INICIAR SESIÓNO telefone tocou no escritório pouco antes do meio-dia.
Magno atendeu sem tirar os olhos da tela do notebook. — Magno Albuquerque. — Senhor Magno, aqui é do Colégio Windsor Hall. A digitação cessou. — Sim. — Precisamos que um responsável compareça hoje. É sobre o Theo. Ele recostou-se na cadeira, pressionando levemente a testa. — O que aconteceu? — Preferimos conversar pessoalmente. Um breve silêncio. — Tenho compromissos inadiáveis. Alguém da casa pode ir. — Desde que seja um responsável direto. — Será resolvido. Ele desligou. Sem hesitar. Na cozinha, Teresa recebeu o recado com atenção. O olhar passou pela rotina mentalmente organizada… horários, equipe, compromissos. Então pousou em Lívia. — Preciso lhe pedir algo fora do habitual. Lívia ergueu o olhar. — Claro. — A escola chamou um responsável pelo Theo. Eu deveria ir… mas hoje não posso me ausentar. Uma breve pausa. — Você se sente preparada? O peso da responsabilidade foi imediato. Mas Lívia não recuou. — Sim. Eu posso ir. Teresa assentiu devagar. — O motorista já está sendo avisado. E, por um instante, houve algo no olhar dela. Aprovação. O Colégio Windsor Hall era tão imponente quanto a mansão. Talvez até mais. Lívia desceu do carro ajustando discretamente o vestido simples. Não por vaidade… mas por consciência. Do lugar. Das pessoas. Dos olhares. Dentro, tudo era organizado demais. Silencioso demais. Controlado demais. — Posso ajudar? — perguntou a recepcionista. — Vim tratar de um assunto do Theo Albuquerque. A mudança foi imediata. — Um momento. Poucos minutos depois, Lívia foi conduzida até a sala da diretora. A mulher atrás da mesa ergueu o olhar com precisão calculada. — Senhorita…? — Lívia Vasconcelos. Sou a babá. Um leve arquear de sobrancelha. — Entendo. Não houve questionamento direto. Mas houve avaliação. — Vamos ao ponto. Ela abriu uma pasta. — Theo… A diretora pausou. — Theo sente mais do que demonstra. A frase foi simples. Mas certeira. — Ele não é agressivo por natureza. Ele reage quando se sente exposto. — Exposto como? — perguntou Lívia, com calma. — Quando o assunto envolve família. A diretora deslizou um papel sobre a mesa. Um trabalho. Amassado. Remendado. — Ele não terminou. Lívia observou o papel por alguns segundos. — O que aconteceu? — Outro aluno fez um comentário sobre a presença do pai em um evento escolar. Uma pausa. — Theo não gostou. — Ele não bateu — completou a diretora. — Mas se fechou completamente. E rasgou o próprio trabalho depois. Isso dizia mais do que qualquer briga. Muito mais. A diretora a observou. — Ele não lida bem com ausência. Lívia sustentou o olhar. — Nem com substituições. — Eu não estou tentando substituir ninguém. A diretora a analisou por um segundo a mais. Como se estivesse recalculando algo. Então apertou o botão na mesa. — Pode chamá-lo. Theo entrou alguns minutos depois. Parou ao ver Lívia. Surpresa. Real. Não disfarçada. — Você? Não havia irritação. Só… confusão. — Vim te buscar — disse ela, com naturalidade. Ele franziu levemente o cenho. — Meu pai não veio? — Não pôde. Theo desviou o olhar por um segundo. Mas não reagiu como antes. — Entendi. A diretora observava. — Podemos ir? — perguntou Lívia. Theo assentiu. Sem discussão. Sem resistência. Bella apareceu no corredor minutos depois, animada. — Você veio?! Ela correu até Lívia, segurando a mão dela sem hesitar. — Aconteceu alguma coisa? — Só vamos para casa mais cedo hoje. Bella sorriu. Como se aquilo fosse um presente. No carro, o silêncio não era