FAZER LOGINJanaína
Barreirinhas, Maranhão Tempo presente O vento dos Lençóis Maranhenses não tem pena de quem tenta manter o cabelo no lugar. Mas tente explicar isso a uma influenciadora digital com dois milhões de seguidores que faz questão de ser um pé no saco? Tícia Gusmão, mais conhecida como a "Tia dos Tours", fez questão de fazer seu ensaio fotográfico nos Lençóis e agora não para de reclamar, chegando ao cúmulo de perguntar por que tinha tanta areia no seu pé. Contemplo a formosura dos Lençóis Maranhenses, para não perder as estribeiras e chutar o pau da barraca. As dunas de areia alva e fina são desenhadas pelo vento constante, intercaladas por lagoas de águas cristalinas que variam do verde-esmeralda ao azul-turquesa mais puro. Além de ser Patrimônio Mundial Natural, é o meu lar, e nem mesmo a futilidade da garota de vestido esvoaçante consegue tirar o encanto disso. — Jana! Jana, peraí! — grita a garota, ajeitando o chapéu de palha gigante enquanto equilibra o corpo magro no topo de uma duna. — Preciso daquela vibe meio desértica chique, sabe? Faz a minha perna parecer mais longa! Respiro fundo, ajustando o foco da câmera e segurando a tentação de revirar os olhos. Olho ao redor por um segundo para não perder a sanidade. Sorte dela é que faço o que amo. Se fosse por minha mãe, eu cursaria Direito. Com a nota do ENEM eu podia ser a "doutora" da família, mas o meu amor pela fotografia falou mais alto. Há seis anos venci o concurso da Revista Rural, que faz parte da editora Prisma. O sucesso foi tão grande, que logo veio o convite para ser uma das funcionárias fixas. — Jana! — A influenciadora grita, desejando mais fotos e me retirando dos devaneios. Faço um gesto com o dedo indicador e me posiciono. — Vamos lá, mais uma. Sorriso natural, por favor — digo, forçando o tom mais simpático e profissional do meu vocabulário. Disparo a sequência de fotos. Um toque de vento sopra uma rajada de areia fina direto nas nossas pernas, e a garota solta um estridente: — Ai, meu Deus, vai sujar meu look! Odeio areia! " Ah, não! Agora chega!" — Na próxima vez você faz o ensaio no estúdio e escolhe o fundo que desejar: deserto do Saara, praias do Caribe, Cristo Redentor... A mulher para por um instante, como que surpresa pelas minhas palavras ditas de forma firme. Prendo a respiração. Falei demais? Tícia cai na gargalhada. Solto o ar, aliviando a tensão. — Tão engraçada, Jana! Nem acredito. Que mulher doida! É exatamente nesse instante que o meu celular vibra no bolso da calça. Olho no visor: Sabrina Lima - Ed. Revista Rural. Sinto um alívio imediato correr pelas minhas veias. Salva pelo telefone. — Com licença, preciso atender. É da revista — digo para Tícia, já me afastando alguns passos para conseguir ouvir acima do som do vento. — Janaína? — a voz firme de Sabrina soa clara do outro lado da linha. — Conseguiu terminar a pauta do turismo com a Tícia? — Oi, Sabrina. Estou finalizando os últimos cliques nas dunas agora. Talvez amanhã ou depois de amanhã... — Para! — ela me interrompe rapidamente —vou providenciar um substituto agora. Paraliso. É muito estranho meu remanejamento tão repentino. — Algum problema? O material não agradou? — Não, nada disso, fica tranquila — a editora me sossega, rindo. — Preciso de você em outro lugar o quanto antes. Tenho uma pauta principal para a próxima edição da Revista Rural e pensei direto no seu olhar para a cobertura. Meu coração acelera. A Revista Rural é onde minha fotografia ganha alma. Diferente dos ensaios de moda ou das fotos comerciais para redes sociais de outros setores da editora, o trabalho para a revista me permite capturar a essência da terra: as mãos calejadas dos trabalhadores, a rotina dura dos fazendeiros, o suor, a poeira e a dignidade do cotidiano no campo. — Perfeito! Estava morrendo de saudades de fotos do campo — digo com um sorriso nos lábios, já organizando na