FAZER LOGINSamuel
O dia tinha tudo para terminar em copo de uísque e silêncio, não em armadilha. Passei horas trancado na sala de reuniões, ouvindo acionistas repetirem as mesmas preocupações com vozes diferentes. A fusão com a joalheria da família de Sarah parecia um casamento dentro do casamento: cheia de cláusulas, pouca escolha. Queriam datas, números, garantias. Queriam, acima de tudo, um herdeiro para colocar na propaganda como se fosse mais um produto da linha de luxo. — Um filho Zaskc tranquilizaria o mercado. — disse um deles, ajeitando os óculos. — Estabilidade passa pela sucessão. Respirei fundo, contei até dez e respondi com o mesmo discurso de sempre: — Estamos trabalhando nisso, é questão de tempo, minha vida pessoal não entra em pauta. Mentira pela metade. Minha vida pessoal entrou em pauta no dia em que assinei o casamento como se fosse contrato de fusão. Quando finalmente saí de lá, a cabeça latejava. O trânsito até a mansão foi um borrão de faróis e buzinas. Eu só queria chegar, tomar um banho quente, algum álcool e esquecer o mundo por algumas horas. Ao entrar no hall, encontrei a cena perfeita de comercial de família rica. A casa cheirava a alguma coisa cara saindo do forno, vela acesa, luz amarelada. Sarah sabia montar quadro como ninguém. Ela apareceu no alto da escada, vestido vermelho que grudava no corpo, sorriso treinado. — Boa noite, meu amor. — desceu devagar, como se houvesse câmeras. — Dia difícil? — Como sempre. — respondi, entregando a pasta a um dos funcionários. — Só quero comer e não falar de trabalho. Os olhos dela brilharam de um jeito que eu não soube ler na hora. — Então você teve sorte. — disse, puxando meu braço com delicadeza. — O jantar hoje é só para nós dois. A mesa estava posta de um jeito que nem em eventos oficiais eu via, pratos perfeitos, taças alinhadas, vinho já respingando na garrafa. Um exagero calculado. Sentei, afrouxei a gravata e aceitei a taça que ela me ofereceu. — Experimenta. — Sarah pediu. — Escolhi esse vinho especialmente para você. Dei um gole, sem prestar muita atenção no sabor. Estava bom, como tudo o que o dinheiro compra. Ela enchia meu prato, falava de desfiles, de fotos, de alguma entrevista que tinha dado naquele dia. Eu respondia com monossílabos, mais interessado no silêncio que não vinha. Em algum momento, deixei a taça na mesa para atender uma mensagem urgente do diretor financeiro. Olhei o celular por alguns segundos, respondi o que precisava, guardei de novo. Quando voltei a atenção para a mesa, a taça estava exatamente no mesmo lugar. Ou achei que estava. Peguei de novo e bebi sem pensar. O gosto parecia igual, mas havia um leve amargor no fundo da língua, algo que eu poderia ter atribuído ao cansaço. Só que, alguns minutos depois, o corpo começou a desmentir o cansaço. Um calor estranho subiu do peito para o pescoço. O terno, que sempre vestiu como armadura, começou a incomodar. O colarinho parecia mais apertado. — Está tudo bem? — Sarah perguntou, inclinando a cabeça. — Você está meio vermelho. — Só foi um dia longo. — sussurrei, passando a mão pela nuca. — Acho que exagerei no vinho. Continuei comendo, mas a comida perdeu o gosto. O rosto dela ficou mais nítido que o restante da sala, como se o foco estivesse errado. A luz parecia mais forte, cada cheiro mais intenso. Perfume, vela, vinho. Tudo misturado. O coração acelerou como em início de corrida, embora eu estivesse parado na cadeira. Senti um peso diferente na respiração, como se o ar tivesse ficado mais quente, mais denso. Um calor conhecido, mas deslocado, descendo pelo corpo no ritmo errado. — “O que diabos é isso?” — pensei. Larguei o