Mag-log inCatarina
Subi os degraus de pedra em direção aos meus aposentos a passos lentos, torcendo para não cruzar com nenhuma outra bruxa pelo caminho. Cada degrau parecia exigir um esforço descomunal das minhas pernas, como se a própria gravidade estivesse cobrando o preço pela feitiçaria exaustiva que vinha sustentando.
Assim que pisei no meu quarto, passei a tranca pesada de madeira e encostei as costas contra a superfície fria. Fechei os olhos por longos segundos, deixando o ar entrar devagar nos meus pulmões. O silêncio do cômodo era um alívio temporário, mas a sensação de esgotamento continuava ali, pesando sobre os meus ombros como uma armadura de chumbo.
Caminhei até a grande penteadeira de madeira escura e encarei meu próprio reflexo no espelho.
Minha pele estava visivelmente pálida, e as sombras sob meus olhos entregavam o preço alto que eu pagava para manter o escudo do coven ativo e provar que era forte o bastante para comandar este santuário. No entanto, não foi a palidez que me fez travar diante do espelho.
Foi o cheiro.
Levei as mãos ao rosto e puxei o ar. O aroma penetrante de terra molhada, floresta e a essência marcante do Alfa ainda estavam impregnados na minha pele e nas minhas roupas. O calor do corpo de Zion contra o meu, a respiração quente na minha bochecha e a forma como ele rosnou — não para me ameaçar, mas para me proteger de uma ameaça que ele sentia ao meu redor — ainda faziam meu peito tremer de um jeito perigoso.
— O que você está fazendo comigo, lobo? — murmurei para o meu reflexo, com a voz falhando levemente.
Sentei-me na borda da cama, encarando as chamas fracas da lareira. Uma onda de tristeza antiga e amarga começou a se espalhar pelo meu peito, trazendo memórias que eu fazia de tudo para enterrar — fantasmas que nenhuma feitiçaria era capaz de apagar.
Zion achava que eu o mantinha preso por puro capricho, por querer usá-lo ou para alimentar os planos obscuros que algumas bruxas do coven tinham para o seu poder de Alfa. Ele não entendia nada. Não sabia o fardo terrível de carregar uma existência longa demais.
Ao longo dos séculos, a imortalidade já tinha me tirado tudo. Fui amaldiçoada a ver o tempo passar sem jamais envelhecer ou partir, enquanto todos que me cercavam definhavam e sumiam. Eu já tinha visto dois companheiros — homens que amei com toda a minha alma — morrerem e virarem pó diante dos meus olhos. Ver a vida daqueles que eu amava se apagar, enquanto eu continuava intacta e jovem, tinha quebrado meu coração em pedaços que jamais se colarão por completo.
A dor de perder um companheiro é uma ferida que nunca fecha. E foi por isso que jurei a mim mesma que jamais deixaria ninguém chegar perto demais. Nunca mais me permitiria sentir algo por qualquer ser fadado a morrer.
E agora, aquele Alfa imponente e selvagem aparecia na minha vida, abalando as estruturas que levei séculos para erguer. O olhar atento dele, a preocupação disfarçada de raiva e a força bruta do seu lado animal ameaçavam derrubar todas as minhas defesas. Eu sentia medo. Um medo profundo e silencioso de me apegar a Zion e ter que ver a tragédia se repetir.
Soltei um suspiro pesado e deitei a cabeça no travesseiro macio. Fechei os olhos, tentando concentrar o pouco de magia que me restava para recuperar as forças antes que as bruxas rebeldes notassem minha ausência.
Foi quando senti.
Mesmo estando andares acima da cela, minha conexão com a barreira do coven me permitia perceber a energia ao redor. No andar de baixo, na escuridão daquele cômodo trancado, Zion não estava dormindo.
Senti a presença pesada do lobo dele. Ele andava de um lado para o outro, inquieto. Mas a fera não estava tentando quebrar o feitiço para fugir. O lado animal de Zion estava em alerta total, prestando atenção em cada barulho no corredor, em cada passo hesitante das bruxas que rondavam as imediações.
Ele estava vigiando. O Alfa selvagem que todos temiam continuava acordado na escuridão, fazendo a guarda do meu descanso, pronto para rasgar qualquer um que ousasse se aproximar do meu quarto para me desafiar enquanto eu estivesse fraca.
Apertei o cobertor contra o peito, sentindo uma lágrima solitária escorrer pelo meu rosto antes de finalmente ceder ao sono.
