Início / Romance / A Babá Que Eu Não Podia Amar / Capítulo 9 — Nova percepção

Compartilhar

Capítulo 9 — Nova percepção

Autor: Ester
last update Data de publicação: 2026-02-16 09:07:14

O escritório permanecia em silêncio.

Magno estava sentado, o corpo levemente inclinado para frente, os cotovelos apoiados sobre a mesa. A folha ainda estava ali.

O desenho.

As palavras.

Ele já havia lido mais de uma vez.

E ainda assim… não conseguia afastar a sensação que aquilo provocava.

A música.

Não estava escrita.

Mas estava ali.

Nos espaços.

Nas entrelinhas.

Na memória.

Ele fechou os olhos por um instante.

E, como sempre, ela veio.

Cecília.

Sentada perto da janela. A luz da tarde desenhando o contorno do rosto dela enquanto cantava. Theo pequeno, deitado com a cabeça no colo dela. Bella ainda na barriga, quieta, como se já reconhecesse aquela voz.

Era simples.

Era leve.

Era tudo o que ele perdeu.

Magno abriu os olhos rapidamente.

Como se tivesse ido longe demais.

Passou a mão pelo rosto, exausto.

Aquilo não era sobre lembrança.

Era sobre o presente.

Sobre o que estava acontecendo dentro da casa dele.

E sobre quem estava causando isso.

Ele se levantou.

Sem pensar muito.

E saiu do escritório.

Lívia estava no corredor quando ouviu a voz dele.

— Lívia.

Ela parou imediatamente.

Virou-se.

O coração acelerou sem que ela entendesse exatamente o porquê.

— Senhor Albuquerque.

Ele se aproximou.

A camisa social estava parcialmente aberta no colarinho, as mangas dobradas até o antebraço. O dia parecia ter sido longo — e, ainda assim, havia uma presença firme nele que preenchia o espaço.

— Precisamos conversar.

O tom não era duro.

Mas também não era leve.

Lívia assentiu.

— Claro.

Ele indicou a pequena sala ao lado do escritório.

Ela entrou primeiro.

Sentiu o olhar dele antes mesmo de ouvi-lo fechar a porta.

O silêncio veio rápido.

E ficou.

— Sobre o trabalho da Bella — ele começou.

Direto.

Sem rodeios.

— Foi uma iniciativa sua?

Lívia sustentou o olhar.

— Foi uma forma de ajudar.

Ele deu um passo à frente.

— Eu não perguntei isso.

A tensão subiu um pouco.

— Foi uma ideia que surgiu no momento — respondeu ela, mantendo a calma. — A Bella estava confusa… e o Theo—

— O Theo não reage bem a esse tipo de abordagem.

— Ele reagiu porque sente — interrompeu ela, antes de se conter.

O silêncio pesou.

Magno a encarou.

Mais fixo agora.

— E você acha que entende o que ele sente?

A pergunta veio baixa.

Mas carregada.

Lívia respirou fundo.

— Acho que ele está tentando não esquecer a mãe… e ao mesmo tempo não sabe como lidar com isso.

Magno passou a mão pelo maxilar, tensionado.

— E você decidiu interferir.

— Eu decidi não fingir que não estava acontecendo.

A resposta saiu mais firme do que ela pretendia.

O ar entre eles mudou.

Mais denso.

Mais próximo.

Ele se aproximou mais um passo.

Agora perto o suficiente para que ela percebesse detalhes que antes passariam despercebidos.

As veias marcadas no antebraço.

A tensão nos músculos.

O leve abrir da camisa revelando parte do peitoral.

Lívia desviou o olhar por um segundo.

Mas foi suficiente para perceber.

E sentir.

— Essa não é uma decisão que cabe a você — disse ele.

A voz mais baixa agora.

Mais controlada.

Mais perigosa.

Ela voltou a encará-lo.

— E ignorar não é uma boa decisão.

A pausa que veio depois foi diferente.

Não era só conflito.

Era… outra coisa.

Magno sustentou o olhar dela por mais tempo do que deveria.

Havia algo ali.

Na forma como ela não recuava.

Na forma como respondia.

Sem medo.

Sem submissão.

Isso o incomodava.

E atraía.

Ao mesmo tempo.

Ele respirou fundo, desviando o olhar por um instante.

Como se precisasse se reorganizar.

— Você não entende o que essa casa já passou.

— Talvez não da mesma forma — disse ela, mais suave agora. — Mas eu entendo o que é crescer tentando não perder o pouco que restou.

