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CAPÍTULO 6: O Grande Salão

Author: Lu Viana
last update publish date: 2026-09-02 01:35:58

​O tecido grosso da túnica de Frostveil desceu pelo meu corpo com um peso reconfortante. Ajustei o cinto largo de couro cru na cintura, sentindo a fivela de ferro frio repousar contra o meu abdômen. As calças de camurça moldavam-se com precisão às minhas coxas fartas e aos meus quadris largos, sem o aperto desconfortável e sufocante das sedas que eu era forçada a vestir em Silver Moon para disfarçar minhas formas. As botas forradas davam firmeza aos meus passos sobre o granito, protegendo as ataduras que Marta colocara nos meus pés.

​Eu não parecia a loba humilhada que deixara o Sul para trás. Eu parecia uma mulher pronta para a tempestade.

​Caminhei até a pesada porta de carvalho do quarto e apoiei a mão na tranca de ferro. Minha loba, ainda sensível pela febre recém-quebrada e pela presença dominante do Alfa impregnada em cada canto daquele aposento, agitou-se sob a minha pele. Respirei fundo, enchendo o peito com o ar gelado, e empurrei a madeira maciça.

​Dois sentinelas armados com lanças de lâmina larga faziam a guarda no corredor iluminado por tochas de pinho. Suas armaduras de couro endurecido tinham placas de aço sobrepostas nos ombros e no peito. Ao me verem sair, bateram a base das lanças no piso de pedra em uníssono, com um som metálico e seco.

​— Por aqui, forasteira — disse o mais alto, apontando o caminho pelo corredor em abóbada.

​Segui os guardas por corredores monumentais talhados diretamente na rocha da montanha. O ar era gélido, mas havia braseiros de carvão mineral espalhados a cada dez passos, emanando um calor constante e uma fumaça fina que subia para dutos de ventilação esculpidos no teto. À medida que avançávamos, o eco de vozes ásperas, discussões acaloradas e o tinir de canecas de metal contra tampos de madeira tornavam-se mais nítidos.

​Chegamos a uma galeria com um portal duplo colossal de madeira escura guarnecida de cravos de ferro. Os guardas empurraram as portas, e o Grande Salão de Frostveil abriu-se diante de mim.

​O espaço era monumental. O teto sustentado por pilares maciços de granito parecia desaparecer nas sombras superiores, onde a fumaça de quatro lareiras colossais dançava antes de escapar pelas aberturas da torre. Duas mesas de banquete corriam a extensão do salão, ocupadas por dezenas de guerreiros, curandeiras, comandantes de armas e anciãos de barbas compridas.

​No instante em que pisei no piso elevado da entrada, o tumulto das conversas cessou de maneira abrupta.

​O silêncio que se abateu sobre o salão foi absoluto, denso e cortante como gelo fino. Centenas de pares de olhos cravaram-se em mim, varrendo meu corpo da cabeça aos pés. Seus sentidos apurados de predadores captaram de imediato a mistura de odores no ar: a doçura de terra fértil e carvalho das matas do Sul misturada, de forma explícita e impossível de ignorar, ao cheiro de ozônio, tempestade e madeira queimada do próprio Alfa que governava aquela fortaleza.

​No centro do estrado, sentado em um trono rústico entalhado em carvalho negro e ladeado por peles de urso, estava Rowan.

​Ele não usava os trajes desgrenhados de caça da noite anterior. Vestia uma cota de malha escura sobreposta por uma túnica cinza debruada com tiras de prata e ferro. Os cabelos negros estavam presos para trás com um fecho de couro, deixando à mostra a linha afiada de sua mandíbula e o corte duro do seu queixo. Os braços musculosos repousavam sobre os apoios de pedra do trono. Seus olhos cinzentos e tempestuosos cravaram-se nos meus com uma calma fria e perigosa.

​— Então esta é a criatura que o nosso Alfa trouxe nos braços como se fosse um troféu de caça? — a voz áspera quebrou a quietude com o estalo de um chicote.

​Um homem de ombros largos e cabelos brancos e ralos levantou-se de uma das mesas centrais. Seu rosto carregava uma cicatriz profunda de queimadura na têmpora esquerda, e seus olhos fuzilavam-me com aberta desconfiança.

​— Meça as palavras, Kenneth — a voz de Rowan cortou o salão com um tom baixo, grave e perfeitamente audível, sem que ele precisasse erguer a voz. — A fêmea está sob meu teto.

