LOGINRebecca Ross nunca imaginou que aceitar cuidar das sobrinhas de seu chefe durante um fim de semana mudaria tanto sua vida. Afinal, tudo o que esperava era uma boa remuneração extra, não se envolver com as duas garotinhas que acabaram de perder os pais — muito menos com Thomas Mitchell, o homem frio, arrogante e calculista que todos temem. Mas, quando a convivência se torna inevitável e as visitas inesperadas começam a aproximá-los além dos limites profissionais, Rebecca descobre que até mesmo o coração mais fechado esconde feridas que o dinheiro não pode apagar. Entre provocações, olhares intensos e um desejo cada vez mais difícil de ignorar, os dois se veem presos em um jogo perigoso, no qual ceder à atração pode ser tão tentador quanto devastador. Porque existem desejos capazes de colocar tudo a perder. E Thomas Mitchell está prestes a descobrir que a única coisa que não consegue controlar é justamente o desejo sente pela mulher que não deveria desejar.
View MoreRebecca Ross.i
A policial feminina à minha frente me encara com o semblante de quem já passou por aquela situação inúmeras vezes. O tédio é notável em sua face enquanto ela inspeciona o ambiente da minha sala de estar.
— É a quinta denúncia apenas em apenas duas semanas, senhorita Rossi. Seus vizinhos apontam que existe uma criança e um animal sofrendo maus-tratos neste endereço — diz ela, mantendo o tom profissional, mesmo que sua expressão denuncie que preferia estar em qualquer outro lugar do mundo que não fosse a minha sala.
— Eu se quer tenho filho, policial Rivera — respondo, sentindo o desespero crescer dentro de mim. — Cachorro sim. Tenho o Zeus, que está em algum lugar do quintal destruindo o gramado, e também estou cuidando temporariamente do Duke, o buldogue francês do meu chefe. Mas não existe criança nenhuma aqui. Posso mostrar as câmeras, e o restante da casa caso seja necessário.
A policial Rivera me encara por alguns segundos, como se decidisse se aquilo realmente é necessário.
Porem no minuto seguinte suas perguntas internas são respondidas, quando um grito agudo e estridente quebra todo o silêncio do ambiente.
A policial me encara com os olhos semicerrados e, sem pedir licença, avança para o interior da casa, seguindo os gritos como quem está prestes a presenciar uma cena de crime.
Eu a sigo em silêncio, sabendo perfeitamente que a situação não é nem de longe o que parece.
Ela segue o escândalo até o jardim.
Quando atravessamos as portas de correr, damos de cara com a cena: Duke, o buldogue francês do meu chefe, está sentado à beira da piscina, gritando a plenos pulmões como se estivesse sendo torturado.
Mas não há nada.
Simplesmente nada.
Apenas ele se acabando em berros no meio do quintal, como se alguém invisível o estivesse maltratando naquele exato momento. Do outro lado, está Zeus, meu pastor-belga malinois de dois anos, entretanto ocupado em mais uma de suas tentativas obstinadas de cavar até o centro da Terra.
— Esse é o animal do seu patrão? — ela pergunta, anotando algo em sua prancheta.
Inclino a cabeça a noventa graus e me pergunto se deveria ou não responder àquela pergunta. Por mais que eu considere Thomas Mitchell um animal em alguns sentidos, me pergunto se quando ela diz animal, está falando de Duke ou de Thomas. Quero dizer...
— Senhorita Rossi — a policial Rivera me chama, resgatando-me dos meus devaneios. — Este animal pertence ao seu patrão?
Pisco algumas vezes, mas logo me recomponho:
— Sim, senhora. Esse é o Duke — digo, apontando para o pequeno ator dramático sentado à beira da piscina.
— Preciso que entre em contato com seu chefe. É necessário fazer algumas perguntas e... — Ela faz uma pausa, respira fundo e guarda a caneta no bolso do uniforme. — Sinceramente, não vou perder o meu tempo e nem o seu. Pelo porte e estado desses animais, está mais do que claro que nenhum deles sofre maus-tratos. Se me permite a sugestão, entre em contato com seu patrão e descubra o que fazer para esse cão parar de gritar.
Ela diz isso encarando Duke, que agora rola na grama, satisfeito após testar seu potente alcance vocal.
— Como eu disse antes, é a quinta denúncia em duas semanas. Os vizinhos acham que você está maltratando uma criança — completa ela, sem tirar os olhos do cachorro.
— São uns fofoqueiros, isso sim — digo, revirando os olhos. — Agradeço a dica, policial Rivera. Farei o possível para fazer o Duke calar a boca, mesmo que ele só vá ficar aqui por mais três dias.