cabeça minha jornada por outros cantos do meu estado, talvez na região sul, onde fica a maior parte das fazendas. — Topo na hora. Ela dá um sorrisinho satisfeito do outro lado: — Beleza. O projeto é fazer uma edição especial com matérias sobre o cotidiano das fazendas locais, a criação de búfalos e a vida dos fazendeiros da região. É um trabalho de imersão. Quero fotos humanas, que contem histórias de verdade, do jeito que só você sabe fazer. Um sorriso espontâneo surge no meu rosto. As fazendas, a cultura rústica e crua do campo... tudo o que preciso para sair da rotina. — Que maravilha! Quando começo? — pergunto, calculando o tempo para arrumar as malas e organizar o equipamento. — Amanhã de manhã. Quero que pegue o primeiro transporte. As passagens vão chegar no seu e-mail. — Perfeito! Obrigada, chefe! — De nada e... se tiver um fazendeiro bem gostoso, passa pra mim as fotos sem demora! Dou uma gargalhada e desligo a ligação. Essa Sabrina não tem jeito. Faz coleção de homens bonitos num segundo e descarta no outro! Olho mais uma vez para a imensidão das dunas à minha frente. A garota acena de longe, impaciente, cobrando mais fotos. Guardando o celular no bolso, dou um longo suspiro de satisfação. Hora de dar tchau para o ensaio da chata de plantão. A minha câmera tem uma nova história para contar. Então, lembro de um detalhe e sem delongas, ligo de volta para minha chefe. — Sabrina, qual é o destino mesmo? — Oh, acabei esquecendo de falar, mas tenho certeza de que você vai amar, pois dá pra aproveitar e rever seus parentes. É uma mistura de trabalho e diversão. — Hum? — fico sem entender. — Como assim? Ela acaba com o suspense: — Vai ser em Soure, na Ilha de Marajó. Não é lá que sua irmã e seus sobrinhos moram? Fico pálida no ato. O suor se espalha em minhas têmporas e não é por causa do calor escaldante dos Lençóis.— O que você vê aqui hoje — Lili começa, apontando para o casarão —, o povo de Soure chama de cabaré. Mas para o Diego e o Bil, isso aqui sempre foi abrigo e amizade. Quando o Diego era um rapaz novo, teimoso, querendo largar tudo, fui eu quem puxou a orelha dele nesta mesma varanda para não abandonar os estudos. Fui eu quem deu conselho quando ele achava que o mundo devia servir a ele.Enxugo uma lágrima com as costas da mão, escutando cada palavra em silêncio.— E quando veio a pandemia... E o mundo fechou as portas e o meu pessoal aqui não tinha o que comer, não foram os "santos" da cidade que estenderam a mão. Foram esse garoto e o Bil. Eles bancaram esta casa sem pedir nada em troca. O Diego e o Bil sempre respeitaram cada mulher que pisou aqui dentro. A nossa amizade não é firmada por favores sexuais, e sim por mútuo respeito. Ele só tem olhos para você. Essa é a verdade.Ao ouvir aquelas palavras, eu me desarmei. Lágrimas continuam caindo, agora de alívio. A tensão no meu c
Amanheceu. Espreguiço-me na cama, ainda com aquele sorriso bobo no rosto de quem vive um sonho.Pego o celular, curiosa. Será que há alguma mensagem de bom-dia do Diego? Confirmo que não, mas a tela está cheia de notificações de um número desconhecido.Uno as sobrancelhas e abro o aplicativo. Meus olhos crescem de espanto. São várias fotos, todas com data e hora registradas. Meu mundo cai em segundos.Do dia em que assumimos o namoro até ontem, a Hilux do Diego aparece entrando no estacionamento privativo do cabaré da Lili. Sempre à tarde, algumas vezes com o Bil. Junto das imagens, uma mensagem de texto seca e direta:"Todo fim de tarde ele bate ponto no cabaré antes de ver você. Abre o olho, inocente. kkkkkkkk"Sinto o sangue fugir do meu rosto. Minhas mãos começam a tremer violentamente e a respiração fica curta. É uma dor incalculável, que mistura decepção e mágoa. As lágrimas deslizam quentes, embaçando a tela. Como ele pôde ser tão cruel?Sem pensar em mais nada, ligo par
