INICIAR SESIÓNAlena Petrova
Eu estava vivendo um inferno. Não fazia ideia de quando isso iria acabar e se iria acabar. Já fazia aproximadamente uma semana que eu estava ali e todo santo dia, quando aqueles caras vinham entregar uma gororoba que chamavam de comida — um tipo de mingau bem empapado — eles jogavam os pratos para nós. Às vezes, a comida caía no chão, sujando tudo e sobrava um restinho nos pratos, que dava para comer. Outras vezes, ia tudo direto ao chão e, caso não comêssemos, levávamos uma surra. Era horrível. Eu vinha rezando escondido, rogando a Deus todo dia, quando nenhum deles estava vendo, por um sinal. Eu me recusava acreditar que minha vida fosse acabar dessa maneira. Contudo, o dia que eu seria leiloada estava chegando e a esperança indo embora. O dia do leilão chegou e eu ainda não tinha perdido a esperança. Ela estava brilhando bem fraca lá no fundo da minha alma, mas ainda resistia. — Sabe que isso não vai adiantar, né? Seremos todas vendidas. — uma das mulheres que aguardava sua vez, falou comigo, enquanto eu, ajoelhada, rezava o terço. — Ainda tenho fé. Até o último segundo. Você deveria fazer o mesmo e não se conformar com isso. — falei com ela. — Perdi minha fé há muito tempo. Acho que Deus nem mesmo existe. E se existe, nunca me ouviu. — Não ouviu mesmo. — a voz do leiloeiro soou, nos interrompendo, quando ele veio buscá-la. — É a sua vez. Não deu nem tempo para nos despedirmos, pois rapidamente ele a levou. Enquanto isso, eu continuava a rezar e cada vez que uma das mulheres saía, eu rogava a Deus ainda mais. Me sentia suja diante dele com todas aquelas roupas curtas e maquiagem extravagante com a qual me produziram. Parecia uma puta de luxo, mas eles pareciam apreciar isso. Eles me pegaram e me deixaram bem próximo do lugar onde estava acontecendo o leilão, depois de me exibir como um objeto para os homens que ali estavam e o leiloeiro começou. — Cinquenta mil rublos russos! Quem dá mais? — o leiloeiro falou e, a cada palavra dita por ele, meu coração se apertava e eu, de joelhos, segurando meu terço, rezava. Enquanto eu rezava, minha voz soava quase sussurrada. Eu estava morrendo de medo. No fim, depois de vários lances, não teve jeito. Eu fui comprada e aquele seria o meu novo destino. (...) Após ser levada para uma sala onde atestariam que eu realmente era virgem, foi tudo muito pior do que pensei. Me colocaram deitada numa maca, onde o médico abria minhas pernas e o homem que havia me comprado parecia fissurado com sua aquisição, que no caso era eu. Ele olhava para o meu corpo com desejo e eu temia ainda mais pelo que se seguiria quando saíssemos dali com ele me levando embora. Eles conversavam como se eu não estivesse ali, e o homem que me comprou me chamava de puta. Até que outro homem, o mesmo que havia me levado para ali e havia me vendido, apareceu, querendo me negociar com o homem que me comprou no leilão. — Acha mesmo que eu me desfaria de uma donzela com o rabo virgem…? — comentou, rindo como se eu fosse uma mercadoria. — Eu cubro o valor que você pagou. Não se preocupe. Apenas me entregue ela. — Já disse que não. É melhor ir embora! Eu não sabia se gritava, chorava ou agradecia por ele estar ali. No entanto, não fazia ideia do que ele queria comigo. Repentinamente, o cenário mudou quando o homem que me comprou não aceitou me vender a ele, o que o fez matá-lo. Fiquei horrorizada. Minha mente girou e isso só me deixou ainda mais amedrontada. Ele saiu me puxando, apontando a arma para a frente e eu temia que a disparasse em mim. Vindo dessas pessoas, tudo podia ser esperado. O leiloeiro até tentou impedi-lo, mas foi em vão e acabou nos deixando passar. Ele me colocou no carro e saiu a toda velocidade. Calada