FAZER LOGINO sol mal havia cruzado o horizonte quando Orin apertou o passo entre as raízes úmidas da floresta. Enquanto outras garotas de sua idade sonhavam com pretendentes e vestidos de noiva, o único compromisso de Orin era com o peso da cesta em suas mãos e a vida de seu povo.
A doença misteriosa que afligia seu povo não esperava, e a guerra entre espécies, consumia o mundo lá fora e só tornava o ar mais pesado.
Casamento? Para ela, o único laço que importava era o que a prendia ao pai, à irmã caçula e à sobrevivência de sua vila.
Ao alcançar a velha bifurcação que dividia o destino das montanhas, Orin estancou o passo, sentindo o peso da cesta vazia em seus dedos como se fosse um julgamento.
À sua esquerda, o caminho para as montanhas de Cilian se estendia sob uma luz pálida, mas ela sabia o que encontraria ali, apenas terra batida e um solo exausto, com poucas ervas medicinais, todas colhidas até a última raiz.
O que fazia, infelizmente, Cilian já não ter mais o poder de salvar ninguém.
À sua direita, no entanto, o cenário mudava drasticamente. A trilha para a floresta de Solária parecia engolida por uma vegetação tão densa e vibrante que chegava a ser antinatural.
Ali, o ar era mais frio, carregado de um perfume de terra úmida e ali, escondia segredos antigos inimagináveis, já que ninguém era louco para entrar lá.
As histórias da vila ecoavam em sua mente como um aviso sombrio, todas as vezes que atravessava a ponte que ligava a vila as duas montanhas.
Solária é o lar dos dragões e a sua entrada é estritamente proibida. Aqueles que ousam cruzar a fronteira são devorados pelo esquecimento.
Orin apertou o tecido da própria saia, os olhos fixos na escuridão das árvores gigantescas. Milhares de anos haviam se passado desde que a última escama de dragão fora vista por um humano.
Para ela, aquelas criaturas terríveis não passavam de mitos; uma historinha conveniente inventada pelos anciãos para garantir que os jovens não se perdessem em um labirinto de raízes e espinhos.
Afinal, era um fato conhecido de que quem entrava em Solária jamais retornava, mas Orin sempre acreditou que a culpa era das feras selvagens ou da falta de senso de direção, não de monstros alados que ninguém via há eras.
Ainda assim, o silêncio que vinha de Solária era diferente de tudo o que ela já conhecera. Não era um silêncio vazio, mas um silêncio que parecia observar.
Entre a cruz de voltar para casa de mãos vazias e assistir seu pai definhar, e a espada de desafiar uma lenda milenar, Orin soltou um suspiro longo e trêmulo, encarando o abismo verde à sua frente.
— Eles não existem e eu preciso daquelas ervas. — murmurou para si mesma, mais para convencer o próprio coração do que para o ar silencioso e incerto.
Com um ajuste firme na cesta e uma respiração profunda, a jovem de longos cabelos vermelhos cruzou a linha invisível que separava o mundo dos homens do domínio mitológico.
No momento em que seus pés tocaram o solo de Solária, a floresta pareceu vigiá-la. A mata era de um verde tão denso que beirava o obscuro, com uma vegetação intocada que parecia pulsar sob seus pés.
Orin avançava com os sentidos em alerta; cada estalo de galho sob suas botas soava como um trovão em meio àquele silêncio sagrado.
Após o que pareceram horas de uma caminhada tensa e solitária, a mata se abriu em uma clareira que parecia saída de um sonho.
No centro, um lago de águas tão cristalinas que refletiam o céu como um espelho de prata. Próximo à margem, o brilho das ervas medicinais reluziu sob a luz filtrada pelas copas das árvores.
— Bingo! — O sussurro escapou de seus lábios junto com um sorriso e um suspiro de puro alívio.
Ela correu até a margem, ajoelhando-se na terra macia. Com dedos habilidosos e uma delicadeza quase reverente, começou a colher as ervas, imaginando o rosto de seu povo recuperando a cor. Mas a alegria durou pouco.
Um estrondo súbito cortou o ar, fazendo a terra tremer. Não era um trovão, pois o céu estava límpido. Mais um estrondo e desta vez, ele fez o chão vibrar sob seus joelhos e a água do lago ondular.
O coração de Orin deu um solavanco, batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado.
A curiosidade, porém, era um veneno que ela sempre bebeu com prazer. Instintivamente, ela reuniu suas ervas, se abaixou e moveu-se com a furtividade de quem aprendeu a ser invisível para sobreviver.
“- Dragões não existem... Dragões não existem... Dragões não existem...”
O mantra repetia-se em sua mente como um escudo frágil contra o medo que subia por sua espinha, um "friozinho" que agora se transformara em um incêndio de ansiedade.
Ela se esgueirou por trás de um maciço de arbustos, prendendo a respiração até que seus pulmões ardessem.
