LOGINO CASAMENTO PERFEITO
O apartamento de cobertura dos Valença parecia uma vitrine de luxo. Perfeito. Sofisticado. Impecável. E completamente vazio. As paredes em tons escuros refletiam a iluminação baixa do enorme lustre central. O mármore frio brilhava sob os pés descalços de Lavínia enquanto ela caminhava lentamente pela sala segurando uma taça de vinho. O silêncio daquele lugar sempre a incomodava. Porque silêncio significava distância. E distância era a única coisa que existia entre ela e Gael havia anos. Ela parou diante das janelas enormes observando as luzes da cidade abaixo. Tudo aquilo deveria bastar. O sobrenome. O status. O dinheiro. O poder. Ela havia conquistado exatamente a vida que queria. Então por que nunca parecia suficiente? O som da porta principal se abrindo fez Lavínia erguer os olhos imediatamente. Gael entrou no apartamento ainda usando o terno escuro do trabalho. O rosto cansado. A expressão fria. A gravata levemente afrouxada. Ele nem percebeu que ela o observava. Passou direto pela sala como se estivesse sozinho. Aquilo irritou Lavínia instantaneamente. — Você chegou tarde. Gael apenas retirou o relógio do pulso enquanto caminhava até o bar. — Eu estava trabalhando. — Você sempre está trabalhando. Ele serviu uísque sem responder. Lavínia apertou discretamente os dedos ao redor da taça. O problema nunca foi apenas a distância emocional. O problema era que ela sabia. Sabia que existia uma parte dele que jamais pertenceu a ela. E isso a enlouquecia. — Sua mãe ligou hoje. Comentou tentando soar casual. Gael tomou um gole lento da bebida. — Imagino que para reclamar de alguma coisa. — Ela quer garantir que o evento do fim de semana seja perfeito. — Então diga para ela contratar menos bajuladores e mais organizadores competentes. Lavínia respirou fundo lentamente. Às vezes conversar com Gael era como tentar atravessar uma parede de gelo. Ele não demonstrava interesse. Não demonstrava afeto. Não demonstrava quase nada. Mas ela conhecia Gael antes disso. Conhecia o homem que existia antes dos últimos cinco anos. E era justamente essa lembrança que a assustava. Porque ela sabia exatamente quando ele mudou. Depois de Ayla. Gael caminhou até o sofá e soltou a pasta de documentos sobre a mesa de centro. Lavínia observou discretamente o movimento rígido dele. A tensão no maxilar. O olhar distante. Os ombros pesados. Algo estava errado desde a manhã. Ela percebeu imediatamente quando mencionou a Douce Lune. E agora precisava confirmar. — Você ficou estranho hoje quando falei daquela confeitaria. Gael não respondeu. Aquilo foi resposta suficiente. Lavínia sentiu o estômago apertar. — Você conhece a proprietária? Silêncio. Gael continuou olhando para o copo de uísque. Mas a falta de reação apenas aumentou a ansiedade dela. — Gael. Ele finalmente ergueu os olhos. Friamente. — O que você quer ouvir exatamente? Lavínia sustentou o olhar dele. — A verdade. Uma risada baixa escapou dos lábios dele. Sem humor algum. — Pessoas como nós não vivem da verdade, Lavínia. Aquilo atingiu diretamente o orgulho dela. — Ainda é sobre ela? Gael travou imediatamente. O ambiente pareceu ficar ainda mais pesado. Porque aquele nome invisível ainda existia entre os dois. Sempre existiu. Ayla. Lavínia observou os olhos dele escurecerem minimamente. E sentiu medo. Um medo genuíno. Porque durante anos ela conseguiu controlar tudo A narrativa. A família. O casamento. A ausência de Ayla. Mas agora… Ayla tinha voltado. E aquilo ameaçava destruir tudo. — Você nunca conseguiu esquecê-la, conseguiu? Gael desviou o olhar lentamente. Aquilo foi pior do que qualquer resposta. Lavínia sentiu o peito arder de raiva. Porque ela fez tudo. Tudo. Humilhou. Manipulou. Mentiu. Destruiu. E mesmo assim… Nunca foi suficiente. Gael terminou o uísque antes de falar: — Isso não importa mais. Mas importava. Ela sabia que importava. O problema era justamente esse. Ayla sempre importou. Lavínia caminhou devagar até ele. Parando perto demais. — Ela desapareceu sem dizer nada. Você sabe disso. Gael