INICIAR SESIÓNTodo mundo em Soure conhece a fama de Diego. Dono de um charme que parece herança das terras marajoaras, o fazendeiro fez da boemia o seu estilo de vida e jurou que nenhuma mulher o prenderia em um cercado. Ele dita as regras do jogo. Ou, pelo menos, ditava. Tudo vira de cabeça para baixo com a chegada de Janaína, que está disposta a seguir seus próprios caminhos, sem tempo para os joguinhos do conquistador local. Pela primeira vez, Diego encontra alguém que não cede ao seu sorriso de canto de boca, e o feitiço vira contra o feiticeiro. Entre fofocas de vilarejo, banhos de rio e os olhares atentos dos búfalos de Soure, fica a pergunta: quem vai acabar laçando quem? Descubra nesta história leve e divertida sobre o que acontece quando o amor resolve passar a perna no maior libertino do Marajó. Pelo menos é o que dizem por aí...
Ver másSoure, Ilha de Marajó
(Seis anos antes...) Janaína Os convidados de Jane, minha irmã e do meu cunhado Miguel começam a chegar na fazenda para testemunharem o maior e mais falado evento de Soure: a renovação de dez anos de casados, ou como pesquisei no G****e, as bodas de zinco. É fim de tarde, um espetáculo à parte. E como não posso perder a oportunidade e tirar belas fotos da paisagem, aponto o meu celular capenga, mas com câmera boazinha e registro para a eternidade o cenário pitoresco, repleto de búfalos que pastam placidamente pelo campo. Alguns minutos depois, sigo em direção ao local escolhido para as bodas. Ainda bem que é na fazenda do casal, porque posso sumir dali assim que terminar a cerimônia e escolher a foto para o concurso que pretendo me inscrever, categoria iniciante para a revista Rural. Passando longe dos meus pais e sobrinhos, observo a decoração feita em frente ao casarão da fazenda. Tudo adornado de flores naturais, vermelhas, rosas e brancas e fazendo um reconhecimento panorâmico pela área, em busca de duas "pessoinhas". " Onde estão aqueles sumidos?" Vou passando pelas mesas, cumprimentando com sorriso e menear de cabeça alguns convidados, até encontrar os dois no fundão, como se tivessem na escola, fingindo estudar. Ali estão meu irmão caçula, Jackson e minha amiga Lene. Acelero os passos e ao parar cruzo os braços ao notar o quanto estão distraídos... ou posso dizer atraídos? Conversam como se não tivesse tocando o sucesso da banda Calypso e nem o burburinho dos convidados se confraternizando a todo vapor ou o cheiro de churrasco atiçando sem dó. Bato o pé esquerdo com impaciência para deixar claro que estou bem ali na fuça deles. Os dois ignoram totalmente o ar da minha graça. Interrompo os pombinhos, forçando uma tosse seca. — Ei, Lene, não vai atrás desse aí não! Se ouvem, não conseguem parar a conversa sobre mangás, animes, doramas... Agh!!! Suspiro indignada. Será que estou tão sem graça assim, no meu vestido midi bege de crepe de seda , que me tornei invisível? — Que saco! — reviro meus olhos acinzentados em desaprovação. Jogo meu cabelo castanho para trás, sento perto de Lene e resolvo acalmar meus nervos num singelo " confisco" dos salgados e dos refris. Sem alternativa, volto a atenção para a festa, já procurando ângulos perfeitos com meu dispositivo. Foto daqui, foto de lá. Caras e bocas para as selfies. Dou um tempo para não acabar a memória do celular. Volto a observar o lugar. A decoração está linda, ok! O casal anfitrião animado, ok! Falando neles, como bons anfitriões recebem os convidados exalando a alegria de um casal belo e apaixonado. Festa na fazenda é hilária. Um festival de chapéus e botas de couro e vestidos coloridos. Parece mais um arraial junino, sem nada empolgante. Até que... Chega uma família que não conheço. Pulo meus olhos do casal de idosos e travo no belo rapaz ao lado deles. Elegância selvagem! Bem apropriado a ele naquela camisa branca comprida, desabotoada até um certo ângulo em que posso ver tatuagens. Desço o olhar para o cinto de couro legítimo e a calça jeans que acentua cada músculo da coxa... Uau! Quando ele exibe um sorriso de canto de boca, sinto o coração acelerar e um fogo esquentar minhas bochechas. Que gato! Os olhos caatanhos , o cabelo preto, meio arrepiado e aquele ar soberbo de quem sabe que todas babam por ele. É pura masculinidade e não consigo parar de olhar! Um suspiro sai quando ele se vira e vejo os atributos das costas largas e bunda bem feita. "Ai, meu santinho das mocinhas imaculadas! Não tenho idade pra tanta emoção. Tenho dezenove anos. Preciso focar no ENEM e nem moro aqui pra me apaixonar!" Sem perda de tempo, cutuco a Lene, entretida na conversa "Inter galática" agora sobre os cavaleiros de zodíaco . A amiga se assusta com a interrupção e pergunta, meio ríspida: — O que foi, mulher? Para não me denunciar, aponto discretamente com o queixo, e começo como não quer nada: — Aquela família... Nunca tinha visto por estas bandas... Lene segue o meu olhar, observa a família em questão e responde sem muito interesse — Ah... É o João e a Vera Magalhães... A fazenda deles fica mais perto de Salvaterra. Faço um cálculo mental. Não é tão longe daqui da fazenda Monteiro. E antes de Lene voltar a atenção total para Jackson, emendo: — E aquele ali é o filho deles? Após essa pergunta, percebo a mancada. Jackson e Lene me observam desconfiados. — Hum... Digo já