​— Não podemos medir palavras quando a segurança da fronteira está em jogo, Alfa! — retrucou o velho guerreiro, batendo a palma da mão pesada sobre o carvalho da mesa. — Os patrulheiros da Crista relatam que essa mulher cruzou a linha das Agulhas em pleno cio. Ela carrega o cheiro das terras de Silver Moon! O Sul mantém um tratado armado conosco há trinta invernos, mas nunca foram confiáveis. Como sabemos que isso não é uma armadilha? Uma isca jogada para testar as sentinelas do Norte ou semear discórdia entre os clãs?

​Murmúrios de concordância correram pelas fileiras de guerreiros. Vários veteranos cruzaram os braços, analisando minha reação, enquanto alguns jovens sentinelas apoiavam as mãos nos cabos de suas adagas.

​Eu não desviei o olhar. Não dei um único passo para trás e recusei-me a baixar os ombros.

​— Se Silver Moon quisesse enviar uma espiã — falei alto, minha voz soando limpa e firme pelo recinto, fazendo os murmúrios morrerem no ar —, mandaria uma assassina treinada com veneno sob as unhas e poções no sangue, não uma forasteira abandonada que quase morreu de exaustão na neve.

​Kenneth cerrou os dentes, a veia do pescoço pulsando.

​— Você fala com insolência demais para quem não passa de uma intrusa do Sul! O que fazia rastejando na nossa fronteira?

​— Sou Freya, da Linhagem de Ferro — declarei, sustentando o olhar de cada homem naquela mesa com o queixo erguido. — E fui rejeitada. O herdeiro de Silver Moon quebrou o laço sagrado por palavras diante de toda a corte, por eu não caber nos moldes frágeis das damas de seda. Abandonei o Sul por orgulho e passei seis meses no mundo humano, onde minha loba adormeceu pelo luto da quebra. Quando o corpo finalmente despertou, o calor veio desgovernado. Eu não tinha como conter e corri para as montanhas para não perder a razão entre os homens. Não há conspiração nem exército atrás de mim. Apenas a sobrevivência.

​O choque silenciou o salão. Ninguém no Norte esperava que uma mulher assumisse uma rejeição com tanta firmeza e sem vergonha.

​Rowan levantou-se do trono com uma lentidão calculada. Sua presença física preencheu o estrado; ele era uma cabeça mais alto do que qualquer outro guerreiro naquele salão. Desceu os degraus de pedra com passos firmes e parou no centro da nave, entre mim e o conselho.

​Seus olhos cinzentos fixaram-se em Kenneth e depois varreram os comandantes ao redor.

​— O relato dela coincide com o que verifiquei nas pedras da fronteira — disse Rowan, a voz ecoando com o peso inegável do Comando de Alfa. — Ela estava desarmada, sozinha e sem rastro de batedores em um raio de cinco léguas. Não há ameaça militar.

​Kenneth ainda tentou argumentar:

​— Mas trazê-la para o coração da fortaleza...

​— Ela cruzou a fronteira de Frostveil e está sob o meu teto — cortou Rowan, a mandíbula travando com rigidez indiscutível. — Ela carrega a mordida de contenção no ombro. Enquanto permanecer dentro destas muralhas, Freya está sob a minha guarda pessoal. Qualquer homem ou mulher que erguer lâmina ou acusação infundada contra ela responderá às minhas garras.

​O silêncio caiu sobre o conselho. Ninguém ousava desafiar o veredito direto do Alfa soberano.

​Rowan virou-se para mim. O aroma de pinho congelado e tempestade que emanava de sua pele aqueceu o ar entre nós, fazendo minha loba despertar em alerta.

​— Você enfrentou a montanha e encarou o conselho sem baixar a cabeça — disse ele, a voz baixa o bastante para que apenas eu e os generais mais próximos escutassem. — Mas Frostveil não sustenta bocas inúteis. Se deseja viver livre nestas terras, terá que provar o seu valor com trabalho e disciplina.

​Sustentei seu olhar implacável com a mesma solidez que aprendi na bigorna.

​— Eu não atravessei a cordilheira para pedir esmolas, Alfa — respondi com frieza cortante. — Diga-me onde colocar minhas mãos, e eu mostrarei que a linhagem de ferro não quebra sob a geada do Norte.

​Um meio sorriso, sutil e perigoso como a ponta de uma lâmina, curvou o canto dos lábios de Rowan.

​— Veremos. Amanhã, ao romper da aurora, você se apresenta às forjas da muralha.

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