permaneceu imóvel. — Ela foi embora porque quis. Ainda assim… aquelas palavras pareciam ensaiadas. Como algo que ele repetiu tantas vezes para si mesmo que precisava acreditar. Lavínia tocou o rosto dele delicadamente. Mas Gael não reagiu. Nem se afastou. Nem correspondeu. Nada. A indiferença dele era humilhante. — Nós temos uma vida juntos. Ela sussurrou. Gael olhou diretamente para ela então. E havia algo cruel naquela expressão cansada. — Temos? O coração de Lavínia disparou violentamente. Porque no fundo… ela sabia. Aquele casamento era apenas uma fachada luxuosa sustentada por medo e obsessão. Gael se afastou antes que ela pudesse responder. Pegou novamente a pasta de documentos. Mas um papel deslizou dela sem que percebesse. Lavínia viu. Era a ficha da empresa contratada para o evento. Douce Lune. Ela observou discretamente enquanto Gael pegava o papel rápido demais. Como alguém protegendo algo precioso. Aquilo destruiu o restante da paciência dela. — Você vai vê-la no evento, não vai? Gael ficou em silêncio por alguns segundos. Depois respondeu baixo: — Sim. A confirmação atingiu Lavínia como uma ameaça. Porque ela conhecia aquele olhar. Conhecia aquele tom de voz. E odiava perceber que, mesmo depois de cinco anos… Ayla ainda conseguia despertar algo dentro dele. Algo que ela nunca conseguiu alcançar. Mais tarde naquela noite, já sozinho no escritório do apartamento, Gael permaneceu sentado diante da janela observando a cidade silenciosa. Mas sua mente estava longe dali. Muito longe. Ele tentou trabalhar. Ler relatórios. Responder mensagens. Inútil. Porque pela primeira vez em anos… Ela havia voltado para seus pensamentos com força total. Os olhos castanhos. A voz suave. O jeito como sorria. Gael fechou os olhos irritado consigo mesmo. Aquilo precisava acabar. Precisava. Mas então uma lembrança atravessou sua mente sem aviso: Ayla chorando escondida na cozinha da mansão enquanto ele segurava seu rosto pela primeira vez. O peito dele apertou brutalmente. E naquele instante… Gael percebeu algo perigoso. Parte dele ainda queria encontrá-la. Mesmo sabendo que isso poderia destruir tudo.NÚCLEO — CASA DA FAMÍLIACinco anos.Era estranho pensar que a mesma quantidade de tempo que um dia lhes roubara uma vida inteira agora havia sido suficiente para reconstruí-la.A manhã despertava preguiçosamente sobre a propriedade onde a antiga casa de Ayla dera lugar a um lar muito maior, construído exatamente no terreno onde, anos antes, ela havia plantado a primeira muda de lavanda para lembrar a si mesma que até a terra mais machucada voltava a florescer.As janelas estavam abertas.A brisa atravessava os cômodos carregando o perfume das flores do jardim, misturado ao aroma de pão recém-assado, café fresco e baunilha.Baunilha.Gael sorriu sozinho enquanto terminava de preparar a mesa.Aquele perfume continuava sendo, para ele, o cheiro do amor.O cheiro de Ayla.O cheiro da carta que mudara sua vida.O cheiro da família que quase perdera para sempre.— Papai!A voz infantil ecoou pelo corredor antes mesmo que ele tivesse tempo de terminar de colocar as frutas sobre a mesa.No i
O sol já começava a desaparecer atrás das montanhas quando Ayla fechou, pela primeira vez em muitos anos, a porta da confeitaria antes do horário habitual. O pequeno sino preso acima da entrada balançou suavemente, produzindo um som delicado que parecia marcar o fim de um ciclo e o início de outro muito maior. Durante todo o dia, suas mãos haviam preparado bolos, pães e doces como sempre faziam, mas sua mente permanecera distante. Nenhuma receita exigira tanto cuidado quanto a conversa que teria naquela noite. Nenhum forno queimava tanto quanto o medo que consumia seu peito.Do outro lado da rua, Gael permanecia encostado no carro. Assim que a viu sair, percebeu imediatamente que ela tentava parecer forte, mas conhecia cada detalhe daquela mulher. O jeito como apertava as próprias mãos, a respiração curta, o brilho úmido nos olhos, tudo denunciava a tempestade que ela escondia atrás do sorriso.Ele caminhou lentamente até ela.Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.Gael apena
