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Capítulo 5

Author: Monalisa
last update publish date: 2026-07-23 13:35:12

POV Jenny

Eu ainda não tinha contado para a Elara que Kaellen tinha aparecido naquela noite. Nem que tinha me puxado para um beco. Muito menos que tinha tido a audácia de me beijar.

Conhecendo minha melhor amiga, ela provavelmente sairia atrás dele para jogar alguma magia na cara daquele idiota.

O problema era que Kaellen era um Alfa. E, por mais poderosa que Elara fosse, enfrentar um Alfa por minha causa poderia acabar sobrando para ela.

Eu jamais permitiria isso.

Infelizmente, manter segredo não significava conseguir esquecer.

Volta e meia eu me pegava pensando nele. Naqueles olhos castanhos intensos. No maxilar sempre travado. Na barba curta que só deixava o desgraçado mais bonito. Na forma como ele tinha me olhado naquela noite.

O que só me irritava ainda mais.

Porque eu não queria lembrar que Kaellen existia.

A última semana, pelo menos, tinha ajudado.

Entre o trabalho no Howling Moon, as aulas da faculdade e as provas finais, eu mal tinha tempo para pensar em qualquer outra coisa.

Quando percebi, já era sexta-feira.

Dia da minha última prova.

Eu estava desde cedo sentada na escrivaninha do quarto, cercada por folhas rabiscadas, uma calculadora, uma caneca de café que já fazia horas que tinha esfriado e uma infinidade de fórmulas que começavam a embaralhar na minha frente.

Franzi a testa mais uma vez para a folha.

— Isso não faz o menor sentido…

Peguei a calculadora.

Refiz a conta.

Cheguei exatamente na mesma resposta.

— Continua sem fazer sentido.

A porta do quarto se abriu sem nem o trabalho de bater.

Elara entrou bocejando, ainda de pijama, com o cabelo azul-escuro preso em um coque completamente bagunçado.

Ela parou no meio do quarto.

Olhou para as fórmulas espalhadas pela mesa.

Depois para mim.

Depois para as fórmulas outra vez.

Arqueou uma sobrancelha.

— Nossa…

Cruzei os braços.

— O quê?

Ela fez um gesto amplo para a escrivaninha.

— Depois dizem que sou eu que faço magia.

Não consegui segurar a risada.

A campainha da casa tocou.

Elara franziu a testa.

— Tá esperando alguém?

Balancei a cabeça.

— Não.

Levantei da cadeira e desci as escadas.

Assim que abri a porta, meu irmão abriu um sorriso.

— Bom dia, Jenny.

— Liam.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele olhou por cima do meu ombro.

Os olhos pararam em Elara.

Mais especificamente no cabelo azul-escuro dela.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Azul agora?

Elara apoiou um ombro no batente da porta.

— Tá com inveja?

Liam fez uma careta divertida.

— Não. Só tô tentando entender se você escolhe a cor no despertador ou gira uma roleta toda manhã.

Elara cruzou os braços.

— O importante é que continua melhor que essa sua cara.

Soltei uma risada.

Liam levou a mão ao peito, fingindo ofensa.

— Você é cruel.

Ela sorriu.

— Eu sei.

Ele voltou a olhar para mim.

— Ainda não entendo por que você insiste em andar com ela.

— Porque alguém precisa aguentar você.

Ele bufou.

— Ou talvez ela seja sáfica.

Elara revirou os olhos.

Antes que ela respondesse, fui mais rápida.

— Ela não é lésbica só porque não quer transar com você.

Por um segundo, fez-se silêncio.

Então Elara caiu na gargalhada.

Liam levou a mão ao peito outra vez.

— Essa doeu.

— Era pra doer.

Elara ainda ria quando deu um tapinha no meu ombro.

— Vou terminar de me arrumar. Tenta não matar seu irmão antes de eu voltar.

— Não prometo nada.

Ela passou por Liam.

— Tchau, futuro galã fracassado.

— Tchau, Smurf.

Ela ergueu o dedo do meio sem nem olhar para trás e subiu as escadas.

Assim que ela desapareceu no corredor, Liam voltou a atenção para mim.

Os olhos dele caíram sobre a mesa, onde minha mochila já estava aberta ao lado de alguns cadernos, da calculadora e das folhas da revisão.

— Então… última prova?

Fechei o zíper da mochila.

— Uhum.

Olhei para ele por cima do ombro.

— A que devo a honra da visita do futuro Alfa a essa hora da manhã?

Ele abriu um sorriso inocente demais.

