FAZER LOGIN(POV Selene)
A noite anterior tinha sido um peso esmagador. Depois do treino, meus braços tremiam tanto que eu mal conseguia segurar a colher que Caelan me empurrou com um sorriso debochado, oferecendo algo quente dentro de uma tigela de metal. Eu não queria aceitar nada das mãos dele, mas o cheiro de carne cozida e ervas me venceu. O fogo improvisado estalava baixo, mas não aquecia o bastante. A floresta parecia respirar ao redor, cada farfalhar de folha soando como passos. Dorian ficou imóvel na entrada, mas eu sabia que ele não relaxava nem por um segundo. Ronan, sentado perto das lâminas, passava o pano pelo fio como se fosse ritual. Caelan, claro, parecia estar em uma taverna, não no meio de um acampamento, rindo sozinho de um pensamento qualquer. Eles eram três mundos diferentes, e eu estava perdida no meio deles. — Não se preocupe, estrelinha. — murmurou, apoiado de forma preguiçosa contra a parede de madeira improvisada da cabana. — Se eu quisesse te envenenar, já teria feito. Ronan não comentou, mas seus olhos acompanharam cada colherada que levei à boca, como se medisse até a forma como eu mastigava. Já Dorian parecia alheio, parado de guarda na entrada, o corpo imóvel, mas os olhos em alerta. Eu me senti observada de todos os lados. Quando terminei de comer, o silêncio foi minha única companhia. Não houve conversa, não houve explicações. Apenas me deixaram estender um cobertor áspero sobre o chão duro da clareira. O corpo cedeu antes da mente, e adormeci cercada pelos cheiros da floresta e pelo peso invisível da marca queimando no pulso. O chão duro me machucava as costas, mas a exaustão venceu. A cada vez que fechava os olhos, lembrava do bastão estalando contra o meu, do olhar frio de Ronan, do silêncio de Dorian, da gargalhada de Caelan. Eles se infiltravam até nos meus sonhos, como se eu não tivesse mais espaço só meu. Sonhei com olhos me observando. Sonhei com passos ao redor do meu corpo. Sonhei com a voz de Ronan me ordenando, a de Dorian me vigiando e a de Caelan rindo no fundo da minha mente. Quando abri os olhos, o dia já estava começando. O sol não nasceu de verdade. Apenas clareou o céu num cinza pálido. O frio da manhã entrava pelos ossos e fazia a pele arder. Eu tentei me levantar, mas cada músculo protestou como se tivesse sido rasgado. Os músculos reclamaram de cada movimento. Meus braços estavam pesados, as mãos doloridas como se tivessem sido arrancadas e devolvidas no lugar errado. Respirei fundo e percebi que ainda podia sentir o ritmo dos golpes na pele, como se a madeira tivesse deixado marcas invisíveis. Eles, por outro lado, já estavam de pé. Ronan afiava lâminas com calma, como quem respira. Dorian vigiava a mata, rígido como aço, atento a cada movimento das árvores. Caelan descansava encostado em um tronco, girando uma pedra na palma da mão, sorrindo como se o mundo não fosse tão cruel. — Achei que não fosse levantar. — disse ele, sem tirar os olhos de mim. — Já ia pedir para Dorian te carregar como uma donzela desmaiada. — Pode sonhar. — respondi, a voz rouca. — Eu levanto sozinha. O sorriso dele se abriu mais, satisfeito. Ronan se ergueu. — Não tem tempo para preguiça. Hoje continua. — Continua o quê? — perguntei, mesmo sabendo a resposta. — Treino. — disse, simples. — Até o corpo entender. — Pensei que fosse aula teórica hoje. — ironizei, tentando ganhar tempo. — Teoria não salva vida. — Ronan devolveu, seco, empurrando o bastão contra o meu peito. — E paciência, salva? — rebati. Ele ergueu uma sobrancelha. — Não comigo. Dorian suspirou, mas não contestou. Voltamos ao centro da clareira. O chão estava úmido, o cheiro de terra molhada e musgo mais forte depois da madrugada. Ronan me entregou o bastão de novo. — Mente quieta. Corpo alerta. — disse ele. O primeiro impacto me lembrou de tudo. O bastão não era mais estranho, mas ainda pesado. Cada estalo ecoava pela clareira, misturando-se ao som da floresta viva. O suor escorria até arder nos olhos, turvando minha visão. As mãos queimavam de tanto apertar o bastão. Eu quase escorreguei duas vezes, mas forcei os pés no chão, lembrando das palavras dele: “Equilíbrio vem dos pés, não dos braços.” — Melhor. — Ronan assentiu. — Mas lenta. — Ela está cansada. — Dorian comentou, voz carregada. — O inimigo não espera ela descansar. — Ronan rebateu. De novo, o ar pesou entre eles. Eu, no meio, me sentia uma corda prestes a arrebentar. Caelan, claro, não perdeu a chance. — É delicioso ver vocês brigando