LOGINCAPÍTULO 7: Eco de Promessas
A chuva de segunda-feira à noite deu lugar a uma terça-feira límpida, porém terrivelmente fria. O ar da manhã em Silverlake estava tão gélido que pequenas nuvens de vapor se formavam a cada respiração enquanto eu subia os degraus de granito da 1ª Delegacia Central. A captura de Julien Rossi no pátio desativado da Estação Oeste repercutiu bem na imprensa local. O Diário de Silverlake estampava na página da metrópole uma matéria bem escrita assinada por Leonardo Holloway, elogiando a rapidez e a precisão da Divisão de Homicídios na elucidação do vazamento de informações e na recuperação integral do acervo de joias. Léo tinha mantido sua palavra: a reportagem focou estritamente na eficiência técnica da equipe e na prisão do foragido, mantendo o nome da Sterling & Associates resguardado como vítima colaboradora da fraude. Ao cruzar a porta do segundo andar, encontrei o ambiente da Homicídios mais calmo do que no dia anterior. Telefones tocavam em tom moderado e o vapor da cafeteira trazia aquele cheiro forte de café recém-passado. — Bom dia, parceira — cumprimentou Alex, levantando os olhos da tela do computador e mostrando a primeira página do jornal. — O Holloway fez um bom trabalho no texto. Não distorceu uma vírgula da nossa atuação e deu o crédito devido à inteligência da divisão. — O mínimo que se espera de um trabalho ético — respondi, pendurando o sobretudo no encosto da cadeira e ajeitando o distintivo no cinto. — O Rossi já foi transferido para o presídio provisório? — Transferido às seis da manhã — confirmou Alex. — O advogado dele tentou pedir fiança, mas o juiz manteve a prisão preventiva por risco de fuga. O inquérito do roubo das joias está formalmente relatado e entregue ao Ministério Público. Me Sentei na cadeira e liguei o monitor. Ter um caso fechado trazia um alívio temporário, mas a pilha de inquéritos pendentes na minha mesa lembrava que a rotina policial não dava trégua. Puxei a pasta do assassinato do comerciante de relógios de época, Arthur Pendelton, ocorrido há dois meses no bairro antigo. Releia os laudos da perícia com atenção redobrada, focando no desaparecimento do caderno de registros do caixa. Instantes depois, a porta de madeira da sala se abriu. Léo entrou vestindo uma blusa de lã cinza-chumbo sob um casaco sobretudo escuro — uma mudança de figurino que me arrancou um meio sorriso involuntário, lembrando-me da provocação sobre a sua inseparável jaqueta de couro marrom no dia anterior. Noah vinha logo atrás, carregando a bolsa de lentes. Léo caminhou até a nossa mesa com passos tranquilos, trazendo dois copos de café descartáveis e uma pasta amarela sob o braço. — Bom dia, detetives — disse ele em tom caloroso, parando ao lado da minha bancada. Ele pousou um dos copos de café perto do meu bloco de anotações e piscou um dos olhos verdes com audácia: — Viu só, Maya? Mudei o casaco só para provar que o meu guarda-roupa tem mais de uma peça. E trouxe o café para comemorar a matéria da capa de hoje. Alex riu baixo, enquanto eu mantinha a expressão serena, embora o canto da minha boca tivesse hesitado por um segundo. — Bom dia, Léo — respondi com tom profissional. — A matéria ficou técnica e equilibrada. A chefia apreciou a postura. — Eu disse que cumpria o que prometia — rebateu ele, puxando a cadeira de apoio e sentando-se. Ele colocou a pasta amarela sobre a bancada: — E aqui estão as minhas anotações pessoais da ligação que o Arthur Pendelton fez para a redação do jornal uma semana antes de ser morto. Estiquei a mão e peguei as folhas datilografadas. As anotações de Léo eram detalhadas: continham datas, horários e citações diretas do comerciante. Pendelton afirmou ao telefone que um intermediário tentou lhe vender uma remessa de relógios de bolso de ouro com numeração raspada, cuja descrição batia com peças catalogadas em inventários antigos de famílias nobres de Eloria. — Ele mencionou algum nome específico de intermediário nessa conversa? — perguntei, levantando os olhos para Léo. — Não mencionou o nome direto por medo de retaliação — explicou Léo, a voz tornando-se séria e compenetrada. — Mas disse que o sujeito usava o carimbo de uma corretora de penhores clandestina que operava nos subsolos do distrito