Aquilo o fez olhar de volta.

Direto.

Mais atento.

— E o que exatamente você acha que está fazendo aqui?

A pergunta veio mais baixa.

Menos defensiva.

Mais… real.

Lívia hesitou por um segundo.

Mas respondeu.

— Tentando fazer com que eles não se sintam sozinhos dentro da própria casa.

O impacto foi imediato.

E real.

Magno ficou imóvel por um instante.

O olhar preso nela.

Como se avaliasse algo além das palavras.

— Você está mudando a rotina — disse ele, depois.

Não como acusação.

Como constatação.

— Estou tentando melhorar.

— Sem autorização.

— Às vezes… esperar autorização também é uma forma de não fazer nada.

Ele soltou um pequeno ar pelo nariz.

Quase um riso.

Sem humor.

Mas diferente de antes.

— Você é insistente.

— Eu não costumo desistir fácil.

Os olhos dele voltaram para os dela.

Mais intensos agora.

Mais conscientes.

— Eu percebi.

O silêncio voltou.

Mas dessa vez…

não era desconfortável.

Era carregado.

Vivo.

Lívia sentiu o próprio coração acelerar.

Não pela discussão.

Mas pela proximidade.

Pela forma como ele a olhava agora.

Diferente.

Magno percebeu.

E foi exatamente isso que o fez dar um passo para trás.

Quebrando o momento.

— Mantenha-me informado — disse, retomando o tom profissional. — Sobre qualquer… mudança.

Ela assentiu.

— Certo.

Ele ainda a observou por um segundo.

Como se quisesse dizer algo a mais.

Mas não disse.

Abriu a porta.

— Pode ir.

Lívia passou por ele.

Sentindo o peso do olhar dele nas costas.

Quando a porta se fechou, Magno permaneceu parado.

As mãos apoiadas na mesa.

A respiração um pouco mais pesada do que deveria.

Aquilo não era só sobre as crianças.

Ele sabia disso agora.

E isso…

era exatamente o problema.

Porque, pela primeira vez em anos…

algo dentro dele não estava mais completamente sob controle.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • A Babá Que Eu Não Podia Amar   Capítulo 61 — Presença

    Nem toda presença chega fazendo barulho. Algumas... simplesmente permanecem. E, quando percebemos, já se tornaram parte da rotina. Os dias na faculdade passaram a seguir um ritmo próprio. Aulas. Provas. Seminários. Plantões de observação. Lívia ainda se sentia pequena diante de tudo o que precisava aprender. Mas, isso não a assustava. A motivava. — Você já percebeu? Júlia perguntou enquanto as duas caminhavam pelo campus. — O quê? — Você sorri muito mais agora. Lívia franziu levemente a testa. — Sorrio? — Muito. Júlia respondeu sem hesitar. — Quando chegou aqui parecia carregar o mundo nas costas. Agora... parece que está aprendendo a respirar de novo. Lívia ficou em silêncio. Nunca tinha pensado nisso. — Acho que a vida resolveu me dar uma segunda chance. Júlia sorriu. — Ou você quem resolveu aceitar. A frase ficou ecoando na cabeça de Lívia pelo restante do caminho. Na saída da aula, Rafael já estava esperando. Como quase t

  • A Babá Que Eu Não Podia Amar   Capítulo 60 — Ecos

    As primeiras semanas de aula passaram mais rápido do que Lívia imaginava.O ritmo era intenso.Leituras intermináveis.Novos professores.Laboratórios.Nomes difíceis de decorar.E uma rotina completamente diferente de tudo o que já tinha vivido.Pela primeira vez em muito tempo, ela tinha um objetivo que pertencia apenas a ela.Não era sobre sobrenomes.Nem sobre o passado.Era sobre o futuro.— Você vai acabar dormindo em cima desses livros.A voz fez Lívia levantar os olhos.Uma jovem colocou uma bandeja sobre a mesa da biblioteca e sorriu.— Posso?Lívia fechou um dos livros.— Claro.— Júlia.Ela estendeu a mão.— Lívia.— Eu sei.Júlia respondeu, divertida.— Você faz perguntas durante as aulas que ninguém tem coragem de fazer.Lívia riu, sem jeito.— Achei que estava incomodando.— Muito pelo contrário.Você salva metade da turma.As duas riram.A conversa fluiu com uma facilidade inesperada.Descobriram que moravam perto.Tinham professores favoritos parecidos.E dividiam o me

