LOGINPOV Kael
Continuei olhando para ela. Genevieve ria enquanto conversava com os clientes como se conhecesse cada um deles havia anos, como se aquele lugar fosse sua casa. Havia leveza em cada sorriso, em cada provocação e em cada gesto despreocupado. Era difícil acreditar que aquela mulher era a mesma garota que eu deixara para trás tantos anos antes. Meu lobo permanecia inquieto. Minha. Cerrei os dentes. Não. Ela não era. Não mais. Eu mesmo tinha destruído qualquer direito de pensar aquilo no dia em que a rejeitei. Desviei o olhar, tirei uma nota de cem da carteira e a deixei sobre o balcão. Nem esperei o troco. Precisava sair dali antes que fizesse alguma idiotice. Empurrei a porta do Howling Moon e o ar frio da noite atingiu meu rosto. Respirei fundo algumas vezes, tentando organizar os pensamentos e afastar o cheiro dela dos meus sentidos. Foi inútil. A fragrância de lírios brancos, pinho e terra molhada parecia ter se impregnado em mim. Comecei a caminhar em direção à pousada. Durante alguns segundos, meu lobo permaneceu em silêncio, mas bastou me afastar um pouco para que ele voltasse a se manifestar. Volta. Ignorei. Continuei andando. Volta. A ordem veio mais forte. Passei a mão pelo rosto. — Cala a boca. Ele respondeu com um rosnado irritado, como se eu estivesse lutando contra a própria natureza. Continuei caminhando. A pousada ficava a poucas quadras dali. Bastava seguir em frente, entrar no quarto e esquecer que aquela noite tinha acontecido. Era exatamente isso que eu deveria fazer. O vínculo havia sido rompido anos atrás. Eu mesmo o destruí. Genevieve aceitara minha rejeição. Ela não era mais minha companheira e nunca voltaria a ser. Então por que meu lobo insistia em agir como se nada daquilo importasse? Ela é nossa. Fechei os olhos por um instante. — Não. A resposta saiu baixa. — Ela foi. Meu lobo rugiu. Volta. Continuei andando. Dez passos. Vinte. Trinta. Mas minhas pernas começaram a perder o ritmo até simplesmente pararem. Soltei o ar devagar. Droga. Quando percebi, já estava voltando. Nem percebi em que momento tinha mudado de direção. Apenas dei por mim caminhando de volta até o Howling Moon, como se alguma força invisível conduzisse meus passos. Meu lado racional repetia que aquilo era uma péssima ideia. O lobo não parecia se importar. Parei do outro lado da rua e fiquei observando a fachada iluminada do bar. Cruzei os braços, dizendo a mim mesmo que iria embora dali em poucos minutos. Não fui. Os minutos passaram lentamente. O movimento começou a diminuir conforme os clientes deixavam o bar, um a um, enquanto a música ficava mais baixa e as luzes anunciavam que o fechamento se aproximava. Eu continuava ali. Esperando. Sem admitir nem para mim mesmo o que estava esperando. Até que, alguns minutos depois, a porta lateral se abriu. Genevieve apareceu carregando um saco de lixo apoiado contra o corpo. Meu coração acelerou sem que eu conseguisse impedir. Observei enquanto caminhava até a caçamba, completamente alheia à minha presença. Jogou o saco no lixo, limpou as mãos uma na outra e se virou para voltar. Foi nesse instante que perdi o controle. Nem pensei. Atravessei o beco em poucos passos, segurei seu pulso e a puxei para a sombra entre as paredes estreitas. Ela reagiu imediatamente. A mão começou a se transformar em garra enquanto girava para me atacar, mas parou a poucos centímetros do meu pescoço. Lírios brancos. Terra molhada. Exatamente como eu lembrava. Ela ergueu os olhos e, por um segundo, pareceu não acreditar no que via. — Kaellen… Ouvir meu nome na voz dela depois de tantos anos fez alguma coisa se partir dentro de mim. Eu deveria dizer alguma coisa. Pedir desculpas. Explicar. Qualquer coisa. Mas meu lobo rugia tão alto dentro de mim que nenhuma palavra conseguia atravessar minha garganta. Fiquei apenas olhando para ela, gravando cada detalhe do seu rosto, como se tentasse recuperar os anos que o tempo tinha levado. — Que merda você tá fazendo? Continuei em silêncio. Dei apenas mais um passo e segurei seu rosto entre as mãos. Meu lado racional gritava para que eu parasse. Meu lobo ignorou completamente. Minha boca encontrou a dela. Foi um beijo desesperado, possessivo e urgente. Como se todos aqueles anos de distância deixassem de existir naquele único instante. Como se bastasse tocá-la para que tudo voltasse ao lugar. Meu lobo explodiu dentro de mim. Minha. Esperei que ela correspondesse. Esperei sentir o vínculo despertar. Esperei qualquer reação. Mas ela não me beijou de volta. Permaneceu