FAZER LOGINA porta b**e na parede com tanta força que pulo e deixo minha bolsa cair no chão.
Mas quem entra não são os seguranças.
É um furacão de um metro de altura vestindo uma fantasia de astronauta e tênis que piscam, gritando como se alguém tivesse arrancado as asas do Buzz Lightyear.
— QUERO IR EMBORA! — ele berra, arremessando um foguete de metal no chão.
Lucas solta um suspiro tão profundo que parece que a alma dele desceu até o térreo.
— Oliver. Para. Agora.
O menino ignora completamente.
Abre a mochila, puxa outro brinquedo e arremessa na direção do pai… mas acerta a xícara de café que eu trouxe.
O café espirra no terno de Lucas, e uma veia salta no pescoço dele, pulsando em modo perigo iminente.
— Oliver Sinclair — ele diz, baixo e ameaçador. — É a última vez que falo com você.
O menino encara o pai, limpa o nariz na manga e solta um grito tão agudo que meus tímpanos pedem socorro.
Parece uma ambulância atropelando um gato.
Nesse exato momento, entra uma mulher de vinte e poucos anos, cabelo preso e expressão de quem está a dois segundos de um colapso nervoso.
— Lucas, pelo amor de Deus, controla o seu filho! — Ela quase grita. — Duas candidatas foram embora dizendo que não voltam nem mortas. Sem falar que ele mordeu a perna da candidata quatro. Mordeu, Lucas. Como um cachorro!
Lucas fecha os olhos e respira fundo, como se estivesse contando até um milhão.
— Sophia, leve seu sobrinho para a sua sala — pede, claramente tentando não explodir. — Tenho reunião com os italianos em quinze minutos.
— E eu tenho trabalho, Lucas! — ela rebate, vermelha de indignação. — Sou sua vice, não a babá do seu filho!
De repente, Oliver para de correr, sobe na cadeira giratória e começa a rodar.
— EU SOU O REI DO MUNDO! — grita, chutando o ar.
Lucas tenta agarrar o menino enquanto discute com a irmã, mas Oliver solta um grito tão alto que meu ouvido até tampa.
— ME SOLTA, SEU CHATO! — berra, distribuindo soquinhos no peito do pai até Lucas largá-lo no chão.
Fico imóvel, tentando decidir se corro antes que ele me morda também… ou se continuo tentando a vaga, porque, sinceramente, ninguém aqui parece lembrar que eu existo.
Mas, claro, a vida não facilitaria para mim.
Oliver para de correr pela sala e olha direto para a minha bolsa caída no chão.
Aberta.
Os olhos dele vão exatamente para o boneco do Homem-Aranha lá dentro. O boneco que meu irmão me deu no dia do enterro da nossa mãe, três semanas atrás.
— NÃO! — exclamo, me abaixando para pegar.
Tarde demais, porque Oliver é mais rápido.
Ele segura o boneco com as duas mãos, e seus olhos brilham.
— É o Homem-Aranha — sussurra, encantado. — O de verdade.
Meu coração aperta. Isso não. Qualquer coisa, menos isso.
Olho para Lucas, esperando que ele faça alguma coisa, mas ele apenas observa, com aquela expressão neutra e avaliadora.
Como se estivesse esperando para ver como eu vou agir.
Como se isso fosse um teste.
E talvez seja.
Respiro fundo e me abaixo ao lado de Oliver, ignorando completamente o CEO que nos observa.
— Oi, Oliver. Esse não pode — digo baixinho, estendendo a mão. — Ele é muito especial. Pode me devolver?
— MAS EU QUERO! — ele grita, apertando o boneco contra o peito.
— Eu sei que quer — respondo, mantendo a calma. — E ele é muito legal mesmo. Mas…
— Ele é o Aranha de verdade! — Oliver interrompe, virando o boneco. — Olha! A teia funciona!
Ele aperta o botão e a teia dispara, grudando na parede com um estalo seco.
