FAZER LOGINEduardo
“Maldição.” Já são 17h! Hoje é noite de lua cheia e, mais uma vez, dirijo pela estrada escura em direção à Cabana da Serra Negra. Preciso soltar a fera dentro de mim antes que ela me devore por dentro. Sinceramente, não sei como os outros membros da matilha conseguem suportar essas noites sem enlouquecer. O luar queima minha pele como ácido, e o rugido dentro do peito ameaça romper minha caixa torácica a cada segundo. A Cabana da Serra Negra fica isolada, no alto da mata fechada, longe de Vila Formosa e de olhos curiosos. Enquanto o jipe sacoleja na estrada de terra, minha mente não para. Dentro de duas semanas estarei casado com Paula. Ela é linda, é submissa e apaixonada. Tudo o que um alfa deveria desejar. Os curandeiros da matilha garantem que seu corpo está pronto para gerar meu herdeiro. Ainda assim, não sinto nada. Nenhum calor. Nenhuma vontade real. Apenas um vazio frio. — Porra… — resmungo, apertando o volante. A única pessoa que ainda consegue me tirar do meu próprio inferno é minha tia Ruth. Ontem, quando conversamos, ela não teve papas na língua: — É claro que você não a ama, Eduardo. Paula não é pra você. — Tia, já vai começar? — Filho, você sabe que é verdade. Ela pode ser obediente, pode ser bonita, mas não é a sua Luna. Eu rosnei, o som saindo mais animal do que humano. — Paula é minha noiva. Prometi à minha mãe antes dela morrer. A matilha precisa de uma ômega, e ela vai cumprir esse papel. Tia Ruth me olhou com aquela tristeza antiga nos olhos. — Seu tio Arkady e eu éramos almas gêmeas. No instante em que ele entrou naquele salão, eu senti. A conexão. Quando ele se foi, há três anos, precisei de semanas de rituais para minha fera não enlouquecer. Você sabe disso. Se não encontrar sua verdadeira Luna, a fera vai te consumir, Eduardo. Devagar. Até não sobrar nada do homem que você é. Eu não respondi. Não queria admitir que algo dentro de mim já estava rachando. Sempre considerei a história da predestinada como lenda antiga, algo que os mais velhos contavam para manter as tradições. Mas agora… as dúvidas me corroíam. A matilha precisava de estabilidade. Eu precisava cumprir minha obrigação. Foi quando desviei da estrada principal para o caminho de terra que tudo mudou. Um grito cortou a noite. Desesperado, feminino e cheio de dor. Meu corpo reagiu antes da mente. Um cheiro doce, misturado a sangue fresco, invadiu minhas narinas. Meu coração disparou. Uma dor aguda, que não era minha, atravessou meu peito como uma lâmina. Minhas garras cresceram, rasgando o couro do volante. A visão ficou avermelhada. — Ela… — sussurrou a fera dentro de mim. Saí do jipe quase tropeçando. Não havia tempo para tirar a roupa. Os ossos estalaram, a mandíbula se alongou, os dentes cresceram. A transformação foi violenta, urgente. O Lycan assumiu o controle total. “Minha. Ela é minha. Está me chamando.” Corri mata adentro, rasgando arbustos e espinhos com o pelo negro e denso. O som de um córrego ficava mais forte. Os gritos e o cheiro também. Mais próximos, porém mais fracos. E então eu a vi. Uma jovem estava caída perto da margem, as roupas rasgadas semi nua, ela era linda mas estava tão machucada e com o corpo totalmente sujo de terra e sangue. O pescoço tinha um corte profundo, quase fatal. Sangue escorria devagar. Seus olhos, ainda abertos, estavam vidrados de terror e dor. No instante em que a tomei nos braços, ela perdeu os sentidos completamente. Meu rugido explodiu. Foi tão poderoso que as árvores tremeram e os animais da mata silenciaram. A fera dentro de mim enlouqueceu: “Minha Luna! Minha não!” Eu a apertei contra o peito, sentindo o cheiro dela invadir cada