DiegoNo cantar do galo, converso com o Fred na área dos cavalos sobre o avanço das obras do hotel. Caso dê tudo certo, a inauguração acontecerá em um mês.Ficamos bastante tempo montando estratégias para a inauguração, até que meu celular vibra no bolso. Peço licença ao vaqueiro, imaginando que seja a Janaína respondendo ao meu bom-dia, mas é o Bil." Será que caiu da cama, esse doido?"— Alô! Diga aí, mano!Bil, no seu jeito despojado, fala:— Rapaz, tenho uma notícia maravilhosa pra te dar! Estou feliz da vida!Alargo o sorriso:— Não acredito! Conseguiu?— Consegui, cara! — a vibração na voz dele é tocante. — Vou participar do concurso de DJs! Viajo amanhã de manhã.— Sério?! Isso é o máximo! Vai ser em São Paulo, né?— Sim! Mas não se preocupe, chego a tempo para a inauguração do hotel, beleza?Suspiro forte. Apesar da saudade, Bill merece realizar seus sonhos. — Ah, amigo, vou sentir tua falta, mas fico na torcida. Fique o tempo que for necessário... Já falou com a
O sol está se pondo e o clima na praça tá diferente hoje. Nem começou junho direito, mas o cheiro de milho assado já impregna nossas narinas, num claro convite para uma movimentação mais maciça dos apreciadores.Bandeirolas coloridas balançam ao movimento do vento que vem do rio, amarradas de uma amendoeira a outra na praça. Alguns vendedores aguardam os visitantes e um carimbó de fundo é ouvido ao longe.É neste clima que eu e Janaína passeamos pelo centro de Soure. Com uma semana de namoro, por onde a gente passa, deixamos um rastro de curiosidade. Vejo de canto de olho o povo se cotovelando e sei exatamente o que se perguntam: "Como aquela mocinha foi fisgada tão rápido pelo maior garanhão da cidade?"Aff! Eles jamais vão entender e não sou eu quem vai dar explicação. Que tirem suas próprias conclusões; o importante é a minha felicidade. Tô apaixonado de tal forma que nada neste mundo me incomoda.Andamos pelas ruas de mãos dadas, olhos nos olhos, trocando sorrisos faceiros no
Léa(Uma cidade sem fuxico é só uma cidade-fantasma. H.S.)Lene está na recepção do hotel fazendo o check-in de um casal de turistas, e eu aproveito para pegar um ar fresco na noite tranquila do centro de Soure.Me acomodo no meu banco preferido e consulto o relógio. Não demora cinco segundos e lá vai a Hilux do Diego cortando a rua no sentido da fazenda Monteiro. Curvo meus lábios num sorriso de "Aí tem!". Finalmente Soure renasceu das cinzas! O amor e a fofoca estão no ar!Há três dias, mesmo sem confirmação oficial, Diego e Janaína se tornaram o assunto número um de Soure. Das mesas de dominó nos botecos às lavadeiras na beira do rio, não se fala em outra coisa.Um gavião que se preze não perde o alvo, e o Diego nem deu tempo de a moça ser fisgada por outro. Mas a dúvida que paira em cada esquina é uma só: até quando esse namoro vai durar?Para tirar a prova, saí hoje fazendo a minha ronda como quem não quer nada, atrás de quem pudesse me soltar uma fofoca quentinha.De
Após o jantar, caminhamos sem pressa pela orla. A brisa da praia do Pesqueiro traz o cheiro da maré e bagunça os fios que escapam do coque de Janaína, além de deixar o vestido esvoaçante, deixando-a mais tentadora. Seguro a mão dela assim, com os dedos entrelaçados, é uma sensação quase inacreditável.Até outro dia, embora a atração estava a cada dia me derrubando, não pensei que estaria mais perto este dia tão único.De repente, ela para. Volta-se para mim com uma expressão misteriosa, levando a mão para trás da orelha para prender uma mecha rebelde:— Diego... Eu também preciso confessar uma coisa a você.Olho bem para o rosto dela, atento a cada detalhe sob a luz suave da lua.— Eu nunca esqueci o meu primeiro beijo — ela murmura.Retenho a respiração por um segundo e vou soltando o ar aos poucos. Uma emoção quente se espalha pelo meu peito. Sorrio, deixando escapar o alívio que tento disfarçar:— Eu sei que foi o seu primeiro beijo... E saber que fui o único a deixar essa







