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Capítulo 4

Penulis: Jasmim
Ao amanhecer, eu já não conseguia ficar de pé. A febre me fazia entrar e sair da consciência e, toda vez que abria os olhos, outra lembrança me aguardava na escuridão.

Quando eu tinha nove anos, vesti um vestido preto emprestado para o jantar de domingo, mas meu pai me barrou na porta e disse:

— Esta mesa é para parentes de sangue e membros juramentados da Família.

Quando eu tinha quinze anos, homens armados atacaram um restaurante dos Moretti. Os guardas evacuaram Bianca e me deixaram para trás porque meu nome não constava na lista de pessoas sob proteção. Depois que uma bala raspou meu ombro, peguei um ônibus e fui sozinha ao hospital.

Meu pai chegou duas horas depois e perguntou por que eu havia me exposto aos atiradores, não se eu estava ferida.

Durante dezoito anos, acreditei que me tratavam daquela maneira porque eu não era filha biológica deles. Agora, enquanto agonizava no porão daquela propriedade, compreendi que o sangue nunca havia sido o motivo. Eles simplesmente haviam escolhido Bianca.

Perto do meio-dia, Dana destrancou o porão e ficou paralisada ao ver o sangue sob meu corpo.

— Rocco, os lábios dela estão ficando azuis.

Rocco desceu, tocou minha testa e imediatamente afastou a mão.

— Ela precisa ir para o hospital. — Disse Dana.

— O Don disse que ela não sai sem autorização.

— Ela pode morrer.

Rocco subiu para ligar para Dominic. Ouvi-o explicar minha condição duas vezes, mas, quando voltou, ele trancou a porta novamente.

— Dominic disse que a ordem continua de pé. Você vai permanecer isolada até que o Don tome uma decisão depois da festa de gala.

À tarde, eu estava tossindo sangue. Cada respiração arranhava meu peito, e eu já não tinha forças para pedir ajuda.

De repente, um telefone começou a tocar debaixo do catre. Rocco devia tê-lo deixado cair quando veio me examinar.

Arrastei-me pelo chão e alcancei o aparelho sob a cama. O nome do meu pai brilhava na tela, pois ele estava ligando para Rocco.

Atendi.

— Rocco? — A voz do meu pai era fria, enquanto aplausos e música da cerimônia de posse de Bianca soavam ao fundo.

Tentei falar, mas minha garganta se encheu de sangue.

— Pai.

Após um momento de silêncio, sua voz ficou mais dura.

— Sua mãe disse que você continua fingindo estar doente. Até quando pretende continuar com isso?

— Não estou fingindo.

— Você procurou sua família biológica, ameaçou a posição de Bianca e se recusou a confessar. Agora está tentando assustar sua mãe na noite mais importante da vida da sua irmã.

— Não consigo respirar.

— Então pare de desperdiçar suas forças e assine a declaração.

Fechei os olhos.

— Estou morrendo.

Ele soltou o ar com impaciência.

— Você tem vinte e quatro anos, Serena. Dizer uma coisa tão repugnante não vai me fazer trazê-la para casa.

— Rocco e Dana não querem me levar ao hospital.

— Eles respondem a mim. Até você admitir o que fez, aquela porta continuará trancada.

Só então compreendi que ele realmente acreditava que eu não poderia morrer sem sua autorização.

— Pai. — Sussurrei, chamando-o assim pela última vez. — Eu poderia ter vivido.

Após uma breve pausa, ele respondeu:

— Volte e venha falar comigo sobre viver quando tiver aprendido a dizer a verdade.

A ligação terminou, e o telefone escorregou da minha mão.

De repente, meu corpo pareceu perder todo o peso enquanto a dor desaparecia, seguida pelo frio. Quando abri os olhos novamente, estava de pé no extremo oposto do porão.

Rocco estava ajoelhado ao lado do catre, pressionando as duas mãos contra meu peito, enquanto Dana gritava ao telefone de emergência. A mulher caída no chão não se movia. Seu rosto estava marcado por sangue seco, hematomas arroxeados cobriam seus braços, e uma das mãos ainda se estendia na direção do telefone.

Aquele era o meu corpo.

Eu estava morta.

Horas depois, meu pai voltou ao escritório após a festa de gala da posse de Bianca. Ele acabara de tirar a gravata-borboleta quando a linha segura tocou.

— Senhor Moretti, aqui é a xerife Claire Nolan, do condado de Ashland. Encontramos Serena trancada dentro do porão de tempestade na sua propriedade de Black Pine.

Meu pai franziu a testa.

— Passe o telefone para ela.

— Não posso. Os paramédicos constataram o óbito no local.

Ele soltou uma risada fria.

— Serena ligou para a mãe esta tarde com a mesma mentira. Diga a ela que o espetáculo acabou.

— Senhor Moretti...

— Se ela continuar com isso, não terá mais uma casa para onde voltar. Vou expulsá-la da propriedade dos Moretti de uma vez por todas.

A xerife ficou em silêncio por um instante.

— Sua filha está morta, senhor Moretti. Acabei de enviar uma fotografia do local para o seu número seguro.

O telefone vibrou sobre a escrivaninha.

Meu pai abriu a mensagem.

A fotografia mostrava meu corpo no chão do porão. Sangue seco cobria meu rosto, hematomas escureciam meus braços, e uma das mãos continuava estendida na direção do telefone que eu havia tentado alcançar.

Ele ficou encarando a tela, enquanto todo o desprezo desaparecia de seu rosto.

Então, o telefone escorregou de sua mão.

— Serena!

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