INICIAR SESIÓNO salão principal da fortaleza de Aislen nunca tinha visto tanta luz ao mesmo tempo. Tochas acesas nas paredes de pedra, lustres pendurados, arranjos simples, mas elegantes. Os convidados entravam devagar, reparando em cada detalhe. Era raro que o Alfa Kieran abrisse seu espaço para qualquer tipo de festividade.
Raro, e desconfortável para ele.
No andar superior, observando tudo com expressão entediada, estava o Alfa viúvo. Ombros tensos. Mandíbula cerrada. Postura perfeita. Ele parecia mais um general analisando o campo de batalha do que um anfitrião de baile.
Cassandra estava ao lado, sorrindo como se fosse a dona do lugar.
— Você deveria descer depois, Kieran. — ela disse, passando a mão no próprio cabelo ruivo, cuidadosamente ondulado. — As mulheres estão animadas. A Semana da Lua é perfeita para que você escolha sua nova Luna.
Ele a encara com frieza.
— Não estou aqui para escolher ninguém.
— Está aqui porque o Conselho pediu. — Cassandra sorri, doce e venenosa. — E porque precisa de alguém ao seu lado.
— Preciso de silêncio. — ele responde, se afastando alguns passos.
Fenrir se remexe dentro dele, irritado.
— “Por que ela está colada em nós?”
— Não faço ideia. — Kieran responde mentalmente.
— “Eu posso afastar ela com uma mordida.”
— Não. Não vale o escândalo.
A alcateia inteira parecia esperar algo daquela noite. Kieran, ao contrário, só esperava que tudo acabasse logo. Até que algo no ar muda. Um cheiro. Um perfume leve, doce, fresco como chuva caindo em terra seca.
Kieran levanta a cabeça sem pensar. O corpo reage antes da mente. Fenrir congela. Depois, uiva dentro dele:
— “Companheira.”
O coração de Kieran falha um batimento.
Melissa entra no salão segurando o vestido simples que uma das meninas do alojamento costurou às pressas. Era creme, leve, e marcava a cintura com uma fita improvisada. Nada especial.
Mas para ela… era o suficiente.
O salão é enorme, brilhante, cheio de gente elegante. Ela engole seco, sentindo-se menor do que já é.
— “Calma, Mel.” — Nyx fala na mente dela. — “Finge segurança, mesmo que não tenha nenhuma.”
— Isso não ajuda. — ela sussurra baixinho.
Alguns lobos olham para ela com curiosidade. Outros, com desprezo disfarçado. Melissa aperta as mãos, tentando ignorar.
Mas então… ela sente um arrepio subir pela coluna.
Um chamado silencioso. Levanta o olhar. E o vê.
Um homem alto, alto demais, de postura impecável, parado na varanda superior. Luz e sombra disputam lugar no rosto dele. Os olhos, mesmo à distância, parecem duros, profundos, perigosos.
O peito dela aperta tanto que ela esquece de respirar. Nyx grita:
— “É ele! MEU DEUS, MEL, É ELE!”
Melissa recua um passo, assustada com o impacto, com a força do reconhecimento, com a sensação de ser puxada por um fio invisível.
— O que… o que está acontecendo comigo?
Nyx responde sem pensar:
— “Destino.”
Quando os olhos dele encontram os dela, o mundo para. Silêncio absoluto. Ele não ouve mais música. Não vê mais ninguém. Não sente mais o peso da fortaleza.
Só ela.
A pequena loba de vestido simples. A que entrou tímida, sem saber que estava mudando tudo. Fenrir uiva tão alto em sua mente que Kieran chega a fechar os olhos.
— “Companheira. Companheira. COMPANHEIRA.”
Um golpe. Uma verdade. Um destino que ele não pediu, mas que está ali, preso no ar entre eles. Cassandra percebe. Ela aperta o braço de Kieran com força.
— Kieran? Kieran, o que foi?
Ele não responde. Não consegue. Não sabe como.
O coração de Melissa está tão acelerado que parece querer sair do peito. As mãos tremem. A garganta fecha.
— Nyx… eu… eu não posso… ele…
— “Não deixe ele sumir! Ele é o nosso Alfa! Ele é tudo!”
— Ele nem sabe quem eu sou.
— “Sabe sim. Olha como está te olhando!”
De fato, ele ainda está olhando. Como se estivesse vendo algo que não entende. Algo que o assusta. Algo que o atrai. Melissa dá um passo hesitante.
— Por favor… fala comigo… — sussurra, com medo de estar imaginando tudo.
Cassandra tenta se colocar à frente dele, mas Kieran a afasta com um movimento automático. Ele começa a descer as escadas. Cada passo é um conflito. Fenrir empurra. A razão puxa de volta.
