LOGINSó que não da forma que sonhara. As mãos de Matteo apertavam o volante com tanta força que os nós dos dedos se tornaram brancos. Tentava não pensar no pior, mas cada quilómetro que percorria aumentava o medo de que algo tivesse acontecido dentro daquela casa.
Se alguém lhe tivesse feito mal, Matteo sabia que não ficaria calado. Durante seis anos limitara-se a observar, a agir nas sombras, mas aquela noite marcava um limite. A partir dali, nada o faria recuar. Estava disposto a intervir, a enfrentar quem fosse necessário. Ninguém mais iria magoar Darya. Não enquanto ele respirasse. Matteo levou pouco mais de vinte e cinco minutos a chegar ao seu destino. O coração batia-lhe acelerado durante todo o percurso, como se pressentisse que algo não estava bem. Antes mesmo de alcançar o portão da mansão, avistou uma silhueta familiar. Era Darya. Estava sentada no passeio, junto aos enormes portões de ferro, com a cabeça baixa e os ombros encolhidos. O frio da noite parecia envolvê-la inteira, tornando-a ainda mais frágil. Matteo travou o carro de forma brusca e saiu sem perder tempo. O impulso inicial foi correr até ela, puxá-la para os seus braços e protegê-la do mundo inteiro. Mas conteve-se. Uma muralha invisível erguia-se sempre que pensava em revelar tudo o que sentia, medo da rejeição talvez, medo de que ela se afastasse se percebesse a intensidade dos seus sentimentos. Por isso, manteve a expressão controlada, retirou o blazer e caminhou com passos largos até à jovem. — Darya — chamou, a voz mais grave do que pretendia. Ela ergueu lentamente o rosto. Matteo sentiu o estômago revirar-se ao reparar na marca de uma mão estampada na pele dela. Tinha chorado, via-se nos olhos vermelhos, na expressão cansada. Um nó apertou-lhe a garganta. Sem dizer mais nada, estendeu-lhe a mão. Darya aceitou-a num gesto tímido, quase automático. Matteo colocou o blazer sobre os ombros dela, como quem cobre algo precioso. — O que aconteceu? — perguntou, tentando controlar a fúria que começava a crescer dentro de si. Ela baixou o olhar, a voz a sair-lhe em sussurros: — Prefiro não falar sobre isso. Só… tira-me daqui, por favor. Havia vergonha no modo como evitava encará-lo. Matteo limitou-se a acenar, sem insistir. Respeitaria o silêncio dela naquele momento, mas dentro de si a decisão já estava tomada: iria descobrir o que acontecera, e quem ousara tocar-lhe pagaria caro. Não teria piedade. Com gestos calmos, abriu a porta do carro. Darya entrou, sentou-se no banco do passageiro e encostou a cabeça à janela, fechando os olhos como se desejasse desaparecer do mundo. Matteo, antes de arrancar, permitiu-se um olhar discreto. Vê-la assim doía-lhe de uma forma que não conseguia descrever, uma dor surda, dilacerante, que lhe corroía o peito. O trajecto foi feito em silêncio. Nenhum dos dois parecia ter forças para falar. Matteo não ousou levá-la à casa dos pais; não quando Darya transmitia, em cada gesto, a necessidade de estar longe de tudo e de todos. Levou-a, portanto, ao seu próprio apartamento. Quando estacionou, olhou para o lado e percebeu que ela adormecera profundamente, a respiração lenta e serena, como se o corpo finalmente cedesse ao cansaço depois de demasiado sofrimento. Matteo ficou alguns segundos a observá-la, sem saber se sentia alívio ou tristeza. Saiu do carro e foi até ao lado dela. Tentou acordá-la com suavidade. — Darya… chegámos. — Tocou-lhe de leve no ombro. Nenhuma resposta. O sono parecia demasiado pesado. Num gesto quase instintivo, Matteo inclinou-se e tomou-a nos braços. O corpo dela, leve e delicado, encaixava-se contra o seu peito como se sempre lhe tivesse pertencido. Atravessou o estacionamento, entrou no elevador e subiu até ao seu apartamento. O silêncio da noite envolvia-os, quebrado apenas pelo som do motor e, depois, pelo eco distante dos seus passos. Tê-la nos braços parecia um sonho, daqueles que se teme ver desfeito ao despertar. Se fosse, Matteo desejava não acordar. Assim que entrou em casa, levou-a directamente para o quarto. Deitou-a com cuidado sobre a cama, retirou-lhe os sapatos e ajeitou um cobertor por cima dela. Ficou a observá-la por instantes, a respiração