Mag-log inEu tento me afastar, mas Brandon por alguma razão se aproxima mais de mim. Segura a mesma moldura na minha mão e olha com carinho. Meu corpo aquece com essa aproximação, com seu perfume que grita por mim desde que despertei dias atrás. Estou nervosa e não consigo esconder, eu me afasto e vou para o quarto.
A madrugada no apartamento era um silêncio morno. O tipo de silêncio que não assusta, mas acolhe. Eu estava deitada na cama, enrolada na colcha que Brandon havia deixado sobre mim mais cedo, tentando dormir, e, como sempre, lutando com meus próprios pensamentos.
As imagens das fotos ainda dançavam na minha mente. Eu e ele numa praia. Eu e ele sob a chuva. Eu e ele... dizendo "sim".
Era estranho pensar que aqueles momentos pertenciam a mim, mas estivessem tão distantes quanto a vida de outra pessoa. E, no entanto, o olhar apaixonado de Brandon em cada uma daquelas imagens era o mesmo que ele me dava agora, dia após dia. Fechei os olhos. Respirei fundo. E deixei que o sono me levasse.
O som do mar foi a primeira coisa que ouvi. Depois, o riso dele, aquele riso rouco e espontâneo que parecia aquecer o ar ao meu redor. Estávamos na mesma praia da foto. O céu era um tom dourado-rosado, como se o sol tivesse se apaixonado pelo horizonte. Eu corria pela areia, de vestido leve, e ele me seguia com um sorriso aberto e os pés descalços. Senti a brisa bater em meu rosto, o cheiro de sal, a sensação de liberdade.
Quando ele me alcançou, me girou no ar, e eu ri com força, jogando a cabeça para trás.
— Você prometeu que não ia correr! — Disse ele, ainda me segurando.
— Eu nunca prometo nada que envolva não correr! — Brinquei, com um olhar cheio de provocação.
Ele me colocou no chão devagar, como se eu fosse feita de vidro. Quase consigo sentir meu corpo desejar o dele com fúria e excitação.
— Você é a bagunça mais linda que já entrou na minha vida, Naira.
Eu sorri. E naquele instante, foi como se tudo fizesse sentido. Meu corpo, minha alma... tudo em mim reconhecia aquele homem. O toque dele. O cheiro da pele. O modo como ele dizia meu nome como se fosse música.
O sonho parecia tão real. Tão inteiro. E, quando ele encostou a testa na minha, sussurrando “eu te amo”, a maré invadiu minha mente. Acordei com os olhos úmidos.
A primeira luz da manhã atravessava a cortina branca do quarto, desenhando padrões suaves na parede. O quarto ainda estava silencioso, mas agora tinha um cheiro leve de café recém-passado vindo da cozinha.
Fiquei deitada por um tempo, tentando prender as imagens do sonho. Cada detalhe. A textura da areia, o som da risada. O olhar dele. Aquela era uma lembrança? Ou apenas um desejo profundo de me lembrar?
Levantei devagar, calcei as pantufas e fui em direção à sala. Brandon estava lá, de costas, mexendo no fogão com a camiseta amarrotada e os cabelos um pouco bagunçados. O sofá, no quarto, ainda estava desarrumado do lado em que ele dormira. Aqui na sala tem uma xícara vazia repousada na mesinha de centro.
Ele virou ao me ouvir se aproximar.
— Bom dia. — sorriu, meio surpreso — Conseguiu dormir?
Assenti, passando os dedos pelos cabelos.
— Tive um sonho.
Ele deixou a espátula de lado, atento.
— Um sonho... bom?
— Sim. — sentei-me no banco da cozinha americana, abraçando meus joelhos — Estávamos numa praia. Eu corria, e você me alcançava. Me girava no ar. Foi tão real.
Brandon pareceu prender a respiração por um instante.
— Foi em uma praia há uma hora daqui. Fomos lá no nosso segundo ano juntos. — sua voz saiu baixa, como se ele tivesse medo de me sobrecarregar — Foi uma das viagens mais felizes que fizemos.
Eu olhei para ele por longos segundos.
— Achei que fosse só imaginação. Mas talvez... talvez tenha sido uma lembrança.
