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A Independência que Meu Alfa Lamentou
A Independência que Meu Alfa Lamentou
Autor: Eternity

Capítulo 1

Autor: Eternity
— Amanhã de manhã? — O doutor Morris ergueu os olhos do meu prontuário, convencido de que só podia ter ouvido errado. — Não quer esperar mais alguns dias? O Alfa Ronan volta hoje à noite. Tenho certeza de que vai querer estar ao lado da Luna dele.

Fechei a pasta.

— O senhor só vai retirar algumas lascas de prata com anestesia local, não trocar meu coração. Já assinei os termos de consentimento.

Ele continuou me encarando. Todos na alcateia Serra Prateada sabiam o quanto eu dependia de Ronan antes. Quando torci o tornozelo durante um treino, me recusei a receber atendimento até ele sair de uma reunião do conselho. Outra vez, a borda de metal de uma pasta cortou meu dedo, e fiquei com a mão estendida para ele até ganhar um beijo no machucado para a dor passar.

Por isso, quando eu disse que daria conta sozinha, o doutor Morris não soube como reagir.

Saí do consultório e parei no saguão do centro médico.

Ronan Hale acabava de entrar pelas portas principais, puxando uma mala de mão. Com os ombros largos e uma presença imponente, fazia os lobos mais jovens saírem da frente por puro instinto. Uma das mãos repousava nas costas da minha irmã postiça, Sienna, amparando-a nos dois degraus baixos como se ela fosse de vidro.

Um cachecol azul-marinho feito à mão estava enrolado no pescoço dela. Eu mesma o tricotei para Ronan no terceiro aniversário da nossa cerimônia de acasalamento.

O olhar dele caiu sobre a pasta na minha mão.

— Maeve? O que você está fazendo aqui? O ferimento da prata está incomodando de novo?

"De novo." Eram só duas palavras, mas me faziam parecer mais um problema na mesa dele, à espera de solução.

Antes que eu pudesse responder, ele pegou a pasta e passou os olhos pelo relatório.

— Amanhã não vai dar, estou com a agenda cheia. Peça para remarcarem para a semana que vem.

Puxei os papéis da mão dele.

— Não precisam organizar tudo em função da sua agenda. Eu venho sozinha.

Ronan piscou.

Duas semanas antes, eu perguntei a ele se devia usar vermelho ou preto no jantar do conselho. Agora ia fazer uma cirurgia sem lhe contar nada. Se não fosse aquele encontro por acaso, talvez ele nunca ficasse sabendo.

Quando recuei um passo, uma caixa branca de remédio escorregou do bolso do casaco dele e caiu no chão. O rótulo indicava um medicamento normalmente receitado para enjoos intensos de gravidez.

Ronan apanhou a caixa depressa.

— Nem comece. Sienna passou mal o voo inteiro. Peguei para ela.

Sienna baixou os olhos e apertou o cachecol entre as mãos.

— Desculpa, Maeve. Ronan ia direto para casa, mas eu estava me sentindo muito mal. Fiquei com medo de vir sozinha. — Então ela me deu um sorriso suave e envergonhado. — Queria ser tão independente quanto você. Assim, o Alfa não precisaria se preocupar comigo o tempo todo.

"Independente." Quase ri.

Um mês antes, a pele ao redor dos fragmentos de prata inflamou tanto que acordei no meio da noite sem conseguir mexer o ombro. Liguei para Ronan, esperando que ele se preocupasse, mas as primeiras palavras que ouvi foram:

— É tão grave assim para você me ligar a uma hora dessas?

Disse que não sabia, que estava com medo e queria que meu companheiro voltasse para casa.

— Ligue para o médico, Maeve. Você é uma loba adulta e a Luna da Serra Prateada. Não pode jogar qualquer probleminha nas minhas costas. Sou seu marido, não seu enfermeiro particular.

Era engraçado como as coisas funcionavam.

O Alfa mais forte da região tinha tempo para resolver os problemas de todo mundo, menos os da própria companheira. Mas bastava Sienna sussurrar que não se sentia bem para ele trazê-la de carro direto do aeroporto.

Qualquer um que visse os dois pensaria que a mulher usando o cachecol dele era sua Luna.

Em outros tempos, eu exigiria uma explicação. Choraria, brigaria e faria Ronan provar que aquela caixa de remédio não significava nada.

Dessa vez, apenas assenti.

— Entendi — respondi, sem acusações, ciúmes ou lágrimas.

Ronan ainda não sabia do coraçãozinho que batia dentro de mim.

E nosso bebê nunca cresceria me ouvindo implorar para que o pai dele voltasse para casa. Ele cresceria comigo, em algum lugar bem longe da Serra Prateada.
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