INICIAR SESIÓNPOV Jenny
Eu ainda não tinha contado para a Elara que Kaellen tinha aparecido naquela noite. Nem que tinha me puxado para um beco. Muito menos que tinha tido a audácia de me beijar. Conhecendo minha melhor amiga, ela provavelmente sairia atrás dele para jogar alguma magia na cara daquele idiota. O problema era que Kaellen era um Alfa. E, por mais poderosa que Elara fosse, enfrentar um Alfa por minha causa poderia acabar sobrando para ela. Eu jamais permitiria isso. Infelizmente, manter segredo não significava conseguir esquecer. Volta e meia eu me pegava pensando nele. Naqueles olhos castanhos intensos. No maxilar sempre travado. Na barba curta que só deixava o desgraçado mais bonito. Na forma como ele tinha me olhado naquela noite. O que só me irritava ainda mais. Porque eu não queria lembrar que Kaellen existia. A última semana, pelo menos, tinha ajudado. Entre o trabalho no Howling Moon, as aulas da faculdade e as provas finais, eu mal tinha tempo para pensar em qualquer outra coisa. Quando percebi, já era sexta-feira. Dia da minha última prova. Eu estava desde cedo sentada na escrivaninha do quarto, cercada por folhas rabiscadas, uma calculadora, uma caneca de café que já fazia horas que tinha esfriado e uma infinidade de fórmulas que começavam a embaralhar na minha frente. Franzi a testa mais uma vez para a folha. — Isso não faz o menor sentido… Peguei a calculadora. Refiz a conta. Cheguei exatamente na mesma resposta. — Continua sem fazer sentido. A porta do quarto se abriu sem nem o trabalho de bater. Elara entrou bocejando, ainda de pijama, com o cabelo azul-escuro preso em um coque completamente bagunçado. Ela parou no meio do quarto. Olhou para as fórmulas espalhadas pela mesa. Depois para mim. Depois para as fórmulas outra vez. Arqueou uma sobrancelha. — Nossa… Cruzei os braços. — O quê? Ela fez um gesto amplo para a escrivaninha. — Depois dizem que sou eu que faço magia. Não consegui segurar a risada. A campainha da casa tocou. Elara franziu a testa. — Tá esperando alguém? Balancei a cabeça. — Não. Levantei da cadeira e desci as escadas. Assim que abri a porta, meu irmão abriu um sorriso. — Bom dia, Jenny. — Liam. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele olhou por cima do meu ombro. Os olhos pararam em Elara. Mais especificamente no cabelo azul-escuro dela. Ele arqueou uma sobrancelha. — Azul agora? Elara apoiou um ombro no batente da porta. — Tá com inveja? Liam fez uma careta divertida. — Não. Só tô tentando entender se você escolhe a cor no despertador ou gira uma roleta toda manhã. Elara cruzou os braços. — O importante é que continua melhor que essa sua cara. Soltei uma risada. Liam levou a mão ao peito, fingindo ofensa. — Você é cruel. Ela sorriu. — Eu sei. Ele voltou a olhar para mim. — Ainda não entendo por que você insiste em andar com ela. — Porque alguém precisa aguentar você. Ele bufou. — Ou talvez ela seja sáfica. Elara revirou os olhos. Antes que ela respondesse, fui mais rápida. — Ela não é lésbica só porque não quer transar com você. Por um segundo, fez-se silêncio. Então Elara caiu na gargalhada. Liam levou a mão ao peito outra vez. — Essa doeu. — Era pra doer. Elara ainda ria quando deu um tapinha no meu ombro. — Vou terminar de me arrumar. Tenta não matar seu irmão antes de eu voltar. — Não prometo nada. Ela passou por Liam. — Tchau, futuro galã fracassado. — Tchau, Smurf. Ela ergueu o dedo do meio sem nem olhar para trás e subiu as escadas. Assim que ela desapareceu no corredor, Liam voltou a atenção para mim. Os olhos dele caíram sobre a mesa, onde minha mochila já estava aberta ao lado de alguns cadernos, da calculadora e das folhas da revisão. — Então… última prova? Fechei o zíper da mochila. — Uhum. Olhei para ele por cima do ombro. — A que devo a honra da visita do futuro Alfa a essa hora da manhã? Ele abriu um sorriso inocente demais. — Tá com inveja? Revirei os olhos. — Da responsabilidade? Nem um pouco. Ele riu. — Não posso ter vindo desejar boa prova pra minha irmãzinha? Afinal, é a última prova do semestre, não é? Ergui uma sobrancelha. — Vai. Fala logo. Ele soltou um suspiro. — Tá bom. Enfiou as mãos nos bolsos. — O pai insistiu que eu viesse perguntar se você vai na cerimônia esse ano. Meu sorriso diminuiu. — Faz quatro anos que você aparece Jenny pergunta isso. — Tenho mais do que motivos, né? Ele assentiu em silêncio. Resolvi mudar de assunto. — E como anda o nosso querido Alfa Viúva Negra? Liam soltou uma risada. — Você