histórico, perto do Novo Cais. Alex aproximou-se, lendo por cima do meu ombro. — Se o Pendelton se recusou a comprar e ameaçou denunciar o esquema para a imprensa e para a polícia, ele virou um arquivo vivo incômodo — deduziu Alex. — Exatamente — concordei. — O assassino não levou o ouro da vitrine porque queria apenas o caderno de registros onde Pendelton anotava as ofertas que recebia. Léo observou minha reação, notando o brilho analítico nos meus olhos castanho-mel. — Viu só? Minhas anotações da imprensa serviram para alguma coisa além de crônicas de domingo — provocou ele em tom baixo e brando, o olhar verde fixo no meu com uma atenção calorosa. — Admito que a informação é útil — concedi, fechando a pasta amarela. — Vamos solicitar a listagem das corretoras de penhor registradas no distrito histórico para cruzar com o endereço da loja do Pendelton. Antes que pudéssemos avançar na discussão do caso, o telefone da minha mesa tocou. Ergui o gancho. — Detetive Vance. — Maya, querida? — a voz elegante e inconfundível de Samantha Sterling soou do outro lado da linha. — Bom dia. Estou te atrapalhando? A tensão profissional cedeu espaço a um calor imediato no meu peito ao ouvir a voz da minha tia. — De forma alguma, Tia Samantha — respondi, suavizando a voz de pronto. — Como a senhora está? — Estou bem, minha querida. Só liguei para dizer o quanto estou orgulhosa de você e da sua equipe — disse Samantha em tom afetuoso. — Li a matéria do jornal hoje cedo. Fiquei aliviada ao ver que a polícia agiu com tanta rapidez e que aquele funcionário infiel foi preso. E mais aliviada ainda por saber que você está em segurança. — Deu tudo certo, tia. O trabalho foi limpo e o inquérito das joias está encerrado — expliquei, esboçando um sorriso sincero. — Que notícia maravilhosa — disse Samantha, a voz soando como um abraço reconfortante. — Mas não te liguei só para falar de trabalho. Quero reafirmar nosso jantar no sábado à noite na minha casa. Vou preparar aquele assado que você adorava quando era mais nova. Sem desculpas de trabalho desta vez, está combinada? — Combinadíssimo, Tia Samantha — respondi de pronto, sentindo uma sensação doce de pertencimento e aconchego. — Não perco por nada. — Excelente. Um beijo grande, minha querida. Se cuide. Desliguei o telefone com um sentimento leve no peito. Saber que eu tinha o apoio e o carinho de Samantha no meio da rotina dura da delegacia trazia uma sensação de porto seguro inestimável. Ao voltar meu olhar para a mesa, percebi que Léo me observava em silêncio, ajeitando a caneta entre os dedos com uma expressão compenetrada e pensativa, como se tentasse decifrar a mudança suave no meu tom de voz durante a ligação. Léo ajeitou a pasta de couro sobre o joelho, acompanhando o movimento do meu braço enquanto eu pousava o gancho do telefone no suporte. O silêncio que se instalara por alguns instantes entre nós dois tinha uma densidade diferente, marcada pela transição sutil entre a detetive inflexível das últimas horas e a mulher que acabara de demonstrar um afeto genuíno ao telefone. — Pelo tom da conversa e pela mudança radical na sua expressão, só podia ser a sua tia — comentou Léo, a voz soando calma, baixa e desprovida de qualquer provocação. — A Tia Samantha — respondi, puxando a pasta amarelada do caso Pendelton de volta para o centro da mesa. — Ela ligou para saber como foi o encerramento do caso e para confirmar um jantar de família no fim de semana. Léo acenou com a cabeça lentamente, os olhos verdes fitando os meus com uma seriedade observadora. — É bom ver que você tem alguém cuidando de você fora desta sala, Maya — disse ele em tom brando. — A Samantha Sterling sempre me pareceu uma figura muito presente na sua vida. Desde a época em que você... bom, desde a época da academia. Parei os dedos sobre a borda de papel da pasta, sentindo uma pontada de reticência subir pela minha espinha. A menção aos meus anos de formação e ao período em que saí do orfanato trazia memórias que eu raramente compartilhava com colegas de farda, e muito menos com um repórter com quem eu mantinha uma barreira defensiva bem construída. — A Tia Samantha foi a única pessoa que esteve ao meu lado quando meus pais morreram e quando o mundo pareceu desabar — declarei com