completamente imóvel, como se eu fosse um estranho. Como se aquele beijo não significasse absolutamente nada. Algo pesado se instalou no meu peito. Porque eu sabia exatamente o motivo. O vínculo tinha acabado. Eu o destruí no dia em que a rejeitei. Ela aceitara minha rejeição. Não existia mais nada entre nós. Ela me empurrou com força. Cambaleei um passo para trás e observei quando levou imediatamente a mão aos lábios. Esfregou a boca uma, duas, três vezes, como se tentasse apagar qualquer vestígio meu. Aquilo atingiu meu orgulho de um jeito que eu não esperava. — Você enlouqueceu?! Continuei olhando para ela, tentando entender por que aquilo doía tanto. Ela parecia enojada. Meu orgulho falou antes da razão. Soltei uma risada torta, sem qualquer traço de humor. — Engraçado… O que eu tenho que fazer pra você me chamar de “docinho” também? Ela não respondeu. A imagem dela segurando o rosto daquele homem no bar voltou imediatamente à minha cabeça. Ela sorria para ele, brincava com ele e tocava nele com uma naturalidade que me consumia por dentro. Inclinei levemente a cabeça, deixando um sorriso torto surgir no canto da boca. — Ou pra você se esfregar em mim do mesmo jeito que se esfrega naquele velho lá dentro? O tapa veio com tanta força que minha cabeça virou para o lado. Logo depois, senti o cuspe atingir meu rosto. — Fica longe de mim. Ela passou por mim sem olhar para trás. Fiquei parado no mesmo lugar, os punhos cerrados e a respiração pesada. Meu rosto ardia, mas não era por causa do tapa. Era porque ela tinha me olhado como se eu fosse um completo estranho. Passei a mão pelo rosto, limpando o cuspe, e soltei uma risada amarga antes de voltar a caminhar em direção à pousada. Meu lobo rosnava sem parar. Volta. Ignorei. Vai atrás dela. Continuei andando. Faz ela olhar para você. Cerrei os dentes. — Chega. Ele rugiu com ainda mais força. Coloca ela de joelhos. Faz ela se submeter. Mostra a quem ela pertence. Parei no meio da calçada e fechei os olhos por um instante. Aquelas palavras despertavam uma parte primitiva dentro de mim, a mesma que perdera completamente o controle ao vê-la sair pelos fundos do bar. Mas a razão falou mais alto. — Ela não pertence. Meu lobo respondeu com um rosnado ameaçador. Pertence. Balancei a cabeça. — Pertencia. A palavra saiu amarga. — Um dia. Antes de eu rejeitá-la. Antes de destruir o vínculo. Antes de fazê-la aceitar que nunca mais existiria um nós. Voltei a caminhar pelas ruas quase vazias, tentando ignorar a discussão que acontecia dentro da minha própria cabeça. Ela sorriu para outro. A imagem dela segurando o rosto daquele homem voltou imediatamente à minha mente. Ela tocou outro. Cerrei os punhos. Ela provocou outro. Meu maxilar travou. Ela sorria, brincava e tocava em todos com uma naturalidade que me consumia por dentro. Menos comigo. Para mim… Ela só guardava desprezo. Respirei fundo. — Eu perdi esse direito. Meu lobo rugiu outra vez. Você desistiu dela. Eu não. Continuei caminhando sem responder. Porque, por mais que eu odiasse admitir… Eu tinha sido quem a deixou partir. E meu lobo jamais me deixaria esquecer disso.POV Emma A primeira coisa que senti foi a dor. Quando minhas presas se cravaram no pescoço de Liam, meu corpo reagiu antes que eu pudesse compreender o que estava fazendo. Meu. A voz da minha loba ecoou na minha mente, carregada de uma certeza tão absoluta que me deixou atordoada. Meu companheiro. Meu Liam. Mas, por trás daquela euforia instintiva, havia outra parte de mim. A parte que ainda conseguia pensar. A parte que acabara de perceber o que eu tinha feito. Meu Deus. Eu tinha marcado Liam. E se ele não quisesse aquilo? E se eu tivesse estragado tudo? O pânico me atingiu com tanta força que me afastei, arfando, incapaz de compreender como minha loba podia estar tão feliz enquanto minha cabeça parecia prestes a explodir. Liam me olhou imediatamente. — Ei, querida. Olhe para mim. Eu não sabia o que dizer. Meu coração batia tão depressa que parecia querer escapar do peito. — Emma… Ele tocou meu rosto com delicadeza, acariciando minha bochecha. — Você não fez nada
