INICIAR SESIÓNMelissa
Três anos depois... Ouvi um barulho lá fora e fiquei sobressaltada, o coração martelando contra as costelas como se quisesse escapar. Qualquer ruído — o vento uivando entre as frestas, um rato raspando o chão — fazia meu corpo inteiro se contrair de terror. Olhei ao redor do cubículo imundo daquele hotel barato e engoli o choro que subia pela garganta. Meu Deus, me ajuda... só mais uma vez. Paz era um sonho distante. Eu vivia fugindo. Sempre me escondendo. E o pior: nem nos sonhos eu encontrava refúgio. Ultimamente, eles vinham cada vez mais intensos. Uma fera colossal, de pelos negros como a noite e olhos dourados brilhando como a lua cheia, me perseguia pela floresta. Seus rugidos ecoavam nos ossos. Ele se aproximava... e, no fundo do peito, uma parte traidora de mim *queria* ser alcançada. Queria sentir aquelas garras e aquele calor selvagem sobre a pele. “Estou enlouquecendo.” Levantei-me com dificuldade, lavei o rosto na pia enferrujada e arrumei minhas poucas coisas. Antes de guardar a mochila, peguei o livro antigo que minha mãe me deixou. Enrolado em um pano surrado, ele parecia vibrar em minhas mãos. Passei os dedos pela capa gasta e um calor estranho subiu pelo meu braço, como se algo vivo despertasse dentro de mim. Ao abri-lo, símbolos antigos e palavras que eu mal compreendia me envolveram. Uma força quente, protetora e ancestral me preencheu — um abraço invisível que sussurrava: *você não está sozinha*. Lágrimas quentes escorreram pelo meu rosto. Dessa vez, não eram só de desespero. Guardei o livro com reverência, junto com a foto desgastada da minha mãe e a carta com o endereço misterioso. Era minha única pista. Minha única esperança. Paguei o quarto com as últimas notas e saí. Os olhares em Serra Negra estavam piores que o normal. O dono do hotel, um homem nojento de olhos fundos, me mediu de cima a baixo com um sorriso sujo: — Vai pra Vila Formosa, moça. Cidade dos calçados. Uma beleza como você não vai passar despercebida por lá... O jeito como seus olhos rastejaram pelo meu corpo me deu náusea. Lembrou-me *dele*. Saí quase correndo, sentindo aquele olhar lascivo grudado nas minhas costas. A viagem de ônibus foi um inferno: estrada ruim, pneu furado, horas de atraso. Quando desci na estrada de terra que levava a Vila Formosa, o céu já estava escuro. Foi então que vi o carro preto parado mais adiante. Meu sangue gelou. “Ele me achou!” Corri mata adentro sem pensar. Galhos cortavam minha pele, o coração explodindo no peito. A voz dele rasgou a escuridão, cheia de ódio puro: — Volta aqui, sua maldita bruxa! Melissa sua vadiazinha me devolve o que roubou de mim e volta para casa e não terá consequências! — Nunca! Eu não vou voltar! — Você é uma bruxa! Igual à sua mãe! Eu matei ela... e agora vou terminar o que comecei e ter o que realmente quero! As palavras me acertaram como facadas. “Bruxa.A mesma acusação que perseguiu minha mãe a vida toda. O que ele tinha visto? O que ela realmente era? Mãos brutais me agarraram por trás. Dor lancinante. Um grito preso na garganta. Depois, só escuridão… Acordei agora devagar, como se emergisse de um poço negro e gelado. O cheiro foi a primeira coisa que me atingiu: madeira limpa, lençóis frescos e um perfume masculino forte, marcante, *dominante*. Não estava mais deitada na terra úmida da floresta. Abri os olhos. Teto de madeira rústica. Uma cabana aconchegante, mas simples. Tentei me mover e um gemido rouco escapou. Meu pescoço ardia. A dor entre as pernas era um lembrete cruel do que aquele monstro tinha feito antes daquela coisa ou melhor daquela fera aparecer. As imagens voltaram em