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Mudança de Plano

Penulis: Heloyse Salles
last update Tanggal publikasi: 2026-08-15 10:31:10

Janaína

​Barreirinhas, Maranhão

Tempo presente

​O vento dos Lençóis Maranhenses não tem pena de quem tenta manter o cabelo no lugar. Mas tente explicar isso a uma influenciadora digital com dois milhões de seguidores que faz questão de ser um pé no saco?

​Tícia Gusmão, mais conhecida como a "Tia dos Tours", fez questão de fazer seu ensaio fotográfico nos Lençóis e agora não para de reclamar, chegando ao cúmulo de perguntar por que tinha tanta areia no seu pé.

Contemplo a formosura dos Lençóis Maranhenses, para não perder as estribeiras e chutar o pau da barraca. 

As dunas de areia alva e fina são desenhadas pelo vento constante, intercaladas por lagoas de águas cristalinas que variam do verde-esmeralda ao azul-turquesa mais puro. Além de ser Patrimônio Mundial Natural, é o meu lar, e nem mesmo a futilidade da garota de vestido esvoaçante consegue tirar o encanto disso.

​— Jana! Jana, peraí! — grita a garota, ajeitando o chapéu de palha gigante enquanto equilibra o corpo magro no topo de uma duna. — Preciso daquela vibe meio desértica chique, sabe? Faz a minha perna parecer mais longa!

​Respiro fundo, ajustando o foco da câmera e segurando a tentação de revirar os olhos. 

​Olho ao redor por um segundo para não perder a sanidade. Sorte dela é que faço o que amo. Se fosse por minha mãe, eu cursaria Direito. Com a nota do ENEM eu podia ser a "doutora" da família, mas o meu amor pela fotografia falou mais alto. 

Há seis anos venci o concurso da Revista Rural, que faz parte da editora Prisma. O sucesso foi tão grande, que logo veio o convite para ser uma das funcionárias fixas.

​— Jana! — A influenciadora grita, desejando mais fotos e me retirando dos devaneios. Faço um gesto com o dedo indicador e me posiciono.

​— Vamos lá, mais uma. Sorriso natural, por favor — digo, forçando o tom mais simpático e profissional do meu vocabulário.

​Disparo a sequência de fotos. Um toque de vento sopra uma rajada de areia fina direto nas nossas pernas, e a garota solta um estridente:

​— Ai, meu Deus, vai sujar meu look! Odeio areia!

" Ah, não! Agora chega!"

​— Na próxima vez você faz o ensaio no estúdio e escolhe o fundo que desejar: deserto do Saara, praias do Caribe, Cristo Redentor...

​A mulher para por um instante, como que surpresa pelas minhas palavras ditas de forma firme. Prendo a respiração. Falei demais?

​Tícia cai na gargalhada. Solto o ar, aliviando a tensão. 

​— Tão engraçada, Jana!

Nem acredito. Que mulher doida!

​É exatamente nesse instante que o meu celular vibra no bolso da calça. Olho no visor: Sabrina Lima - Ed. Revista Rural.

​Sinto um alívio imediato correr pelas minhas veias. Salva pelo telefone.

​— Com licença, preciso atender. É da revista — digo para Tícia, já me afastando alguns passos para conseguir ouvir acima do som do vento.

​— Janaína? — a voz firme de Sabrina soa clara do outro lado da linha. — Conseguiu terminar a pauta do turismo com a Tícia?

​— Oi, Sabrina. Estou finalizando os últimos cliques nas dunas agora. Talvez amanhã ou depois de amanhã...

​— Para! — ela me interrompe rapidamente —vou providenciar um substituto agora.

​Paraliso. É muito estranho meu remanejamento tão repentino.

​— Algum problema? O material não agradou?

​— Não, nada disso, fica tranquila — a editora me sossega, rindo. — Preciso de você em outro lugar o quanto antes. Tenho uma pauta principal para a próxima edição da Revista Rural e pensei direto no seu olhar para a cobertura.

​Meu coração acelera. A Revista Rural é onde minha fotografia ganha alma. Diferente dos ensaios de moda ou das fotos comerciais para redes sociais de outros setores da editora, o trabalho para a revista me permite capturar a essência da terra: as mãos calejadas dos trabalhadores, a rotina dura dos fazendeiros, o suor, a poeira e a dignidade do cotidiano no campo.

​— Perfeito! Estava morrendo de saudades de fotos do campo — digo com um sorriso nos lábios, já organizando na cabeça minha jornada por outros cantos do meu estado, talvez na região sul, onde fica a maior parte das fazendas. — Topo na hora.

​Ela dá um sorrisinho satisfeito do outro lado:

​— Beleza. O projeto é fazer uma edição especial com matérias sobre o cotidiano das fazendas locais, a criação de búfalos e a vida dos fazendeiros da região. É um trabalho de imersão. Quero fotos humanas, que contem histórias de verdade, do jeito que só você sabe fazer.

​Um sorriso espontâneo surge no meu rosto. As fazendas, a cultura rústica e crua do campo... tudo o que preciso para sair da rotina.

​— Que maravilha! Quando começo? — pergunto, calculando o tempo para arrumar as malas e organizar o equipamento.

​— Amanhã de manhã. Quero que pegue o primeiro transporte. As passagens vão chegar no seu e-mail.

​— Perfeito! Obrigada, chefe!

​— De nada e... se tiver um fazendeiro bem gostoso, passa pra mim as fotos sem demora!

​Dou uma gargalhada e desligo a ligação. Essa Sabrina não tem jeito. Faz coleção de homens bonitos num segundo e descarta no outro!

​Olho mais uma vez para a imensidão das dunas à minha frente. A garota acena de longe, impaciente, cobrando mais fotos. Guardando o celular no bolso, dou um longo suspiro de satisfação. Hora de dar tchau para o ensaio da chata de plantão. A minha câmera tem uma nova história para contar.

​Então, lembro de um detalhe e sem delongas, ligo de volta para minha chefe.

​— Sabrina, qual é o destino mesmo?

​— Oh, acabei esquecendo de falar, mas tenho certeza de que você vai amar, pois dá pra aproveitar e rever seus parentes. É uma mistura de trabalho e diversão.

​— Hum? — fico sem entender. — Como assim?

​Ela acaba com o suspense:

​— Vai ser em Soure, na Ilha de Marajó. Não é lá que sua irmã e seus sobrinhos moram?

​Fico pálida no ato. O suor se espalha em minhas têmporas e não é por causa do calor escaldante dos Lençóis.

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