eu estava e assim continuei. Tinha medo até de respirar perto dele. — O que você vai fazer comigo, moço? — perguntei chorosa, tomando coragem de falar após algum tempo. — Me leva para casa, por favor. Ele não me respondeu e, lembrando de como agiu da última vez, fui tomada por uma sensação de desespero e comecei a chorar. — Não começa a chorar, que isso me dá nos nervos! — ele proferiu, batendo no volante. — Eu só quero ir para casa… — Escute bem. Se eu te levar para casa, eles irão atrás de você e vão te trazer novamente. É isso que quer? — falou com rispidez. Sem conseguir falar e fungando, balancei a cabeça em negação. — Então, faça um favor para nós dois e pare de chorar! Você vai ficar bem. Essas foram suas últimas palavras durante o trajeto. Depois disso, tentei manter a calma e acreditar que as coisas não poderiam piorar. (...) — Onde estamos? — perguntei quando ele finalmente parou e travou o carro. Inicialmente, ele não me respondeu. — Você vai me manter presa aqui? — Você sempre faz tantas perguntas assim? Já te disseram o quanto isso é chato? — falou com impaciência. — Desculpa. — encolhi os ombros e saí do carro, mesmo com medo. Ele me guiou pelo lugar imenso. Era uma mansão, que inclusive me deixou deslumbrada ao entrar. — Essa é a sua casa? — Sim. — Vou ficar aqui com vo… Você? — gaguejei. — Ao menos por enquanto, sim. Ele não parou, continuou andando, enquanto isso, eu parecia uma barata tonta, admirando tudo ao redor. Mas seria impossível não fazer isso, porque era tudo muito lindo e eu não estava acostumada. Parecia que ele estava no telefone, discutindo com alguém. Eu não queria, mas foi inevitável não prestar atenção. — Deixa que eu resolvo. Não se envolva em meus negócios. — ele disse. — Ok. Apenas faça o que eu disser. Se perguntarem, você não sabe de nada. Estava olhando as fotos dispostas no aparador ao lado da porta, quando ouvi sua voz rouca soar atrás de mim: — Vou te mostrar seu quarto. Segui atrás dele e subimos uma escada, passando por um corredor extenso. E o homem abriu uma porta, revelando um quarto imenso. — Eu posso tomar banho? — Sim. E pode pegar as roupas da minha irmã emprestadas. Esse quarto é dela. — franzi o cenho, preocupada que ela se incomodasse por eu estar invadindo seu espaço. — Fique tranquila, ela vai gostar de ter companhia. — falou como se lesse meus pensamentos. Ele iria saindo, mas eu o fiz parar. — Moço — fiz uma pausa. — Obrigada. Eu realmente não sei porque me salvou e pela segunda vez, apesar de tudo, mas obrigada. — Não me agradeça. Ainda não sei o que farei com você. — Obrigada mesmo assim. Não tinha certeza se ele ouviu minhas últimas palavras, porque saiu, me deixando sozinha ali. Como uma boa curiosa, analisei o quarto, cada canto dele e vi algumas fotos. Em seguida, tirei a roupa que usava e fui até o banheiro. Nua, debaixo do chuveiro, sentindo a água morna caindo sobre meu corpo, me senti aliviada. Fazia tempo que não tomava um banho de verdade, porque até isso era regrado no lugar onde eu estava sendo mantida em cárcere. Me certifiquei de tirar toda aquela maquiagem e o cheiro do perfume de puta que me obrigaram a usar. Saí do banheiro, me enrolei numa toalha e fui até o guarda-roupa para ver se encontrava algo que me servisse para vestir. Vasculhei, vasculhei, não conseguindo encontrar nada porque aparentemente a irmã dele tinha mais corpo do que eu e tudo ficava folgado em mim Decidi usar uma camisa de mangas, que por eu ser magrela, acabou cobrindo tudo o que era necessário e eu não me sentiria bem estando na casa de um homem vestida de forma vulgar. Mesmo entediada e com fome, achei melhor ficar no quarto. Fiquei andando de um lado para o outro por horas. Sentava