tranquila, o rosto ainda marcado pela dor. Sentou-se então na cadeira ao lado da cama. A noite era longa, mas não lhe importava. Ficaria ali, a vigiar o sono dela, como sempre fizera em silêncio durante anos. E no íntimo, uma promessa ecoava clara e implacável: ninguém voltaria a magoar Darya. ✬ Darya despertou lentamente, como quem regressa de um lugar distante. O corpo parecia pesado, e a primeira coisa que sentiu foi uma dor de cabeça insistente, latejante, consequência das horas passadas a chorar. Abriu os olhos devagar, piscando várias vezes para se adaptar à claridade difusa do luar que atravessava as cortinas semi abertas. O quarto era amplo e arrumado, marcado por linhas simples, mas elegantes. Não reconhecia aquele espaço, e por um momento o pânico quase a dominou. Os olhos vaguearam até pararem numa figura imóvel, sentada no sofá do canto. Matteo. Estava ali, a observá-la em silêncio, como se não tivesse desviado o olhar em nenhum instante desde que ela adormecera. Havia algo de inquietante na intensidade dele, como se fosse incapaz de relaxar enquanto ela respirasse longe da sua atenção. — Matteo… — a voz de Darya saiu fraca, quase um sussurro. Retirou o cobertor que a cobria e os pés tocaram no chão frio, fazendo-a estremecer. Passou a mão pelos cabelos, tentando recompor-se. — Onde estamos? Não me lembro de muita coisa depois de entrar no teu carro. — Fez uma pausa, pressionando as têmporas. — Faz quanto tempo que estás acordado? A dor de cabeça agravou-se, latejando como se fosse rebentar-lhe o crânio. Matteo levantou-se de imediato. O modo como se moveu, controlado mas decidido, fez Darya lembrar-se de um predador silencioso, não por ameaça, mas pela intensidade quase selvagem do olhar. — Estamos no meu apartamento. — respondeu, a voz baixa mas firme. — Estou acordado desde que chegámos. Virou costas, foi até ao quarto de banho e regressou pouco depois com alguns comprimidos. Passou ainda pela cozinha, voltando com um copo de água. Sem dizer mais nada, entregou-lhos. — Tome. — disse, o tom natural, quase prático. — Depois volte a descansar. Ainda são quatro da manhã. Se preferires, podes tomar um banho. No closet há roupas que te vão deixar mais confortável. Darya pegou no comprimido e na água, engoliu-os com um gesto automático. O silêncio entre ambos pareceu ganhar vida própria, denso, quase sufocante. Quando pousou o copo, ergueu os olhos para Matteo.— Mamã, essa é antiga.— E continua bonita.Myrcella hesitou. Matteo sorriu de lado.— A tua mãe está certa. E isso dói-me fisicamente admitir.Darya olhou para ele com falsa indignação.— “Às vezes” eu estou certa.— Claro.Arya observava os dois alternando o olhar entre eles com um sorriso discreto. Mesmo depois de tantos anos, ainda era visível o quanto os pais se entendiam sem esforço. Myrcella finalmente suspirou.— Está bem… talvez funcione.Arya abriu imediatamente um sorriso vitorioso.— Eu sabia!— Não comemores demasiado.Darya aproximou-se das duas filhas.— Escutem uma coisa. — O tom dela mudou ligeiramente. Mais suave. As duas olharam imediatamente para ela. — Vocês vão discutir muitas vezes ainda.Arya assentiu imediatamente.— Principalmente ela.— Cala-te — respondeu Myrcella automaticamente.Darya tentou não rir.— Mas uma coisa que eu nunca quero que esqueçam é isto: irmãs não precisam ser perfeitas uma com a outra o tempo inteiro. — O corredor ficou silencioso. — Às
O sábado começou antes mesmo do sol entrar completamente pelas janelas da casa e começou com gritos.— ARYA, EU JURO QUE SE TU MEXESTE NAS MINHAS COISAS OUTRA VEZ… A voz de Myrcella ecoou pelo segundo andar com força suficiente para fazer Matteo fechar os olhos lentamente enquanto segurava a chávena de café ainda por terminar. Darya levantou o olhar do tablet onde organizava alguns documentos do trabalho e arqueou uma sobrancelha com perfeita calma.— Cinco minutos acordadas — comentou ela. — Novo recorde.Matteo soltou uma respiração cansada, mas divertida.— Eu ainda tinha esperança de que hoje fosse um dia tranquilo.Lá em cima ouviu-se outra voz imediatamente.— EU NÃO MEXI EM TUDO!— COMO ASSIM “EM TUDO”?!Darya levou a chávena aos lábios para esconder o sorriso.— Vai lá antes que a Myrcella peça emancipação legal da irmã.Matteo apontou para ela com acusação leve.— Elas herdaram isso de ti.Darya finalmente riu.— A capacidade dramática veio totalmente de ti. Antes que Matte