pra mamãe que tu quer namorar! — meu irmão usa um tom ameaçador. — Eu? Deus me livre! — disfarço. — Nem você, tá? Provoco de propósito. Os dois se mexem desconfortáveis em suas cadeiras. Minha amiga observa o rapaz, que se junta a um grupo de fazendeiros para as costumeiras prosas sobre grana. Se recompõe e continua: — Diego é o maior raparigueiro da Ilha de Marajó. Nem se engrace. — Lene avisa, cirúrgica. — Ele só gosta de quenga e de mulher safada. Sinto um golpe invisível no peito. — Credo, amiga, ele nem é tão bonito! Só perguntei porque nunca tinha visto. ( Que mentira!) — Bom... Ele não faz o meu tipo e mesmo assim... É velho! Tem vinte e cinco anos! — E essa idade é de velho? Lene, ele é só seis anos mais velho que a gente! — Pra mim, sim! — Ela afirma, dando como encerrada a minha intromissão, voltando ao dengo com meu irmão. "Papa-anjo duma figa, meu irmão tem dezessete!" Tive vontade de gritar no pé do ouvido dela. Mas o pensamento voa quando a minha "distração" passa caminhando bem na minha frente e se encosta num tronco de uma mangueira. Ele está vidrado no celular. Um amigo dele se aproxima e após conversarem por um momento, vão se sentar num lugar mais distante, porém de onde estou, dá pra ver qualquer movimento dele. Que monumento!— O que você vê aqui hoje — Lili começa, apontando para o casarão —, o povo de Soure chama de cabaré. Mas para o Diego e o Bil, isso aqui sempre foi abrigo e amizade. Quando o Diego era um rapaz novo, teimoso, querendo largar tudo, fui eu quem puxou a orelha dele nesta mesma varanda para não abandonar os estudos. Fui eu quem deu conselho quando ele achava que o mundo devia servir a ele.Enxugo uma lágrima com as costas da mão, escutando cada palavra em silêncio.— E quando veio a pandemia... E o mundo fechou as portas e o meu pessoal aqui não tinha o que comer, não foram os "santos" da cidade que estenderam a mão. Foram esse garoto e o Bil. Eles bancaram esta casa sem pedir nada em troca. O Diego e o Bil sempre respeitaram cada mulher que pisou aqui dentro. A nossa amizade não é firmada por favores sexuais, e sim por mútuo respeito. Ele só tem olhos para você. Essa é a verdade.Ao ouvir aquelas palavras, eu me desarmei. Lágrimas continuam caindo, agora de alívio. A tensão no meu c
Amanheceu. Espreguiço-me na cama, ainda com aquele sorriso bobo no rosto de quem vive um sonho.Pego o celular, curiosa. Será que há alguma mensagem de bom-dia do Diego? Confirmo que não, mas a tela está cheia de notificações de um número desconhecido.Uno as sobrancelhas e abro o aplicativo. Meus olhos crescem de espanto. São várias fotos, todas com data e hora registradas. Meu mundo cai em segundos.Do dia em que assumimos o namoro até ontem, a Hilux do Diego aparece entrando no estacionamento privativo do cabaré da Lili. Sempre à tarde, algumas vezes com o Bil. Junto das imagens, uma mensagem de texto seca e direta:"Todo fim de tarde ele bate ponto no cabaré antes de ver você. Abre o olho, inocente. kkkkkkkk"Sinto o sangue fugir do meu rosto. Minhas mãos começam a tremer violentamente e a respiração fica curta. É uma dor incalculável, que mistura decepção e mágoa. As lágrimas deslizam quentes, embaçando a tela. Como ele pôde ser tão cruel?Sem pensar em mais nada, ligo par
DiegoNo cantar do galo, converso com o Fred na área dos cavalos sobre o avanço das obras do hotel. Caso dê tudo certo, a inauguração acontecerá em um mês.Ficamos bastante tempo montando estratégias para a inauguração, até que meu celular vibra no bolso. Peço licença ao vaqueiro, imaginando que seja a Janaína respondendo ao meu bom-dia, mas é o Bil." Será que caiu da cama, esse doido?"— Alô! Diga aí, mano!Bil, no seu jeito despojado, fala:— Rapaz, tenho uma notícia maravilhosa pra te dar! Estou feliz da vida!Alargo o sorriso:— Não acredito! Conseguiu?— Consegui, cara! — a vibração na voz dele é tocante. — Vou participar do concurso de DJs! Viajo amanhã de manhã.— Sério?! Isso é o máximo! Vai ser em São Paulo, né?— Sim! Mas não se preocupe, chego a tempo para a inauguração do hotel, beleza?Suspiro forte. Apesar da saudade, Bill merece realizar seus sonhos. — Ah, amigo, vou sentir tua falta, mas fico na torcida. Fique o tempo que for necessário... Já falou com a
O sol está se pondo e o clima na praça tá diferente hoje. Nem começou junho direito, mas o cheiro de milho assado já impregna nossas narinas, num claro convite para uma movimentação mais maciça dos apreciadores.Bandeirolas coloridas balançam ao movimento do vento que vem do rio, amarradas de uma amendoeira a outra na praça. Alguns vendedores aguardam os visitantes e um carimbó de fundo é ouvido ao longe.É neste clima que eu e Janaína passeamos pelo centro de Soure. Com uma semana de namoro, por onde a gente passa, deixamos um rastro de curiosidade. Vejo de canto de olho o povo se cotovelando e sei exatamente o que se perguntam: "Como aquela mocinha foi fisgada tão rápido pelo maior garanhão da cidade?"Aff! Eles jamais vão entender e não sou eu quem vai dar explicação. Que tirem suas próprias conclusões; o importante é a minha felicidade. Tô apaixonado de tal forma que nada neste mundo me incomoda.Andamos pelas ruas de mãos dadas, olhos nos olhos, trocando sorrisos faceiros no












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