LOGIN— Você está blefando.— Não estou. — Ele apontou para o celular. — Olha aqui.Olhei.Os gráficos estavam lá. Os números. As linhas. Tudo.— O que é isso?— O seu monitoramento.— Desde quando?— Desde que você chegou.— Você é doente.— Sou apaixonado.— Isso não é amor.— É sim.— Não é.— É. — Ele se inclinou sobre a mesa. — E você vai descobrir.— Como?— Bebendo.— Não.— Bebe.— Por que você está fazendo isso?— Porque eu quero você.— Você me tem.— Não completamente.— O que isso significa?— Significa que eu quero tudo. O seu corpo. A sua alma. O seu coração.— Você não pode ter tudo.— Posso.— Como?— Com a toxina. Se você se apaixonar, morre. Se não se apaixonar, fica comigo. Para sempre.— Isso é doentio.— É a tradição.— Que tradição?— A tradição da Bratva. Quando um chefe se casa, ele assina um contrato. E, nesse contrato, tem a cláusula da paixão. Quem se apaixonar primeiro, perde.— Perde o quê?— Perde a liberdade.— Você já me tirou a liberdade.— Tirei.— Então o
O frio da Rússia entrava pelas frestas da janela.Eu ainda estava deitada quando o sol começou a nascer, um sol pálido que mal conseguia atravessar a neve acumulada no parapeito. O quarto estava escuro, e a lareira apagada deixava o ar pesado e gelado. Puxei o lençol de seda até o queixo, mas o tecido era fino demais para me aquecer.Levantei-me.O chão de madeira escura estava congelante sob os meus pés descalços. Caminhei até o banheiro, que ficava no canto do quarto, atrás de uma porta de vidro fosco. O banheiro era enorme — todo em mármore negro, com uma banheira antiga de pés de ferro e uma pia dupla com torneiras douradas. Havia toalhas brancas dobradas sobre uma cadeira de vime, e um espelho grande que refletia o meu rosto pálido e o meu cabelo desgrenhado.Abri a torneira.A água saiu fumegante. Lavei o rosto, sentindo o calor subir pela pele, e escovei os dentes devagar, olhando para mim mesma no espelho. Parecia outra pessoa. A Fiorella de Florença, que regava as plantas na
Ele beijou devagar. Com cuidado. Como se estivesse saboreando cada segundo. Como se estivesse guardando aquele momento para sempre. Os lábios dele eram macios. Quentes. E se moviam com uma precisão que me fazia tremer. A mão dele desceu até a minha nuca, os dedos enroscando no meu cabelo, me puxando para perto. E eu... eu correspondi.Não porque quisesse.Não porque amasse.Porque não conseguia evitar.Porque o corpo dele era quente. Porque o cheiro dele era intoxicante. Porque o toque dele era... viciante.Ele me beijou por um longo tempo. Um tempo que eu não consegui medir. Um tempo que parecia não ter fim. E, a cada segundo, eu sentia algo crescer dentro de mim. Algo que não era amor. Algo que não era ódio. Algo que era... confusão.Ele se afastou.— Viu? — perguntou ele, com um sorriso debochado.— O que? — indaguei, sem ar.— Você gostou — declarou ele, soltando o meu rosto.— Não gostei — neguei, sentindo o rosto queimar.— Gostou — insistiu ele, recuando um passo.— Não — repet
Não um riso curto. Não um riso debochado. Um riso alto. Gostoso. Um riso que encheu o quarto inteiro. Um riso que me fez sentir um arrepio na espinha.— O que foi? — perguntei, sentindo o estômago embrulhar.— Nada — respondeu ele, balançando a cabeça.— Por que você está rindo? — insisti, dando um passo à frente.— Porque você é uma idiota — declarou ele, com um sorriso cruel.— O que? — perguntei, sentindo o sangue gelar.— Uma idiota — repetiu ele, guardando a pasta.— Por quê? — indaguei, cerrando os punhos.— Porque você assinou sem ler — explicou ele, encostando-se na mesa.— Você disse que eu podia assinar — retruquei, sentindo a raiva crescer.— Eu disse que você devia ler — corrigiu ele, erguendo uma sobrancelha.— Você disse que eu podia assinar — insisti, apontando o dedo para ele.— Disse — admitiu ele. — Mas você não leu.— E daí? — perguntei, sentindo o chão se abrir.— E daí que você assinou a sua sentença de morte — declarou ele, a voz baixa e perigosa.Senti o sangue
O beijo terminou.E eu fiquei parada. Sem ar. Sem palavras. Sem chão. O lábio dele ainda roçava o meu, e o gosto dele ainda estava na minha boca. Amadeirado. Fumado. Quente. Um gosto que eu odiava gostar.Ele se afastou.E sorriu.— Vem comigo — ordenou ele, estendendo a mão na minha direção.— Para onde? — perguntei, recuando um passo.— Para o quarto — respondeu ele, a voz baixa e controlada.— Por quê? — indaguei, desconfiada.— Porque eu tenho uma coisa para você — disse ele, os olhos azuis fixos nos meus.— Que coisa? — perguntei, cruzando os braços.— Você vai ver — respondeu ele, pegando a minha mão antes que eu pudesse recusar.E eu deixei.Porque, naquele momento, eu não conseguia pensar. Não conseguia raciocinar. Não conseguia fazer nada além de seguir. O corpo ainda tremia. O coração ainda disparava. E a cabeça... a cabeça era um emaranhado de fios que eu não conseguia desembaraçar.Subimos as escadas em silêncio.O corredor era longo. Escuro. Com tochas acesas nas paredes
Velho. Muito velho. Cabelo branco, rosto enrugado, olhos azuis como os do Ivan. Ele usava um terno preto, gravata de seda, e uma bengala de ouro na mão. Estava sentado em uma poltrona enorme, como um rei. E, ao redor dele, havia seguranças. Homens de terno preto. Homens armados.— Avô.O velho levantou os olhos.— Ivan.— Esta é a Fiorella.O avô olhou para mim.E não sorriu.— Então é você.— Sou.— A italiana.— Sim.— A da Cosa Nostra.— Sim.— A que o meu neto escolheu.— Sim.— Por quê?— Porque... porque ele quis.— Ele não quis. Ele foi forçado.— Ele não foi forçado.— Foi sim. A aliança. A paz. A guerra.— Ele me escolheu.— Ele escolheu a paz.— Ele escolheu a mim.— Você é a paz.— Eu sou uma pessoa.— Você é um símbolo.— Eu não sou um símbolo.— É sim. — O avô levantou a bengala e apontou para mim. — Você é a italiana que o meu neto trouxe para dentro da minha casa. A mulher que vai carregar o meu sangue. A mulher que vai dar à luz os meus bisnetos.— Eu não sou um útero.