— Pode ser. A memória é assim. Às vezes ela não volta com força, mas com delicadeza. Como se testasse as águas antes de mergulhar.
Ele me entregou uma caneca com chá. Não café, chá. Ele lembrava que eu preferia chá pela manhã. Mesmo sem eu ter dito.
— Eu ainda me sinto uma estranha dentro da minha própria história. — confessei — Mas essa noite... não sei. Foi diferente.
Brandon se sentou à minha frente. Os olhos estavam levemente vermelhos, como se também não tivesse dormido direito.
— Você não precisa lembrar de tudo agora. Só precisa saber que estou aqui. Mesmo que você não lembre de quem eu sou pra você... eu lembro de quem você é pra mim.
As palavras dele me tocaram como um cobertor num dia frio. Eu queria tocá-lo. Queria dizer que talvez meu coração estivesse começando a se lembrar antes da mente. Mas ainda havia hesitação. Medo. Uma parede invisível entre o querer e o agir. Então apenas sorri, devagar.
— Obrigada por dormir no sofá.
— Sempre. Pelo tempo que precisar.
E havia tanta verdade no jeito como ele disse aquilo, que por um momento, pensei em dizer: “Talvez hoje à noite você possa sentar na cama, só me contando sobre a gente”. Mas engoli. Ainda não era hora.
Mais tarde, sozinha de novo, caminhei até a estante. Virei mais uma foto. Era nosso primeiro beijo, aparentemente. Estávamos encostados num carro antigo, o sol se pondo atrás. O beijo não era forçado. Não era uma pose. Era real. Como se o mundo tivesse parado para aquela troca de almas. Toquei meu reflexo no vidro da moldura.
— Eu vou lembrar, Brandon — sussurrei — Não só de você. Mas de mim também.
É a minha vida, quero lembrar, quero vivê-la.
O cheiro das flores misturava-se ao frio cortante da manhã. O céu estava nublado, como se o universo soubesse que aquele não era um dia comum. Era o velório de Brandon.Eu permaneci em silêncio, sentada na primeira fileira, com Cayden ao meu lado. Meus olhos estavam inchados, mas secos agora. As lágrimas tinham cessado há algumas horas, mas a dor permanecia ali, silenciosa, latejante. Uma dor estranha, que misturava alívio, culpa e saudade.Foi então que vi dois rostos entre a multidão. Um casal de meia-idade, vestidos com roupas simples, mas com uma elegância sutil. Aproximaram-se com passos calmos e olhos marejados. A mulher segurava um lenço, o homem um pequeno broche com a letra "G".— Você deve ser Naira. — disse a mulher com um sorriso gentil, mesmo que dolorido. — Eu sou Clarice. Esse é meu marido, Henry. Somos os pais do Brandon.Por um segundo, não soube o que dizer. Eles eram tão diferentes do que eu imaginava. Tão… humanos. Clarice pegou minha mão entre as dela e a apertou.
Eles surgiram como sombras cortando a luz do fim de tarde. Homens de preto. Capuzes ocultando os rostos. Um deles me agarrou pelas costas antes que eu pudesse reagir. Tentei gritar, mas a mão áspera e pesada tapou minha boca, abafando qualquer som. Senti o coração disparar. Não consegui lutar. Fui erguida do banco como se fosse feita de vento e arrastada até um carro escuro, estacionado a poucos metros da praça.O desespero me consumia. A última coisa que vi antes de ser empurrada para dentro do porta-malas foi um borrão do mundo à minha volta. A única coisa que vinha a minha mente era Cayden que tinha ido comprar um picolé pra mim.No escuro, entre solavancos e o barulho abafado do motor, chorei em silêncio. E pela primeira vez desejei com toda a força que fosse Brandon o responsável por aquilo. Porque, se fosse ele, pelo menos... eu ainda estaria viva. Ainda estaria inteira. Mas isso doía tanto. Acreditar que ele fingiu me deixar ir, só pra me puxar de volta.O carro parou. Fui arra
