INICIAR SESIÓNO ar voltou aos meus pulmões de maneira irregular, quase trêmula, como se meu próprio corpo tivesse sido pego de surpresa pela proximidade. Afastei-me rápido demais — não por educação, nem por profissionalismo, mas por puro instinto de sobrevivência. Ainda assim, o calor das mãos dele parecia ter atravessado o tecido do uniforme e se alojado na minha pele, espalhando uma consciência incômoda por cada centímetro do meu corpo.
— Me desculpe — falei, ajustando o vestido preto com dedos menos firmes do que eu gostaria. — O chão está molhado… eu deveria ter avisado.
Ele não respondeu imediatamente.
Quando ergui os olhos, encontrei o olhar dele já fixo em mim, atento de uma forma silenciosa que me fez sentir observada não como uma funcionária qualquer, mas como algo que ele tentava decifrar. Vittorio Moretti não parecia um homem que se surpreendia com facilidade — e talvez por isso sua calma fosse mais perturbadora do que qualquer irritação.
— Então a culpa foi sua — disse por fim, a voz baixa, carregada de uma rouquidão suave que parecia vibrar no espaço entre nós.
Franzi a testa, sem saber se aquilo era uma acusação ou uma provocação.
— Perdão?
Um quase sorriso tocou o canto de sua boca.
— Se não tivesse molhado o chão… não teria caído em mim.
Meu coração falhou um compasso.
Era, definitivamente, uma provocação.
Endireitei os ombros, reunindo o pouco de postura profissional que ainda me restava.
— Posso garantir que não foi intencional… senhor.
Os olhos dele escureceram com algo próximo do divertimento.
— Vittorio — corrigiu, com tranquilidade. — “Senhor” me faz sentir mais velho do que sou.
Hesitei apenas um segundo. Usar o primeiro nome de um hóspede — ainda mais um homem como ele — atravessava limites invisíveis que eu sempre tive cuidado de respeitar.
Mas algo me dizia que Vittorio era o tipo de homem acostumado a ser atendido… não contrariado.
— Certo… Vittorio.
O nome soou estranho na minha boca. Íntimo demais. Próximo demais.
Ele passou a mão pelos cabelos escuros, e pela primeira vez notei um detalhe novo: havia um relaxamento sutil na sua postura, uma quebra mínima naquela rigidez quase militar. Não era embriaguez — longe disso. Era apenas o tipo de honestidade perigosa que surge quando um homem poderoso bebe o suficiente para baixar algumas defesas… mas não todas.
— Estou com um pequeno problema — disse.
— Posso chamar alguém da recepção?
— Perdi meu cartão.
Olhei para o corredor vazio e depois de volta para ele.
Havia algo quase improvável naquela confissão. Homens como Vittorio não pareciam o tipo que perdia coisas.
— Eu tenho um cartão mestre — respondi, depois de um breve silêncio. — Posso abrir a suíte para você.
Seus olhos permaneceram presos aos meus por um instante que se alongou além do necessário.
— Pode?
Havia um peso naquela pergunta — baixo, atento — que fez um arrepio discreto subir pela minha nuca.
Virei-me antes que ele percebesse.
— É parte do meu trabalho.
Caminhamos lado a lado pelo corredor silencioso. Eu estava absurdamente consciente da proximidade, do som controlado de seus passos, da forma como sua presença parecia alterar até a temperatura do ar. Quando chegamos à porta da suíte, aproximei o cartão do leitor eletrônico e a luz verde piscou com um clique suave.
Empurrei a porta.
— Pronto.
Já me preparava para sair quando a voz dele me alcançou.
— Espere.
Virei-me devagar.
— Sim?
— Tenho algo para você.
Meu instinto reagiu imediatamente.
Cautela.
Mesmo assim, entrei apenas alguns passos, mantendo-me perto da porta como quem precisa lembrar a si mesma que ainda podia ir embora.
A suíte estava mergulhada em meia-luz, iluminada apenas pelo brilho distante da cidade. O silêncio ali parecia mais espesso, quase íntimo.
Foi então que ele tirou algo do bolso interno do paletó e estendeu na minha direção.
Um chocolate.
O mesmo papel metálico.
A mesma cor profunda.
Não consegui evitar o pequeno sorriso que nasceu antes que eu tivesse tempo de contê-lo.
— Está me oferecendo um suborno para que eu esqueça que quase me derrubou?
— Estou oferecendo porque você claramente queria um ontem.
O calor subiu pelo meu rosto.