célula do meu corpo. Doce. Puro. Mesmo ferida, mesmo quebrada, o aroma dela acalmava e incendiava minha fera ao mesmo tempo. Meu focinho roçou de leve em seu cabelo, inalando mais fundo. Ela havia sido violentada. Brutalmente violada. A raiva quase me cegou. Quem quer que tivesse feito aquilo iria pagar com a vida. Devagar. Em pedaços. Mas havia algo mais. Uma conexão que ia além do instinto animal. Era como se uma corrente invisível tivesse se prendido ao meu peito, ligando meu coração ao dela. Pela primeira vez na vida, a fera e o homem concordavam em uma única verdade absoluta. Ela era a minha predestinada. A minha Luna. E mesmo sabendo que ela carregava as marcas de outro homem. Justamente o que nossa maldição mais condenava —, eu não conseguia soltá-la. Não queria. Com cuidado, quase reverente, lambi o corte em seu pescoço, usando a saliva Lycan para estancar o sangramento e iniciar a cicatrização. Depois a ergui nos braços e corri de volta, mas dessa vez para a cabana. Enquanto a lua cheia iluminava meu caminho, uma certeza sombria se instalou em mim: Depois desta noite, nada mais seria como antes. Nem meu noivado com Paula. Nem as leis ancestrais da minha matilha. Nem eu mesmo. Porque agora eu havia encontrado o que nunca acreditei que existia. E eu mataria, ou morreria. Para protegê-la.Narrado por MelissaEu caminhava ao lado de Eduardo pelo longo corredor que levava do quartinho dos fundos até a sala de jantar. Até aquele momento, eu só havia visto a mansão por fora, quando ele me trouxe quase inconsciente. Agora, com os olhos abertos, percebia o esplendor do lugar. Paredes altas, lustres de cristal, tapetes macios e janelas enormes que deixavam a luz da manhã invadir tudo. Eduardo realmente era um homem muito rico. E, de certa forma, generoso. Se não fosse por ele, eu provavelmente estaria morta depois do ataque de Valdir.Isso era mais um motivo para tentar manter o máximo de distância dele. Eduardo pertencia a um mundo totalmente diferente do meu. E o pior: ele era noivo. Mesmo sabendo disso, meu corpo me traía. Sempre que ficava perto dele, eu tremia. O coração acelerava. Havia uma inquietude estranha no meu íntimo, algo que eu não conseguia explicar. Depois de todas as revelações — a visão com Selene, a marca na nuca, o laço que me puxava para ele — eu tinha c
Anastácia Aproximei-me e toquei o rosto dela. Meus olhos mudaram por um instante — o dourado surgiu sem que minha Lycan precisasse se manifestar por completo — e, por um segundo, vi o que ela realmente era. Não uma humana comum que o destino havia ligado a meu sobrinho. Algo muito maior.— Você é real… — murmurei. — É incrível.Eduardo me observava com atenção. Eu sorri para a garota, tentando transmitir calma.— Não precisa ter medo, querida. Nós vamos cuidar de você.Mas por dentro, meu coração batia forte. Eu não estava preparada para tamanha surpresa.Horas depois…O café da manhã foi uma tortura disfarçada de civilidade. Paula e Eloisa desceram as escadas com aquele olhar de falsa bondade que jamais me convenceu. Sorrisos doces, palavras doces, veneno por baixo. Melissa caminhava ao nosso lado, ainda mal arrumada no vestido folgado, os ombros encolhidos, o olhar baixo. Parecia uma presa no meio de predadoras. E, de certa forma, era exatamente isso — pelo menos até ela descobrir
