Se connecterEla jurou salvar vidas. Ele comanda o império onde ela trabalha. Dedicada e ética, a Dra. Maria Júlia assume o posto de saúde na Rocinha buscando fazer a diferença. O que ela não esperava era cruzar o caminho de Marcos o homem frio, poderoso e absurdamente rico que controla toda a comunidade nos bastidores. Quando um atendimento de emergência une seus destinos, o choque de mundos é inevitável. Maju não se curva ao poder dele, e Marcos não consegue aceitar que a única mulher capaz de enfrentá-lo seja também a única de quem ele precisa. Em meio a regras próprias, perigos e atração avassaladora, até onde a ética de uma médica pode ir quando o seu protetor é o homem mais perigoso da região?
Voir plusSentado em um camarote reservado na balada VIP de uma das boates mais exclusivas da Zona Sul, escuto Beto reclamar sobre a rocinha precisar urgentemente de um médico para a comunidade, o grave do funk e da música eletrônica fazia o chão tremer. Copo de whisky puro na mão, eu apenas observava a multidão lá embaixo, buscando esvaziar a mente.
Foi quando eu a vi. Ela estava no balcão do bar. Um vestido ajustado ao corpo, cabelos loiros caindo em ondas perfeitas pelas costas e uma postura firme, inteiramente alheia aos olhares famintos do idiota a quem conversava. Ela emanava um brilho limpo, diferente de tudo e de todos naquele lugar. Saí do camarote sem pensar duas vezes. E me aproximei por trás, me deparando com ela furiosa enquanto discutia com o homem. — Você não tem muitas opções, garota, ele disse, com a voz baixa e invasiva, se aproximando demais dela, a mão pesada repousando sem autorização sobre o ombro dela. — Pode sair daqui sem nada... ou ser esperta e garantir essa "ajuda". Tudo tem um preço. A humilhação durou exatamente dois segundos, o tempo necessário para a dor da decepção se transformar em puro fogo. Ela não recuou. Em vez de ficar com medo, deu um passo à frente, os olhos queimando de puro ódio. Antes que ele pudesse reagir, ela desferiu um tapa certeiro na mão dele, o estalo ressoando pelas paredes. — Guarde o seu nojo e o seu dinheiro estragado! A voz dela tremeu, não de medo, mas de uma raiva tão visceral que fez o sujeito dar um passo para trás. — Eu posso estar desesperada por um trabalho, mas você não tem nada que me pague o direito de me faltar com o respeito! Falou, se aproximando e apontando o dedo na cara do imbecil assustando ele, sem que ele conseguisse reagir, e então ele partiu pra cima dela e eu aproximei evitando todo e qualquer contato que pudesse se quer machucar ela. -Se encostar um dedo nela eu te dou um tiro bem no meio da tua cabeça. Quando o homem se virou pra trás e viu quem eu era, recuou no mesmo instante, afinal, quem é louco de me afrontar nesse Rio de Janeiro? -Desculpa senhor. -Se eu ver você por aí se aproveitando de qualquer mulher, seja ela qualquer situação você tá morto? Entendeu? Agora pega essa tua bunda gorda e sai daqui antes que tu termine dentro de um caixão. O cara sai sem se quer olhar pra trás. Olho de relance para a loira enquanto ela me olha assustada e então me aproximo. — Um drink para a mulher mais intrigante e linda desta festa, pedi ao barman, mantendo meus olhos fixos nela, tentando cortar o clima de merda desse primeiro contato. Ela se virou devagar. Olhar desafiador, um sorriso de canto provocante. Ela não fazia ideia de quem eu era, e eu não fazia ideia de quem ela era. E essa ignorância mútua era a coisa mais libertadora que me acontecia em anos. — Você sempre chega oferecendo bebidas para desconhecidas? ela perguntou, a voz aveludada subindo por cima da música. — Só quando a desconhecida rouba toda a atenção do ambiente. Vejo suas bochechas ruborizando. -Fica ainda mais linda com vergonha, tá tudo bem, ele estava te incomodando? -Ta tudo bem, era só um idiota. -Quer me contar o que tava acontecendo? -Sua mãe não lhe ensinou que não se deve falar com estranhos e nem se meter na vida alheia? A pequena afrontosa falou com as palavras na ponta da língua. Dei um sorriso de canto, se ela soubesse