desconfortável. Era… diferente. Theo olhava pela janela. Mas, dessa vez, não parecia se esconder. — Você não precisava ter ido — disse ele, depois de alguns minutos. Sem olhar para ela. — Eu sei. Ele franziu o cenho. — Então por que foi? Lívia respondeu simples: — Porque você precisava. O silêncio voltou. Mas mudou de peso. Theo não respondeu. Mas também não se fechou. Ao chegarem na mansão, Bella ainda segurava a mão de Lívia. Theo observou o gesto. Mas não comentou. Subiu alguns degraus. Parou. Olhou para trás. — Eu não rasguei o trabalho por causa do menino. Lívia ergueu o olhar. — Eu imaginei. Ele hesitou. Como se decidir falar fosse mais difícil do que parecer. — Eu só… não queria fazer aquilo. Família. A palavra não precisou ser dita. Ela estava ali. — A gente pode fazer diferente — disse Lívia. Theo a encarou. — Diferente como? — Do seu jeito. Um silêncio. Curto. Mas importante. Ele assentiu de leve. Quase imperceptível. E subiu. Teresa surgiu no corredor logo depois. — Como foi? Lívia observou a escada por onde Theo havia desaparecido. — Ele não precisa de correção. Fez uma pequena pausa. — Precisa de espaço… e de alguém que não vá embora. Teresa assentiu devagar. — E você pretende ficar? Lívia não respondeu de imediato. Mas o olhar disse o suficiente.Nem toda presença chega fazendo barulho. Algumas... simplesmente permanecem. E, quando percebemos, já se tornaram parte da rotina. Os dias na faculdade passaram a seguir um ritmo próprio. Aulas. Provas. Seminários. Plantões de observação. Lívia ainda se sentia pequena diante de tudo o que precisava aprender. Mas, isso não a assustava. A motivava. — Você já percebeu? Júlia perguntou enquanto as duas caminhavam pelo campus. — O quê? — Você sorri muito mais agora. Lívia franziu levemente a testa. — Sorrio? — Muito. Júlia respondeu sem hesitar. — Quando chegou aqui parecia carregar o mundo nas costas. Agora... parece que está aprendendo a respirar de novo. Lívia ficou em silêncio. Nunca tinha pensado nisso. — Acho que a vida resolveu me dar uma segunda chance. Júlia sorriu. — Ou você quem resolveu aceitar. A frase ficou ecoando na cabeça de Lívia pelo restante do caminho. Na saída da aula, Rafael já estava esperando. Como quase t
As primeiras semanas de aula passaram mais rápido do que Lívia imaginava.O ritmo era intenso.Leituras intermináveis.Novos professores.Laboratórios.Nomes difíceis de decorar.E uma rotina completamente diferente de tudo o que já tinha vivido.Pela primeira vez em muito tempo, ela tinha um objetivo que pertencia apenas a ela.Não era sobre sobrenomes.Nem sobre o passado.Era sobre o futuro.— Você vai acabar dormindo em cima desses livros.A voz fez Lívia levantar os olhos.Uma jovem colocou uma bandeja sobre a mesa da biblioteca e sorriu.— Posso?Lívia fechou um dos livros.— Claro.— Júlia.Ela estendeu a mão.— Lívia.— Eu sei.Júlia respondeu, divertida.— Você faz perguntas durante as aulas que ninguém tem coragem de fazer.Lívia riu, sem jeito.— Achei que estava incomodando.— Muito pelo contrário.Você salva metade da turma.As duas riram.A conversa fluiu com uma facilidade inesperada.Descobriram que moravam perto.Tinham professores favoritos parecidos.E dividiam o me
