FAZER LOGINA casa cheirava a pobreza, álcool e medo. Um cheiro que eu conhecia bem, das vielas de Reggio Calabria, dos cortiços onde homens fracos morriam por ambições pequenas. Permiti que meu olhar percorresse o ambiente — móveis quebrados, paredes manchadas, uma garrafa vazia rolando no chão — antes de finalmente pousar nela.
Beatrice.
Encostada na parede, pálida, os olhos arregalados de compreensão tardia. Via os fragmentos se encaixarem na mente dela: o homem do hotel, o roubo do pai, a invasão. Era quase divertido, esse momento de iluminação, quando a presa entende que já estava na armadilha muito antes de ouvir o estalo do aço.
Ignorei-a.
A arte do poder não está no que se mostra, mas no que se escolhe não ver. E naquele momento, ela era invisível.
Meu foco era o homem ajoelhado no centro da sala, sangrando pela boca onde Lorenzo o atingira com um soco seco. José Oliveira. Pequeno. Desesperado. O tipo de rato que acha que pode roubar do leão e sair ileso.
— O produto — disse, em português arrastado pelo sotaque calabrês. — Onde está?
— Não tenho… já vendi parte… — o homem gaguejou, os olhos saltando entre mim e meus homens.
Lorenzo, sem precisar de ordens, aplicou outro golpe. Um chute nas costelas que fez o ar sair dos pulmões do homem em um gemido úmido. Meu irmão sempre foi o mais eficiente na dor. Não por sadismo, mas por pragmatismo. A dor é uma língua universal; até os mais burros aprendem rápido seu vocabulário.
— Os nomes dos outros — continuei, cruzando os braços. — E o que sobrou da mercadoria.
O homem cuspiu sangue e dentes quebrados no chão sujo.
— Tico… e Marco… o resto está com eles… eu juro!
Lorenzo olhou para mim.
Um leve aceno.
Ele se abaixou, pegou o homem pelo cabelo, forçando-o a olhar para cima.
— Na Calábria — disse Lorenzo, suave como seda cortante —, roubo se paga com sangue. Você roubou da família errada.
O terror no rosto de José foi quase palpável. Sua respiração acelerou, os olhos se arregalaram como os de um animal encurralado. Ele olhou para a filha, encolhida contra a parede.
— Por favor… não tenho dinheiro… não tenho nada para pagar…
Lorenzo soltou-o. O homem caiu de lado, chorando agora, soluços infantis que ecoavam na sala miserável.
— Então paga com a vida — disse Lorenzo, tirando a pistola da coldé.
Foi então que o rato mostrou sua natureza.
— Esperem! — ele gritou, arrastando-se de joelhos. — Levem ela! Levem minha filha! Ela vale… pode trabalhar, pode servir!
O silêncio que se seguiu foi mais pesado que qualquer grito. Até meus homens, endurecidos por anos de violência, pareceram parar por uma fração de segundo. Vendi a própria filha por uns quilos de cocaína roubada. Era patético. Era humano.
Meus olhos finalmente encontraram os dela.
Beatriz não chorava. Não gritava. Estava paralisada, os olhos fixos no pai, como se visse pela primeira vez o monstro que sempre esteve ali. Havia algo naquela expressão — uma desilusão tão profunda que beirava o vazio — que me irritou. Esperava luta. Esperada fogo. Não essa rendição silenciosa.
— Ela? — perguntei, como se estivesse avaliando gado.
— Sim! Sim! É jovem, é forte… faz qualquer coisa! Só me deixem viver!
Lorenzo olhou para mim, uma sobrancelha levemente arqueada. Massimo, que permanecera na porta, sorriu a expressão predatória de um lobo que fareja carne fresca.
Caminhei até o homem, me abaixei até ficar no seu nível.
Seu cheiro — suor, medo, álcool — era repulsivo.
— Aceito — disse.
Seus olhos brilharam com alívio imediato, egoísta. Não um pingo de remorso. Apena salvação própria.
— Obrigado… obrigado, senhor…
— Mas — interrompi, erguendo um dedo —, na Calábria, traição também tem preço.
