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Capítulo 4

Author: Carla Cadete
last update publish date: 2026-04-08 07:11:52

Capítulo 4

Os dois ficaram imóveis.

Maitê estava com a prancheta contra o peito. O uniforme claro marcava a cintura fina que ele ainda estava segurando. Ele a soltou devagar.

- Desculpa. Eu estava distraído.

- Eu também - ela respondeu, ajeitando a prancheta e saindo, não observou seu olhar obcecado.

***

Rafael saiu da piscina e sentou na espreguiçadeira, deixando o sol aquecer seu corpo e dourar ainda mais a pele. A água descia lentamente pelo tórax definido, formando pequenos caminhos até desaparecer no tecido da sunga.

Estava sozinho naquela casa enorme. O silêncio era bonito para quem via de fora. Para ele, era apenas um vazio.

Até o ano passado, ainda tinha a mãe ali. A presença dela preenchia os corredores, a sala de jantar, até mesmo o jardim que ela insistia em cuidar pessoalmente.

Mas uma pneumonia difícil de controlar a levou. Foi o pior dia da vida dele.

Rafael sempre foi apegado à mãe. Extremamente. Ela era sua base, sua única família de verdade. Nunca conheceu o pai, nem ao menos tinha o nome dele nos documentos ou o sobrenome. Era como se nunca tivesse existido.

Ela o criou sozinha. Trabalhou dobrado. Lutou por cada oportunidade que ele teve. O império Valença nasceu do esforço dele... mas a força veio dela.

Ele fechou os olhos, sentindo o calor do sol no rosto. Poder não preenchia ausências. Dinheiro não trazia ninguém de volta.

Olhou para o celular ao lado da espreguiçadeira. Pegou e ficou alguns segundos encarando a tela. Aquilo era ridículo, nem sabia o nome dela. Mesmo assim...

- Rafael? Achei que ainda estivesse dormindo depois da reunião de ontem - a voz divertida do outro lado provocou.

- Preciso de uma informação.

O tom dele era sério demais para brincadeiras.

- Fale.

Rafael respirou fundo.

- A mulher que estava no bar ontem. Morena, cabelo preso, vestido escuro. Estava sozinha. Sentou perto do balcão por volta das dez.

Houve alguns segundos de silêncio.

- Rafael... ontem não foi uma festa aberta. Era uma reunião reservada.

- Eu sei.

- Eu conhecia todos os convidados.

O maxilar de Rafael tensionou.

- Então conheceu mal.

O amigo deu uma risada nervosa.

- Não vi nenhuma mulher com essa descrição.

Rafael ficou em silêncio por um breve momento.

- Você tem certeza?

- Absoluta. E o lugar nem estava tão cheio assim. Eu teria notado.

Silêncio.

- Ela não estava com ninguém? - o anfitrião insistiu.

Rafael apertou os olhos contra o sol.

- Não. Não vi ninguém perto dela.

- Então talvez ela não estivesse lá pela reunião.

Rafael agradeceu com um murmúrio seco e encerrou a chamada. Ficou olhando para o céu.

Se ela não fazia parte da reunião... Então estava ali por acaso.

Ele passou a mão pelo rosto, sentindo novamente a lembrança do toque dela, sem nenhum tipo de interesse. Afinal, não sabia quem ele era.

E talvez fosse exatamente por isso que o tinha desarmado. Rafael Valença nunca precisou procurar mulher alguma.

Mas agora... Ele queria encontrá-la.

Ele se levantou devagar, pegou a toalha e jogou sobre o ombro. Não queria ficar ali ruminando. Precisava se mexer.

Meia hora depois, estava no carro, uma SUV preta que usava quando queria passar despercebido. Dirigiu até o Hospital Valença, o maior e mais moderno da rede que ele próprio construiu do zero. Era sábado, fim de semana, horário em que normalmente nem sonharia em aparecer. Mas algo o puxava para lá.

Estacionou na vaga reservada da presidência, ignorou o segurança que quase tropeçou ao vê-lo e entrou pela entrada lateral para não ter alarde com os funcionários.

O saguão principal estava calmo: tinha poucos pacientes, enfermeiros circulando com bandejas e alguns médicos apressados. Além do ar condicionado estar um gelo, como sempre.