Quando seus olhos finalmente alcançaram a origem do som, o ar lhe faltou por completo.
E Orin congelou com os olhos arregalados, com cada músculo de seu corpo paralisado pelo choque. Diante dela, tudo o que sempre acreditou se estilhaçava bem diante de seus olhos. Cinco dragões distintos e gigantescos estavam diante dela.
Eles não estavam apenas ali; eles rugiam, as caudas chicoteando o ar e as garras cavando buracos profundos na terra enquanto brigavam com uma ferocidade que fazia a floresta tremer.
O calor que emanava daquela disputa era quase insuportável, carregado de um magnetismo perigoso.
“- Eles existem!” — o grito silencioso ecoou em sua mente.
Orin levou os dedos finos aos lábios carnudos, que agora tremiam levemente.
O medo que sentia era real, mas a admiração que sentia ao que estava diante dela era ainda mais profunda.
Eles eram animais magníficos, feitos de escamas e uma forte presença, exalando uma beleza tão letal que era impossível desviar o olhar, e ela estava no centro do caos que eles criaram, com sua vida a apenas um rugido de distância.
Orin não conseguia desviar o olhar. O medo, que antes a paralisava, fora substituído por um transe quase hipnótico.
Diante de seus olhos esverdeados, o ar se transformou em um campo de batalha elemental.
Um dos dragões, o vermelho, rugiu, e de suas mandíbulas irrompeu uma torrente de chamas tão alaranjadas que pareciam derreter o próprio horizonte, assim como seus pés queimavam o chão.
Em resposta, outro, o azul, girou o corpo esguio, invocando uma chicotada de água cristalina que cortou o fogo com um chiado ensurdecedor, enquanto um terceiro, um marrom, fazia a terra sob os pés de Orin tremer, erguendo colunas de pedra sólida para se proteger e atacar.
E ao mesmo tempo o vento rugia em redemoinhos violentos, arrancando folhas e galhos ao redor do dragão verde, mas era o quinto dragão, o preto, que mais a assombrava.
Suas chamas não eram laranjas ou vermelhas; eram de um negro absoluto, uma escuridão líquida que parecia devorar a luz ao redor. E a sua presença era absolutamente sufocante de tão imponente.
Orin estava em êxtase enquanto os observava. Ela observava cada escama cintilante, cada movimento majestoso, admirando como aquelas criaturas, que ela julgava serem apenas mitos, comandavam as forças da natureza com tamanha facilidade.
Seus olhos saltavam de um para o outro, tentando absorver cada detalhe das habilidades especiais que faziam o ar estalar com energia pura.
No entanto, a admiração era uma distração perigosa. E no calor da briga, um dos dragões lançou um ataque devastador. Uma massa de energia e destroços foi desviada por outro dragão, ricocheteando violentamente, ganhando uma trajetória mortal em sua direção.
Orin estava tão perdida na perfeição letal daqueles seres que o mundo ao seu redor pareceu entrar em câmera lenta, fazendo tudo isso parecer surreal.
Infelizmente, o choque de realidade veio tarde demais e a dor criada pelo ataque cresceu, fazendo um grito ficar preso em sua garganta.
Ela era apenas uma humana no caminho, e o destino estava prestes bater nela com a força de um furacão. E antes que Orin pudesse sequer processar o o ataque vindo em sua direção, uma lufada de vento, sólida como uma parede de pedra e implacável como uma avalanche, a atingiu em cheio.
O impacto foi devastador. Seu corpo, leve e frágil diante do poder draconiano, foi arremessado para trás, voando metros antes de ser travado violentamente pelo tronco grosso de uma árvore secular.
O som do choque, o estalo seco de suas costelas protestando, e o ar sendo expulso de seus pulmões, foi engolido por um grito agudo, que morreu em sua garganta assim que a escuridão a reivindicou. A fazendo desabar ao pé da árvore como uma boneca de pano esquecida, envolta pelo silêncio súbito da própria consciência.
O local da reunião dos príncipes draconianos, era sob a sombra de uma Árvore Milenar, e o local estava saturado de hostilidade. Faíscas de fogo, lufadas de vento cortante e a pressão esmagadora de suas presenças que colidiam enquanto os cinco príncipes, em suas formas colossais, rosnavam uns para os outros. Mas o conflito foi interrompido por algo que nenhum deles previu. Um grito que rasgou a tensão que eles criaram em Solária.