A policial Rivera assente, anota algo no bloco em suas mãos e eu a guio até a saída. Quando ela finalmente se despede, fecho a porta, encosto as costas na madeira e fecho os olhos por um segundo.
Pelos deuses.
Cinco vezes em duas semanas.
Daqui a pouco meus vizinhos vão achar que estou vendendo drogas, de tanto que a polícia aparece aqui.
Os gritos no quintal recomeçam. Passo na despensa, pego o pacote de petiscos do Zeus e caminho em direção ao jardim. Problema do senhor Mitchell se o cão dele está de dieta; se o desgraçado só cala a boca quando come, então vai comer para se manter calado.
》》》》 Três dias depois. 《《《《
O sol da tarde está razoavelmente quente e entra pelas janelas de vidro da cozinha, onde preparo meu almoço — ou ao menos a tentativa de um. Eu juro que há algumas semanas venho tentando ser saudável.
Mas sejamos sinceras: passar a noite com dois cães gritando como se estivessem sendo agredidos não é lá o meu modelo de sono perfeito.
E repito: eles não estão sendo maltratados.Zeus passou a madrugada saudando a lua através da janela do primeiro andar. Em algum momento entre as três e as quatro da manhã, quase tive a certeza de que ele iria se transformar em um lobisomem, mas isso não aconteceu.
E quanto ao Duke... ele ainda acha que é um cantor de ópera ou algo do tipo.
Abro um sachê de molho de tomate prestes a despejar na panela quando o barulho da campainha ecoa, quebrando o silêncio da casa.
Deixo o molho de lado, limpo as mãos no avental e sigo em direção à porta da sala. Antes de alcançá-la, meus olhos focam no sofá.
Zeus e Duke estão jogados ali, dormindo de barriga para cima bem debaixo do ar-condicionado por causa do calorão que faz lá fora.
Balanço a cabeça negativamente e sigo até a entrada. Sem cerimônia, destravo e abro a porta. A cena do outro lado quase me faz pensar que um apocalipse zumbi começou e eu não estou sabendo.
Meu chefe está parado no portal, com olheiras profundas, cabelos desgrenhados, vestindo uma camisa social amassada, barba por fazer e a cara de quem não dorme bem há dias.
— Senhor Mitchell? — chamo, encarando-o. — Está tudo bem?
Thomas me encara de volta. A exaustão estampada em sua face denuncia que talvez os últimos dias não tenham sido os melhores.— Senhorita Rossi... Nós... Eu vim buscar o Duke. E também pedir perdão pelo horário. Sei que o combinado era vir mais cedo, porém...
— Sem problemas, senhor Mitchell. O Duke está no sofá com o Zeus, agindo como se fossem os donos da casa — digo, abrindo um pouco mais a porta para que ele veja a cena. — Entre, eu vou buscar as...
— Moço... Tô com fome — uma vozinha pequena demais ecoa, atraindo minha atenção.
Desvio os olhos do rosto do senhor Mitchell — que está literalmente a cara do cansaço — para focar na origem da voz.
Não há apenas uma, mas duas garotinhas. Ambas se escondem atrás das pernas de Thomas como se ele fosse algum tipo de escudo protetor contra o mal.
A julgar pela aparência, não devem ter mais que seis ou sete anos. Têm cabelos ruivos presos de qualquer jeito em coques frouxos, pele palida e grandes olhos verdes que prendem a atenção de qualquer um.
Sorrio, ajoelhando-me para ficar na altura dos olhos delas.
— Oi, meninas! Tudo bem com vocês? — pergunto, mantendo o sorriso, à espera de uma resposta.
Elas se encaram.
Aqueles olhos grandes e verdes trocam olhares fixos, como se estivessem em uma conversa silenciosa, antes de finalmente me encararem e balançarem a cabeça em sinal positivo.
— Que bom que estão bem! Eu me chamo Rebecca, mas vocês podem me chamar de Becca. E vocês, como se chamam? — pergunto, curiosa sobre as pequenas figuras atrás do meu chefe.
Elas parecem me encarar com a mesma curiosidade, trocam outro daqueles olhares silenciosos e finalmente respondem com palavras:
— Me chamo Ivy, moça — responde a da direita.
— E eu sou a Ava — responde a da esquerda.
Meus olhos vagam de uma para a outra, sabendo que eu jamais saberia dizer quem é quem se não fossem os vestidos de cores diferentes. Elas são gêmeas idênticas.
Literalmente idênticas.
Volto meus olhos para Thomas, que está de braços cruzados olhando para os pequenos seres ao seu lado, com o cansaço nítido na face.
— Becca — uma das vozes diz baixinho.