a voz firme e límpida, sem dar margem para especulações. — Ela era a melhor amiga da minha mãe, conhecia meu pai desde a juventude e fez questão de garantir que eu não ficasse completamente desamparada, mesmo quando o sistema tentou me isolar. Se eu consegui me formar e vestir este distintivo hoje, devo grande parte dessa estrutura ao apoio dela. Léo escutou cada palavra sem interromper. Não havia a ironia do garoto audacioso dos tempos de escola, nem o cinismo de um jornalista em busca de um furo. Havia apenas uma compreensão séria e respeitosa no seu olhar, como se ele estivesse registrando não uma informação de inquérito, mas a essência do que me movia. — Ela cumpriu o papel de uma verdadeira protetora — assentiu Léo, ajeitando o corpo na cadeira. — E você honra esse laço com uma lealdade invejável. Isso é raro de se ver em Silverlake, Maya. — Lealdade e memória são coisas que não se negociam — respondi, fechando a tampa da pasta e olhando para Alex, que digitava os nomes das corretoras de penhor no sistema de consulta comercial. — Alex, conseguiu a lista dos estabelecimentos registrados no Novo Cais? — perguntei, mudando o foco para o trabalho com a rapidez de um reflexo condicionado. — Consegui sim — respondeu Alex, virando o monitor para que eu pudesse enxergar a planilha. — O distrito histórico do Novo Cais tem treze casas de penhor e avaliadores de metais cadastrados na prefeitura. Mas três delas operam no subsolo da Galeria das Mercadorias, exatamente na rua onde a loja do Arthur Pendelton funcionava. Estiquei o corpo para analisar os endereços. — Duas dessas casas de penhor pertencem a um mesmo grupo de investimentos com sede no porto, e a terceira... a Lombard Antiguidades & Penhores... está registrada no nome de um ex-despachante alfandegário que respondeu a um processo por receptação culposa há quatro anos — destacou Alex, apontando o cursor para a última linha da lista. — O ex-despachante alfandegário — murmurou Léo ao meu lado, os olhos verdes faiscando com o raciocínio rápido. — Esse tipo de sujeito conhece todas as rotas de entrada de mercadorias sem nota fiscal pela baía de Eloria. Se alguém estava tentando empurrar relógios de ouro roubados para o Pendelton, esse endereço é o palpite mais quente que nós temos. — Não trabalhamos com palpites, mas a coincidência geográfica e os antecedentes do proprietário tornam a Lombard Antiguidades um ponto de interesse prioritário para uma diligência preliminar — pontuei, me levantando da cadeira e pegando a pasta de couro para guardar as cópias dos laudos. — Vamos fazer uma visita discreta ao local à tarde? — questionou Alex, já preparando o requerimento de verificação de estabelecimento comercial. — Sim. Vamos colher os depoimentos dos lojistas vizinhos e verificar se o proprietário da Lombard estava na galeria na noite em que o Pendelton foi assassinado — ordenei, ajustando o cinto da calça e fixando o distintivo de forma bem visível. Léo levantou-se junto conosco, guardando o bloco no bolso do casaco e pegando a câmera. — Eu vou com vocês na viatura de apoio — avisou Léo, com aquele tom decidido que não pedia permissão. — Se esse ex-despachante alfandegário tiver qualquer ligação com o mercado clandestino do Novo Cais, eu quero estar lá para ver a cara dele quando a Polícia Civil bater na porta. Encarei-o com os olhos levemente semicerrados, mas a postura impecável e a colaboração útil das anotações que ele trouxe mais cedo jogavam a meu favor. — Léo — disse eu, usando o tom sério e controlado —, você e o Noah vão manter a distância de segurança habitual. Se tentarem interferir na abordagem ou se colocarem a integridade da diligência em risco, a autorização do Franco desaparece no mesmo segundo. Estamos entendidos? Léo abriu um sorriso discreto, inclinando a cabeça em um gesto de respeito cortês. — Perfeitamente entendidos, detetive Vance. Prometo ser a sombra mais silenciosa que você já teve em campo. — Veremos — respondi de pronto, vestindo meu sobretudo escuro e caminhando a passos firmes em direção à saída da sala, consciente de que cada nova pista do caso Pendelton nos aproximava dos segredos mais sombrios e esquecidos de Silverlake. O início da tarde trouxe um sol pálido que mal conseguia aquecer a brisa