garfo sem querer. O metal fez um barulho mais alto do que deveria ao bater no prato. — Samuel? — a voz de Sarah soou mais próxima. — Você está suando. Levei a mão ao rosto. Estava mesmo. A testa úmida, a palma quente. O blazer parecia uma camisa de força. — Acho que o vinho me pegou mal. — forcei um riso. — Vou subir, tomar um banho… Quando tentei levantar, o chão deu uma leve girada sob os meus pés. Não o suficiente para me derrubar, mas o suficiente para eu perceber que não era apenas álcool. Eu conhecia a sensação de estar bêbado. Aquilo era outra coisa. Um turbilhão específico, pesado, focando onde não devia. Sarah se levantou rápido, já pegando meu braço. — Vem, eu te ajudo. — ela sussurrou, próximo demais. O cheiro do perfume dela, adocicado, invadiu tudo. Em outra noite, talvez eu apenas tolerasse. Naquele momento, me enjoou. O calor no corpo se concentrou na região do baixo ventre, um despertar brusco, irreal. Como se alguém tivesse apertado um botão. — O que você colocou na minha bebida? — perguntei, a voz mais rouca do que eu pretendia. Ela sorriu. Um sorriso bonito, milimetricamente ensaiado, que nunca chegou aos olhos. — Só coragem, meu amor. — respondeu, deslizando a mão pelo meu peito, descendo devagar. — Você anda precisando. Tentei afastar a mão dela, mas o corpo parecia dividido. A cabeça gritava, o sangue corria em direção oposta. A proximidade dela, a pele, o vestido, tudo conspirava com o efeito que estava dentro de mim. Mas, junto com o desejo físico, veio uma sensação de invasão. Como se eu não estivesse dirigindo o próprio corpo. Ela tentou me conduzir pelo corredor até o quarto. Cada passo era mais pesado. A visão oscilava levemente, como se o foco entrasse e saísse. O coração batia forte demais no peito, quase dolorido. — Sarah… — segurei o batente da porta para não cambalear. — Isso não está certo. — O que não está certo é você tratar nosso casamento como reunião de agenda. — ela sussurrou no meu ouvido, puxando meu rosto. — Você é meu marido. Eu sou sua esposa. É simples. Ela tentou me beijar. A boca dela estava perfeita, mas eu só consegui sentir o gosto do vinho misturado com algo artificial. A mão dela desceu outra vez, insistente, como se estivesse tentando acionar um reflexo. O corpo respondeu, sim, mas não por vontade. E isso fez tudo dentro de mim se revoltar. Empurrei as mãos dela, mais forte do que planejei. — Eu não quero você assim. — soltei, ofegante. Ela recuou um passo, surpresa e irritada ao mesmo tempo. — Assim como? Sua esposa? — Assim… forçada. Fabricada. — encostei a testa na parede por um segundo, tentando organizar o pensamento. — Seja lá o que você tenha feito, eu não pedi. Os olhos dela gelaram. Por um instante, vi a mulher das reuniões com o conselho, não a da capa da revista. — Você nunca pede nada, Samuel. — ela disparou. — Só nega. Nega a mim, nega ao herdeiro, nega a responsabilidade. Talvez seja hora de alguém tomar as rédeas. As palavras chegavam quebradas. A respiração pesava. O corpo continuava exigindo um tipo de alívio que eu não queria dar àquela situação. Era como estar preso num corpo que não obedecia por completo. Afastei-me da porta do quarto sem saber bem como cheguei ali, quase tropeçando no tapete. Sarah tentou me puxar de volta. — Onde você vai? — Sair daqui. — respondi, sem olhar para trás. — Preciso de ar. O corredor se alongou diante de mim como se fosse maior do que de costume. Cada passo fazia o chão parecer um pouco mais macio, a luz mais embaçada. Desci metade da escada segurando no corrimão com força. A mansão, sempre tão organizada, começou a parecer um labirinto. Eu precisava de algo real. De um