— Esse moço disse que tem um cachorrinho aqui. É verdade?Arqueio as sobrancelhas, encaro meu chefe — que parece prestes a ter um colapso mental — e volto a olhar para as garotas à minha frente.
— Tem dois em cima do meu sofá. E eu tenho chocolates na geladeira. Vocês querem? — pergunto, mantendo o sorriso suave no rosto.
Elas trocam aquele olhar novamente, aquele que diz que estão conversando entre si e tentando descobrir se podem ou não confiar na adulta à sua frente — ou seja, eu.
— Moço... A gente pode aceitar o chocolate da tia Becca? — pergunta a que tenho quase certeza de ser Ava.
— Por favor, moço! A gente promete não quebrar o espelho de novo — diz a que acredito ser Ivy. — Foi um acidente...
Estreito os olhos e encaro os dois pares de olhos verdes fitando Thomas quase em súplica.
Arqueio as sobrancelhas para ele em tom de desafio, e ele me encara de volta com aquele ar carregado de sarcasmo que costuma usar no escritório. Como quem acaba de dizer: "Foi você quem pediu."
— Podem ir, meninas, mas se comportem ou não vai haver jantar hoje — ele responde de forma firme. As garotas sorriem e entram correndo na minha sala, indo diretamente em direção aos cães no sofá.
Thomas tenta dar um passo para dentro de casa, mas eu barro sua entrada antes que ele consiga.
— O que pensa que está fazendo? — pergunto, cruzando os braços e sustentando seu olhar, mesmo havendo uma diferença de altura significativa entre nós.
— Você nos convidou para...
— Não, senhor Mitchell. Eu convidei as crianças — digo, mantendo meu tom firme e afiado. Dou um passo à frente, forçando-o a recuar em direção à varanda.
Saio e, finalmente, fecho a porta atrás de mim.
— Você não vai querer deixá-las sem supervisão — ele argumenta, com os ombros caídos, perdendo totalmente aquele ar arrogante de CEO que sempre carrega. — Elas destruíram a minha sala de estar... tem uma gosma verde grudada por todo o meu sofá e até na tela da TV. Conseguiram a proeza de derramar refrigerante no teclado do meu notebook, e até a geladeira precisou ser trocada porque eu não faço ideia do que fizeram, mas conseguiram arrancar uma das portas.
Recuo um passo, piscando algumas vezes e tentando assimilar aquelas palavras enquanto ele me encara. O desespero é nítido em sua voz.
— Com todo o respeito, senhor Mitchell, mas de onde diabos o senhor tirou essas garotinhas? Não me diga que as sequestrou! — pergunto, sentindo um leve pânico crescendo dentro de mim.
Porque, se meu chefe sequestrou essas crianças e as trouxe para a minha casa, eu serei considerada cúmplice.
Ele respira fundo, o cansaço emanando de seu tom.— Eu não sou nenhum criminoso, senhorita Ross. Essas garotas são minhas sobrinhas — ele responde, fazendo-me inclinar a cabeça a noventa graus enquanto o encaro. — É uma longa história. Tudo o que precisa saber é que me tornei responsável por elas após a minha irmã e o marido perderem a vida em um acidente.
Um peso se instala à nossa volta. Troco o peso do corpo de um pé para o outro e tento buscar as melhores palavras para dar minhas condolências.
— Sinto muito pela sua irmã, senhor Mitchell — respondo, sem saber mais o que dizer. — O senhor... vocês gostariam de ficar para o almoço?
— Não quero atrapalhar o seu dia, senhorita Ross — ele recusa, com aquele tom polido de sempre. — Além do mais, eu não sei se...
Ele não termina a frase. O barulho de algo caindo, seguido pelos gritos de Duke e os uivos de Zeus, faz com que eu arregale os olhos em puro desespero.
— Merda... — ele murmura. — Com licença, senhorita Ross. Eu vou buscar meus monstrinhos.
Ele praticamente invade a minha casa, passando pela porta como um furacão prestes a destruir tudo. Entro correndo atrás dele e, para nossa surpresa, as meninas estão sentadas no sofá assistindo ao Bob Esponja, com barras de chocolate nas mãos que eu não faço ideia de onde tiraram.
Ou melhor, faço ideia, sim.
Em contrapartida, Zeus gira em círculos no meio da sala, enquanto Duke se acaba de gritar.
Fecho a porta atrás de nós enquanto Thomas segue até elas, perguntando onde conseguiram o chocolate. Caminho para a cozinha e encontro a geladeira escancarada, uma das banquetas caída no chão e o sumiço de duas barras de chocolate que estavam no congelador.