AnastáciaEu sempre carreguei o peso de ter criado Eduardo sozinha. Desde o dia em que o carro dos meus irmãos despencou daquele despenhadeiro, eu fui a única família que restou para o menino. Matheus Falcão nunca bebia quando dirigia. Ele e a esposa eram cuidadosos demais. A forma como o veículo perdeu o controle sempre me pareceu estranha. Não houve provas, claro. Nunca há. Mas eu, no fundo, nunca aceitei que tenha sido apenas um acidente.Hoje, descendo o corredor da mansão ao lado do meu sobrinho, eu estava duas vezes mais feliz. Afinal, me orgulhava de ver que o criei bem e que aquele menino se tornara um homem digno de ser um Alfa. Pela primeira vez em anos, eu sentia um alívio verdadeiro no peito.Quando cheguei da viagem, Eduardo me recebeu na sala com a incrível notícia de que finalmente havia encontrado sua predestinada. Que, enfim, acreditava no que eu sempre lhe falara sobre laços espirituais.Ainda assim, aquilo me parecia tão surreal que, antes de subirmos as escadas que
Narrado por Melissa Depois que tia Anastácia e Eduardo saíram do quarto, minha mente não parava de fervilhar. Não entendia por que confiei nela. Era como se algo dentro de mim reconhecesse aquela mulher — a tia dele — e, de certa forma, até a ele. Eduardo prometeu procurar o meu livro. E eu precisava dele. Precisava entender qual era o verdadeiro objetivo da minha mãe naquela noite. Ela havia insistido tanto. “Precisamos ir para a floresta, Melissa. A Mata Atlântica da Serra do Mar. Lá o chamado é mais forte.” Uma floresta densa, úmida, cheia de sombras e segredos. Eu ainda lembrava da conversa que tivemos horas antes de Valdir nos encontrar. — Mãe, por que precisamos ir para lá? — eu perguntara, enquanto empacotávamos o pouco que tínhamos. — O importante agora é fugir dele. Minha mãe parou de dobrar o pano que envolvia o grimório e me olhou com aqueles olhos cansados, mas firmes. — Porque o livro só revela o resto perto da água sagrada, filha. As porções e os chás que você a
Narrado por EduardoTínhamos acabado de sair do quartinho de Melissa. Minha tia Anastácia ainda carregava aquela expressão maravilhada no rosto. Eu ia perguntar o que exatamente havia acontecido no momento em que ela viu Melissa, pois senti claramente a Lycan interna dela ronronar e se curvar em respeito. Queria entender o porquê.Foi então que Paula apareceu no corredor, caminhando em nossa direção. Assim que nos viu, forçou um sorriso, mas seus olhos azuis endureceram ao notar a presença da tia.— Tia Anastácia, que surpresa boa! Fazia dias que a senhora não vinha nos visitar.Tia Anastácia, que nunca teve papas na língua, respondeu com um sorriso fino:— Bom, não tinha grandes motivos para vir. Agora tenho. Melissa é um deles.Percebi Paula murchar o sorriso imediatamente. A raiva cruzou seu rosto por um segundo antes de ela recolocá-lo no lugar, como uma máscara bem treinada.— Bem, era justamente sobre ela que eu queria falar com você, Eduardo.— Sobre Melissa? — perguntei, já se
Narrado por EloisaLEMBRANÇAS DE DOIS DIAS ATRÁS…“Finalmente Paula vai se casar com Eduardo Falcão, o melhor partido de São Paulo. Herdeiro de um império de calçados de luxo, Alfa poderoso e, o mais importante, rico o suficiente para nos tirar dessa vida medíocre para sempre.” PenseiEu preparei minha filha para isso desde o dia em que ela nasceu. Sempre soube que ela seria minha mina de ouro. Linda, olhos azuis penetrantes, pele clara e corpo que chama atenção desde cedo. Embora tal beleza, quase a colocou em uma fria quando se apaixonou por aquele pobretão anos atrás. Eu e o pai dela tivemos que agir rápido para evitar o desastre. Mesmo ela tendo cometido a burrice de transar com ele, conseguimos manter as aparências. Eduardo ainda acredita que minha filha é pura, intocada. Para os Lycans, da nossa espécie, só uma mulher virgem pode se unir a um Alfa de verdade durante o ritual de marcação. E eu não vou deixar que nada estrague esse plano.Estava sorrindo enquanto organizava os con