— Eu não roubei.
— Não disse que roubou.
Seus olhos sustentaram os meus com uma calma desconcertante.
— Disse que queria.
O silêncio que se instalou não era constrangedor.
Era carregado.
Peguei o chocolate devagar, tentando ignorar o fato de que nossos dedos quase se tocaram.
Erro.
Grande erro.
Porque, naquele instante, senti algo mudar.
Quando levantei os olhos novamente, ele já estava perto — perto o suficiente para que eu percebesse cada detalhe do seu rosto, cada linha firme, cada sombra da barba perfeitamente contornada.
— Seus olhos… — disse ele, a voz mais baixa agora — me lembram alguém que tentei esquecer.
Meu coração apertou sem que eu entendesse exatamente por quê.
— Alguém importante?
A mandíbula dele se tensionou.
— Mais do que deveria ter sido.
Dei um passo para trás.
Aquilo era perigoso.
Tudo naquela situação era perigoso.
Homens como Vittorio não cruzavam o caminho de mulheres como eu sem deixar marcas.
— Eu deveria voltar ao trabalho.
Mas já era tarde.
Ele se aproximou com a lentidão calculada de quem nunca precisou correr atrás de nada — nem de ninguém. Sua mão subiu devagar até meu rosto, e tive tempo suficiente para recuar.
Não recuei.
Seus dedos tocaram meu queixo com uma delicadeza que contradizia tudo o que eu intuía sobre ele, inclinando levemente meu rosto.
Meu coração disparou.
— Isso é uma péssima ideia — sussurrei.
Não era um protesto.
Era uma rendição antecipada.
O olhar dele desceu até minha boca, demorando-se ali como se aquele fosse um pensamento que ele já não fazia questão de esconder.
— Provavelmente — respondeu.
E então me beijou.
Não houve pressa.
Nem urgência descontrolada.
O beijo começou quase contido, como um teste silencioso, um roçar de lábios que parecia mais uma pergunta do que uma invasão. O mundo ao redor perdeu definição, e tudo o que consegui registrar foi o contraste entre a firmeza da mão dele na minha cintura e a surpreendente suavidade com que sua boca se movia contra a minha.
Eu deveria ter parado.
Deveria ter lembrado quem ele era.
Deveria ter me afastado.
Mas, em vez disso, senti meus dedos se fecharem no tecido da sua camisa, como se precisassem de apoio para sustentar aquele instante vertiginoso. Um calor lento começou a se espalhar pelo meu corpo, dissolvendo o cansaço, o bom senso, as regras — tudo.
Quando o beijo se aprofundou, um arrepio percorreu minha espinha, e um suspiro escapou antes que eu pudesse contê-lo. Aquilo pareceu ser o suficiente para que algo nele também cedesse, porque sua mão deslizou para minhas costas, puxando-me para mais perto, eliminando qualquer espaço que ainda existisse entre nós.
Era intenso.
Perigoso.
E absurdamente fácil se perder ali.
Só quando o ar começou a faltar percebi que estava tremendo, não de medo, mas de uma antecipação que me assustava mais do que deveria.
Afastei-me primeiro, o peito subindo e descendo rápido demais.
Seus olhos ainda estavam sobre mim quando abri os meus.
Mais escuros.
Mais quentes.
E avançaram sobre mim com mais voracidade.