cortante do Novo Cais. O distrito histórico de Silverlake era composto por ruelas estreitas pavimentadas com paralelepípedos gastos, cercadas por casarões antigos do século XIX com fachadas de azulejos desbotados e sacadas de ferro fundido tomado pela ferrugem. Estacionamos a viatura descaracterizada na esquina da rua arborizada dos Mercadores, a poucos metros da entrada da Galeria das Mercadorias. A viatura de apoio da Polícia Militar encostou no quarteirão posterior, mantendo a cobertura discreta enquanto Léo e Noah desembarcavam com os equipamentos. Ajustei a gola do meu sobretudo escuro e caminhei até a entrada da galeria. O local era um grande corredor coberto com piso de mosaico hidráulico, teto de claraboias de ferro e fileiras de pequenas lojas de antiguidades, livrarias usadas e oficinas de restauração. O aroma ali era uma mistura densa de poeira, madeira encerada, papel velho e mofo. — A loja do Arthur Pendelton ficava bem ali no meio, número 42 — indicou Alex, apontando para um estabelecimento de fachada de madeira escura com as portas de aço abaixadas e seladas por uma fita amarela da perícia policial. Parei diante da loja selada por alguns instantes. A vitrine de vidro acumulava uma camada fina de poeira, mas ainda era possível enxergar os mostradores de veludo onde ficavam expostos os relógios de parede e de bolso antes daquela noite trágica de dois meses atrás. Logo em frente, no número 45, funcionava a Lombard Antiguidades & Penhores. Diferente da loja de Pendelton, a Lombard estava de portas abertas. O interior era escuro, abarrotado de prateleiras carregadas de estatuetas de bronze, pratas oxidadas, quadros a óleo sem moldura e caixas de veludo. Atrás de um balcão de imbuia entalhada, um homem calvo de cerca de cinquenta anos, com óculos de grau na ponta do nariz e um avental de couro sobre a camisa social, examinava uma moeda antiga com uma lupa de joalheiro. Fiz um sinal para Alex nos posicionarmos. Léo e Noah permaneceram a cerca de dez metros de distância, fingindo observar a vitrine de um alfarrábio, mas mantendo a atenção afiada na nossa abordagem. Cruzei o batente da Lombard com passos firmes. O som da sineta de bronze presa acima da porta ecoou pelo recinto. O homem calvo ergueu os olhos da moeda e ajeitou os óculos, esboçando um sorriso comercial treinado que desapareceu no exato segundo em que meus olhos bateram no distintivo de prata preso ao meu cinto. — Boa tarde — disse eu com tom sereno e profissional. — Detetive Vance e Detetive Alex, da Divisão de Homicídios da 1ª Central. O senhor é o proprietário, senhor Hector Lombard? O homem engoliu em seco, pousando a moeda e a lupa sobre um feltro verde na bancada. Ele limpou as mãos no avental com um nervosismo mal disfarçado. — Sim... sou eu mesmo — respondeu ele, a voz levemente rouca. — Em que posso ajudar a Polícia Civil? Acredito que já prestei depoimento sobre o lamentável acontecimento com o pobre Pendelton há dois meses... — Estamos revisando os autos daquele inquérito, senhor Lombard — interveio Alex, dando um passo à frente e apoiando as mãos no balcão. — E surgiram novas informações sobre a movimentação de peças de ouro de procedência duvidosa na galeria nos dias que antecederam o crime. Lombard empalideceu visivelmente. Ele passou a mão pela calvície, desviando o olhar para a porta por um segundo antes de tentar manter a compostura. — Eu não sei do que os senhores estão falando — declarou Lombard em tom defensivo. — Minha casa de penhores opera estritamente dentro da legalidade. Tenho livro de registro, notas de entrada e alvará atualizado. — Não duvidamos disso — respondi com calma implacável, dando meio passo para o lado e encarando-o nos olhos. — No entanto, nós sabemos que o senhor Pendelton recebeu ofertas de relógios de bolso antigos com numeração de série raspada na semana em que morreu. Ofertas que vieram de uma corretora operando sob o carimbo da sua loja. Lombard deu um passo involuntário para trás, colidindo as costas contra a estante de prateleiras. — Isso é uma acusação absurda! Eu nunca vendi peças roubadas para o Pendelton! — protestou ele, a voz subindo de tom num impulso de pânico. — Então o senhor não se importará de nos acompanhar até a delegacia para prestarmos um