flashes violentos: a criatura enorme, pelos negros brilhando sob o luar, olhos dourados ferozes. Ela me pegou no colo com uma delicadeza impossível. Depois, o calor úmido de uma língua lambendo minhas feridas. O rugido grave que, estranhamente, acalmou o pânico dentro de mim. E agora... aqui. O cheiro masculino estava por toda parte. Forte. Intenso. E, para meu completo desespero, ele não me causava repulsa — pelo contrário, acalmava algo selvagem e adormecido dentro de mim. Tentei me levantar. Minhas pernas falharam. A mochila... onde estava minha mochila? O livro! O da minha mãe! “Ele roubou…” O pânico me sufocou. Sem aquele livro, eu perdia minha última conexão com ela. Com as respostas. Foi quando ouvi os passos. Firmes. Pesados. Deliberados. Aproximando-se da porta. Meu corpo inteiro travou. O coração disparou tão forte que achei que fosse explodir. Tentei me mover, mas a dor e o medo me prenderam à cama. A maçaneta girou devagar. A porta se abriu com um rangido baixo. E então eu o vi. Alto, imponente, com os olhos dourados mais intensos que eu já tinha visto na vida — Ele me encarou com uma mistura de fome, possessividade e algo muito mais perigoso. E, pela primeira algo dentro de mim confirmou: Era ele o homem que aparecia todas as noites em meus sonhos…Narrado por MelissaEu caminhava ao lado de Eduardo pelo longo corredor que levava do quartinho dos fundos até a sala de jantar. Até aquele momento, eu só havia visto a mansão por fora, quando ele me trouxe quase inconsciente. Agora, com os olhos abertos, percebia o esplendor do lugar. Paredes altas, lustres de cristal, tapetes macios e janelas enormes que deixavam a luz da manhã invadir tudo. Eduardo realmente era um homem muito rico. E, de certa forma, generoso. Se não fosse por ele, eu provavelmente estaria morta depois do ataque de Valdir.Isso era mais um motivo para tentar manter o máximo de distância dele. Eduardo pertencia a um mundo totalmente diferente do meu. E o pior: ele era noivo. Mesmo sabendo disso, meu corpo me traía. Sempre que ficava perto dele, eu tremia. O coração acelerava. Havia uma inquietude estranha no meu íntimo, algo que eu não conseguia explicar. Depois de todas as revelações — a visão com Selene, a marca na nuca, o laço que me puxava para ele — eu tinha c
Anastácia Aproximei-me e toquei o rosto dela. Meus olhos mudaram por um instante — o dourado surgiu sem que minha Lycan precisasse se manifestar por completo — e, por um segundo, vi o que ela realmente era. Não uma humana comum que o destino havia ligado a meu sobrinho. Algo muito maior.— Você é real… — murmurei. — É incrível.Eduardo me observava com atenção. Eu sorri para a garota, tentando transmitir calma.— Não precisa ter medo, querida. Nós vamos cuidar de você.Mas por dentro, meu coração batia forte. Eu não estava preparada para tamanha surpresa.Horas depois…O café da manhã foi uma tortura disfarçada de civilidade. Paula e Eloisa desceram as escadas com aquele olhar de falsa bondade que jamais me convenceu. Sorrisos doces, palavras doces, veneno por baixo. Melissa caminhava ao nosso lado, ainda mal arrumada no vestido folgado, os ombros encolhidos, o olhar baixo. Parecia uma presa no meio de predadoras. E, de certa forma, era exatamente isso — pelo menos até ela descobrir