por causa dela. — disse, preguiçoso. — Mas se querem saber, ela se move melhor quando esquece vocês dois. Ele se aproximou, como se fosse me corrigir. Segurou meus dedos no bastão, devagar, o toque leve demais para ser inocente. — Você treme, estrelinha. — disse, os olhos cravados nos meus. — Mas não é medo. É fome. Arranquei a mão com força, sentindo o rosto queimar. — Eu não sou como você. — Ainda não. — ele sorriu, voltando a se encostar no tronco. Revirei os olhos. — Você não ensina nada, só provoca. — Provocar também é ensino, estrelinha. — ele piscou. — O instinto responde mais rápido quando alguém cutuca. As palavras dele grudaram na minha mente. Talvez fosse verdade. O treino seguiu até minhas mãos arderem. O bastão já parecia parte de mim. Então veio o cheiro. Não era madeira, nem terra. Era ferro podre, como sangue velho misturado a carne apodrecida. Meu estômago revirou. — Vocês sentiram isso? Era um cheiro tão forte que me lembrou da oficina enferrujada perto da minha rua, misturado ao fedor de carne esquecida no quintal da vizinha. Só que multiplicado, vivo, quase sólido no ar. Tossi, engasguei, como se pudesse me sufocar só por existir. Ronan parou de atacar. — Sim. Dorian já estava em movimento, lâmina em punho, corpo pronto. A mata quebrou ao redor. Olhos brilharam no escuro. Não eram humanos. Não eram lobos comuns. Eram algo no meio do caminho, distorcido, errado. Meu coração disparou. A cicatriz queimou. — Instinto. — Ronan disse apenas isso. O primeiro deles saltou. O bastão girou nas minhas mãos antes mesmo que eu pensasse. O impacto fez a criatura recuar com um grito agudo. Outro veio por trás. Girei, bloqueei, o choque sacudiu meus ossos. Um grito escapou da minha garganta, selvagem, que não parecia meu. O bastão bateu com força, arremessando o inimigo contra uma árvore. O estalo seco do impacto ecoou. Ronan gritou uma ordem curta: — Mais baixo! — e eu obedeci sem pensar, desviando por centímetros de uma garra que teria rasgado meu ombro. Dorian atravessava a clareira como sombra, lâmina em punho, cada movimento dele rápido demais para acompanhar. Eu não era como eles, mas, pela primeira vez, meu corpo parecia falar a mesma língua. Caelan gargalhou. — Isso! Mostra quem manda, estrelinha! Respirei ofegante. As criaturas recuavam, mas seus olhos continuavam brilhando. Então, um uivo longo cortou a floresta. Não era aviso. Era chamado. O silêncio caiu como faca. Até o vento pareceu parar. Ronan e Dorian se entreolharam. Caelan apenas sorriu, sombrio, como se já soubesse que aquilo viria. — Não estamos sozinhos. — Dorian disse, voz baixa. E eu soube: o que tínhamos enfrentado era só o começo. As sombras começaram a recuar, como se algo as tivesse chamado de volta. Então, o uivo longo cortou a floresta. O som atravessou a pele e entrou na cicatriz, queimando por dentro. As árvores estremeceram, pássaros voaram em desespero, e até a floresta pareceu se curvar. Eu tapei os ouvidos, mas não adiantou: o uivo estava dentro de mim. E a parte mais assustadora era que… eu queria responder.(POV — A Lua) Faz tanto tempo que nem o tempo se lembra. Antes dos nomes, antes das espadas, antes dos lobos… eu já vigiava o mundo. Sou o espelho do que nasce e o túmulo do que morre. Sou o que resta quando até o amor se cala. E ainda assim, mesmo entre as ruínas, há um som que me desperta: o eco dos corações que não desistiram de uivar. Durante séculos, observei homens se destruírem em nome da luz. Vi cidades erguidas sobre ossos, reinos queimados por orgulho, deuses inventados e depois esquecidos. Mas nunca — nunca — vi alguém me olhar com tanta coragem quanto ela. Selene. Minha filha sem prece, minha bênção e minha ferida. Nascida da carne e da estrela, feita de um sopro que nem eu planejei. Enquanto outros me adoravam em silêncio, ela ousou me questionar. Enquanto outros se ajoelhavam, ela se ergueu. E é por isso que a observei com tanta ternura e temor. Lembro-me do dia em que seu selo despertou pela primeira vez. A terra se curvou, o mar recuou,