  • A Babá Que Eu Não Podia Amar   Capítulo 59 — Novos Caminhos

    O tempo não apaga as feridas. Mas ensina a caminhar mesmo com elas. Seis meses haviam passado desde a noite em que Lívia deixou a mansão Albuquerque ao lado de Rafael. Aurora continuava a mesma cidade. As mesmas ruas. Os mesmos sobrenomes importantes. As mesmas aparências. Mas, por trás delas... muita coisa havia mudado. — Tem certeza? Eduardo perguntou enquanto observava a filha assinar o último documento. Lívia sorriu. Dessa vez sem hesitar. — Tenho. Ana apertou discretamente a mão do marido. Era impossível esconder o orgulho. O sonho que, durante tantos anos, parecia distante agora começava a ganhar forma. Lívia acabava de concluir sua matrícula no curso de Medicina. Ao devolver a caneta para a atendente, respirou fundo. Parecia simples. Mas aquele gesto representava uma vida inteira. — Eu ainda não acredito. Ela confessou baixinho. Eduardo sorriu. — Eu acredito. Desde o dia em que descobri que você era minha filha. Os olhos dela marejaram. Ainda se emoci

  • A Babá Que Eu Não Podia Amar   Capítulo 58 - Porto seguro

    O caminho até o apartamento dos Alcântara foi silencioso outra vez. Mas agora… pesado. Muito mais do que antes. Lívia estava virada para a janela desde que entrou no carro. Os braços cruzados com força demais. O olhar perdido nas luzes da cidade passando rápido do lado de fora. Rafael dirigia. Mas claramente irritado. Ela percebia na forma como ele apertava o volante. No maxilar travado. Na respiração contida. — Você não precisava ter ficado lá ouvindo aquilo. A frase veio depois de vários minutos. Controlada. Mas carregada. Lívia fechou os olhos por um instante. Cansada. — O Theo estava mal. — E isso dá direito pra ele falar daquele jeito com você? Agora veio mais duro. Ela não respondeu imediatamente. Porque uma parte dela ainda estava tentando organizar tudo o que tinha sentido naquela casa. A discussão. O olhar do Magno. A mágoa do Theo. A sensação sufocante de ainda ser afetada por alguém que já tinha feito sua escolha. Rafael soltou o ar devagar. Tentan

  • A Babá Que Eu Não Podia Amar   Capítulo 57 — Invasões

    Fernando de Noronha deveria ser a última parada da viagem. Três dias. Descanso. Silêncio. Distância suficiente para que Magno voltasse ao Brasil com tudo reorganizado dentro da própria cabeça. Mas nada estava funcionando como deveria. Nem a viagem. Nem o casamento. Nem ele. O celular vibrou sobre a mesa do café da manhã pouco depois das oito. Magno olhou o visor. Teresa. Aquilo bastou para fazê-lo atender na mesma hora. — Aconteceu alguma coisa? Do outro lado, Teresa hesitou por um segundo antes de responder. — Desculpa incomodar sua lua de mel. A voz veio calma. Mas cansada. — Mas o Theo não está bem. Magno imediatamente endireitou a postura na cadeira. — O que aconteceu? — Ele está diferente desde que voltou da escola ontem. Uma pausa breve. — Muito fechado. Irritado. Não quis jantar direito. E praticamente não saiu do quarto. Magno passou a mão pelo rosto devagar. Cansado. Mais do que deveria. — Ele falou alguma coisa? Teresa

  • A Babá Que Eu Não Podia Amar   Capítulo 56 - Perdendo espaço

    — Acho que essa conversa já passou do limite. Grave. Controlada. Mas carregando tensão suficiente para mudar completamente o ar do quarto. Lívia congelou. Theo virou o rosto imediatamente. E Magno estava ali. Parado na entrada. Recém retornado da sua lua de mel. Mas o olhar preso nela. Por um segundo longo demais. Silencioso demais. Lívia sentiu o corpo inteiro travar. Porque fazia dias. Mas parecia muito mais. Theo foi o primeiro a reagir. — Eu mandei mensagem pra ela. A defesa veio rápida. Instintiva. Como se já esperasse conflito. Magno desviou o olhar para o filho. — Eu imaginei. A resposta saiu calma. Até demais. E isso preocupou mais. Lívia se levantou devagar da cama. Tentando recuperar o controle do próprio corpo. Da própria respiração. — Ele parecia mal. Magno voltou a olhar para ela. E aquilo ainda mexia. Mesmo depois de tudo. Mesmo depois da escolha dele. Porque ela ainda conhecia aquele olhar. Só não sabia

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status