sabe que um dia ele vai descobrir que a gente chama ele assim, né? Dei de ombros. Era um apelido horrível. E completamente injusto. Mas eu e Liam nunca conseguíamos resistir. Tudo começou quando a mãe dele morreu. Papai jurou que jamais voltaria a se apaixonar. Até conhecer a minha mãe. A humana que conseguiu virar completamente a cabeça do poderoso Alfa Eirik Ashcroft. E então ela também morreu. Coincidência? Provavelmente. Mas, depois disso, qualquer mulher por quem ele demonstrasse o menor interesse parecia acabar tendo um fim trágico. Foi assim que nasceu o apelido. — Um dia ele descobre e mata nós dois. Sorri. — Você primeiro. Liam revirou os olhos. — Com certeza. — Bom… diz pro Viúva Negra… quer dizer, pro papai… que esse ano eu vou. Liam levantou uma sobrancelha, confuso. — Sério? Assenti. — Consegui a bolsa pro mestrado no exterior. Então vai ser muito difícil eu voltar nos próximos dois anos. Acho que faz sentido me despedir da alcateia antes de passar um tempo tão longe. Os olhos dele se arregalaram. — Pela Deusa, Jenny! Ele me puxou para um abraço apertado. — Parabéns, sua fedida. Bagunçou o topo da minha cabeça. Caí na risada. Quando ele finalmente me soltou, ainda estava sorrindo. Pela primeira vez naquela manhã, senti que tinha feito alguma coisa certa. — Era só isso? Ele estreitou os olhos. — Só isso. Assenti. — Ótimo. Voltei a fechar a mochila. Liam não se mexeu. Continuou me encarando. Um segundo. Dois. Então cruzou os braços. — Genevieve Violet Ashcroft. Suspirei. — Tá… Passei a mão na nuca. — Eu não consigo esconder nada de você, né? Ele sorriu de canto. — Não. Bufei. — Você é um pé no saco. Respirei fundo. — O Kaellen apareceu no bar um dia desses. O sorriso dele desapareceu na mesma hora. — Aquele desgraçado fez o quê? Meu primeiro impulso foi contar. Contar que ele tinha me arrastado para um beco. Que tinha me beijado à força. Que eu tinha dado um tapa na cara dele. Mas eu conhecia meu irmão. Liam era impulsivo. E Kaellen era o Alfa da alcateia principal. A última coisa de que eu precisava era dos dois tentando se matar. Balancei a cabeça. — Nada. Forcei um sorriso despreocupado. — Acho que foi coincidência. Apareceram uns renegados na fronteira, então provavelmente ele só estava por perto por causa disso. Liam continuou me observando, claramente desconfiado. Antes que ele perguntasse outra coisa, completei: — Mas sabe de uma coisa? Ele esperou. — Percebi que não sinto mais nada quando vejo o Kaellen. As palavras saíram mais leves do que eu imaginava. — Não dói. Não machuca. Sorri de canto. — Então não existe mais motivo pra eu deixar de ir à minha alcateia antes de passar um tempo tão longe. Quatro anos depois, aquela decisão finalmente deixava de parecer um sacrifício. Eu estava cansada. Exausta, na verdade. Exausta de deixar que as escolhas daquele imbecil continuassem ditando a minha vida. Kaellen tinha escolhido me rejeitar. E tudo bem. Aquela decisão era dele. Mas continuar permitindo que ela controlasse a minha vida… Essa escolha sempre tinha sido minha. E eu finalmente estava pronta para fazer uma diferente.POV Genevieve Nós nos beijamos por um longo tempo. Por alguns instantes, consegui esquecer tudo. A tempestade. A queda. Os caçadores. A dor espalhada pelo meu corpo. Esqueci até mesmo o lugar onde estávamos. Só existia Kaellen. O calor dos lábios dele contra os meus. A mão dele em meu rosto. E aquela sensação absurda de que, depois de tanto tempo, alguma coisa entre nós finalmente tinha deixado de parecer impossível. Mas precisei respirar. Afastei meus lábios dos dele devagar, ainda sentindo minha respiração descompassada. Pisquei algumas vezes. Meu coração continuava acelerado. Eu precisava organizar meus pensamentos. Porque ele estava aqui. Kaellen estava aqui. Ele tinha me encontrado no meio de uma tempestade. Tinha corrido um continente inteiro porque sentiu que eu estava em perigo. Tinha enfrentado dois caçadores. Tinha se ferido por mim. E tinha acabado de me beijar. Meu peito apertou. Ele tinha me escolhido. Pelo menos naquele momento. Mas então a rea
