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CAPÍTULO 5: O Sangue do Norte

Author: Lu Viana
last update publish date: 2026-08-31 09:46:08

A consciência não retornou com um choque repentino, mas como uma maré lenta e densa que se arrastava sobre areia fria.

O primeiro sentido a se restabelecer foi o olfato. Não havia o odor rançoso de asfalto molhado, fumaça de escapamento ou fuligem da cidade humana onde passei os últimos seis meses tentando reconstruir os pedaços da minha dignidade. Também não havia o aroma adocicado, floral e enjoativo dos jardins cultivados e das essências artificiais que as cortesãs de Silver Moon usavam para mascarar suas fraquezas. O ar ao meu redor era rústico, denso e puro: cheirava a lenha de cedro estalando em brasa, resina fresca de pinho, cera de abelha, sabão de ervas amargas e um rastro magnético e inconfundível de tempestade de inverno, ozônio e terra molhada que parecia impregnado em cada fibra do ambiente.

Pisquei devagar, lutando contra o peso das pálpebras ressecadas e contra a claridade que cortava a penumbra. Feixes de luz dourada e gélida entravam por três janelas estreitas e altas em arco ogival, esculpidas diretamente na alvenaria de granito escuro.

Eu estava deitada em uma cama monumental de carvalho maciço, sobre um colchão espesso forrado com lençóis de linho alvejado e cobertores pesados de pele de urso e lobo cinzento. O quarto era imenso, austero e construído inteiramente em pedra bruta talhada. Nas paredes, tapeçarias grossas com bordados geométricos em tons de chumbo e carmesim ajudavam a conter o vento da montanha. Escudos circulares de ferro forjado, duas espadas longas de lâmina larga e machados pesados de guerra estavam pendurados sobre consoles de madeira, deixando claro que aquele não era um aposento comum de hóspedes, mas os domínios privados de um guerreiro de alto escalão.

Tentei erguer o tronco, mas um gemido escapou involuntariamente por entre meus dentes cerrados.

Cada músculo do meu corpo protestava em uníssono. Havia uma dormência pesada nas minhas coxas fartas, uma queimação surda e contínua nos músculos internos dos meus quadris largos e uma sensibilidade aguda na pele do meu ventre. Ao erguer a mão trêmula até o ombro esquerdo, meus dedos tocaram os únicos ferimentos recentes sobre a minha pele limpa: furos pequenos de presas bem fechados, cobertos por uma pasta verde-escura de aroma canforado que anestesiava a carne com um formigamento frio.

As memórias da noite anterior vieram com força total: a fuga desesperada pela floresta hostil, a quebra repentina da dormência que silenciara minha loba por meio ano após a rejeição verbal de Zander, o encontro com o lobo colossal e o homem de ombros largos que tomara meu corpo sobre as pedras congeladas sem pedir licença. A dor da carne virgem cedendo no cascalho, seguida pela onda brutal de alívio biológico quando a fera quebrou a minha febre em um acasalamento cru e instintivo sob a luz da lua cheia.

Puxei o cobertor de pele contra o peito farto com um sobressalto. Eu estava completamente nua sob as cobertas. O vestido de malha verde fora reduzido a trapos na floresta. Ao lado da cama, sobre um banco de nogueira polida, descansavam peças de roupas dobradas com cuidado: uma camisa longa de linho cru, uma túnica pesada de lã cinza-chumbo forrada com pele macia nas bordas, calças de couro flexível e botas forradas. Ao lado das vestes, uma jarra de barro com água fresca e uma bacia de ferro fumegavam discretamente.

— Mova-se devagar se não quiser sentir os músculos repuxarem, garota.

A voz feminina, firme e rouca como galho seco de carvalho antigo, veio do canto do quarto onde uma lareira colossal de pedra mantinha toras grossas ardendo em chamas vigorosas.

Virei o rosto depressa, e minha loba — desperta após o acasalamento, mas ainda cautelosa — eriçou-se em alerta. Sentada em uma cadeira de espaldar alto próxima ao fogo, uma mulher mais velha limpava tiras de linho em uma bacia. Tinha cabelos grisalhos trançados com fitas finas de couro cru, feições talhadas pelo vento congelante do norte e olhos castanhos perspicazes que me avaliaram da cabeça aos pés com frieza clínica.

— Quem é você? — perguntei, minha voz saindo áspera pela garganta seca.

A mulher colocou os panos de lado e levantou-se. Caminhava com o passo firme e prático de quem comandava respeito por onde passava.

— Sou Marta, curandeira desta fortaleza — respondeu ela, caminhando até a cama e estendendo uma caneca de barro escuro fumegante. — Beba. Infusão de raiz-de-gelo com casca de vidoeiro. Vai terminar de drenar o excesso de calor do seu sangue e acalmar as marcas da mordida de contenção no seu ombro.