O tempo não apaga as feridas. Mas ensina a caminhar mesmo com elas. Seis meses haviam passado desde a noite em que Lívia deixou a mansão Albuquerque ao lado de Rafael. Aurora continuava a mesma cidade. As mesmas ruas. Os mesmos sobrenomes importantes. As mesmas aparências. Mas, por trás delas... muita coisa havia mudado. — Tem certeza? Eduardo perguntou enquanto observava a filha assinar o último documento. Lívia sorriu. Dessa vez sem hesitar. — Tenho. Ana apertou discretamente a mão do marido. Era impossível esconder o orgulho. O sonho que, durante tantos anos, parecia distante agora começava a ganhar forma. Lívia acabava de concluir sua matrícula no curso de Medicina. Ao devolver a caneta para a atendente, respirou fundo. Parecia simples. Mas aquele gesto representava uma vida inteira. — Eu ainda não acredito. Ela confessou baixinho. Eduardo sorriu. — Eu acredito. Desde o dia em que descobri que você era minha filha. Os olhos dela marejaram. Ainda se emoci
O caminho até o apartamento dos Alcântara foi silencioso outra vez. Mas agora… pesado. Muito mais do que antes. Lívia estava virada para a janela desde que entrou no carro. Os braços cruzados com força demais. O olhar perdido nas luzes da cidade passando rápido do lado de fora. Rafael dirigia. Mas claramente irritado. Ela percebia na forma como ele apertava o volante. No maxilar travado. Na respiração contida. — Você não precisava ter ficado lá ouvindo aquilo. A frase veio depois de vários minutos. Controlada. Mas carregada. Lívia fechou os olhos por um instante. Cansada. — O Theo estava mal. — E isso dá direito pra ele falar daquele jeito com você? Agora veio mais duro. Ela não respondeu imediatamente. Porque uma parte dela ainda estava tentando organizar tudo o que tinha sentido naquela casa. A discussão. O olhar do Magno. A mágoa do Theo. A sensação sufocante de ainda ser afetada por alguém que já tinha feito sua escolha. Rafael soltou o ar devagar. Tentan
Fernando de Noronha deveria ser a última parada da viagem. Três dias. Descanso. Silêncio. Distância suficiente para que Magno voltasse ao Brasil com tudo reorganizado dentro da própria cabeça. Mas nada estava funcionando como deveria. Nem a viagem. Nem o casamento. Nem ele. O celular vibrou sobre a mesa do café da manhã pouco depois das oito. Magno olhou o visor. Teresa. Aquilo bastou para fazê-lo atender na mesma hora. — Aconteceu alguma coisa? Do outro lado, Teresa hesitou por um segundo antes de responder. — Desculpa incomodar sua lua de mel. A voz veio calma. Mas cansada. — Mas o Theo não está bem. Magno imediatamente endireitou a postura na cadeira. — O que aconteceu? — Ele está diferente desde que voltou da escola ontem. Uma pausa breve. — Muito fechado. Irritado. Não quis jantar direito. E praticamente não saiu do quarto. Magno passou a mão pelo rosto devagar. Cansado. Mais do que deveria. — Ele falou alguma coisa? Teresa
— Acho que essa conversa já passou do limite. Grave. Controlada. Mas carregando tensão suficiente para mudar completamente o ar do quarto. Lívia congelou. Theo virou o rosto imediatamente. E Magno estava ali. Parado na entrada. Recém retornado da sua lua de mel. Mas o olhar preso nela. Por um segundo longo demais. Silencioso demais. Lívia sentiu o corpo inteiro travar. Porque fazia dias. Mas parecia muito mais. Theo foi o primeiro a reagir. — Eu mandei mensagem pra ela. A defesa veio rápida. Instintiva. Como se já esperasse conflito. Magno desviou o olhar para o filho. — Eu imaginei. A resposta saiu calma. Até demais. E isso preocupou mais. Lívia se levantou devagar da cama. Tentando recuperar o controle do próprio corpo. Da própria respiração. — Ele parecia mal. Magno voltou a olhar para ela. E aquilo ainda mexia. Mesmo depois de tudo. Mesmo depois da escolha dele. Porque ela ainda conhecia aquele olhar. Só não sabia