esclarecimento formal e apresentarmos o seu livro de registro de penhores dos últimos noventa dias, correto? — sugeriu Alex, tirando do bolso interno da jaqueta a notificação de intimação sob mandado de verificação comercial. Lombard olhou para o documento sobre o balcão e depois para mim. O suor frio brilhava em sua testa. Ele sabia que recusar a intimação no próprio estabelecimento, diante de lojistas vizinhos que já espiavam pela galeria, destruiria qualquer resto de reputação que lhe sobrava. Do lado de fora, Léo acompanhava o desenrolar da conversa com os olhos verdes brilhando de satisfação analítica. Ele notou a quebra na postura do suspeito no mesmo instante em que a intimação fora sacada. — Tudo bem... — murmurou Lombard, derrotado, pegando o casaco no cabide de madeira atrás do balcão. — Eu vou com vocês. Mas quero deixar claro que sou apenas um comerciante e que não tenho nada a ver com o assassinato daquele homem! — Quem não deve, não teme, senhor Lombard — declarei, indicando a saída com um gesto cortês de mão. — Vamos conversar com calma na Central. Conduzimos Hector Lombard para fora da galeria sob os olhares curiosos dos lojistas vizinhos, que acompanhavam a movimentação do corredor em silêncio. O comerciante vestia um casaco cinza meio surrado e mantinha a cabeça baixa, enquanto Alex caminhava ao seu lado segurando a pasta com os livros de registro apreendidos na Lombard Antiguidades & Penhores. O ar frio da tarde no Novo Cais soprava diretamente da baía, trazendo o cheiro salgado do mar misturado ao odor de ferrugem das antigas docas. Léo e Noah aproximaram-se assim que cruzamos o portão de ferro trabalhado da entrada da galeria. Léo trazia as mãos nos bolsos do sobretudo escuro e observava a postura encolhida de Lombard com uma perspicácia impecável. — O senhor Lombard parece um tanto apressado para prestar esclarecimentos à polícia — comentou Léo em tom baixo e controlado, aproximando-se da minha lateral enquanto caminhávamos em direção à viatura. — O senhor Lombard compreendeu a importância de colaborar com o inquérito da Homicídios, repórter Holloway — respondi com a calma profissional de costume, acenando para que Alex acomodasse o comerciante no banco traseiro do carro descaracterizado. Lombard entrou no veículo sem oferecer qualquer resistência física, embora o nervosismo estampado em seu rosto deixasse claro que os registros da sua loja guardavam movimentações que ele preferia não ver expostas. Alex fechou a porta traseira com um estalo seco e contornou para o lado do motorista. — Vou levar o suspeito para a Central e começar a triagem dos livros de penhor com o pessoal da Inteligência — disse Alex, olhando para mim por cima do teto do carro. — Você vem comigo ou prefere passar na alfândega do porto para pegar os relatórios de atracação da época do crime? — Eu vou até o escritório de registros da Alfândega do Novo Cais — decidi, ajeitando o sobretudo e o cinto do distintivo. — Quero cruzar as datas das manifestações de carga com as anotações do Pendelton antes de interrogarmos o Lombard oficialmente. Léo, que escutava tudo a um metro de distância, deu meio passo à frente de pronto. — O escritório da Alfândega fica a três quarteirões daqui, no prédio histórico dos despachantes — pontuou Léo, os olhos verdes brilhando com aquele entusiasmo jornalístico apurado. — Se você não se importar com a minha companhia, Maya, posso ir caminhando com você. Conheço o arquivista do porto desde os tempos em que cobria a pauta marítima. Encarei-o por dois segundos. A proposta era prática e a caminhada curta pelo Novo Cais nos pouparia tempo burocrático na entrada do arquivo alfandegário. — Tudo bem, Léo — concordei, embora mantivesse o tom neutro. — Mas sem entrevistas no caminho e sem fazer perguntas antes da hora. — Promesso manter a postura de um mero cidadão colaborador — disse ele, abrindo aquele seu sorriso leve e confiante que, por uma fração de segundo, pareceu aquecer o ar gélido do final de tarde. Noah acompanhou Alex na viatura de apoio para retornar à delegacia, enquanto Léo e eu seguimos a pé pela calçada de paralelepípedos da rua arborizada dos Mercadores em direção ao porto. O Novo Cais era um cenário fascinante de contradições: de um lado, os velhos