As quais eu havia colocado lá esta manhã porque estavam moles quando as comprei.
Guardo a banqueta, fecho a geladeira, lavo as mãos e volto a temperar o molho de tomate para a lasanha que eu já havia começado momentos atrás.
Enquanto isso, ouço da sala o eco da voz de Thomas dando uma bronca nas sobrinhas por algo que nem eu mesma sei.
Thomas Mitchell. O sábado e o domingo passaram mais rápido do que eu gostaria de admitir. Consegui descansar o suficiente para recuperar as energias, fui à academia apenas para espairecer a mente sufocada pela rotina, dormi um pouco e até saí no sábado à noite com Philipe, um amigo de longa data que sempre sabia onde encontrar os melhores lugares.Fomos a uma boate badalada no centro da cidade, e era exatamente disso que eu precisava para desligar o cérebro: música eletrônica pulsante, álcool de boa qualidade e mulheres atraentes para elevar meu ânimo. É óbvio que não perdi a oportunidade — caso contrário, não me chamaria Thomas Mitchell —, e saí de lá acompanhado.Fomos para um motel e, antes de ir embora nesta manhã, fiz questão de deixar a conta inteiramente paga; afinal de contas, posso ter meus defeitos, mas não sou nenhum cafajeste.Saí de lá antes que ela acordasse. Não me lembrava do seu nome e nem me preocupei em perguntar. Era apenas uma transa rápida e nada mais do que iss
Thomas Mitchell.Entro em minha cobertura na companhia de Duke e a primeira coisa que me atinge é o silêncio absoluto que me espera. Sem música infantil tocando em loop infinito na TV, sem os passos acelerados pelos corredores e sem o coro frenético de "moço, ela pegou a minha boneca!" ou "moço, a água da pia tá caindo no chão!".Porque sim, a dupla de monstrinhos conseguiu a proeza de entupir a pia do banheiro social usando rolos inteiros de papel higiênico, transformando o piso de mármore em um pequeno lago artificial em questão de minutos.A verdade é que, no último mês, a minha vida resolveu virar de ponta-cabeça e eu simplesmente não faço ideia de como fazê-la voltar para os trilhos. Fazia oito anos que eu e minha irmã não nos falávamos. Oito longos anos de um silêncio cavado no dia do funeral dos nossos pais.Um maldito mal-entendido — mesclado com orgulho e teimosia de ambas as partes — fez com que eu passasse quase uma década longe da vida de Dahlia. E agora que o destino deci
Rebecca RossiO aroma da lasanha preenche a cozinha inteira. O cheiro está de dar água na boca e, enquanto ponho a mesa, dois pares de olhos verdes a rondam com uma curiosidade genuína e infantil.Certo, eu meio que intimei meu chefe e suas sobrinhas a ficarem para o almoço. Thomas estava com uma cara tão cansada que deu até dó.Por falar em Thomas, ele está há quase uma hora parado na entrada da cozinha, de braços cruzados e olhar analítico, encarando-me como se tentasse descobrir se eu envenenei a comida.Tudo bem que ele é um babaca como chefe e no escritório nós vivemos em pé de guerra. Mas aqui é diferente... Aí você se pergunta: como? É simples, tem crianças envolvidas. Eu não enveneno crianças, e tampouco vou perder meu almoço para me vingar do meu chefe pelas minhas duas semanas de sono mal dormido.— Senhorita Becca? — uma das gêmeas me chama. A de vestido roxo, com aqueles enormes olhos verdes encarando-me com curiosidade. — A gente também pode comer na mesa?Pisco algumas v
Rebecca Ross.iA policial feminina à minha frente me encara com o semblante de quem já passou por aquela situação inúmeras vezes. O tédio é notável em sua face enquanto ela inspeciona o ambiente da minha sala de estar.— É a quinta denúncia apenas em apenas duas semanas, senhorita Rossi. Seus vizinhos apontam que existe uma criança e um animal sofrendo maus-tratos neste endereço — diz ela, mantendo o tom profissional, mesmo que sua expressão denuncie que preferia estar em qualquer outro lugar do mundo que não fosse a minha sala.— Eu se quer tenho filho, policial Rivera — respondo, sentindo o desespero crescer dentro de mim. — Cachorro sim. Tenho o Zeus, que está em algum lugar do quintal destruindo o gramado, e também estou cuidando temporariamente do Duke, o buldogue francês do meu chefe. Mas não existe criança nenhuma aqui. Posso mostrar as câmeras, e o restante da casa caso seja necessário.A policial Rivera me encara por alguns segundos, como se decidisse se aquilo realmente é ne


















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