POV Emma A casa inteira parecia diferente naquela noite. Havia pessoas andando de um lado para o outro pelos corredores, portas abrindo e fechando, vozes baixas se misturando ao som da chuva forte que castigava as janelas. Genevieve ainda não havia voltado. E ninguém sabia onde ela estava. Permaneci perto da escadaria, observando a movimentação sem saber exatamente o que poderia fazer. Desde que eu tinha chegado àquela casa, Genevieve havia sido uma das primeiras pessoas a me tratar com verdadeira gentileza. Ela nunca me olhou como se eu fosse estranha. Nunca me fez sentir como se eu estivesse ocupando um espaço que não me pertencia. Por isso, desde que perceberam seu desaparecimento, uma preocupação constante permanecia dentro de mim. Eu só queria que ela estivesse bem. Foi quando vi Elara entrando na sala. Ela carregava algumas coisas nas mãos e caminhou diretamente até uma mesa, onde começou a organizar pequenos objetos. Aproximei-me. Sobre a superfície havia pedras,
Meu lobo rosnou tão alto dentro de mim que quase pareceu ecoar pela cabana. Não. Eles não chegariam perto dela. Não tocariam nela. Nem sequer olhariam para ela daquela maneira novamente. Alguma coisa dentro de mim simplesmente rompeu. Toda a dor desapareceu. O cansaço desapareceu. O sangue escorrendo pelo meu ombro deixou de importar. Só havia uma coisa na minha cabeça. Genevieve. O primeiro homem avançou. Eu o encontrei no meio do caminho. Meu punho atingiu sua mandíbula. Ele cambaleou. Agarrei seu braço e o arremessei contra a mesa. A madeira se partiu com o impacto. Ele caiu no chão. O segundo tentou pegar a arma novamente. Não deixei. Avancei contra ele e o atingi no peito. Ele foi jogado para trás. Tentou me acertar. Desviei. Outro golpe. Depois outro. Ele caiu de joelhos. Mas ainda tentou alcançar a arma. Agarrei sua nuca e o empurrei contra o chão. — Você não vai chegar perto dela. Minha voz saiu baixa. Perigosa. Ele tentou se levantar. Não deix
POV Kaellen Genevieve permanecia inconsciente em meus braços. Eu ainda conseguia sentir a conexão entre nós, fraca, mas presente. Meu lobo estava exausto depois de correr por uma distância que nenhum de nós deveria ter conseguido percorrer naquela velocidade, mas não me importava. Eu só precisava mantê-la aquecida. A chuva ainda caía sobre nós, embora tivesse diminuído um pouco. Foi então que encontrei a cabana. Era pequena, escondida entre as árvores, provavelmente usada por caçadores que passavam por aquela região. Não era o lugar ideal. Mas, naquele momento, seria suficiente. Entrei carregando Genevieve. Coloquei-a cuidadosamente sobre a pequena cama improvisada no canto da cabana e cobri seu corpo com algumas mantas que encontrei ali. Ela estava gelada. Passei a mão pelo rosto dela. — Você vai ficar bem. Minha voz saiu baixa. Aproximei-me da lareira e comecei a mexer nas brasas. Foi quando percebi. Ainda estavam quentes. Meu olhar percorreu o interior da cabana.
POV Genevieve A primeira coisa que senti foi o frio. Um frio profundo, que parecia ter se instalado dentro dos meus ossos. Depois veio a dor. Meu corpo inteiro doía, principalmente onde eu havia caído. Mas havia outra coisa. Um cheiro. Meu nariz se contraiu antes mesmo que eu conseguisse abrir os olhos. Sangue. O cheiro era forte. Fresco. Minha loba despertou dentro de mim imediatamente. Ela se agitou, alerta, fazendo meu coração acelerar. Havia outro cheiro misturado àquele. Caçadores. Meu corpo ficou tenso. Abri os olhos de uma vez. Por alguns segundos, não consegui entender onde estava. O teto de madeira acima de mim. O cheiro de fumaça. O fogo baixo em uma pequena lareira. Uma casa. Uma casa de caça. Meu coração disparou. Tentei me levantar, mas uma dor forte atravessou meu corpo e me fez recuar. — Ai… Levei a mão ao lado do corpo. Foi então que percebi alguém sentado próximo à lareira. Kaellen. Ele estava completamente nu, fazendo um curativo no própr
POV Kaellen A conexão me atingiu assim que entrei na floresta. Parei por um instante. Meu corpo inteiro ficou em alerta. Era ela. Eu conseguia sentir Genevieve. Não sabia exatamente onde estava, mas a presença dela estava ali, em algum lugar à minha frente. Meu lobo estava exausto. Ele havia corrido por praticamente um continente inteiro para alcançá-la, atravessando territórios e ignorando completamente o próprio cansaço. Mas, naquele momento, nada disso importava. Eu precisava encontrá-la. Continuei avançando pela floresta. A chuva havia diminuído, mas o chão estava completamente encharcado. A lama prendia meus pés a cada passo, e os galhos molhados batiam contra meu corpo enquanto eu seguia a conexão. Quanto mais avançava, mais forte ela ficava. E, junto dela, vinha aquela sensação de medo. Não era meu. Era dela. — Aguente mais um pouco, Genevieve. Minha voz saiu baixa. — Eu estou chegando. Continuei caminhando. Meu lobo tentava me puxar para frente mesmo quand