Fiz um gesto para Massimo. Meu irmão mais novo avançou, os nós dos dedos já sangrando de antecipação. Os primeiros socos foram metódicos, precisos. Depois, quando o homem começou a gritar, tornaram-se mais brutais. Não o mataria. A ordem era clara: deixá-lo vivo, mas quebrado. Que ele fosse um exemplo ambulante do que acontece quando se rouba dos Grimaldi.
Virei as costas para a cena e caminhei até Beatriz.
Ela não recuou. Surpreendentemente, manteve a postura, embora seus olhos estivessem fixos em mim com uma mistura de ódio e terror.
— Você — sussurrou.
Dois dos meus homens a agarraram pelos braços. Ela lutou então, finalmente, com uma fúria que quase a fez escapar. Boa. Preferia uma leoa a um cordeiro.
— Soltem! — ela gritou, chutando. — Seu monstro!
Sorri. Monstro. Era o menor dos meus títulos.
Ela foi arrastada para fora, os gritos ecoando na rua silenciosa. Segui, deixando Lorenzo para supervisionar o resto do “trabalho”.
No carro — um sedan preto, vidros escurecidos —, ela continuou a lutar. Arranhou o rosto de um dos homens, cuspiu, tentou abrir a porta em movimento. Eu apenas observei, sentado ao lado dela, imóvel.
— Me soltem! Vou gritar! Vou chamar a polícia!
— Grite — disse, calmamente. — Ninguém virá.
Ela parou, ofegante, os cabelos despenteados cobrindo parte do rosto. Seus olhos, aqueles olhos castanhos que me haviam desafiado no hotel, agora cintilavam com lágrimas de raiva.
— Quem… quem é você? — a pergunta saiu em um sussurro rouco, como se ela já soubesse a resposta, mas precisasse ouvi-la para acreditar.
Virei-me completamente para encará-la. Deixei que ela visse tudo — a frieza, a falta de remorso, a absoluta certeza do meu poder.
— Vittorio Grimaldi. Don da Ndrangheta. — Fiz uma pausa, deixando as palavras pesarem. — E sua vida, a partir deste momento, pertence a mim.
Seu queixo tremeu, mas ela não desviou o olhar. Coragem. Ou estupidez. Ainda não decidira.
O carro acelerou, deixando a favela para trás. Ela encolheu-se no canto, abraçando os joelhos, uma imagem de derrota que, por algum motivo, me desagradou. Lembrei-me então do chocolate no bolso do meu casaco, o mesmo que ela quase roubara, o mesmo que eu lhe dera depois.
Tirei-o. A embalagem vermelha e dourada brilhava sob a luz fraca do carro.
Estendi-o para ela.
Ela olhou como se fosse uma arma.
— Tome — ordenei.
Hesitou, então pegou com dedos trêmulos.
— Guarde — disse, mantendo a voz neutra. — Vai precisar.
Saí da cobertura praticamente correndo, com os dois chocolates apertados dentro do bolso do avental e o coração batendo tão forte que parecia querer escapar pela garganta. Durante todo o caminho até o elevador, a voz daquele homem continuou ecoando na minha cabeça."Vamos nos ver de novo..."Balancei a cabeça com força, tentando afastar a lembrança.Não.Nunca mais.Assim que as portas do elevador se fecharam, apoiei a cabeça no espelho polido e soltei o ar lentamente. Eu precisava parar de pensar naquilo. Era apenas um hóspede. Um homem rico que, provavelmente, esqueceria meu rosto antes mesmo de deixar o hotel.Eu era só mais uma funcionária.Nada além disso.Quando o elevador chegou ao térreo, caminhei diretamente para a administração. Era sexta-feira. Dia de pagamento. Pela primeira vez em muitos meses, senti uma pontinha de esperança.A fila de funcionários ocupava boa parte do corredor dos fundos. Camareiras, recepcionistas, cozinheiros, garçons, todos esperando o envelope pardo