E então eu entendo: o que fisgou Oliver não foi só o boneco. Foi a teia funcionando.
Algo que, pelo visto, não existe nas versões caríssimas e perfeitas que ele deve ter aos montes.
— É incrível mesmo — admito. — Mas esse boneco é do meu irmãozinho. Ele tem cinco anos, quase a sua idade.
— Onde ele tá? — Oliver pergunta, franzindo a testa. — Ele morreu igual ao meu hamster?
— Não… — respondo, sentindo a garganta apertar. — Ele está vivo. Só… não sei onde ele está agora. Por isso esse boneco é tão importante. É a única coisa que tenho dele aqui.
Oliver olha para o boneco. Depois para mim. Depois, para o boneco outra vez.
— Posso… só brincar um pouquinho? — pergunta, pela primeira vez com uma voz totalmente humana. — Depois eu devolvo. Prometo.
Abro a boca para dizer não. É o Liam. É o meu pedaço dele.
Mas quando olho para Oliver, vejo algo familiar demais.
A mesma carência que eu via no Liam.
A mesma necessidade de ser ouvido. De se sentir importante.
Algo que, pelo visto, ninguém aqui faz.
— Tá bom. Você pode brincar um pouquinho — digo, engolindo as lágrimas. — Mas promete cuidar direitinho? Como um astronauta de verdade?
— PROMETO! — ele exclama, abraçando o boneco e sorrindo.
O silêncio se instala na sala. Um silêncio tão absoluto que dá para ouvir o tic-tac do relógio.
Lucas e Sophia param de falar e me encaram como se eu tivesse acabado de expulsar um espírito maligno.
— Você é uma bruxa? — Sophia pergunta, chocada. — Porque eu já vi exorcista com mais dificuldade que isso.
— Ele só viu o meu boneco — respondo, simples.
— Não foi o boneco — Lucas diz devagar, sem tirar os olhos de mim. — Foi a maneira como você falou com ele. Como se… ele importasse.
— Não pode ter sido só isso, Lucas — Sophia rebate, ainda impressionada. — As outras também tentaram ser legais com o Oliver.
— Talvez nenhuma tenha sido honesta — digo baixinho. — Crianças percebem quando você mente. E percebem quando você também está perdendo alguma coisa.
Lucas não responde, só me observa por segundos que, sinceramente, parecem uma eternidade.
Por um instante, tudo some. O caos, os gritos, o pequeno astronauta sequestrador de bonecos… só fica aquele olhar verde me analisando.
Então, ele olha para o filho. Depois, para a irmã, que arqueia as sobrancelhas como quem diz “só sobrou essa”, antes de sair da sala.
Lucas volta a me encarar e, por um segundo, a expressão dele suaviza. Será que ele está considerando?
— Você disse que não tem nenhuma das qualificações que pedi, certo? — pergunta, erguendo uma sobrancelha.
— Sim — respondo. — Mas tenho experiência real com crianças. Ajudei minha mãe a criar meu irmão. Sei lidar com birras, crises, pesadelos…
— Experiência pessoal não é qualificação profissional — ele me corta, voltando a se sentar.
— Eu sei, mas o senhor acabou de ver que eu consigo.
— Vi que você acalmou uma criança em trinta segundos oferecendo um brinquedo — ele rebate, juntando alguns papéis como se eu já não estivesse aqui. — Isso não te qualifica para a posição.
Meu estômago afunda. Especialmente quando vejo a postura dele mudar. Fica fria, distante.
— Sr. Sinclair, se o senhor me der uma chance, eu…
— Oliver — ele chama, sem me olhar. — Devolva o brinquedo para a moça.
— Mas eu tô brincando, papai! — o menino protesta, apertando o boneco.
— Agora, Oliver.
Com os olhos cheios de lágrimas, ele caminha até mim e me entrega o boneco com a maior expressão de derrota do mundo.
— Obrigada, Oliver — digo baixinho, pegando-o de volta.