casarões e depósitos de pedras do século passado; do outro, os mastros dos navios cargueiros e guindastes metálicos que se erguiam contra o céu cinzento de Silverlake. O som das gaivotas e o apito distante de uma embarcação cortavam a brisa fria. Caminhávamos em um ritmo constante. Léo mantinha os passos emparelhados aos meus, ajustando a alça da câmera fotográfica. — Você conduziu a abordagem com uma precisão impressionante lá dentro, Maya — começou ele, quebrando o silêncio com uma voz sincera e sem afetações. — O Lombard estava pronto para criar uma cena corporativa e negar tudo, mas você não deu espaço para ele respirar. — Não há espaço para rodeios quando se busca a verdade sobre a morte de uma vítima, Léo — respondi, mantendo os olhos fixos na fachada de colunas de pedra do prédio da Alfândega logo adiante. — O Arthur Pendelton era um homem simples que tentou fazer a coisa certa e pagou com a vida por isso. Minha obrigação é garantir que quem puxou a faca ou mandou buscá-lo responda por cada detalhe. Léo olhou para mim de lado. Havia uma admiração profunda e velada na forma como ele me observava — a percepção clara de que, sob a armadura fria e o distintivo brilhante da detetive de Homicídios, existia uma mulher movida por um senso inquebrável de justiça. — É por isso que você é a melhor investigadora desta divisão — murmurou ele em tom baixo, quase como um pensamento dito em voz alta. — Você não busca o aplauso da imprensa nem a promoção da chefia. Você busca a resposta. Parei por um milissegundo o passo diante dos degraus de granito da entrada da Alfândega e olhei diretamente nos olhos verdes dele. A seriedade da declaração dele me pegou de surpresa, fazendo a costumeira resposta afiada travar na minha garganta. — Vamos entrar, Holloway — disse eu, disfarçando a ligeira comoção e retomando a postura ereta. — Temos uma lista de cargas para checar no Novo Cais. Léo sorriu com um toque de ternura contida, acenando com a cabeça e subindo os degraus ao meu lado. Subimos para o arquivo da Alfândega sob a promessa de que as velhas folhas de registro de carga nos revelariam o caminho para o assassino do comerciante. A diligência no Novo Cais foi um sucesso, a intimação de Lombard colocou a peça principal do tabuleiro sob custódia e a parceria com Léo fluía com uma eficiência surpreendente. Eu não fazia ideia de que a checagem daqueles arquivos da Alfândega abriria uma porta esquecida que conectava o assassinato de Pendelton a segredos muito mais antigos, sombrios e dolorosos da minha própria história.CAPÍTULO 30: Um Novo Amanhecer Seis meses se passaram desde que o martelo bateu naquele tribunal.A primavera trazia um ar leve para Silverlake, com o sol iluminando as copas das árvores no parque central da cidade. A cidade parecia ter virado uma página, e eu também.Estava de pé no alto da colina do memorial municipal, onde um pequeno jardim fora projetado em homenagem às vítimas do escândalo do Novo Cais. No centro, uma placa de bronze trazia os nomes gravados daqueles que lutaram pela verdade, incluindo os de Erick Vance e Stella Vance.Depositei um buquê de flores brancas ao pé do monumento e toquei a superfície fria do metal. Durante doze anos, carreguei o peso da ausência dos meus pais como uma ferida aberta. Hoje, porém, o que sentia no peito não era a dor sufocante do luto, mas uma saudade tranquila e a gratidão por ter honrado a história deles.— O lugar ficou bonito, não ficou? — a voz suave do Léo surgiu atrás de mim.Me virei e o vi caminhando devagar pela grama, v
CAPÍTULO 29: O Veredito de SilverlakeO tribunal central de Silverlake amanheceu cercado por uma multidão. Dezenas de equipes de rádio e televisão ocupavam as escadarias do prédio, enquanto cidadãos com cartazes pedindo justiça para a família Vance e pelas vítimas do Novo Cais se aglomeravam na calçada.Entrei no edifício acompanhada por Léo, Alex e Chloe. Eu vestia um terno preto ajustado, com o distintivo da Polícia Civil preso com firmeza ao cinto. Não havia sinal de incerteza nos meus passos.No grande salão do júri, o ar era denso. A mesa da acusação estava organizada com o promotor Denver e Alex ajustando os últimos relatórios. Do outro lado, na mesa da defesa, três advogados de terno impecável conversavam em voz baixa.Poucos minutos depois, as portas laterais abriram-se e Samantha Sterling entrou escoltada por dois guardas prisionais.Ela vestia o uniforme cinza do sistema penitenciário, sem as jóias, a maquilhagem refinada ou os trajes de grife que costumavam marcar a su