que eu adoro esse jogo de gato e rato e adoro ainda mais uma afronta. -Se eu me apresentar eu deixo de ser um estranho, falei me aproximando, enquanto sentia ela ficar nervosa. - Obrigada, mas hoje eu só quero me divertir. -E quem disse que eu também não quero? Falei baixinho, sussurrando em seu ouvido, vendo ela se arrepiar e nessa hora. Não precisou de mais nada. A química entre nós foi instantânea, um incêndio sem aviso prévio. Puxei ela pela cintura rezando pra ela não recuar. Quando nossos lábios se tocaram, a sensação foi de pura descarga elétrica. O beijo começou urgente, faminto, com uma intensidade que me fez esquecer meu nome, o morro e qualquer problema que me esperava do lado de fora. Nós nos beijamos um beijo gostoso, lento, mas algo me dizia que ela estava armando algo. O gosto dela era viciante, uma mistura de doce com a audácia de quem sabe o poder que tem. A mão dela subiu para a minha nuca, me puxando para mais perto, e por alguns minutos o mundo inteiro desapareceu. — Preciso ir ao banheiro, ela murmurou contra a minha boca, arfante, com os olhos brilhando. — Me espera aqui? — Não demore, respondi, tocando seu rosto, ainda meio tonto com a sensação do beijo. Ela deu um sorriso misterioso, me deu um último selinho rápido e se desviou pela multidão. Esperei cinco minutos. Depois dez. Depois vinte. Procurei com os olhos por todo o andar, desci até a saída e percebi a jogada. Ela tinha me dado um perdido perfeito. Deixou apenas o rastro do seu perfume no meu terno e a lembrança de um beijo inesquecível. Passei a mão pelo pescoço, soltando uma risada fraca e incrédula. Ninguém dava um perdido no dono da Rocinha. Ninguém. — Você não sabe o jogo que começou, loira... murmurei para a noite carioca, ajustando o relógio no pulso. — Eu vou te achar. Nem que eu tenha que virar este Rio de Janeiro de cabeça para baixo. O silêncio do meu escritório na parte alta da Rocinha costuma ser quebrado apenas pelo zumbido do ar-condicionado e pelo bipe constante das telas que monitoram os acessos da comunidade. No papel, o mercado me enxerga apenas como um empresário de sucesso. No asfalto, a polícia me rotula como traficante. Mas a verdade é que, aqui dentro, eu sou o cara que mantém as engrenagens girando. Eu herdei isso tudo. Não foi uma escolha, foi um fardo. Quando meu pai tombou, a coroa de ferro caiu direto na minha cabeça. Quem olha de fora vê o luxo, os carros importados, o terno de alfaiataria e o poder. Acham que é sobre ostentação. Não fazem ideia da desgraça que é segurar a rédea de um império construído sobre o caos. Ninguém sabe o quanto é difícil comandar tudo. Se eu fraquejar por um segundo, o morro rui. Se eu for complacente, outra facção avança. E, apesar de toda a podridão que ronda esse negócio, eu me esforço todos os dias para ser justo com quem mora aqui. Garanto remédios, cesta básica e mantenho a violência longe de quem só quer trabalhar. É um equilíbrio sangrento, mas é o meu dever, eu estou aonde o estado não está, eu dou dignidade aonde o governo se isenta. Um estalo na porta interrompeu meus pensamentos. Beto entrou sem pedir licença. Ele é meu braço direito, meu homem de confiança é a pessoa que faz o trabalho sujo onde eu prefiro não sujar as mãos para resolver. — Chefe, a situação no posto do morro tá caótica. Beto disse, encostando na mesa e cruzando os braços. — Os médicos do estado não duram uma semana. O povo tá desassistido e qualquer emergência com os nossos caras vira um transtorno pra descer pro asfalto. — Eu sei, Beto,suspirei, massageando as têmporas. — Precisamos contratar médicos urgente. Alguém fixo, bem pago, que não faça perguntas e que realmente saiba o que tá fazendo. Vou resolver isso logo. Não dá mais pra adiar. — Deixa comigo. Já tô mexendo os paus para achar alguém de fora que aceite o cachê sem dar fofoca. Ele assentiu e saiu. Eu precisei de um respiro. A cabeça estava fervendo com o peso da responsabilidade e a pressão do dia e ainda precisava acha a peste daquela loira que não saia da minha cabeça.A segunda-feira