NÚCLEO — AYLA E GAELO trajeto de volta pareceu acontecer dentro de um silêncio impossível de explicar. Gael dirigia lentamente, enquanto Ayla permanecia olhando pela janela, mas nenhum dos dois realmente enxergava a cidade. Tudo o que viam eram lembranças.Ayla recordava a primeira vez em que segurara Lívia pela mão para atravessar uma rua. Naquele dia, a menina ainda tinha medo de caminhar sem olhar várias vezes para trás, como se acreditasse que alguém pudesse buscá-la para levá-la embora novamente. Ayla lembrava-se de ter apertado delicadamente aquela pequena mão e dito:— Enquanto eu estiver com você, ninguém vai machucar você.Naquele momento, acreditava estar apenas protegendo uma criança adotada.Agora compreendia que, sem saber, fizera uma promessa à própria filha.Ao seu lado, Gael revivia outra lembrança.O balanço.Passara um sábado inteiro construindo aquele brinquedo no jardim. Lívia insistira em ajudá-lo, mesmo atrapalhando muito mais do que ajudando. Pregava os pa
NÚCLEO — AYLA E GAEL A sala do Instituto de Genética permaneceu mergulhada em um silêncio quase sagrado durante vários minutos. O laudo continuava aberto sobre a mesa, mas ninguém mais precisava olhar para aquelas folhas. As palavras impressas já haviam atravessado o papel e encontrado um lugar permanente dentro da alma de cada um. Ayla permanecia ajoelhada diante de Gael. As mãos ainda seguravam delicadamente o rosto dele, enquanto lágrimas silenciosas continuavam escorrendo por suas faces. Durante cinco anos, imaginara aquele momento centenas de vezes. Sonhara em encontrar a filha em um parque, em um hospital, em outra cidade, talvez já adolescente. Nunca imaginou que a reencontraria sem saber que ela jamais deixara de estar tão perto. Gael mantinha os olhos fechados. Seu peito subia e descia de maneira irregular. Cada lembrança voltava agora com uma violência quase insuportável. A primeira vez que conheceu Lívia na confeitaria. O primeiro abraço espontâneo da menina
NÚCLEO — AYLA, GAEL E A INVESTIGAÇÃOO caminho até o Instituto de Genética pareceu interminável.Embora Gael dirigisse, nenhum dos dois percebeu as ruas que atravessavam. A cidade seguia vivendo normalmente do lado de fora dos vidros do carro. Pessoas caminhavam pelas calçadas, crianças saíam das escolas, comerciantes organizavam vitrines e o trânsito seguia seu fluxo habitual. Para o restante do mundo, era apenas mais uma tarde comum.Para eles...Era o instante em que cinco anos de perguntas finalmente encontrariam uma resposta.Desde que Gael a buscara na confeitaria, quase não haviam conversado.As mãos de Ayla permaneciam unidas sobre o colo, apertadas com tanta força que os dedos já haviam perdido a cor. De tempos em tempos, ela fechava os olhos e respirava profundamente, tentando controlar a ansiedade que parecia apertar seu peito a cada quilômetro percorrido.Gael percebeu.Sem desviar os olhos da estrada, estendeu lentamente a mão sobre o console do carro.Não disse nada. A
NÚCLEO — AYLA E LÍVIAAssim que o carro do laboratório desapareceu no fim da rua, um silêncio estranho tomou conta da casa. Era como se todos soubessem que, naquele instante, algo muito maior do que um simples exame começava a decidir o destino de suas vidas. Ayla permaneceu parada na varanda durante alguns segundos, observando o portão fechado. Sentia vontade de correr atrás daquele veículo, de pedir que acelerassem o resultado, de implorar para que o tempo deixasse de existir. Ao mesmo tempo, uma parte de seu coração desejava que aquelas quarenta e oito horas nunca terminassem. Enquanto não houvesse resposta, ainda era possível proteger a esperança da decepção.— Mãe...A voz de Lívia rompeu delicadamente seus pensamentos.A menina segurava uma pequena pá de jardinagem e trazia algumas manchas de terra nas bochechas.— A árvore já tomou água. Mas acho que ela está triste.Ayla sorriu com ternura, ajoelhando-se diante dela.— E por que você acha isso?Lívia olhou para a pequena