O coração dele, morto por dez anos, b**e tão forte que chega a doer.
Quando ele chega à metade das escadas, Melissa fica parada, completamente imóvel. Olhos arregalados. Respiração curta. Ele pára diante dela.
Tão perto que pode ouvir o coração dela descompassado. Tão perto que o perfume dela o envolve completamente. Fenrir ruge:
— “Marca ela. Agora.”
— Cala a boca. — Kieran rosna de volta.
Ele inspira profundamente, puxando o cheiro dela, confirmando o que o destino já disse. É ela. A escolhida da Lua. A segunda tempestade da vida dele.
Ele se inclina um pouco, aproximando o rosto do pescoço dela. Melissa prende a respiração. O cheiro dela é… destruidor. Perfeito. Irritante. Fatal.
Ele fala baixo, gelado, como se estivesse lutando para manter o controle:
— Você não deveria estar aqui.
Melissa arregala mais os olhos, ferida pela frase.
— Mas… eu… eu só…
Ele dá um passo para trás. O coração dele grita. Fenrir uiva em protesto. Mas o medo é mais forte. Não dela. Mas dele mesmo. Do que ele pode fazer. Do que pode sentir. Do que pode perder de novo.
Fenrir rosna com ódio puro:
— “Se você a rejeitar, eu assumo.”
Kieran sente o corpo tremer. É um aviso. Uma promessa. Ele vira as costas para Melissa. As costas dele são duras, tensas, desesperadas, mesmo que ela não saiba.
Melissa fica ali, paralisada, com as mãos trêmulas e o coração despedaçado sem saber por quê. Nyx fala, desesperada:
— “Não deixe ele ir! Ele é nosso! É o nosso Alfa, Mel! A gente esperou por ele!”
Mas Melissa não consegue correr atrás. Não consegue falar. Não consegue respirar direito.
Kieran desaparece entre as sombras do corredor superior, andando rápido, como se fugisse de um inimigo invisível. E de certa forma… está fugindo mesmo.
Melissa fica sozinha no meio do salão, sentindo como se o mundo tivesse acabado de desabar sobre ela.
E no corredor distante, Kieran se apoia contra a parede, respirando fundo, lutando com Fenrir, lutando consigo mesmo. A Lua está alta. A Bruma se aproxima. E o destino deles acabou de ser selado, mesmo que ele tente negar.
Naquela noite, enquanto Melissa chora em silêncio no alojament
o e Kieran luta com Fenrir na escuridão, a Deusa da Lua sussurra para ambos:
— “Vocês podem tentar fugir. Mas o vínculo já foi feito.”
KieranDez anos se passaram. Às vezes eu acordo antes do sol, viro o rosto no travesseiro e fico olhando Melissa dormir. Ainda faço isso. Ainda sinto a mesma coisa no peito. Talvez até mais forte.O mundo não acabou depois da queda do Primórdio. Ele não ficou perfeito também. A diferença é que nós ficamos mais fortes.O amor ficou mais forte.A cicatriz no meu peito ainda arde quando a lua está cheia. Não por dor. Por memória. Eu perdi parte da minha alma naquele Reino, mas ganhei outra coisa no lugar. Ganhei dois filhos que carregam luz e sombra com equilíbrio. Ganhei uma Luna que governa sem coroa, mas com presença.Ganhei um futuro.A fortaleza mudou nesses dez anos. As muralhas foram reforçadas, mas não por medo. Por proteção consciente. As matilhas que antes se evitavam agora vêm pedir conselho. Não porque eu sou o mais forte. Mas porque nós sobrevivemos ao impossível.Melissa está na varanda quando eu saio do quarto. O vento levanta o cabelo dela, mais longo agora, mais sereno.