começou com aquele movimento bonito que enchia meu peito de orgulho. O novo anexo de funilaria e pintura parecia um coração pulsante nos fundos do galpão: os compressores modernos roncam baixo, o cheiro de tinta ecológica e metal limpo tomava o ar, e os quarenta alunos da nova turma dividiam-se entre as bancadas computadorizadas e os motores de teste.Eu estava no escritório do segundo andar, com a janela aberta para o pátio. Do meu ângulo, via o Marcos no centro de tudo, vestindo o macacão escuro com as mangas dobradas até os cotovelos. Ele explicava o manuseio da trena a laser para o Kauã, que absorvia cada instrução com os olhos brilhando. O garoto tinha um talento raro, uma precisão de quem aprendeu a respeitar a ferramenta.Foi por volta das dez da manhã que a atmosfera na travessa mudou.Eu estava descendo as escadas com a prancheta de frequência quando vi o Kauã travar no meio do pátio. O garoto segurava uma chave de fenda e, de repente, as mãos dele começaram a
O sábado amanheceu com aquele cheiro gostoso de rabanada e café recém-passado que invadia a casa toda. Do segundo andar, dava para ouvir o chiado macio da manteiga na frigideira e o som do rádio de pilha do meu pai tocando um chorinho antigo. Com as obras do anexo oficialmente concluídas e os equipamentos computadorizados acomodados no novo galpão de funilaria, o ar na nossa cozinha era de puro alívio e celebração.Sentamos todos ao redor da mesa redonda de madeira: eu, o Marcos, o meu pai e o pequeno Márcio Henrique, que já tentava alcançar a travessa de açúcar para melaço nos dedos antes da hora.— Sabe, pai... — comecei, rindo e limpando a bochecha do meu filho com o guardanapo —, ontem o pessoal da coordenação do posto de saúde me perguntou de onde veio essa minha força para a área de enfermagem e cuidar dos outros. Eu respondi orgulhosa que puxei a coragem do meu pai. Um homem que passou a vida inteira com a mão na graxa da oficina, mas que teve que virar parteiro de emergência n
A sexta-feira amanheceu com um céu limpo e aquele calor gostoso de fim de tarde antecipado que faz o Rio de Janeiro parecer mais vivo. Do segundo andar da nossa casa, o som que vinha dos fundos não era mais o estalo das picaretas na terra nem o ronco pesado da retroescavadeira, mas o bater ritmado das colheres de pedreiro arrematando os últimos retoques de massa nas colunas do novo anexo.Tirei o meu avental da cozinha, ajeitei o cabelo loiro num rabo de cavalo alto e desci para o pátio segurando uma prancheta com o cronograma de entrega do dia.Quando cheguei ao terreno dos fundos, parei por alguns segundos só para admirar o cenário. As paredes de tijolo baiano estavam completamente erguidas, com o contorno da grande porta de correr industrial já definido e a estrutura de ferro do telhado alto devidamente fixada. O mestre Tonho estava no topo de um andaime baixinho, passando a desempenadeira na última viga do teto.— Terminamos a alvenaria na risca do prazo, Dra. Maju! — gritou o vel
A segunda-feira despertou o bairro com aquela energia bonita de quem sabe para onde está indo. Depois do fim de semana restaurador em Penedo e do jantar abençoado em família no domingo, acordei antes do sol nascer. Olhei para o lado e vi o Marcos ainda dormindo sereno. Passei a mão suavemente pelos cabelos curtos dele e me levantei sem fazer barulho.Quando abri a janela da cozinha, o ar fresco da manhã trouxe o cheiro de café novo que o meu pai já tinha passado lá embaixo. Vesti minha calça jeans surrada, uma camiseta polo escura com a marca do *Sementes do Asfalto* e ajeitei meu cabelo loiro mel num rabo de cavalo prático. Quando desci as escadas, a oficina já estava operando na sua rotação máxima.No terreno dos fundos, o mestre Tonho e a equipe de pedreiros trabalhavam a todo vapor. As paredes de tijolo baiano do anexo de funilaria e pintura ecológica já tinham ultrapassado a altura dos ombros, e a estrutura de ferro para o novo telhado isolado começava a ser montada. O progresso


















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