— Tá com inveja?

Revirei os olhos.

— Da responsabilidade? Nem um pouco.

Ele riu.

— Não posso ter vindo desejar boa prova pra minha irmãzinha? Afinal, é a última prova do semestre, não é?

Ergui uma sobrancelha.

— Vai. Fala logo.

Ele soltou um suspiro.

— Tá bom.

Enfiou as mãos nos bolsos.

— O pai insistiu que eu viesse perguntar se você vai na cerimônia esse ano.

Meu sorriso diminuiu.

— Faz quatro anos que você aparece Jenny pergunta isso.

— Tenho mais do que motivos, né?

Ele assentiu em silêncio.

Resolvi mudar de assunto.

— E como anda o nosso querido Alfa Viúva Negra?

Liam soltou uma risada.

— Você sabe que um dia ele vai descobrir que a gente chama ele assim, né?

Dei de ombros.

Era um apelido horrível.

E completamente injusto.

Mas eu e Liam nunca conseguíamos resistir.

Tudo começou quando a mãe dele morreu. Papai jurou que jamais voltaria a se apaixonar.

Até conhecer a minha mãe.

A humana que conseguiu virar completamente a cabeça do poderoso Alfa Eirik Ashcroft.

E então ela também morreu.

Coincidência?

Provavelmente.

Mas, depois disso, qualquer mulher por quem ele demonstrasse o menor interesse parecia acabar tendo um fim trágico.

Foi assim que nasceu o apelido.

— Um dia ele descobre e mata nós dois.

Sorri.

— Você primeiro.

Liam revirou os olhos.

— Com certeza.

— Bom… diz pro Viúva Negra… quer dizer, pro papai… que esse ano eu vou.

Liam levantou uma sobrancelha, confuso.

— Sério?

Assenti.

— Consegui a bolsa pro mestrado no exterior. Então vai ser muito difícil eu voltar nos próximos dois anos. Acho que faz sentido me despedir da alcateia antes de passar um tempo tão longe.

Os olhos dele se arregalaram.

— Pela Deusa, Jenny!

Ele me puxou para um abraço apertado.

— Parabéns, sua fedida.

Bagunçou o topo da minha cabeça.

Caí na risada.

Quando ele finalmente me soltou, ainda estava sorrindo.

Pela primeira vez naquela manhã, senti que tinha feito alguma coisa certa.

— Era só isso?

Ele estreitou os olhos.

— Só isso.

Assenti.

— Ótimo.

Voltei a fechar a mochila.

Liam não se mexeu.

Continuou me encarando.

Um segundo.

Dois.

Então cruzou os braços.

— Genevieve Violet Ashcroft.

Suspirei.

— Tá…

Passei a mão na nuca.

— Eu não consigo esconder nada de você, né?

Ele sorriu de canto.

— Não.

Bufei.

— Você é um pé no saco.

Respirei fundo.

— O Kaellen apareceu no bar um dia desses.

O sorriso dele desapareceu na mesma hora.

— Aquele desgraçado fez o quê?

Meu primeiro impulso foi contar.

Contar que ele tinha me arrastado para um beco.

Que tinha me beijado à força.

Que eu tinha dado um tapa na cara dele.

Mas eu conhecia meu irmão.

Liam era impulsivo.

E Kaellen era o Alfa da alcateia principal.

A última coisa de que eu precisava era dos dois tentando se matar.

Balancei a cabeça.

— Nada.

Forcei um sorriso despreocupado.

— Acho que foi coincidência. Apareceram uns renegados na fronteira, então provavelmente ele só estava por perto por causa disso.

Liam continuou me observando, claramente desconfiado.

Antes que ele perguntasse outra coisa, completei:

— Mas sabe de uma coisa?

Ele esperou.

— Percebi que não sinto mais nada quando vejo o Kaellen.

As palavras saíram mais leves do que eu imaginava.

— Não dói. Não machuca.

Sorri de canto.

— Então não existe mais motivo pra eu deixar de ir à minha alcateia antes de passar um tempo tão longe.

Quatro anos depois, aquela decisão finalmente deixava de parecer um sacrifício.

Eu estava cansada. Exausta, na verdade. Exausta de deixar que as escolhas daquele imbecil continuassem ditando a minha vida.

Kaellen tinha escolhido me rejeitar.

E tudo bem.

Aquela decisão era dele.

Mas continuar permitindo que ela controlasse a minha vida…

Essa escolha sempre tinha sido minha.

E eu finalmente estava pronta para fazer uma diferente.

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