ponto fixo no meio daquele turbilhão químico. E a primeira imagem que veio foi ela. Anny, rindo timidamente na cozinha quando alguém contava uma piada boba. Anny mordendo o lábio inferior quando estava nervosa. Anny desviando o olhar depois de um beijo roubado num corredor escuro, como se quisesse apagar a própria existência. Não era racional. Não era certo. Mas, no meio daquela confusão, era a única coisa que fazia sentido. Passei pelos fundos, pelas escadas de serviço, como tantas outras vezes. Só que, daquela vez, cada degrau parecia uma prova de equilíbrio. O coração batia alto demais, o corpo inteiro quente, o tecido da camisa grudando nas costas. O anexo onde os funcionários dormiam tinha uma luz fraca no corredor. O ar ali era diferente, mais simples, mais real. Bati a mão na parede, procurando apoio, até parar diante da porta que eu conhecia melhor do que deveria. O número pequeno, pintado de branco, me encarou como um lembrete de tudo o que eu não devia fazer. Ainda assim, minha mão fechou em punho antes que a mente pudesse interferir. Bati duas vezes, não forte, mas urgente. — Anny… — minha voz saiu rouca, falhada. — Abre. Encostei a testa na madeira fria, tentando regular o ar que entrava queimando pelos pulmões. O mundo girava devagar, a consciência indo e voltando em ondas. — Eu… preciso de você.Samuel De manhã, a casa do meu filho não acorda. Ela explode. Cheiro de café vindo da cozinha, choro de bebê atravessando corredor, risada da Anny misturada com a da sogra do meu filho, voz da Samantha ditando algum diálogo em voz alta, como se o mundo fosse sala de roteiro.Do meu lugar na cadeira da varanda, eu enxergo tudo em quadro aberto.Andryel passa com um dos meninos no colo, cabelo desgrenhado, camiseta amassada, cara de quem dormiu pouco e, ainda assim, faria tudo de novo.Hadassah cruza a sala com uma das meninas no peito, passo mais lento, cicatriz escondida debaixo do pijama largo, mas uma luz no rosto que não combina com quem quase ficou.Alguém passa, de avental, com prato na mão e ameaça:— Quem deixar prato sujo fora da pia vai perder direito de colo hoje, aviso logo.Anny ri alto lá de dentro:— Então eu vou lavar até panela que não usei.Samantha aparece com o notebook aberto, andando e falando sozinha:— Não, esse diálogo tá muito bonzinho… eles precisam brigar m
Samantha Eu sempre achei que, pra ser escritora, eu ia precisar estudar muito o mundo lá fora.Viajar, observar estranhos em cafés, ouvir conversa alheia no metrô.No fim, descobri que bastava sentar na sala da minha família.Ser autora em família dramática é como ter Netflix em casa, sem pagar assinatura.Tem reviravolta, personagem com passado sombrio, figurante roubando cena, vilão que vira mocinho. Às vezes, tudo isso na mesma pessoa. Por anos, eu fui a irmã que observava.Andryel achava que eu tava só no celular, mas eu tava anotando mentalmente cada diálogo atravessado, cada silêncio pesado, cada “depois a gente conversa” que nunca vinha.Minha mãe achava que eu era “a menina do mundo da lua”.Eu estava nos bastidores, montando cena. Quando a coisa entre ele e a Hadassah explodiu, parecia roteiro pronto.Patrão rico, funcionária de mundo diferente, família contra, passado pesando, culpa, segunda chance. Eu olhava pra aquilo tudo e pensava:— “Se eu colocar isso num livro, vão d