CAPÍTULO 28: A Teia da Justiça A luz da manhã que entrava pela janela da minha sala parecia diferente. Não era mais a claridade opaca de quem vivia sob a sombra de uma mentira ou de um luto mal resolvido; era a luz suave de quem finalmente podia respirar em paz.Depois de receber alta e passar os últimos dois dias sob os cuidados rigorosos (e exageradamente carinhosos) do Léo — que tentou me fazer comer sopa de todas as formas possíveis e organizou cada detalhe da rotina para eu não fazer esforço —, eu finalmente decidi que precisava me arrumar para encarar os compromissos do dia.Estava sentada no sofá da sala, vestindo uma calça confortável e um casaco leve de mangas longas, repassando mentalmente os acontecimentos enquanto o aroma de café recém-passado tomava conta do apartamento. Na mesinha de centro, a pasta de couro com os relatórios da Polícia Civil, o laudo pericial do Novo Cais e a cópia da fita de áudio entregue por Léo formavam o dossiê que soterraria de vez a Lumina Ho
CAPÍTULO 27: As Marcas do Amanhã O pisca-pisca vermelho e azul das viaturas e das ambulâncias transformava a fumaça do pátio do galpão de Ravena em um cenário quase irreal. O cheiro de queimado e pólvora aos poucos ia se dissipando no ar frio da madrugada.Dois paramédicos me ajudavam a sentar na borda da maca retrátil, higienizando os cortes no meu rosto e enfaixando os meus pulsos esfolados pelas abraçadeiras de náilon. Eu estava exausta, com cada osso do corpo doendo, mas pela primeira vez em doze anos, o peso no meu peito parecia mais leve.Léo estava em pé logo ao meu lado, segurando uma manta térmica sobre os meus ombros. Ele não tinha soltado a minha mão nem por um segundo desde que saímos de dentro do galpão, mas a sua fisionomia ainda era uma mistura engraçada de alívio com um choque pós-traumático bem evidente.— Senhorita Vance, a sua pressão está estabilizada, mas precisamos levá-la ao pronto-socorro para examinar as costelas e fazer um raio-X — avisou o paramédico, a
CAPÍTULO 26: Contra o Tempo O som de sirene ecoava distorcido no meu ouvido enquanto o carro descaracterizado de Alex rasgava o asfalto molhado em direção ao porto de Silverlake. Ao meu lado, Alex falava ao rádio com a central de rastreamento, mantendo o olhar fixo na estrada escura.— O sinal do celular descartável interceptado bateu com o ERB do píer abandonado de Ravena — disse Alex, desligando o rádio e me encarando. — Léo, à polícia civil já está cercando o perímetro, mas o promotor deu a ordem: invasão tática só com confirmação visual do cativeiro, para evitar um confronto armado de risco antes de sabermos onde a Maya está posicionada.Apertei o distintivo da Maya no meu bolso, sentindo o contorno metálico do brasão. A sensação de impotência me corroía por dentro, mas o faro investigativo e a adrenalina me mantinham focado.— A Samantha não levou a Maya para negociar — comentei, ajustando a alça da minha câmera profissional, que eu trouxera do apartamento. — Ela levou a May
CAPÍTULO 25: A Brecha da Lei A luz dos giroflex vermelhos e azuis cortava o crepúsculo na frente do imponente prédio da Lumina Patrimonial. Repórteres e fotógrafos se acumulavam atrás da fita zebrada da polícia, com os flashes disparando sem parar enquanto os oficiais escoltavam Samantha Sterling pelas escadas de mármore. A minha tia vestia um conjunto impecável de alfaiataria preta, mas a sua expressão era de puro veneno. Ao passar por mim e pelo Léo, que observavamos tudo a poucos metros de distância, ela desacelerou o passo. Os olhos frios de Samantha cravaram nos meus. — Você acha que venceu, Maya? — murmurou ela, com a voz carregada de desdém, enquanto um policial a guiava para o banco traseiro da viatura. — Você não passa de uma garota ingênua jogando num tabuleiro que não entende. Não respondi. Apenas mantive a cabeça erguida, vendo a porta da viatura bater e o carro arrancar em direção ao centro de detenção provisória. A noite seguinte e o dia posterior trouxeram um