Saí da cobertura praticamente correndo, com os dois chocolates apertados dentro do bolso do avental e o coração batendo tão forte que parecia querer escapar pela garganta. Durante todo o caminho até o elevador, a voz daquele homem continuou ecoando na minha cabeça."Vamos nos ver de novo..."Balancei a cabeça com força, tentando afastar a lembrança.Não.Nunca mais.Assim que as portas do elevador se fecharam, apoiei a cabeça no espelho polido e soltei o ar lentamente. Eu precisava parar de pensar naquilo. Era apenas um hóspede. Um homem rico que, provavelmente, esqueceria meu rosto antes mesmo de deixar o hotel.Eu era só mais uma funcionária.Nada além disso.Quando o elevador chegou ao térreo, caminhei diretamente para a administração. Era sexta-feira. Dia de pagamento. Pela primeira vez em muitos meses, senti uma pontinha de esperança.A fila de funcionários ocupava boa parte do corredor dos fundos. Camareiras, recepcionistas, cozinheiros, garçons, todos esperando o envelope pardo
A mansão Grimaldi nunca tinha visto tanta gente. Rosetta passara três dias preparando, Marie organizara as flores, e até Massimo, que normalmente evitava multidões, apareceu no salão principal com um sorriso que eu não via nele há meses.Matteo completava sete anos. Sete anos de vida, mas parecia uma eternidade desde que ele chegara à nossa família — ou melhor, desde que eu chegara à dele.Ele estava no centro do salão, usando o terno azul-marinho que Vittorio escolhera, a pulseira de Giulia brilhando em seu pulso. Seus olhos percorriam a multidão, procurando alguém.— Ainda não chegou — eu disse, ajoelhando-me ao seu lado.— Ele prometeu.— Lorenzo cumpre promessas.Matteo mordeu o lábio, ansioso. Um ano. Um ano desde que Lorenzo partira para expandir os negócios, para encontrar seu próprio cami
O quarto estava silencioso. Giulia dormia no berço ao lado da cama, seus cabelos escuros espalhados no travesseiro como um leque de seda. Matteo já estava em seu quarto, exausto depois de um dia inteiro brincando com a irmã, ensinando-lhe palavras novas, mostrando-lhe o mundo.Vittorio estava no escritório, resolvendo os últimos detalhes do programa de bolsas. Eu deveria estar dormindo, mas havia algo que precisava fazer.Sentei-me à escrivaninha perto da janela, peguei uma caneta e um papel. O mar lá fora estava calmo, pintado de prata pela lua. Comecei a escrever.*Querida Giulia,**Você ainda é muito pequena para entender estas palavras. Talvez quando as ler, já seja uma mulher. Talvez o mundo tenha mudado. Talvez não. Mas quero que saiba, desde sempre, de onde veio. Quem era sua mãe antes de ser sua mãe. Quem era seu pai antes de ser seu pai.**Eu nasci no
O sol da tarde entrava pelas janelas da sala de estar, pintando o chão de ouro. Matteo estava no tapete persa, cercado por blocos de madeira coloridos, tentando construir uma torre que rivalizasse com as que via nos livros de histórias. Ao seu lado, Giulia, agora com pouco mais de um ano, batia palmas sempre que um bloco era colocado, sua risada um som que preenchia a casa como música.— Não, Giulia — Matteo dizia, paciente. — Esse é azul. O vermelho vai ali.Ela ignorava, como sempre, e pegava o bloco vermelho, colocando-o no topo da torre com uma precisão que surpreendia. Matteo suspirou, mas sorriu.— Tá bom. Vermelho também pode.Beatrice estava ao meu lado no sofá, um livro de contabilidade aberto no colo, mas seus olhos estavam fixos nas crianças. Seu cabelo, mais longo agora, caía sobre os ombros, e havia nela uma paz que eu nunca vira antes.
O sol da manhã entrava pelas janelas da sala de brinquedos, pintando o chão de ouro. Matteo e eu estávamos no tapete, cercados por lápis de cor e papéis espalhados. Ele desenhava um sol enorme, daqueles que só crianças sabem fazer — redondo, amarelo, com raios que pareciam braços abertos para abraçar o mundo.— Bia — disse ele, concentrado —, o sol do bebê vai ser igual ao meu?— Vai ser o sol que você ensinar.Ele sorriu, satisfeito, e continuou colorindo.Foi quando senti a primeira contração.Não foi como as cólicas que vinham tendo nas últimas semanas. Era mais forte, mais profunda, como se meu corpo inteiro se contraísse em uma onda que vinha do centro da terra. Fechei os olhos, respirei fundo, esperei passar.— Bia? — Matteo ergueu os olhos.— Tudo bem, amor. S&oacut
A manhã amanheceu cinzenta sobre a Calábria, nuvens baixas pairando sobre o mar como um presságio. Encontrei Lorenzo no escritório antes do amanhecer, como tantas vezes ao longo dos anos. Mas hoje era diferente. Hoje, ele estava arrumando os últimos documentos, fechando pastas, organizando o que ficaria e o que levaria.— Já decidiu? — perguntei da porta.Ele ergueu os olhos, um sorriso cansado nos lábios.— Já.Entrei, fechando a porta atrás de mim. O escritório parecia maior sem a presença dele, mais vazio. Como se parte da alma do lugar fosse embora com ele.— Para onde?— Primeiro, Nápoles. Depois, Roma. Talvez Milão. — Ele fechou a última pasta. — Precisamos expandir. Novos mercados, novas alianças. Ficar só na Calábria é morrer devagar.— Você est&aacu