HadassahQuando eu volto a mim de verdade, não é com o corte cicatrizado, nem com as forças inteiras. É com uma pergunta simples:— Quando eu posso pegar um deles no colo?A enfermeira sorri por trás da máscara.— Hoje. — responde. — Hoje a gente começa.Até então, eu só tinha visto meus filhos por janelas. Vidro de UTI, berços aquecidos, fios finos demais pro tamanho deles.Eu encostava a mão na incubadora, chamava pelo apelido que a gente nem tinha decidido se ia pegar, e voltava pro meu leito com um vazio estranho nos braços.Agora, sentada na poltrona da UTI Neonatal, com travesseiro de apoio e mil orientações sobre como não arrancar nada, eu esperava.— Vamos começar pelo Axel. — diz a enfermeira. — Ele é o mais espoleta hoje.Só de ouvir o nome, meu peito aperta de um jeito bom. Ela vem com aquele pacotinho embrulhado, touquinha na cabeça, sonda no nariz.Coloca devagar no meu colo, arrumando braços, pernas, fios. Por um segundo, eu travo. Tenho medo de respirar errado e derruba
Andryel Nunca uma sala de espera me pareceu tão pequena para tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Por fora, cadeiras, café ruim, TV ligada em canal qualquer. Por dentro, quatro vidas recém-chegadas e uma pendurada num fio.Eu ainda ouvia, de vez em quando, o eco dos choros. Primeiro um, depois outro, depois outro, depois outro.Quatro.Algum pediatra veio até mim, máscara no rosto, olhos gentis:— Eles nasceram bem. — disse. — Prematuros, mas com boa vitalidade, respirando com pouco suporte. Vão pra avaliação e observação na UTI Neonatal, mas o quadro é estável.Estável. Apgar bom. Prematuros, mas fortes. Palavras técnicas tentando traduzir milagre. Ele falou de peso, medidas, coisas que eu quase não registrei. Eu só pensava:— “Eles estão vivos.”Foi quando percebi que, na minha cabeça, os nomes começaram a se alinhar sozinhos.Axel.Arthur.Heloísa.Hellye.Quase falei em voz alta. Mas engoli.— Sem ela acordada, eu não vou definir nada. — sussurrei, mais pra mim do que pros out
Hadassah Quando penso no dia em que meus filhos nasceram, minha memória parece um filme mal editado. Tem cenas nítidas, buracos, cortes secos. Luzes demais. Som demais. E, no meio, quatro choros que valem por uma vida inteira.Lembro do carro. Do banco inclinado, da mão do Andryel apertando a minha, do telefone no viva-voz.— Doutor, as contrações estão de tantos em tantos minutos. — ele dizia. — É quadrigêmeos, o senhor sabe. Estamos a caminho.A voz do médico vinha calma do outro lado:— Vem direto pra maternidade. — orientou. — Vamos avaliar, mas com esse quadro é bem provável que a gente indique cesariana. Gestação múltipla, quatro bebês… precisamos agir rápido.“Gestação múltipla.”“Cesariana indicada.”“Precisamos agir rápido.”As palavras ficaram ecoando na minha cabeça, misturadas com o barulho do trânsito, o som da minha respiração contando contração.Quando chegamos, foi tudo muito rápido e muito demorado ao mesmo tempo. Papel pra assinar. Pulseira no braço. Roupa trocada.
Andryel Se eu soubesse que aquela era a última noite “normal”, talvez tivesse prestado mais atenção em cada detalhe. No jeito da Hadassah andar, na fala da minha sogra, até no barulho do talher batendo no prato. Mas a gente só chama de véspera depois. Na hora, parece só mais um dia.Minha manhã começou como tantas outras nos últimos meses. Reunião na empresa, email atrasado, ligação com fornecedor, check rápido com o pessoal do financeiro.Por trás de tudo, um cronômetro invisível: “falta pouco”. Ninguém sabe quanto é “pouco” numa gestação de quatro. Os médicos falam de janela, de semana ideal, de risco de parto prematuro.A cabeça trabalha em duas linhas o tempo todo, meta do trimestre, meta de manter todo mundo aqui dentro até onde der. No almoço, decidi ir pra casa. Quinze minutos de carro. Já fiz esse trajeto tantas vezes que sei o tempo de cor em cada horário. Entrei no triplex, encontrei Hadassah no sofá, mão nas costas.— Tá tudo bem? — perguntei.Ela fez uma careta.— Só um