AnastáciaEu sempre carreguei o peso de ter criado Eduardo sozinha. Desde o dia em que o carro dos meus irmãos despencou daquele despenhadeiro, eu fui a única família que restou para o menino. Matheus Falcão nunca bebia quando dirigia. Ele e a esposa eram cuidadosos demais. A forma como o veículo perdeu o controle sempre me pareceu estranha. Não houve provas, claro. Nunca há. Mas eu, no fundo, nunca aceitei que tenha sido apenas um acidente.Hoje, descendo o corredor da mansão ao lado do meu sobrinho, eu estava duas vezes mais feliz. Afinal, me orgulhava de ver que o criei bem e que aquele menino se tornara um homem digno de ser um Alfa. Pela primeira vez em anos, eu sentia um alívio verdadeiro no peito.Quando cheguei da viagem, Eduardo me recebeu na sala com a incrível notícia de que finalmente havia encontrado sua predestinada. Que, enfim, acreditava no que eu sempre lhe falara sobre laços espirituais.Ainda assim, aquilo me parecia tão surreal que, antes de subirmos as escadas que
Narrado por Melissa Depois que tia Anastácia e Eduardo saíram do quarto, minha mente não parava de fervilhar. Não entendia por que confiei nela. Era como se algo dentro de mim reconhecesse aquela mulher — a tia dele — e, de certa forma, até a ele. Eduardo prometeu procurar o meu livro. E eu precisava dele. Precisava entender qual era o verdadeiro objetivo da minha mãe naquela noite. Ela havia insistido tanto. “Precisamos ir para a floresta, Melissa. A Mata Atlântica da Serra do Mar. Lá o chamado é mais forte.” Uma floresta densa, úmida, cheia de sombras e segredos. Eu ainda lembrava da conversa que tivemos horas antes de Valdir nos encontrar. — Mãe, por que precisamos ir para lá? — eu perguntara, enquanto empacotávamos o pouco que tínhamos. — O importante agora é fugir dele. Minha mãe parou de dobrar o pano que envolvia o grimório e me olhou com aqueles olhos cansados, mas firmes. — Porque o livro só revela o resto perto da água sagrada, filha. As porções e os chás que você a
Narrado por EduardoTínhamos acabado de sair do quartinho de Melissa. Minha tia Anastácia ainda carregava aquela expressão maravilhada no rosto. Eu ia perguntar o que exatamente havia acontecido no momento em que ela viu Melissa, pois senti claramente a Lycan interna dela ronronar e se curvar em respeito. Queria entender o porquê.Foi então que Paula apareceu no corredor, caminhando em nossa direção. Assim que nos viu, forçou um sorriso, mas seus olhos azuis endureceram ao notar a presença da tia.— Tia Anastácia, que surpresa boa! Fazia dias que a senhora não vinha nos visitar.Tia Anastácia, que nunca teve papas na língua, respondeu com um sorriso fino:— Bom, não tinha grandes motivos para vir. Agora tenho. Melissa é um deles.Percebi Paula murchar o sorriso imediatamente. A raiva cruzou seu rosto por um segundo antes de ela recolocá-lo no lugar, como uma máscara bem treinada.— Bem, era justamente sobre ela que eu queria falar com você, Eduardo.— Sobre Melissa? — perguntei, já se
Narrado por EloisaLEMBRANÇAS DE DOIS DIAS ATRÁS…“Finalmente Paula vai se casar com Eduardo Falcão, o melhor partido de São Paulo. Herdeiro de um império de calçados de luxo, Alfa poderoso e, o mais importante, rico o suficiente para nos tirar dessa vida medíocre para sempre.” PenseiEu preparei minha filha para isso desde o dia em que ela nasceu. Sempre soube que ela seria minha mina de ouro. Linda, olhos azuis penetrantes, pele clara e corpo que chama atenção desde cedo. Embora tal beleza, quase a colocou em uma fria quando se apaixonou por aquele pobretão anos atrás. Eu e o pai dela tivemos que agir rápido para evitar o desastre. Mesmo ela tendo cometido a burrice de transar com ele, conseguimos manter as aparências. Eduardo ainda acredita que minha filha é pura, intocada. Para os Lycans, da nossa espécie, só uma mulher virgem pode se unir a um Alfa de verdade durante o ritual de marcação. E eu não vou deixar que nada estrague esse plano.Estava sorrindo enquanto organizava os con