CatarinaO sol da manhã nascia suave no horizonte, banhando o casarão e os arredores da floresta em tons dourados e mornos. O clima pesado de tempestade, feitiços e perigos parecia finalmente ter dado uma trégua. O ar estava fresco, limpo, perfumado pelo cheiro de terra molhada e mato renovado. Respirei fundo, sentindo o peito leve. Minha magia estava completamente restaurada e cheia de vida, recarregada pela presença e sexo vibrante que tive com Zion. Eu me sentia renovada, como há muito tempo não me sentia, e um sorriso calmo e genuíno teimava em não sair dos meus lábios.Zion surgiu na varanda carregando nossas poucas bolsas de viagem sobre o ombro largo. Ele vestia uma jaqueta de couro e calça jeans que eu tinha pedido a uma das meninas antes de partir para arranjar, e o olhar castanho que ele me direcionou estava cheio de um carinho puro e de uma cumplicidade tranquila. A selvageria do lobo estava quieta, perfeitamente em paz ao meu lado.— Tudo pronto, minha bruxa. — disse ele,
CatarinaQuando a boca dele tocou a minha, não houve hesitação ou medo por parte de nenhum de nós dois. O beijo foi calmo no começo, doce e profundo, mas logo se transformou em algo mais urgente. A língua de Zion invadiu minha boca com confiança, explorando, reclamando, e eu retribuí com a mesma fome. Meus dedos se enroscaram nos cabelos escuros dele, puxando-o para mais perto enquanto o corpo dele pressionava o meu contra a parede de pedra da varanda.O cheiro de terra úmida e floresta que sempre vinha da pele dele agora estava mais forte, misturado com desejo. Meu corpo reagiu instantaneamente. A magia que dormia no fundo do peito começou a se mexer, lenta e curiosa, como se tivesse sentido a presença dele.Zion soltou minha boca apenas o suficiente para murmurar contra meus lábios:— Quero você…. agora e inteiramente para mim.Não precisei responder. Ele me ergueu com facilidade, e eu enrolei as pernas na cintura larga dele. Ele me carregou para dentro da casa sem quebrar o beijo,
CatarinaAos poucos, o casarão foi ficando vazio. As garotas saíram uma a uma para cumprir os pedidos nas cidades vizinhas, levando consigo os amuletos de proteção e a esperança de juntarmos o dinheiro necessário para a nossa mudança. Com a partida delas, uma calma diferente e profunda tomou conta do lugar.Sem o falatório das meninas ou a movimentação constante no salão, a casa parecia maior e mais silenciosa. E, no meio daquele silêncio, a presença de Zion se tornou ainda mais marcante.Eu estava sentada na varanda, olhando para a estrada de terra onde a névoa da manhã começava a se desfazer. Sentia meu corpo um pouco mais disposto, embora minha magia ainda descansasse devagar no fundo do peito.O som de passos firmes na madeira me fez virar o rosto. Zion vinha da cozinha trazendo uma caneca de chá quente. Ele vestia apenas uma calça confortável e uma camisa simples de tecido leve, que deixava desenhado o porte largo dos seus ombros e o peito forte.— Trouxe para você.. — disse ele,
CatarinaNa manhã seguinte de todo o acontecimento o silêncio no casarão antigo era quase sufocante e nada natural. Ao redor da casa os galhos quebrados e as folhas que haviam caido das árvores deixavam um clima de fim do mundo. Mas o que mais assustava era o clima dentro do coven.Todas estavam assustadas, e se sentindo sem segurança.Reuni todas as integrantes do coven na grande mesa do salão principal. Lulu, Maya, Selene e as bruxas mais jovens sentaram-se em silêncio, encarando as próprias mãos ou olhando com receio para o canto onde Zion permanecia de pé. Ele estava encostado na coluna de madeira rústica, com a postura ereta e os braços cruzados em cima do peito largo. Seu olhar castanho e atento varria o ambiente sem descanso, mantendo-se em alerta constante para garantir que nenhuma ameaça se aproximasse de mim enquanto o meu corpo ainda se recuperava do esgotamento mágico.Sentei-me na cabeceira da mesa, apoiando as mãos na madeira antiga. Minha energia ainda oscilava, mas ma
ZionTer a Catarina ali nos meus braços, com as mãos pequenas dela presas no meu cabelo e o corpo colado ao meu, era uma tortura e uma salvação ao mesmo tempo.A minha vontade era de pegar ela no colo, sair daquela varanda e sumir na floresta para onde ninguém mais pudesse olhar para ela ou tentar usar o passado dela contra mim. O meu lado animal queria marcar ela de um jeito que todo mundo naquela região soubesse exatamente a quem ela pertencia. Mas vendo o rosto cansado dela de perto, com pequenas olheiras sob os olhos negros, eu sabia que ela não aguentaria mais nenhuma briga hoje.— Você está acabada, Catarina… — falei baixinho, passando a mão pelas costas dela e sentindo como o corpo dela estava tenso. — Sua magia tá fraca. Eu sinto o cheiro do seu cansaço daqui.— Eu já disse que estou bem. — ela teimou, tentando afastar um pouco o corpo do meu, mas eu não deixei, apertando a cintura dela com mais força. — Apenas preciso de alguns minutos para reorganizar minhas energias e confe
ZionO vento frio da noite batia contra o meu rosto na varanda, mas não adiantava nada para diminuir o fogo de raiva que queimava no meu peito.Eu estava de pé, apoiando as duas mãos no parapeito de pedra antiga da varanda do casarão. Apertei o bloco de pedra com tanta força que senti os nós dos meus dedos estalarem, e farelos de rocha começaram a se desmanchar debaixo da minha pressão. Minhas costas estavam rígidas, e a minha respiração saía pesada pelo nariz, parecendo fumaça no ar gelado da floresta.O meu problema era que eu não conseguia controlar o meu lobo direito. Ele não era uma voz na minha cabeça com quem eu conversava. Ele era um bicho puro, um instinto selvagem e brutal que nascia lá no fundo do meu estômago e subia rasgando tudo quando eu ficava com raiva. Quando o meu lado animal tomava conta, não tinha conversa, não tinha raciocínio. Era só a vontade de rosnar, quebrar coisas, lutar e proteger o que era meu.E, naquele momento, aquele instinto bicho estava surtando den