Matteo aproximou-se um passo. Olhou para o teste. Depois para ela e o sorriso dele suavizou.— Darya…— Não.— Deixa-me falar.Ela respirou fundo, mas não o impediu. Matteo continuou, mais baixo agora:— Eu sei que isto não era o plano.— Não era mesmo.— Mas… isto não me assusta.— Devia assustar-te.— Não está a acontecer comigo — respondeu ele, simples. — Está a acontecer connosco.— Tu achas que isto é uma repetição do passado.— Mas não é.Darya desviou o olhar.— Tu não sabes isso.— Sei o suficiente — disse ele.Ela fechou os olhos por um segundo.— Eu não queria isto agora.— Eu também não estava à espera — admitiu ele.— Eu juro que o universo tem um sentido de humor muito específico comigo — disse ela, com ironia cansada.Matteo soltou uma pequena risada.— Pelo menos não estamos a lidar com isso sozinhos desta vez.— Tu estás feliz com isto?— Sim.— Estás a falar a sério?— Estou.— Nós nem estamos juntos.— Ainda não.— Isto não resolve nada entre nós.Matteo assentiu.—
Como se o espaço estivesse a diminuir sem razão aparente. Ela tentou voltar ao trabalho. Abriu um documento. Leu a mesma linha três vezes. Fechou. O pensamento não saía. O atraso. Dois dias. Depois três e aquele tipo de detalhe que o corpo feminino conhece melhor do que a mente quer admitir. Darya levantou-se devagar, como se o simples ato de se mexer pudesse quebrar a sequência de pensamentos. Foi até à janela. Lá fora, o jardim estava calmo. Myrcella tinha voltado a brincar com alguma coisa no chão, provavelmente desenhos ou bonecos espalhados. Ficar ali a pensar sozinha não ajudava. Isso ela sabia. Pegou no telemóvel e sem mais hesitação do que conseguia permitir a si própria, procurou o contacto dele. Matteo atendeu depois de dois toques.— Darya?A voz dele não tinha surpresa. Tinha atenção imediata. Como se tivesse percebido que não era uma chamada normal.— Preciso de falar contigo — disse ela.Silêncio do outro lado.— Agora?— Sim. Urgente.— Aconteceu alguma coisa com a M
— Amanhã vamos desenhar — disse, apontando para Bianca. — Vamos — confirmou ela. — Eu quero desenhar uma casa grande. — A nossa? — perguntou Bianca. Myrcella pensou. — Sim. E saiu da sala com a mesma leveza com que tinha entrado. O silêncio que ficou não era o mesmo de antes. Agora havia algo mais suave entre as três. Bianca olhou para o espaço onde Myrcella tinha estado. Depois para Darya. — Ela é… muito fácil de gostar — disse, por fim. Darya não respondeu de imediato. O olhar dela manteve-se firme. Mas menos distante. — É — disse finalmente. Bianca assentiu e respirou fundo. — Obrigada por isto. Darya olhou para ela por alguns segundos e não respondeu com palavras. Mas também não desviou o olhar. Porque, naquela noite, pela primeira vez desde que tudo tinha começado a mudar, a casa não parecia apenas um lugar de passado. Parecia um espaço onde, lentamente, algo novo estava a aprender a existir sem se partir. ✬O aniversário de quatro anos de Myrcella ainda
Darya não respondeu de imediato. O olhar passou pela sala, pelas escadas, pela casa inteira. Depois voltou para Bianca. — Eu também gostava. —Fez uma pausa. — Mas isso não se decide hoje. — Bianca assentiu. — Primeiro recuperas. E, naquele momento, pela primeira vez desde que tinha voltado àquela casa, Bianca não parecia apenas alguém que regressou ao passado. Parecia alguém que, talvez, tivesse uma hipótese de ficar. ✬A hora do jantar chegou com uma calma estranha, quase como se a casa estivesse a testar uma nova forma de existir. Darya desceu as escadas depois de um banho e uma troca de roupa simples. Parou por um segundo antes de entrar na sala de jantar, como se estivesse a avaliar um território que já conhecia, mas que agora parecia diferente.A mesa estava posta. Três lugares definidos, mas não de forma marcada. A louça era simples, a comida tinha sido colocada com cuidado, mas sem aquela obsessão de perfeição que antes caracterizava aquela casa.Bianca já estava sentada.