Hesitei, colando as costas à cabeceira de carvalho.

Marta aproximou-se mais um passo, encarando-me com seriedade médica.

— Passei a madrugada inteira limpando o sangue virgem entre as suas pernas e cuidando dos cortes que as pedras da montanha abriram nos seus pés e joelhos — disse ela, o tom direto e sem rodeios. — Você cheira a carvalho e terra fértil do sul, mas sua pele estava completamente intocada por dentes ou machos até a noite passada. O que uma loba do sul fazia atravessando a fronteira mais mortal da cordilheira no auge de uma febre desgovernada?

Engoli em seco, sentindo o peso daquela pergunta. A dor da humilhação pública ainda pesava em meu peito.

— Eu fui rejeitada... pelo herdeiro da corte onde nasci — respondi em voz baixa, sustentando o olhar dela. — Ele quebrou o laço verbalmente diante de toda a alcateia e me expulsou antes que qualquer união acontecesse. Minha loba entrou em luto profundo por seis meses. Eu não sentia nada... achei que estivesse vazia. Mas ontem a febre estourou de repente, na cidade humana. Eu não tinha as ervas da floresta para conter e só tentei correr para a mata antes de enlouquecer.

Marta assentiu devagar, os olhos demonstrando a compreensão de uma curandeira que entendia a natureza dos lobos.

— O trauma de uma rejeição de alma tranca o espírito da loba em dormência para evitar que a dor mate o corpo — explicou a anciã. — Mas quando o organismo finalmente decide acordar, o cio acumulado vem como uma tempestade represada. Se o Alfa Rowan não tivesse quebrado essa febre nas pedras, o calor teria consumido você por dentro. Agora beba o remédio. Frostveil não gasta infusões em quem se recusa a ser cuidada.

Peguei a caneca com as mãos trêmulas. O líquido era amargo e tinha gosto de terra molhada e menta silvestre, mas assim que desceu pela minha garganta, uma onda de frescor calmante se espalhou por minhas entranhas, dissipando o restante da tensão muscular.

— O Alfa... Rowan — pronunciei o nome com cautela, devolvendo a caneca vazia. — Ele me marcou?

— Não — Marta rebateu de pronto. — Aquilo no seu ombro foi apenas uma mordida de contenção física para passar a calma dele e impedir que seu coração parasse nas pedras. Uma reivindicação verdadeira de laço exige a mordida na jugular, a troca de sangue e o consentimento pleno de ambos perante a lua. Rowan é uma fera implacável em batalha, mas não é um covarde que marca uma fêmea delirando no primeiro cio acasalado.

Minha loba soltou um suspiro quieto de alívio. Ainda assim, o cheiro de Rowan que impregnava aquele quarto — nas peles, nas vigas de carvalho e no próprio ar — mantinha meus sentidos em um estado de alerta elétrico que eu nunca havia sentido antes.

— Como você se chama, garota? — perguntou Marta.

— Freya — respondi, erguendo o queixo. — Freya da linhagem de ferro.

A curandeira assentiu, satisfeita com a firmeza na minha voz.

— Pois bem, Freya. Levante-se e vista as roupas sobre o banco — disse ela, apontando para as vestes de lã e couro. — Os sentinelas viram o senhor de Frostveil entrar com uma estrangeira nos braços, coberta pelo cheiro do sul e sangue de cio recém-quebrado. Os anciãos e os comandantes de guerra já estão reunidos no Grande Salão. Estão exigindo saber quem você é e se traz perigo às nossas fronteiras, e o Alfa não é homem de dar explicações pelas costas.

A velha caminhou até a pesada porta de carvalho e parou junto à soleira. Seus olhos examinaram a amplitude dos meus ombros, o volume pesado do meu busto sob os lençóis, a linha firme da minha cintura e a solidez dos meus quadris largos e pernas fortes.

— No sul, eles medem o valor de uma mulher pela fragilidade com que ela se curva aos caprichos dos homens — disse a anciã em tom solene. — Aqui no norte, nós medimos o valor pela força que o corpo tem para suportar o rigor da tempestade. Cubra-se, Freya. Vá ao Grande Salão e mostre aos velhos generais que a fêmea que sobreviveu à crista das agulhas não vai baixar a cabeça diante de julgamentos covardes.

A porta fechou-se com um baque seco e definitivo.

Fiquei sozinha no silêncio do quarto de pedra. Respirei fundo, sentindo o ar revigorante preencher meus pulmões, e levantei-me para vestir a lã e o couro de Frostveil. A tempestade na floresta havia passado, mas a verdadeira batalha pelo meu lugar naquele mundo de ferro e gelo estava apenas começando.

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