(POV Selene)O silêncio que veio depois da batalha não parecia paz.Era o tipo de silêncio que nasce quando o mundo fica sem forças pra continuar gritando.Nem o vento ousava se mover direito — ele apenas roçava as folhas queimadas, carregando o cheiro espesso de ferro e fumaça.A Lua havia se recolhido.O Eclipse se dissipara.Mas o céu ainda sangrava, manchado de vermelho nas bordas, como uma ferida que se recusa a cicatrizar.Eu me movia devagar entre corpos e brasas.A cada passo, o selo pulsava — não de poder, mas de luto.Cada vida perdida queimava dentro dele como uma lembrança gravada a fogo.Os Exilados tinham vencido, mas vitória nenhuma vem sem preço.Dorian estava a poucos metros, o ombro envolto em faixas e o rosto coberto de fuligem.Mesmo ferido, ainda mantinha o olhar de quem carrega um exército inteiro nas costas.Quando me viu, apenas assentiu.Não precisávamos de palavras — o peso era o mesmo em nós dois.Ronan caminhava atrás, arrastando o corpo de um caçador até a
(POV Dorian Hale)O som da guerra já não era som — era respiração.Um coração coletivo batendo junto ao chão, feito de gritos, uivos e aço.O Eclipse cobria tudo, e a luz vermelha fazia o sangue brilhar como metal vivo.A montanha tremia, e a fenda dos Exilados já não parecia abrigo — era o centro de um mundo em ruína.Eu via tudo.Cada golpe, cada perda, cada lobo caído.E, entre eles, Selene — a Lua encarnada, caminhando entre chamas e sombras.Ronan estava de joelhos, exausto, a lança cravada no solo.Elias lutava à distância, a flecha sempre no ponto onde o selo dela pulsava.Caelan movia-se nas sombras como um demônio da noite.E eu…Eu era o Alfa.E o Alfa não podia cair.— Mantenham a linha! — gritei. — Protejam o flanco!Os lobos responderam, uivos se misturando a ordens.Mas os caçadores vinham em ondas — intermináveis, implacáveis, com os olhos cheios de fé cega.Eles não vinham por glória.Vinham por purificação.E nada é mais perigoso do que um homem que acredita ser santo
(POV Ronan Blackwood)O vento do Norte tem um som próprio.Não é brisa, é lâmina.Corta o ar, arranca o calor e deixa só o instinto — o mesmo que sempre me guiou.Quando o Eclipse caiu sobre o campo, eu soube que a hora tinha chegado.O sangue congelava nas veias, mas a alma queimava.Anos de fuga, de exílio, de promessas sussurradas às estrelas — tudo convergia ali.A Lua chamava, e eu a ouvi.Dorian ainda gritava ordens atrás de mim.Selene brilhava no centro do caos, viva como um cometa.Elias, o caçador amaldiçoado, lutava contra os próprios demônios.Mas eu…eu só via os homens com o símbolo da Ordem avançando sobre os lobos do Norte.Homens que usavam o mesmo brasão dos que mataram meu pai, queimaram minha aldeia e chamaram o meu povo de feras.Pisei no chão encharcado de sangue e ergui a lança.O metal vibrava com o toque da Lua — uma arma feita para um só propósito: vingar.— Pelo Norte! — rugi.A voz ecoou pelas montanhas, seguida de um uivo coletivo.Meus irmãos responderam.
(POV Elias Drave)O céu não era mais azul.Era um abismo vermelho, e nele o sol morria devagar, engolido pela Lua.O Eclipse havia começado, e com ele, o fim daquilo que eu acreditava ser verdade.O campo de batalha era um pesadelo vivo.Corpos caíam, lobos e caçadores se misturavam, sangue virava barro.Mas eu não via nada disso com clareza.Tudo o que via era ela —Selene, no centro do caos, envolta em luz e sombra, lutando como se a Lua tivesse tomado forma de carne.Por um instante, lembrei de quando recebi minha primeira missão na Ordem.Eu era só um garoto.O mestre me disse: “O sangue da Lua é praga. Se o encontrares, destrói.”E por anos, obedeci.Matei sem questionar, acreditei que limpava o mundo.Mas agora, vendo-a ali — viva, divina e terrível —, percebi a ironia.Eu havia sido criado para destruir o que agora me mantinha vivo.O selo no meu peito pulsava no mesmo ritmo que o dela, mesmo à distância.Quando ela respirava, eu sentia.Quando sangrava, o gosto do sangue ardia
(POV Selene)O amanhecer veio tingido de vermelho.Não o vermelho do sol, mas o da Lua, que ainda teimava em permanecer no céu, pálida e ferida.Ela chorava — e suas lágrimas caíam em forma de neve.O frio era cortante, seco, o tipo de frio que cheira a sangue e ferro.Quando saí da tenda, o acampamento já estava desperto.Lobos corriam entre fogueiras acesas, afiando lâminas, distribuindo armas, preparando o que sabiam que viria.Ninguém precisava de palavras.A guerra estava no ar, e a Lua tinha chamado todos nós pelo nome.Dorian estava na linha da frente, os cabelos presos, a armadura leve sobre o corpo.Os olhos azuis dele brilhavam com uma mistura de determinação e exaustão.Quando me viu, apenas assentiu — como se dissesse: é hoje.E era.Ronan, de torso nu e pele marcada por cicatrizes, organizava grupos de ataque.A cada ordem dada, o lobo rugia sob a pele.A fúria do Norte parecia viva de novo, e as chamas da forja refletiam nos olhos dourados dele.Caelan permanecia mais af