Melissa A luz me devolveu ao pátio da fortaleza como um soco de ar. Meus braços tremiam, mas eu não soltava meus filhos. Um brilho prateado, um manto de treva suave. Dois pesos quentes, vivos, contra meu peito.Então Kieran caiu.Foi rápido e terrível. Ele deu um passo, o joelho falhou, a mão tentou agarrar a pedra… e ele foi para o chão, de lado, respirando curto, como se o mundo tivesse ficado pesado demais para ele.— Kieran! Amor!Guerreiros correram. Aron apareceu no meio deles, rosto endurecido.— Chamem a curandeira! Agora!Eu ajoelhei ao lado do meu Alfa e encostei minha testa na dele, procurando o vínculo como quem procura uma chama.— Olha pra mim… por favor… fica comigo.Os olhos dele abriram só um pouco. O suficiente para eu ver que ele estava ali, mas distante, como se metade dele ainda estivesse presa em algum lugar.Nyx surgiu na minha mente, cansada.— “Ele voltou sem o fragmento. E ainda falta metade da alma que ele entregou. O corpo dele está… sem amarra.”Fenrir ap
KieranO Primórdio ficou imóvel por um segundo, como se a voz do meu filho negro tivesse tocado algo que ninguém tocava. Eu quase acreditei que ele ia recuar. Quase. A sombra ao redor dele engrossou, virou lâmina, virou decisão.— Chega. Eu não nasci para aprender. Eu nasci para tomar.A pressão caiu sobre nós. Melissa cambaleou atrás de mim. Os dois pequenos reagiram na mesma hora: o prateado esquentou como brasa, o negro escureceu, mas com defesa, não com maldade.Fenrir rosnou dentro de mim.— “Alfa… eles querem lutar com você. Eles querem que você finalize.”Eu segurei um bebê em cada braço. Meus instintos disseram que era assim que tinha que ser.— Fica atrás de mim.— Eu sei que você é forte — Melissa respondeu. — Mas não tenta ser herói sozinho.— Eu não sou herói. Eu sou seu Alfa.O Primórdio avançou. A sombra veio como onda, tentando engolir a luz, tentar engolir meus filhos, tentar engolir minha Luna. O bebê negro apertou os dedos na minha gola. O prateado encostou o rosto n
MelissaEu ainda estava ajoelhada quando senti a mudança. Não veio de mim. Veio do chão. O Reino da Sombra tremeu de novo, mas dessa vez não foi por causa da luz. Foi como se algo estivesse sendo puxado por dentro da própria escuridão.O Primórdio se moveu. Não com raiva. Com fome. Os olhos dele se voltaram direto para o bebê negro nos meus braços.— Ele é meu. — a voz ecoou, pesada. — A noite reconhece seu pai.Eu apertei os dois contra o peito.— Não reconhece nada. Ele é meu filho.Kieran estava ao meu lado, a respiração ainda irregular, mas firme. Ele segurava minha cintura com uma mão e a outra estava pronta para puxar qualquer coisa que tentasse chegar perto.Rafael abriu um sorriso devagar.— Agora sim. Agora você sente, não sente? — ele disse, olhando para o bebê da sombra. — Ele está chamando por nós.O Primórdio ergueu uma extensão do corpo líquido, como uma onda negra se formando no ar. A energia começou a puxar. Não fisicamente… mas espiritualmente.Eu senti. Uma fisgada n
MelissaEu não sabia que um Reino podia ficar em silêncio. Depois do último grito e da última contração, tudo parou por um segundo. A escuridão pareceu prender a respiração. Então a luz prateada explodiu do meu ventre como aurora, forte o bastante para iluminar o Reino da Sombra.Eu chorava e ria ao mesmo tempo. As mãos de Kieran ainda seguravam as minhas, como se ele tivesse medo de eu sumir.— Mel… — ele sussurrou. — Olha…O primeiro bebê nasceu envolvido em brilho lunar. O choro dele foi alto, vivo. Um segundo depois, o bebê da sombra veio também. O choro foi mais grave, mas ainda era choro de recém-nascido. Meu. Nosso.A Deusa estava à minha frente, segurando os dois com calma. O rosto dela era jovem e antigo ao mesmo tempo.Kieran caiu de joelhos, respirando como quem volta do fundo do mar.— Eles… — ele tentou falar, mas a voz quebrou.Fenrir surgiu atrás dele, enorme.— “Vivos.” — ele disse, como juramento.Eu estendi os braços, desesperada.— Me dê meus filhos… por favor…A De
MelissaO Reino da Sombra começou a tremer como se estivesse com medo. Eu senti primeiro no chão sob meus joelhos. Depois no ar. Depois dentro de mim. Meu ventre parecia um campo de batalha. A luz prateada e a sombra negra colidiam dentro do meu corpo, não para se destruir, mas procurando saída.Eu arqueei as costas, gritando.— Aaaah!Nyx estava na minha mente, nervosa como nunca.— “Melissa! RESPIRA! Os bebês estão lutando pra nascer!”Eu tentei puxar ar, mas cada respiração parecia rasgar minha garganta. O Reino inteiro ondulava ao redor. As sombras rastejavam mais rápido, agitadas, como animais sentindo tempestade.Rafael viu antes dos outros. Os olhos dele brilharam de desejo.— Está começando… — ele sussurrou, avançando. — Ele vai sair agora.Eu senti outra contração. Não era como as anteriores. Não era invasão. Era força natural, mas amplificada por tudo que estava acontecendo.— Kieran… — eu sussurrei, procurando ele com os olhos.Ele estava no chão ainda, mas algo tinha mudad