Lucas se levanta e me encara.
— Se quiser, pode deixar seu currículo. Pelo esforço que fez para chegar até aqui — diz, profissional demais. — Mas não vou abrir mão das exigências para contratar alguém como você.
Suspiro, finalmente entendendo o óbvio.
Ele não está me dispensando pelo francês, pelo mandarim ou por qualquer qualificação que não tenho.
Está me dispensando pelo beijo que nunca deveria ter acontecido.
Engulo em seco, reunindo o que resta de dignidade.
— Entendo — murmuro, pegando minha bolsa do chão.
Vou até a mesa, tiro o currículo amassado da bolsa, mas antes que eu consiga entregá-lo, o celular dele vibra sobre a madeira.
— Minha reunião com os investidores começa em cinco minutos — comenta, olhando a tela. — Oliver, vá para a sala da sua tia.
— Mas, papai… não quero…
— Agora.
O menino sai arrastando os pés, lançando um último olhar triste para mim antes de passar pela porta.
Lucas se levanta num movimento brusco, pega o paletó no encosto da cadeira e, só então, aceita o currículo da minha mão.
— Ivy Collins, dezenove anos, Ohio — lê rapidamente antes de largá-lo sobre a mesa. — Coragem não substitui currículo, sabia?
Seguro as lágrimas, porque chorar aqui seria exatamente o que ele espera.
Ele ajusta os punhos da camisa, alisa a gravata e, por fim, me encara.
— A saída é por ali — diz, apontando para a porta sem cerimônia. — Boa sorte com… o que quer que tenha te trazido a Nova York, Ivy Collins.
“Lucas Sinclair”Passei a vida inteira tomando decisões. Algumas fáceis, a maioria não.Aprendi cedo que hesitação tem custo, que clareza é mais útil do que conforto, que o mundo não para para esperar que você esteja pronto.Mas, quando Ivy entrou no final do corredor com o vestido branco e os olhos presos nos meus… percebi que não há decisão que eu tenha tomado na vida que tenha pesado tanto quanto essa.E que nenhuma foi tão certa.Ela aperta minha mão quando o padre anuncia que é a vez dela, e sinto a leve pressão dos dedos dela nos meus antes que vire o corpo para mim.— Lucas — começa, suave. — Quando aceitei trabalhar na sua casa, tinha um plano muito claro do que aquilo seria. Temporário, prático, necessário. Definitivamente, você não estava nesse plano.Ouço algumas risadas baixas entre os convidados, mas não desvio os olhos dela.— Você foi a coisa mais complicada que já aconteceu comigo — continua, com os olhos brilhando pelas lágrimas. — Teimoso, controlador, impossível de
A música começa no instante em que as portas da igreja se abrem. Meu coração dispara tão forte que consigo sentir cada batida ecoando no peito, enquanto dou o primeiro passo ao lado de Owen. As luzes suaves iluminam o corredor longo, coberto de flores brancas e velas douradas. Os convidados se levantam devagar, mas mal percebo os rostos. Porque meus olhos encontram ele imediatamente. Lucas. Parado no altar, com o terno escuro perfeitamente alinhado e aquele controle impecável que sempre carregou… completamente destruído no segundo em que me vê. E Deus. Nunca vou me cansar de perceber como aquele homem olha para mim. — Vamos? — Owen diz, estendendo o braço. Concordo com a cabeça, segurando-o com cuidado. Caminhamos devagar pelo corredor, enquanto a música preenche a igreja inteira com uma suavidade que contrasta completamente com o caos dentro do meu peito. Owen mantém a mão firme sobre a minha, como se soubesse exatamente o quanto minhas pernas estão tentando esquecer como