na cama, deitava, olhava o céu pela porta da sacada, não fazia ideia de quanto tempo havia passado. Até que meu estômago roncou e decidi ir em busca de algo para comer. Saí do quarto e segui pelo mesmo caminho que ele havia me trazido. O procurei na sala e ele não estava. Continuei andando e cheguei na cozinha, sentindo meu estômago roncar devido ao cheiro de comida que emanava dali. Ponderei se haveria algum problema mexer nas panelas, mas estava faminta. Então, mexi nos armários e não encontrei nenhum prato. Acabei encontrando uma forma com pão recém saído do forno. Cortei um pedaço e experimentei, estava delicioso. Segurando a fatia do pão, fui até as panelas e coloquei um pouco do que parecia ser carne muito bem cozida e temperada. Fazia dias que não comia bem. Eu precisava muito. — O que está fazendo? — levei um susto quando sua voz soou atrás de mim. Estagnei e deixei o pão cair no chão. Como havia pegado um pouco da carne com caldo no miolo do pão, acabou sujando o chão. Eu estava com medo de virar de frente e dar de cara com um homem extremamente irritado, porém, pelo contrário, virei nos calcanhares lentamente e a imagem à minha frente me deixou sem palavras. Ele estava apenas com uma toalha enrolada na cintura, muito cheiroso, de cabelos e peito molhados. Tentei não encarar, mas foi impossível e acabei corando, envergonhada e pedindo perdão a Deus pelos pensamentos impuros que rondavam a minha mente nesse momento.Alena PetrovaSemanas depois…Eu nunca imaginei que uma cena pudesse se repetir com tanto significado. Semanas atrás, eu estava diante de um espelho, assustada, insegura, sem saber se merecia estar ali. Agora, estou no mesmo lugar, mas tudo era diferente. O reflexo que me encarava no espelho vestia o mesmo tipo de vestido, mas desta vez eu carregava no olhar uma certeza que antes não existia: estava prestes a me casar com o homem da minha vida.Passei a ponta dos dedos pelo tecido branco que descia em ondas suaves até o chão. O vestido era um sonho que parecia ter sido tecido com as próprias mãos do destino. A renda delicada formava desenhos de flores e arabescos, como se cada ponto tivesse sido feito para mim. O decote era discreto, mas realçava o suficiente para me fazer sentir bonita, confiante, sem excessos. A saia fluida balançava levemente cada vez que eu me movia, como se respirasse junto comigo.Meus olhos, involuntariamente, caíram para as mãos que repousavam na altura do meu
Alena PetrovaEu não sabia o que pensar. Juro que, por um segundo, cheguei a acreditar que minha visão estava pregando uma peça em mim. Mas não. Era ele. Em carne, osso e com aquele maldito sorriso presunçoso que me fazia perder o ar.Mikhail estava ali.Minha mãe, que até então observava a cena, tão tranquila quanto ele, levantou devagar, como se tivesse compreendido algo que nem eu mesma conseguia. — Com licença, eu vou deixá-los a sós. — Disse. E eu ainda tive a ligeira impressão de vê-la dando uma piscadela para Mikhail.Eu fiquei sem reação. Apenas pigarreei, tentando engolir a avalanche de emoções que se chocava dentro de mim, e soltei a primeira coisa que me veio à cabeça:— O que você quer?Ele ergueu uma sobrancelha, quase divertido com a minha hostilidade.— Apenas conversar.A risada escapou da minha garganta antes que eu pudesse impedir. Irônica, quase amarga.— Conversar? É engraçado você dizer isso, Mikhail, porque foi exatamente o que eu tentei fazer. E adivinha? Você