A mansão Grimaldi nunca tinha visto tanta gente. Rosetta passara três dias preparando, Marie organizara as flores, e até Massimo, que normalmente evitava multidões, apareceu no salão principal com um sorriso que eu não via nele há meses.Matteo completava sete anos. Sete anos de vida, mas parecia uma eternidade desde que ele chegara à nossa família — ou melhor, desde que eu chegara à dele.Ele estava no centro do salão, usando o terno azul-marinho que Vittorio escolhera, a pulseira de Giulia brilhando em seu pulso. Seus olhos percorriam a multidão, procurando alguém.— Ainda não chegou — eu disse, ajoelhando-me ao seu lado.— Ele prometeu.— Lorenzo cumpre promessas.Matteo mordeu o lábio, ansioso. Um ano. Um ano desde que Lorenzo partira para expandir os negócios, para encontrar seu próprio cami
O quarto estava silencioso. Giulia dormia no berço ao lado da cama, seus cabelos escuros espalhados no travesseiro como um leque de seda. Matteo já estava em seu quarto, exausto depois de um dia inteiro brincando com a irmã, ensinando-lhe palavras novas, mostrando-lhe o mundo.Vittorio estava no escritório, resolvendo os últimos detalhes do programa de bolsas. Eu deveria estar dormindo, mas havia algo que precisava fazer.Sentei-me à escrivaninha perto da janela, peguei uma caneta e um papel. O mar lá fora estava calmo, pintado de prata pela lua. Comecei a escrever.*Querida Giulia,**Você ainda é muito pequena para entender estas palavras. Talvez quando as ler, já seja uma mulher. Talvez o mundo tenha mudado. Talvez não. Mas quero que saiba, desde sempre, de onde veio. Quem era sua mãe antes de ser sua mãe. Quem era seu pai antes de ser seu pai.**Eu nasci no
O sol da tarde entrava pelas janelas da sala de estar, pintando o chão de ouro. Matteo estava no tapete persa, cercado por blocos de madeira coloridos, tentando construir uma torre que rivalizasse com as que via nos livros de histórias. Ao seu lado, Giulia, agora com pouco mais de um ano, batia palmas sempre que um bloco era colocado, sua risada um som que preenchia a casa como música.— Não, Giulia — Matteo dizia, paciente. — Esse é azul. O vermelho vai ali.Ela ignorava, como sempre, e pegava o bloco vermelho, colocando-o no topo da torre com uma precisão que surpreendia. Matteo suspirou, mas sorriu.— Tá bom. Vermelho também pode.Beatrice estava ao meu lado no sofá, um livro de contabilidade aberto no colo, mas seus olhos estavam fixos nas crianças. Seu cabelo, mais longo agora, caía sobre os ombros, e havia nela uma paz que eu nunca vira antes.
O sol da manhã entrava pelas janelas da sala de brinquedos, pintando o chão de ouro. Matteo e eu estávamos no tapete, cercados por lápis de cor e papéis espalhados. Ele desenhava um sol enorme, daqueles que só crianças sabem fazer — redondo, amarelo, com raios que pareciam braços abertos para abraçar o mundo.— Bia — disse ele, concentrado —, o sol do bebê vai ser igual ao meu?— Vai ser o sol que você ensinar.Ele sorriu, satisfeito, e continuou colorindo.Foi quando senti a primeira contração.Não foi como as cólicas que vinham tendo nas últimas semanas. Era mais forte, mais profunda, como se meu corpo inteiro se contraísse em uma onda que vinha do centro da terra. Fechei os olhos, respirei fundo, esperei passar.— Bia? — Matteo ergueu os olhos.— Tudo bem, amor. S&oacut
A manhã amanheceu cinzenta sobre a Calábria, nuvens baixas pairando sobre o mar como um presságio. Encontrei Lorenzo no escritório antes do amanhecer, como tantas vezes ao longo dos anos. Mas hoje era diferente. Hoje, ele estava arrumando os últimos documentos, fechando pastas, organizando o que ficaria e o que levaria.— Já decidiu? — perguntei da porta.Ele ergueu os olhos, um sorriso cansado nos lábios.— Já.Entrei, fechando a porta atrás de mim. O escritório parecia maior sem a presença dele, mais vazio. Como se parte da alma do lugar fosse embora com ele.— Para onde?— Primeiro, Nápoles. Depois, Roma. Talvez Milão. — Ele fechou a última pasta. — Precisamos expandir. Novos mercados, novas alianças. Ficar só na Calábria é morrer devagar.— Você est&aacu