Ele subiu direto para o andar da oncologia pediátrica, o setor que mais se orgulhava. Não avisou ninguém. Queria ver as coisas como realmente eram.

Quando chegou ao corredor principal, parou na porta de vidro que dava para a ala. Lá dentro, Daniel, estava de jaleco branco, ajudando uma enfermeira a ajustar o soro de uma menininha de uns 6 anos. Ele falava baixo, sorria e apontava para o desenho animado na TV pendurada na parede. A criança ria fraco, mas ria.

Rafael sentiu orgulho do filho. Daniel não era só inteligente; era gentil. Tinha herdado o melhor da avó, e, talvez, um pouco da teimosia do pai.

Os funcionários o notaram quase ao mesmo tempo. Uma técnica de enfermagem parou no meio do corredor com os olhos arregalados. Depois outra. Depois o chefe da ala, que quase derrubou a prancheta.

- Senhor Valença... - o homem gaguejou, aproximando-se apressado. - Não fomos avisados... o senhor gostaria de uma sala? Café? Algo...

Rafael ergueu a mão, calmo.

- Não precisa. Só vim ver como estão as coisas.

O homem piscou, confuso. Rafael Valença nunca aparecia no fim de semana. Nunca sem agenda, sem assessores, sem câmeras. E agora estava ali, de jeans escuro e camisa polo preta, com as mãos nos bolsos, parecendo uma pessoa... normal.

- Está tudo... em ordem, senhor. Posso chamar o diretor clínico?

- Não. - Rafael deu um leve sorriso, isso acalmou o homem. - Continuem o trabalho. Estou só dando uma volta.

Ele começou a caminhar devagar pelo corredor. Observava cada detalhe: o piso limpo demais, as paredes recém-pintadas, os carrinhos de medicação organizados, as portas das salas numeradas.

Passou pela ala das enfermeiras, onde duas delas congelaram no meio de uma conversa. Rafael nem olhou diretamente para elas, apenas acenou de leve com a cabeça.

Maitê saiu da sala dos plantonistas naquele exato instante. Ela sentiu um cheiro amadeirado, era irreconhecível, a nuca ficou arrepiada. Virou o rosto devagar procurando.

Daniel passou correndo carregando uma prancheta. Maitê o observou por um segundo, franzindo a testa.

- Ele se parece muito com... com aquele homem gostoso... - murmurou para si mesma, balançando a cabeça. - Deve ser coisa da minha cabeça.

Então ouviu a porta da sala privativa abrindo atrás dela. Era ele. Alto, imponente, o corpo delineado pela camisa justa, com um andar confiante que fazia as pessoas se afastarem instintivamente.

O mesmo homem que a possuiu horas antes em um quarto de motel, que a deixou tremendo e gemendo até perder a voz. Estava ali, no hospital onde ela trabalhava, olhando ao redor como se fosse dono do lugar.

A intimidade dela piscou, era impossível resistir. Sentiu um frio na barriga. Como não se envolver? Lindo, alto e perigosamente delicioso.

Maitê apertou a alça da bolsa com força, os nós dos dedos ficaram brancos. Sem pensar, andou atrás dele. Entrou na sala privativa logo depois.

Rafael parou no meio da sala, de costas para ela, analisando o ambiente com o mesmo olhar clínico que usava para avaliar tudo na vida: paredes brancas, mesa oval, seis cadeiras, uma janela com vista para o jardim interno.

Maitê fechou a porta devagar.

- Oi... - disse baixinho.

O corpo dele enrijeceu visivelmente. Virou devagar. Quando seus olhos encontraram os dela, por um segundo pareceu que o tempo tinha parado.

Quase não acreditou que ela estava ali. Estava vestida de forma simples e ainda assim capaz de fazer o sangue dele correr mais rápido nas veias.

- Você... - a voz saiu rouca, quase incrédula.

Então ele atravessou a sala apressado, a beijou, com urgência. Estava faminto, queria muito mais dela. A boca dele tomou a dela com fervor, a língua invadiu e explorou com agilidade. Com as mãos grandes, envolveu a cintura dela, de forma quase desesperada, para ter a certeza que ela era real.

A saia tinha subido até os quadris, revelando a calcinha de renda preta fina…

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