A chuva começava a ameaçar o céu, cobrindo a cidade com nuvens escuras e pesadas, como se até mesmo o tempo pressentisse o que estava por vir. Eu atravessava as ruas sem rumo, dirigindo como um condenado. O meu rosto ainda ardia onde um soco me acertou mais cedo, mas eu ignorava a dor física. Nada era pior do que o desespero que corroía minhas entranhas.Naira havia desaparecido. O banco da praça vazio me assombrava. O picolé que eu comprei para ela havia se derretido no chão. Eu corri, gritei seu nome, revistei banheiros, lojas, perguntei para vendedores e transeuntes. Ninguém tinha visto nada. Era como se ela tivesse evaporado.Eu tinha certeza. Brandon. A ideia martelava em minha mente como um tambor incessante. Precisava encontrá-lo. E, se fosse o caso, matá-lo.Ao descobrir que Brandon estava em um shopping novo da cidade para uma inauguração, eu não pensei duas vezes. Fui até lá, sem plano, sem cautela. Tudo o que eu queria era respostas. E Naira de volta.No estacionamento sub
O beijo dela ainda queimava em meus lábios. Não era mais um gesto forçado, não era fruto da dor ou da saudade que ela sentia de outra realidade. Não. Aquele beijo foi real. Foi escolha. Foi esperança. Naira me beijou por vontade própria.Eu fiquei ali, parado, com os olhos presos nos dela mesmo depois que ela se afastou, visivelmente envergonhada. Meu peito parecia pequeno demais para conter toda a felicidade que explodia dentro de mim. Ela deu um passo para trás, mas antes que eu pudesse pensar, meus braços a puxaram de volta.— Naira... — murmurei, a voz rouca e carregada de emoção — Eu preciso retribuir.E beijei-a. Dessa vez fui eu que iniciei, com ternura e reverência, como quem toca um milagre. Ela não se afastou, pelo contrário, seus dedos se enroscaram em minha camisa e seu corpo se aproximou do meu como se aquele espaço entre nós fosse insuportável. Era doce, era caloroso... era dela. Quando nos afastamos, ainda com os rostos próximos, ela sorriu de leve. Um sorriso tímido, m
O sol já despontava pelas janelas quando meus olhos se abriram devagar. A claridade suave invadia a sala e dançava nas cortinas claras, como se o dia tentasse me abraçar com delicadeza. Eu estava deitada no sofá, um cobertor leve me aquecendo. Aos poucos, minha mente conectava os pontos: eu havia adormecido nos braços de Cayden, e ele, em sua doçura, me colocou ali com cuidado. Cayden apareceu na porta da cozinha com um sorriso gentil, segurando duas xícaras de chá fumegante.— Achei que algo quente poderia ajudar com a sua febre de ontem à noite, ficou febril de novo. Como está se sentindo? — Perguntou, se aproximando.Peguei a xícara com gratidão, meus dedos tocando brevemente os dele.— Melhor. A febre passou. Acho que foi mais emocional do que física.Ele assentiu, sentando-se ao meu lado, respeitando meu espaço.— Não precisa se forçar, Naira. Só quero que você saiba que estou aqui... como você quiser. Não como era antes. Como for agora.Aquilo me tocou mais do que eu esperava. S
A noite se arrastava em silêncio, mas dentro de mim era puro turbilhão. Estava deitado no sofá da sala, com os olhos presos ao teto, ouvindo apenas o som do relógio antigo da casa e... os suspiros de Naira. Ela dormia no quarto que um dia fora nosso. Agora, era estranho pensar nesse "nosso". O que restou de nós? Palavras apagadas, memórias arrancadas, e um amor que pareceu ser substituído por um pesadelo, o nome dele era Brandon. Era a segunda noite dela aqui.Subi degrau por degrau e parei ao chegar na porta do único quarto da casa. Eu ouvia seus murmúrios abafados através da porta entreaberta. Ela falava baixinho. Às vezes meu nome. Mas, mais frequentemente... o dele.— Brandon...Fechei os olhos com força. Doía. Como uma agulha fina, perfurando devagar a carne do meu peito. Ele ainda a habitava. O homem que a enganou, que destruiu sua identidade, que a fez acreditar em um amor inexistente. E, pior, ela ainda o amava. Mas eu não a culpo. Nunca.Caminhei devagar de volta para o andar







