FAZER LOGINNo meio do turno, meus pés já não pareciam mais parte do meu corpo.
Era como se eu estivesse caminhando sobre duas pedras inflamadas, cada passo enviando uma fisgada quente pelas minhas pernas. O elástico do coque improvisado puxava meu couro cabeludo com tanta força que eu tinha certeza de que ficaria com dor de cabeça antes mesmo da madrugada chegar, e o uniforme — limpo, engomado, impecável — agora marcava minha pele suada como um lembrete cruel de que aquela noite estava longe de acabar.
Eu só queria sentar por cinco minutos.
Comer qualquer coisa.
Fechar os olhos.
Mas quando Sandra, a supervisora, apareceu na porta do vestiário com aquele sorriso que nunca significava coisa boa, soube que meus planos tinham acabado de morrer.
— Beatrice, vou precisar que você cubra o salão principal hoje.
— O salão… da festa?
Ela assentiu, como se estivesse me oferecendo um presente.
Uma das garçonetes havia ido embora mais cedo, alegando febre. Ninguém acreditou, mas também ninguém tinha tempo para discutir. Eventos daquele tamanho não esperavam.
Muito menos hóspedes milionários.
Tomei um banho rápido na área dos funcionários, deixando a água morna escorrer pela nuca na tentativa inútil de ressuscitar meu corpo. Troquei o uniforme de camareira pelo de garçonete — um vestido preto simples, meia-calça e sapatos que pareciam desenhados por alguém que odiava mulheres.
Olhei meu reflexo no espelho. Cansada. Muito cansada.
E gente como eu não tinha o luxo de recusar horas extras.
Eu precisava do dinheiro.
Sempre precisava.
O salão de eventos parecia outro mundo.
Lustres gigantes desciam do teto como cascatas de cristal, espalhando reflexos dourados por toda parte. Arranjos de flores brancas ocupavam o centro das mesas — flores que, provavelmente, custavam mais do que o aluguel da casa onde cresci. Mulheres flutuavam pelo ambiente em vestidos que pareciam impossíveis de respirar dentro, e homens riam alto demais, como se o volume da voz fosse diretamente proporcional ao tamanho das suas contas bancárias.
Uma torre de taças de champanhe foi erguida perto da pista de dança.
Observei um garçom derramar a bebida até que ela transbordasse pela base de vidro, escorrendo inutilmente.
Quantas compras aquele líquido jogado fora pagaria?
— Para de olhar assim — murmurou Raquel ao passar por mim com uma bandeja. — Senão alguém percebe que você ainda tem alma.
Soltei uma risada fraca.
— Só estava pensando que um único brinde aí deve pagar três meses do meu salário.
— Bem-vinda ao mundo dos ricos.
Peguei minha bandeja e comecei a circular entre os convidados, mantendo o sorriso profissional que eu já sabia usar sem sentir nada. Era quase uma armadura — invisível, mas necessária.
Foi Raquel quem tocou meu braço alguns minutos depois.
— Tá vendo aquela mesa perto das janelas?
Segui a direção do seu olhar e então meu estômago apertou.
Os italianos.
Mesmo à distância, havia algo diferente neles. Não era apenas a forma como estavam vestidos ou a postura naturalmente dominante — era o espaço ao redor. Como se as pessoas, instintivamente, evitassem chegar perto demais.
Como se orbitassem.
Mesmo sentado, parecia maior do que todos ao redor. O paletó escuro abraçava seus ombros largos com perfeição quase irritante, e as luzes do salão desenhavam reflexos suaves nos fios prateados próximos às suas têmporas.
Bonito não era a palavra certa.
Perigoso era mais honesto.
— Dizem que eles mexem com coisa errada — Raquel sussurrou.
— Errada como?
Ela deu de ombros.
— Não sei… mas gente daquele tipo não anda com seguranças daquele jeito à toa.
Fiquei observando por um segundo a mais do que deveria.
Como se sentisse, ele ergueu os olhos.
Desviei imediatamente.
Meu coração bateu mais rápido — irritantemente rápido — e odiei meu próprio corpo por reagir assim.
