o acordo de visitas que ficou combinado. — Certo — disse com cuidado, pra não começar alguma guerra por causa de alguma palavra atravessada. Mas Valéria não parecia armada dessa vez. Me olhou pela primeira vez de forma cálida. — Ele mudou — ela disse. — O Vinícius. Eu praticamente vi ele crescer e pode não parecer, mas gosto dele. Ela parou um pouco, ajeitando o tecido do vestido e olhando pra baixo. Depois de alguns segundos, voltou a olhar pra mim. — Eu tinha grandes expectativas quando minha filha se apaixonou por ele.
Mal tínhamos entrado na mansão quando vi Thales descendo os degraus da entrada apressado, apreensivo pra ver quem sairia daquele táxi. Ele demorou alguns segundos pra assimilar que a mulher ao lado do pai dele era eu. Quando finalmente a ficha caiu, começou a sorrir e correu ao nosso encontro. Com os bracinhos já abertos, se jogou no meu abraço. — Você cortou o cabelo! — ele disse. — Cortei. — Ficou bom. — Obrigada, Thales. — E cadê os óculos? Como você tá enxergando sem eles? Me abaixei até a altura dele e cochichei: — Tô usando lentes! Ele ficou alguns segundos me examinando. — Legal! — respondeu de forma simples, enquanto me abraçava de novo. — Que saudades, Bela! Você voltou pra ficar? Os olhinhos dele estavam cheios de esperança. Vinícius chegou e colocou a mão no ombro do Thales, com um sorriso satisfeito. Olhei pra cara dos dois. — Voltei pra ficar. * Na manhã seguinte, acordei com meu celular tocando. — Tenho uma ideia — Marina disse, antes mesmo do bom dia.
Tive que me enfiar no meio dos dois antes que o pior acontecesse. Quem diria? A situação era, no mínimo, curiosa. Uma feia com dois homens lindos querendo se pegar no soco por ela. Tá certo que aparentemente agora eu era uma ex-feia, mas era difícil lembrar disso. Por incrível que pareça, quem parou as provocações foi o Vinícius. De algum modo ele se controlou, respirou fundo, ajeitou a camisa, dobrando as mangas um pouco enquanto abria um botão, e recobrou a calma. Disse que iria nos deixar em paz, o que também achei estranho. E confesso que esperava que ele insistisse mais. Tinha vindo até aqui e não iria lutar mais por mim? Sei que tinha pedido pra ele parar, que tinha demonstrado que estava magoada demais pra perdoá-lo, mas ainda o amava. E confesso que, se ele insistisse muito, eu não responderia por mim. Foi melhor assim, repeti pra mim mesma. Eu e Daniel nos sentamos no bar enquanto o cantor se apresentava. Entre uma música e outra, ele pegou o microfone, pediu pra