“Ivy Collins” Um ano e dois meses se passaram desde aquele pedido. Mais de um ano tentando transformar um sim em uma cerimônia, porque, quando você é Lucas Sinclair, não aceita nada que não esteja exatamente certo. Ele me levou ao limite em cada detalhe que insistiu em controlar pessoalmente. Da lista de convidados às flores, que foram trocadas três vezes até finalmente chegarmos a um consenso. Reclamei, mas não quis nada diferente. E hoje estou aqui. Admirando o vestido que levou dois meses para ficar pronto, no quarto reservado de um venue em Manhattan, que é exatamente o tipo de lugar que eu jamais imaginaria frequentar antes de tudo mudar. Sophia se mexe, e desvio os olhos para ela imediatamente. Há uma semana, minha cunhada sorri toda vez que coloca as mãos na barriga. Ela acha que está disfarçando bem o quanto está encantada com essa nova vida de apenas dez semanas. Mas não está. — Você percebe que está sorrindo para a própria barriga há quase cinco minutos, né? — com
“Ivy Collins” O buquê ainda está nas minhas mãos quando percebo que estou sorrindo de um jeito que não planejei. É branco, com flores pequenas e perfume suave, e chegou até mim com uma força que fez todo mundo ao redor rir e aplaudir como se fosse um sinal do universo. Talvez seja. — Olha quem pegou — Tiffany comenta, ao meu lado. — Que surpresa. — Foi sorte — respondo, olhando para o buquê. — Claro que foi. Levanto os olhos e encontro Sophia do outro lado do jardim, ao lado de Blake, me observando com um sorriso satisfeito. Lucas se aproxima de mim e segura minha mão, me olhando com aquela atenção que ainda me pega de surpresa depois de anos, mesmo depois de tudo que construímos juntos. — Vem comigo — diz, me puxando. Assinto, sem questionar. Ele me leva para longe da festa, até parar em um canto do jardim, onde as luzes são mais suaves e o som da música chega abafado. — Você está bem? — pergunto, preocupada com a urgência. Lucas não responde de imediato. Só
Blake segura minha mão e andamos pelo tapete vermelho. Somos recebidos por uma chuva de arroz assim que chegamos ao final dele. A festa acontece do lado de fora, com mesas espalhadas pelo jardim e música suave preenchendo o ar, enquanto as luzes penduradas nas árvores iluminam tudo com um brilho dourado. É simples, mas lindo. Exatamente o tipo de coisa que nunca imaginei querer até perceber que, no fim, o que importava não era o tamanho da cerimônia. Era ele. Blake segura minha mão enquanto caminhamos entre as mesas, recebendo abraços e cumprimentos. — Nunca achei que ver você casar fosse me deixar emocionalmente instável — Owen comenta, surgindo ao meu lado com uma taça na mão. — Você literalmente chorou no seu casamento, Owen. — E vou negar isso até morrer. Abre a boca para provocá-lo um pouco mais, mas não tenho tempo para falar nada quando o DJ anuncia a primeira dança. Blake segura minha mão e me conduz até o centro da pista no exato momento em que a música come
Três anos. É o tempo que leva para uma vida desmoronar e se reconstruir de um jeito que você não planejou, mas que, de alguma forma, faz mais sentido do que qualquer coisa que teria escolhido sozinha. Três anos desde Chicago. Desde Simon. Desde que Blake Reeve entrou na minha vida como uma dor de cabeça de uniforme e acabou se tornando o homem sem o qual não consigo imaginar acordar. E hoje… ele está me esperando no altar. — Para de sorrir assim ou vai borrar o batom antes de chegar lá — Ivy diz, ao meu lado, sem desviar os olhos do celular, onde revisa alguma coisa da lista de convidados pela décima vez. — Não estou sorrindo. — Está — Tiffany confirma, ajeitando o véu com cuidado, séria demais. — E é estranho. Você nunca sorri assim. — Porque hoje vou me casar com o homem que amo. — Awn… ela admite agora sem nem tentar disfarçar — Ivy comenta, finalmente levantando os olhos do celular. — Sempre admiti. — Não desse jeito — Tiffany rebate, colocando a mão na própria barriga







