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Capitulo 5

Author: Anny Lago
last update publish date: 2026-10-15 05:01:47

Rebecca Ross.

Segunda-feira. A querida chegou arrombando a porta como se fosse a polícia cumprindo um mandado de busca e apreensão. Eu tinha tido uma noite de sono magnífica, perfeitamente tranquila... isto é, até as quatro da manhã, quando Zeus decidiu por livre e espontânea vontade que claramente gostaria de acrescentar uma passagem mais prática para o andar de baixo.

Que escada, que nada.

O plano do meu querido pastor-malinois era muito mais ousado: cavar um buraco no chão do meu quarto para descer direto para a cozinha.

Eu não deixei, é claro. Ele ficou profundamente frustrado e começou a uivar para a vizinhança inteira. E lá fomos nós caminhar às quatro e meia da madrugada, porque a culpa, no fundo, é toda minha; eu sabia perfeitamente que não era fácil ter um cão dessa raça, mas quis mesmo assim.

Em fim, o puro caos.

O relógio na tela do meu computador marca cerca de 10h28 da manhã quando as portas do elevador executivo finalmente se abrem. A figura de Thomas Mitchell surge na minha frente parecendo alguém que acabou de retornar de um campo de batalha.

Cabelos totalmente desgrenhados, terno amarrotado, sapatos de dois modelos visivelmente diferentes e, por algum motivo insólito, uma gravata cor-de-rosa no pescoço.

— Nenhuma palavra, senhorita Ross — ele diz, passando por mim com aquele tom firme e pausado de quem ainda está processando um trauma recente.

Eu não digo nada. Mantenho os lábios fechados, mas tenho certeza absoluta de que meu semblante deixa transparecer cada um dos meus pensamentos. Thomas entra na própria sala e b**e a porta com tanta força que faz o quadro no corredor tremer.

Respiro fundo, tomo o resto do meu café já morno, me alongo um pouco na cadeira e pego o tablet com a agenda eletrônica antes de seguir em direção à sala dele. Bem, eu sei perfeitamente que o senhor Mitchell não deve estar em um bom dia, mas ele tem dez entrevistas agendadas para esta tarde.

Ao que parece, metade da cidade quer trabalhar como babá dos herdeiros de um dos homens mais cobiçados do país.

Entro sem bater e me aproximo da mesa, onde pouso o tablet. Thomas já está instalado em sua cadeira de couro, com os olhos fortemente fechados e um semblante de pouquíssimos amigos.

Caminho em silêncio até o armário embutido na parede, onde ele costuma manter uma muda de roupa reserva para eventos importantes. Ao abrir as portas de madeira, percebo que há apenas uma camisa social limpa pendurada. Pelo menos esta não está suja do que parece ser molho de tomate na gola, como a que ele veste agora.

— Sua camisa, senhor Mitchell — digo me aproximando e estendendo o cabide em sua direção. — Irei pedir à recepção que mande buscar um terno adequado e sapatos do mesmo par. O senhor gostaria de repassar os compromissos agora ou após a ligação?

— Eu preciso de um remédio para enxaqueca, senhorita Ross — ele murmura com a voz baixa, sem sequer abrir os olhos. — E também que consiga uma vaga urgente em um internato que aceite meus monstrinhos de estimação.

Reviro os olhos discretamente e caminho até o canto da sala onde fica o frigobar. Pego uma garrafa de água — daquelas importadas que ele insiste que vêm diretamente dos Alpes suíços. Quem diabos paga vinte dólares em quinhentos ml de água? Enfim.

Retiro o comprimido da cartela na minha gaveta e entrego a ele junto com a garrafa, esperando pacientemente que ele tome o medicamento.

— Sobre os internatos, o senhor tem alguma preferência de localização? — pergunto, deixando um leve sorriso brincalhão escapar pelos meus lábios. — E, a propósito, senhor Mitchell, o que faço com as candidatas à vaga de babá? Posso cancelar as entrevistas de hoje?

Thomas j**a a cabeça para trás e leva as duas mãos ao rosto. O cansaço estampado em sua face é quase palpável.

— Elas sumiram com todos os pares dos meus sapatos, senhorita Ross — ele diz, e a voz ecoa com um leve tom de desespero contido. — Trinta pares de sapatos... e agora eu tenho trinta pés variados, porque elas simplesmente sumiram com a outra metade de cada par.

Meus olhos se arregalam levemente. Por um segundo, perco a capacidade de formular uma resposta rápida.

— Senhor Mitchell... não faz nem vinte e quatro horas que elas chegaram...

— E você acha que eu não sei? — ele rebate na hora, o tom subindo um oitavo, levemente irritado. — Elas insistiram em escolher minha gravata esta manhã e escolheram *isso* — ele aponta com o indicador para o adereço rosa-neon de brinquedo amarrado ao pescoço.

Ele faz outra pausa dramática e j**a as mãos para o alto, nitidamente à beira de um colapso.

— Elas queriam panquecas cor-de-rosa no café da manhã. Eu não sei fazer panquecas, Rebecca! Eu tentei... e elas iniciaram uma guerra de comida generalizada no meio da minha cozinha. — Ele me encara com um ar terrivelmente sério. — Meu cachorro está cor-de-rosa... Céus, eu não faço a menor ideia de como lidar com isso. Eu não nasci para cuidar de crianças e sinto que posso surtar a qualquer momento.

— Senhor Mitchell... o senhor por acaso tomou café? — pergunto, apenas para confirmar minha suspeita.

— Não, senhorita Ross. Eu não tomei café porque não tive tempo nem para...

Deixo que ele continue falando sozinho para o ar. Dou-lhe as costas sem cerimônia e saio da sala, seguindo direto para a copa do andar. Preparo uma cápsula de café extraforte na máquina, monto um prato com sanduíches frescos e volto para a sala dele carregando tudo em uma bandeja de prata.

Thomas para de falar imediatamente e me encara como se uma segunda cabeça tivesse nascido no meu pescoço.

— Vamos por partes, senhor Mitchell — digo de forma prática, empurrando a bandeja sobre a mesa, bem na frente dele. — Coma. Eu vou mandar buscar o terno e os sapatos corretos e, quando eu retornar, passarei os detalhes da sua agenda.

Ele continua me encarando em silêncio, mas eu simplesmente o ignoro. Dou as costas, saio da sala e retorno à minha mesa no corredor. Tenho um trabalho para fazer e uma crise empresarial familiar para gerenciar.

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