Alena PetrovaEu sempre gostei de livrarias. Mesmo não tendo visitado muitas durante os anos em que estive no convento. Talvez porque nelas eu pudesse fingir, mesmo que por algumas horas, que minha vida era tão simples quanto escolher um novo romance para ler e me perder em suas páginas. Estava sentada em uma cafeteria aconchegante no centro da cidade, com um livro aberto diante de mim e o aroma de café fresco preenchendo o ar. Era um daqueles dias comuns, banais, em que nada parecia fora do lugar.Ou pelo menos deveria ser.Eu já tinha lido a mesma frase três vezes, quando uma sombra se projetou sobre minha mesa. Levantei os olhos e vi uma garçonete sorridente, segurando um copo de café fumegante.— Aqui está. — Ela disse, depositando-o na mesa.Franzi a testa, confusa.— Eu… eu não pedi isso.A garota apoiou a bandeja no quadril e se inclinou levemente, como se estivesse prestes a me contar um segredo.— Eu sei. — respondeu com um brilho divertido nos olhos. — Só estou cumprindo ord
Mikhail Vasiliev O corredor parecia mais longo do que nunca. Cada passo que eu dava me deixava mais ansioso, como se o coração fosse explodir dentro do peito. Eu estava cansado de tanto silêncio, cansado da distância que criei entre mim e Alena. Por mais magoado que estivesse, eu ainda a amava. Era isso que me impulsionava, o que me fazia chegar mais rápido ao quarto que dividíamos.A maçaneta deslizou na minha mão e eu empurrei a porta devagar. O cheiro doce do perfume dela estava no ar, e por um segundo, me permiti acreditar que a veria ali, deitada, não no quarto onde disse que sua mãe deveria ser colocada. Talvez fingindo que dormia, ou sentada na cama. Mas a ilusão durou pouco.O quarto estava arrumado demais. Arrumado e… vazio.Meus olhos correram rápido pelas prateleiras, pela penteadeira, pelo espaço ao lado do guarda-roupa. As roupas que sempre chamavam minha atenção não estavam mais lá. A mala que ela mantinha guardada debaixo da cama também não. Cada detalhe gritava a ausê
Alena PetrovaEu e minha mãe deixamos para trás aquele galpão e todas as memórias que grudavam nas paredes como poeira velha. Não foi fácil, mas havia um certo alívio em respirar o ar de outro lugar, mesmo que o peito ainda doesse.Decidimos nos mudar e encontramos uma casinha simples na cidade vizinha. Nada luxuoso, mas tinha uma varanda pequena que pegava sol de manhã, e eu me apaixonei pelo barulho suave das folhas batendo na janela. Minha mãe passava horas sentada ali, como se cada raio de sol fosse um remédio para curar as cicatrizes invisíveis que ela carregava.No começo, ela parecia frágil, como se qualquer vento mais forte pudesse derrubá-la. Mas, pouco a pouco, vi aquela mulher que eu sempre admirei voltar a respirar fundo, cozinhar, até arriscar cantarolar enquanto mexia uma panela. E eu sabia o quanto isso significava. Numa dessas manhãs, quando o cheiro de café fresco enchia a cozinha, minha mãe me chamou para sentar. A expressão dela era séria, mas havia uma calma que e
Alena PetrovaEntrei no quarto devagar, com medo de acordá-la. Mamãe já estava deitada, o rosto sereno, mas os olhos abriam e fechavam como se lutassem contra o cansaço. Olga ajeitava os lençóis com aquele cuidado de quem já havia feito aquilo mil vezes, mas ainda assim tratava cada movimento como único.— Está tudo bem, senhorita Alena? — foi só quando Olga perguntou que me dei conta de que chorei em silêncio, pois senti meu rosto molhado.Respirei fundo e enxuguei o rosto, piscando algumas vezes e forçando um sorriso.— Está sim, Olga. — ela claramente não pareceu acreditar muito, mas também não insistiu no assunto. — Está mais confortável agora? — perguntei baixinho à minha mãe.Ela apenas sorriu, cansada, e fechou os olhos. Sentei na beira da cama e segurei sua mão. A pele estava fria. Passei o polegar devagar pelas veias que desenhavam seu braço, como se esse gesto pudesse ancorá-la aqui comigo.Olga saiu em silêncio, deixando-nos sozinhas. Mas eu sabia que se precisasse, a qualq