POV Liam — Desculpa, querida. Eu sei, eu sei. Eu sabia que ela estava sentindo dor. Senti o corpo de Emma se encolher inteiro sob o meu, cada músculo ficando tenso de uma só vez. Então, antes que eu pudesse assimilar completamente sua reação, suas presas se cravaram no meu pescoço. Exatamente onde ficava a marca dos companheiros. Meu corpo inteiro estremeceu. Um choque atravessou meu peito, tão intenso que perdi o fôlego. A sensação percorreu minha coluna, alcançando cada terminação nervosa, como se um raio tivesse acabado de atingir meu corpo. Meu lobo rugiu dentro de mim. O vínculo explodiu em uma intensidade que eu nunca havia experimentado. Por um instante, não consegui distinguir onde terminava a minha própria consciência e começava a dele. Minha. A palavra ecoou na minha cabeça. Minha companheira. Minha Emma. O vínculo entre nós parecia pulsar sob a minha pele, vivo, poderoso, impossível de ignorar. E então ela se afastou. Abri os olhos e a encontrei arfando dian
POV Emma Liam começou a se erguer diante de mim, agigantando-se sobre meu corpo, e acompanhei o movimento com os olhos, sentindo meu coração acelerar ainda mais. — Você tem o gosto que eu achei que teria, querida. Meu rosto esquentou imediatamente. Eu queria responder alguma coisa, qualquer coisa, mas as palavras simplesmente desapareceram. Baixei os olhos por um instante, sentindo até as orelhas queimarem de vergonha. Liam sorriu. Quando voltei a olhar para ele, encontrei seus olhos azulados, quase violeta, brilhando de um jeito diferente. Ele passou a língua lentamente sobre os lábios, e meu coração deu uma batida descompassada. Liam ergueu a mão e afastou delicadamente alguns fios que haviam caído sobre meu rosto, acomodando-os atrás da minha orelha. Quando percebeu que eu continuava vermelha, soltou uma risadinha. — Você é linda, Emma. Engoli em seco, apertando os lábios na tentativa inútil de esconder meu sorriso tímido. Ele continuou sorrindo, acariciando meu rosto co
POV Dante Assim que cheguei ao território humano, peguei meu celular para avisar que estava ali. Foi quando percebi. Ela tinha bloqueado meu número. Fiquei encarando a tela por alguns segundos, esperando que aquilo fizesse algum sentido diferente se eu olhasse por mais tempo. Não fez. — Filha da… Interrompi o xingamento, passando a mão pelo rosto. Sério, Elara? Era isso que ela queria? Simplesmente me bloquear e fingir que eu não existia? Uma parte de mim queria ligar de outro número. Outra queria voltar para o território Lycan e fingir que aquela mulher não tinha conseguido entrar na minha cabeça. Mas, por algum motivo, acabei fazendo o contrário. Fui até a casa dela. Não sei exatamente o que esperava encontrar. Talvez Elara sentada no sofá, talvez uma oportunidade de conversar, talvez apenas uma explicação que me fizesse parar de pensar naquela maldita tela. Só que ela não estava lá. Fiquei parado diante da porta por alguns segundos, com as mãos na cintura, tentando d
POV Emma Liam inclinou a cabeça, observando meu rosto com uma expressão satisfeita, como se já soubesse exatamente o que eu estava prestes a responder. — Você quer que eu pare, Emma? A pergunta saiu baixa, carregada de uma provocação que me fez sentir o rosto esquentar ainda mais. Eu poderia ter respondido. Apenas neguei com a cabeça. O sorriso dele mudou. Tornou-se lento, predatório, daqueles que faziam meu estômago se contrair e minha loba praticamente se jogar contra as paredes da minha mente. Liam aproximou a boca do meu ouvido. — Ótimo, porque hoje não estou nem um pouco disposto a parar. Um arrepio percorreu minha espinha. Antes que eu conseguisse formular qualquer resposta, ele voltou a me beijar. Seus lábios encontraram os meus com uma intensidade que me fez esquecer a reclamação que eu pretendia fazer. Segurei seus ombros, tentando acompanhar o ritmo dos beijos, mas Liam parecia conhecer cada reação minha antes mesmo que eu a percebesse. Quando ele se afastava po
POV Genevieve Kaellen abriu a boca para dizer alguma coisa quando ouvimos batidas na porta. — Entre! — autorizou. O curandeiro entrou no quarto, e eu já sabia que não encontraria nada nos exames. O que havia acontecido comigo estava relacionado ao toque de Leonora. Eu tinha certeza disso, mesmo sem compreender exatamente o que aquela mulher havia despertado em mim. — Alfa, em breve teremos mais um pequeno Draven nesta mansão! — anunciou o curandeiro, com uma animação que me fez desviar os olhos para ele. Franzi a testa. Um pequeno Draven? — Parabéns, Alfa Kaellen! A Luna Genevieve está grávida! Fiquei olhando para ele, completamente perplexa. Grávida? Eu estava grávida? Comecei a fazer contas mentalmente, tentando encontrar alguma lógica naquilo. Aquilo não era possível… ou era? — Não! Isso não é possível! — soltei, olhando para o curandeiro. Ele sorriu, sem perder a tranquilidade. — Ainda é muito recente, Luna, mas os marcadores estão claros. A senhora est