Após mais alguns minutos de explicações, discussão e reclamações, Orin se impôs.— Já que estão todos aqui, vamos resolver isso agora.Ela arrancou um fio de seu próprio cabelo ruivo e o colocou sobre a superfície cristalina do espelho, nas mãos do patriarca Élfico. Em seguida, olhou para cada um de seus machos com uma firmeza que os fez estremecer. Um por um, eles se aproximaram.Dior foi o primeiro e colocou um de seus fios azul-marinho no espero. Nada.Alaric foi o seguinte e colocou um fio negro. Nada.Pyro, Tork e Corvus também tentaram. E o espelho permanecia inerte, os fios parados como se o espelho nem mágico fosse.— Esse troço deve estar quebrado — resmungou Pyro.- Ou nenhum de nós é o pai. – Rebateu Alaric lançando um olhar provocante para Killian.Killian contev
Serena encarou Wess com o lábio tremulo, antes de lançar um olhar sobre cada um de seus parceiros, a fazendo surtar quando seu olhar encontra o de Apollo, que era sua única salvação no meio destes loucos.— Até você Apollo?! — Serena gritou, indignada, ao ver o dragão mais sério e mudo dar um sorriso de lado, fazendo seu queixo cair.— Ora, você começou a provocação, agora aguenta. — Draco riu, aproximando-se. — Se você gosta tanto assim de nos ver lutar por você, quem somos nós para negar esse prazer?— Ei! Parem já com isso! Eu não quis dizer isso! — Ela começou a surtar, o rosto ficando vermelho de vergonha enquanto eles a cercavam com olhares predadores e flertes cada vez mais abertos.— Então... — Dart sussurrou, inclinando-se perto do ouvido dela. — Quem te
“- Não é possível que ele seja borracha fraca” - Orin pensou, surpresa, enquanto seus olhos desciam pelo corpo dele. - “Com esse corpão e com esse pau enorme?”Ela percebeu o quanto ele estava magoado consigo mesmo quando ele tentou se afastar, os ombros caídos em um sinal de derrota silenciosa. Ele parecia estar se perguntando se ela o abandonaria ali mesmo, se o rejeitaria por aquela falha em seu momento de glória.— Killian — ela sussurrou, segurando o rosto dele com as duas mãos e forçando-o a olhá-la. O brilho de angústia nos olhos azuis dele partiu o coração dela. — Ei, olhe para mim. Eu não vou a lugar nenhum.Ela acariciou suas bochechas, tranquilizando-o com um sorriso doce.— Eu entendo... você esperou muito e ficou muitos anos sozinho. E por isso está ansioso. Além disso sou mais humana q
Mais dois dias se arrastaram, completando um ciclo de doze noites de incerteza para os seis Reis Dragonianos de Solária. Killian entrou no quarto silencioso para render Dior, que, fiel ao seu apelido de morto-vivo, estava afundado no colchão ao lado da fêmea, os olhos opacos e a postura de quem não sabia o que era um descanso real há muito tempo.Killian não se aproximou de imediato; manteve-se encostado no batente da porta, observando a cena com uma mistura de respeito e aquela pontada de inveja e rivalidade que nunca morria em seu peito.Dior sentiu a presença do novo companheiro, bocejou, um som arrastado, e saiu da cama com movimentos pesados, quase automáticos. Assim como ele, todos os Reis carregavam olheiras profundas e uma tensão constante nos ombros; a preocupação com a amada adormecida havia drenado até o último resquício de vaidade deles.Fisicamente, Orin
Killian suspirou e um rubor raro tingiu a pele alva de suas bochechas. Ele recolheu suas garras, sentindo o coração martelar, e flexionou os dedos para eliminar a tensão antes de se unir a eles e cercar Orin.A Rainha, porém, os observava de cima com uma frieza gélida. Ela ergueu uma barreira de magia invisível, vibrante que chiava como eletricidade para mantê-los afastados.Dior foi o primeiro a forçar caminho. Cada passo era um suplício; a magia dela queimava sua pele e esmagava seus ossos, mas ele continuou, absorvendo a dor que o poder dela infligia.— Orin, a guerra acabou. Nos perdoe por não cumprir com nossa promessa. — ele disse, a voz firme apesar do sofrimento.— É, senhorita Orin — Corvus manifestou-se logo atrás, enfrentando a pressão esmagadora. — Perdoe-nos, estávamos enlouquecendo sem você.— Ach&
Orin pousou, meio cambaleante por ainda estar se adaptando a sua nova fisionomia, e o som de suas garras bateram contra a pedra da praça, soando como o martelo de um juiz em um tribunal silencioso.Ela ignorava o alarme que vinha de seus parceiros, ignorava a dor dilacerante em seu corpo. Seus olhos verdes, agora brilhando de puro poder, piscavam entre o verde e o branco, travando-se nos seus parceiros e em Killian, e o ar entre eles pareceu faiscar com uma tensão que prometia mudar o destino de todos ali presentes.E foi ai que Orin viu que aquele homem frio, que a sequestrou, ameaçou e que seus maridos tanto odiavam escondia um brilho de admiração devota só para ela. Killian a olhava como se ela fosse um fruto proibido, uma visão que ele não tinha o direito de contemplar, mas da qual não conseguia desviar.— Killian — a voz dela soou profunda, carregada pelo eco de sua forma dragoniana.