LOGIN~ARTEM~O quarto era pequeno, limpo e bem mais decente do que eu teria esperado de um motel perdido no meio do Novo México. Havia um banheiro, uma cômoda, duas mesas de cabeceira e uma televisão pendurada em frente à cama. O problema era justamente a cama.Uma só, enorme, provavelmente king size, ocupando praticamente o centro do quarto como se estivesse zombando de mim.Mina entrou ainda carregando Emiliano, que nem sequer se mexeu quando fechei a porta atrás de nós. Deixei as poucas sacolas que carregávamos ao lado da cômoda, olhei para a cama, depois para a única poltrona que havia perto da janela e tomei uma decisão bastante simples.—Vou me acomodar na poltrona.Mina virou a cabeça.—Nem fodendo.—Mina...—Que parte de que você precisa descansar não entendeu lá embaixo? —aproximou-se da cama e começou a acomodar cuidadosamente Emiliano sobre o colchão—. Essa poltrona é menor que você. Vai acordar com as costas todas arrebentadas.—Já dormi em condições piores.—Você já me disse i
~ARTEM~Quando a escuridão terminou de engolir a estrada, já estávamos há tantas horas dentro do carro que até Emiliano tinha perdido o interesse por seus carrinhos. Durante boa parte do trajeto, tinha brincado com eles sobre as pernas, fazendo-os avançar pelo banco e criando sabe-se lá que histórias dentro da cabeça, mas, havia algum tempo, mal segurava um entre os dedos.Mina estava sentada ao lado dele, recostada contra a porta, e, embora tivesse insistido várias vezes que estava perfeitamente bem, os bocejos que tentava disfarçar diziam outra coisa. Eu também começava a sentir o peso das horas ao volante, mas estava acostumado a trajetos longos. Eles não, e Emiliano muito menos.Olhei pelo retrovisor quando o menino voltou a bocejar.—Vamos parar.Mina levantou a cabeça.—Agora?—Sim. Precisamos comer.—Podemos continuar um pouco mais se você quiser nos afastar ainda mais.—Já estamos suficientemente longe por esta noite.—Eu posso aguentar.—Não estou preocupado com você.Estreit
~MINA~Eu não fazia ideia de como Artem pretendia nos tirar do México e, quanto menos explicações ele me dava, mais minha imaginação trabalhava. A única coisa que eu sabia era que não íamos nos apresentar na imigração como uma família feliz com nossos passaportes nas mãos, porque Emiliano e eu não tínhamos absolutamente nada que nos permitisse atravessar legalmente. Artem, por outro lado, parecia ter tudo perfeitamente sob controle.Dirigiu durante algum tempo sem dizer muita coisa, seguindo as instruções que tinha recebido anteriormente, até que encontramos um homem que eu não conhecia e que também não pareceu interessado em se apresentar. Conversaram durante alguns minutos longe do carro e então vi o güero tirar vários maços de dinheiro e entregá-los a ele como se estivesse pagando uma conta qualquer.Arregalei os olhos. Não consegui calcular quanto dinheiro havia ali, mas definitivamente não eram dois trocados e um sorriso.Esperei até Artem voltar e se sentar novamente atrás do vo
~ARTEM~Quando voltei para casa, trazia várias sacolas penduradas em uma mão e outras tantas na outra. Tinha comprado o básico para Emiliano: roupas suficientes para alguns dias, sapatos, roupas íntimas, artigos de higiene e mais algumas coisas de que provavelmente precisaríamos durante a viagem. Não fazia sentido carregar coisas demais. Quando estivéssemos em Chicago, poderíamos conseguir todo o resto.Abri a porta com o ombro e, assim que entrei, soube que alguma coisa tinha mudado enquanto eu estava fora. Mina estava perto do balcão e Emiliano a poucos passos dela, muito menos rígido do que naquela manhã. O menino continuava reservado, mas já não tinha aquela expressão de quem estava preparado para recuar se alguém se aproximasse demais. Mina, por sua vez, estava com os olhos ligeiramente inchados e o nariz um pouco avermelhado. Tinha chorado. Bastante, pelo que parecia.Deixei as sacolas sobre o balcão e olhei para ela.—Já contou para ele? —perguntei em voz baixa.Mina entendeu i
~MINA~A pergunta de Emiliano me deixou imóvel do outro lado do balcão onde tomávamos café da manhã.Durante alguns segundos não soube o que responder, embora soubesse há muito tempo que, mais cedo ou mais tarde, teria que fazer isso. Ele continuava olhando para mim com aqueles olhos grandes e atentos, esperando uma explicação que eu já não podia continuar evitando com meias-verdades.Senti minha garganta se fechar e uma pressão dolorosa começar a se espalhar pelo meu peito. Queria dizer. Deus sabia o quanto eu desejava pronunciar aquelas palavras, mas não podia simplesmente jogá-las sobre ele sem prepará-lo.Para mim, ele era meu filho desde o instante em que o senti crescer dentro de mim, mas, para Emiliano, eu continuava sendo Herminia, uma mulher que ele tinha conhecido apenas algumas horas antes e que, de repente, estava lhe prometendo uma vida completamente diferente.Contornei lentamente o balcão e me aproximei até ficar ao lado dele. Emiliano acompanhou cada um dos meus movime
~MINA~Não soube o que responder imediatamente.Não conhecia a relação entre eles. Não sabia se Emiliano o amava, se sentia saudade dele ou se a ideia de se afastar de Ezequiel poderia machucá-lo. Não queria colocar meus sentimentos acima dos dele.—Você está preocupado por não vê-lo? —perguntei com cuidado.Baixou a cabeça. Seus dedos se fecharam ao redor do garfo.—Emiliano, você pode me dizer o que está pensando.Não respondeu.—Não vou ficar brava com você, meu amor. Pode me dizer o que sente, mesmo que ache que é errado.Demorou um pouco para levantar o rosto.—Eu não me importaria de nunca mais ver o papai.Senti alguma coisa endurecer dentro de mim.—Posso saber por quê?Deu levemente de ombros.—Porque meu pai não é bom.Esperei.—Tenho medo dele.Minha mandíbula se contraiu.Conhecia Ezequiel bem demais para não levar aquelas palavras a sério.—Ele era mau com você?Emiliano assentiu.—Ele machucava você?—Às vezes me segurava forte aqui —tocou o queixo—. E ficava bravo quand