Continuei trabalhando, empilhando pratos e fingindo que não estou existindo nesse lugar, cumprindo minha função e tranquila por saber que esse mês terei algum dinheiro extra. Entre uma mesa e outra a curiosidade me fazia desviar o olhar até ele, talvez por sentir que eles está fazendo o mesmo.
Apenas um olhar firme, atento — o tipo que fazia você se perguntar há quanto tempo estava sendo observado.
Virei o rosto e segui em frente, fingindo não notar.
Homens assim não olham para mulheres como eu.
Eles escolhem.
E algo me dizia que ser escolhida por um homem daqueles não era exatamente uma sorte.
A festa avançou noite adentro até que as risadas começaram a soar mais altas e os passos, mais instáveis. Quando o último convidado finalmente saiu, senti um alívio tão grande que quase precisei me apoiar na parede.
Mas ainda havia trabalho.
Sempre havia.
Peguei um balde com água e segui para um dos corredores privados do andar superior — aqueles que os hóspedes importantes usavam para circular longe dos olhares curiosos. O silêncio ali era quase sagrado depois de tantas horas de música.
Mergulhei o pano na água e comecei a limpar o chão de mármore, observando minha própria expressão refletida na superfície polida, apenas mais alguns minutos e se tiver sorte conseguirei pegar o último ônibus para casa. De costas para porta, jogo um pouco de água e venho puxando.
Tarde demais percebi que alguém vinha na direção oposta. Levantei o rosto rapidamente, o pano ainda na mão, e dei um passo para trás — direto sobre a parte molhada do chão.
Meu sapato escorregou.
O mundo inclinou. Soltei um pequeno som de surpresa quando perdi o equilíbrio, já esperando o impacto frio contra o mármore, mas ele nunca veio.
Braços fortes me seguraram antes. O choque do contato roubou o ar dos meus pulmões.
Por um segundo, fiquei imóvel, tentando entender o que havia acontecido — até sentir o calor do corpo contra o meu e um perfume conhecido envolver meus sentidos.
Bergamota.
Couro.
Levantei os olhos devagar.
Vittorio Moretti.
Muito mais perto do que qualquer homem deveria estar. A gravata havia desaparecido, os primeiros botões da camisa abertos revelando a pele bronzeada do peito, e o olhar — mais escuro do que eu lembrava — parecia ligeiramente turvo.
Talvez bebida.
Talvez cansaço.
Talvez algo pior.
Uma de suas mãos ainda segurava minha cintura com firmeza, como se soltar fosse permitir que eu desaparecesse.
Por um instante que pareceu longo demais, ninguém falou nada.
Eu só conseguia sentir.
O calor.
A força.
A proximidade.
Meu coração disparou de um jeito traiçoeiro, e respirar se tornou uma tarefa surpreendentemente difícil.
Seus olhos desceram para minha boca por uma fração de segundo antes de voltarem aos meus.
E então eu soube, com uma clareza quase assustadora, que Raquel estava certa.
Saí da cobertura praticamente correndo, com os dois chocolates apertados dentro do bolso do avental e o coração batendo tão forte que parecia querer escapar pela garganta. Durante todo o caminho até o elevador, a voz daquele homem continuou ecoando na minha cabeça."Vamos nos ver de novo..."Balancei a cabeça com força, tentando afastar a lembrança.Não.Nunca mais.Assim que as portas do elevador se fecharam, apoiei a cabeça no espelho polido e soltei o ar lentamente. Eu precisava parar de pensar naquilo. Era apenas um hóspede. Um homem rico que, provavelmente, esqueceria meu rosto antes mesmo de deixar o hotel.Eu era só mais uma funcionária.Nada além disso.Quando o elevador chegou ao térreo, caminhei diretamente para a administração. Era sexta-feira. Dia de pagamento. Pela primeira vez em muitos meses, senti uma pontinha de esperança.A fila de funcionários ocupava boa parte do corredor dos fundos. Camareiras, recepcionistas, cozinheiros, garçons, todos esperando o envelope pardo
A mansão Grimaldi nunca tinha visto tanta gente. Rosetta passara três dias preparando, Marie organizara as flores, e até Massimo, que normalmente evitava multidões, apareceu no salão principal com um sorriso que eu não via nele há meses.Matteo completava sete anos. Sete anos de vida, mas parecia uma eternidade desde que ele chegara à nossa família — ou melhor, desde que eu chegara à dele.Ele estava no centro do salão, usando o terno azul-marinho que Vittorio escolhera, a pulseira de Giulia brilhando em seu pulso. Seus olhos percorriam a multidão, procurando alguém.— Ainda não chegou — eu disse, ajoelhando-me ao seu lado.— Ele prometeu.— Lorenzo cumpre promessas.Matteo mordeu o lábio, ansioso. Um ano. Um ano desde que Lorenzo partira para expandir os negócios, para encontrar seu próprio cami
O quarto estava silencioso. Giulia dormia no berço ao lado da cama, seus cabelos escuros espalhados no travesseiro como um leque de seda. Matteo já estava em seu quarto, exausto depois de um dia inteiro brincando com a irmã, ensinando-lhe palavras novas, mostrando-lhe o mundo.Vittorio estava no escritório, resolvendo os últimos detalhes do programa de bolsas. Eu deveria estar dormindo, mas havia algo que precisava fazer.Sentei-me à escrivaninha perto da janela, peguei uma caneta e um papel. O mar lá fora estava calmo, pintado de prata pela lua. Comecei a escrever.*Querida Giulia,**Você ainda é muito pequena para entender estas palavras. Talvez quando as ler, já seja uma mulher. Talvez o mundo tenha mudado. Talvez não. Mas quero que saiba, desde sempre, de onde veio. Quem era sua mãe antes de ser sua mãe. Quem era seu pai antes de ser seu pai.**Eu nasci no
O sol da tarde entrava pelas janelas da sala de estar, pintando o chão de ouro. Matteo estava no tapete persa, cercado por blocos de madeira coloridos, tentando construir uma torre que rivalizasse com as que via nos livros de histórias. Ao seu lado, Giulia, agora com pouco mais de um ano, batia palmas sempre que um bloco era colocado, sua risada um som que preenchia a casa como música.— Não, Giulia — Matteo dizia, paciente. — Esse é azul. O vermelho vai ali.Ela ignorava, como sempre, e pegava o bloco vermelho, colocando-o no topo da torre com uma precisão que surpreendia. Matteo suspirou, mas sorriu.— Tá bom. Vermelho também pode.Beatrice estava ao meu lado no sofá, um livro de contabilidade aberto no colo, mas seus olhos estavam fixos nas crianças. Seu cabelo, mais longo agora, caía sobre os ombros, e havia nela uma paz que eu nunca vira antes.
O sol da manhã entrava pelas janelas da sala de brinquedos, pintando o chão de ouro. Matteo e eu estávamos no tapete, cercados por lápis de cor e papéis espalhados. Ele desenhava um sol enorme, daqueles que só crianças sabem fazer — redondo, amarelo, com raios que pareciam braços abertos para abraçar o mundo.— Bia — disse ele, concentrado —, o sol do bebê vai ser igual ao meu?— Vai ser o sol que você ensinar.Ele sorriu, satisfeito, e continuou colorindo.Foi quando senti a primeira contração.Não foi como as cólicas que vinham tendo nas últimas semanas. Era mais forte, mais profunda, como se meu corpo inteiro se contraísse em uma onda que vinha do centro da terra. Fechei os olhos, respirei fundo, esperei passar.— Bia? — Matteo ergueu os olhos.— Tudo bem, amor. S&oacut
A manhã amanheceu cinzenta sobre a Calábria, nuvens baixas pairando sobre o mar como um presságio. Encontrei Lorenzo no escritório antes do amanhecer, como tantas vezes ao longo dos anos. Mas hoje era diferente. Hoje, ele estava arrumando os últimos documentos, fechando pastas, organizando o que ficaria e o que levaria.— Já decidiu? — perguntei da porta.Ele ergueu os olhos, um sorriso cansado nos lábios.— Já.Entrei, fechando a porta atrás de mim. O escritório parecia maior sem a presença dele, mais vazio. Como se parte da alma do lugar fosse embora com ele.— Para onde?— Primeiro, Nápoles. Depois, Roma. Talvez Milão. — Ele fechou a última pasta. — Precisamos expandir. Novos mercados, novas alianças. Ficar só na Calábria é morrer devagar.— Você est&aacu







