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A Maçã Dourada que Ele Me Roubou
A Maçã Dourada que Ele Me Roubou
Autor: Peachy

Capítulo 1

Autor: Peachy
Sob o olhar piedoso dos sacerdotes de Apolo, inclinei a cabeça para trás e tomei o veneno do Lete.

O líquido gélido queimou minha garganta. A agonia dilacerante da maldição do Tártaro desapareceu na mesma hora. Era como um presente do veneno, não sentiria nenhuma dor a mais.

O preço era que eu tinha apenas três dias de vida. Depois disso, viraria poeira estelar.

Ao deixar o templo, fui direto para o pavilhão à beira-mar de Melora. No instante em que empurrei a porta, os gritos de minha mãe me atingiram em cheio.

— Até quando você vai continuar com esse teatrinho patético, Kressa? Você está perfeitamente bem! — Minha mãe apontou o dedo na direção do meu rosto, com os olhos transbordando de uma decepção mais fria do que qualquer fúria.

— Você é uma sacerdotisa da cura, abençoada pelos próprios deuses! Sempre foi nossa filha doce e compassiva... Como pôde ser tão baixa? Tentar roubar a Maçã de Ouro que salvaria a vida de sua irmã por puro e mesquinho ciúme!

Meu pai acrescentou, com a voz carregada de uma amarga desilusão:

— Kressa, você sempre foi o orgulho desta família. Pensamos que você acolheria Melora, que a guiaria como uma irmã deve fazer. Se soubéssemos que você era tão fria com o seu próprio sangue, talvez nunca tivéssemos mimado você a ponto de torná-la tão arrogante.

Uma prensa esmagou meu peito.

O veneno havia matado minha dor física, mas a dor de ser despedaçada pela minha própria família ainda me sufocava. Aqueles eram meus pais. Eles preferiam acreditar que Melora precisava de uma Maçã de Ouro centenária para curar uma marca de queimadura insignificante a acreditar que a própria filha estava morrendo por causa de uma maldição mortal.

Ergui os olhos.

Melora estava debruçada, frágil, contra as almofadas de sua gigantesca cama de madrepérola. Mas o que meus pais não podiam ver era que ela sorria para mim. Cruel e desdenhosa.

Antes, eu teria me enfurecido, gritado até minha garganta sangrar, rasgado minhas roupas para mostrar a eles a marca de apodrecimento em minha alma.

Mas hoje? Eu não queria dizer um ''ai". Discutir era inútil. A maldição estava devorando minha alma; o veneno estava devorando meu corpo. Eu estava tão cansada.

Antes que meu pai pudesse recomeçar a berrar, eu falei:

— Melora quer o meu Templo de Cura. Ela quer a devoção dos meus seguidores. Pois bem, ela pode ficar com tudo.

Um silêncio sepulcral desceu sobre o quarto.

Meu pai paralisou. O queixo de minha mãe caiu.

Não os culpei pelo choque. Melora cobiçava meu templo havia anos. Meus pais tinham tentado de tudo — ameaças, subornos, chantagem emocional — para me fazer abrir mão do que eu construíra com minhas próprias mãos mortais, mas eu nunca cedi.

Mas agora? Eu era uma alma agonizante. Nada disso importava mais.

Ao ver que eu falava sério, minha mãe finalmente sorriu. O choque se transformou em uma alegria pura e egoísta enquanto ela dava um passo à frente e afagava minha cabeça.

— Você finalmente caiu em si! Melora é naturalmente divina. Ela precisa dessa fé para crescer. Sinceramente, Kressa, se você não tivesse tido a sorte de se casar com o herdeiro do deus do mar, aquele templo seria dela de qualquer jeito. Agora podemos finalmente descansar em paz.

Sorte. A palavra foi um tapa na cara. Eu havia sangrado por aquele templo, mas para eles, fora apenas sorte.

Com o rosto inexpressivo, puxei um pergaminho de dentro da minha manga e o estendi.

— Então deixe que ela o sele com sangue.

A ganância faiscou nos olhos de Melora. Ela mordeu o próprio dedo e o pressionou com força contra o papel.

O contrato brilhou. A marca dourada do templo descolou-se das costas da minha mão e voou direto para a testa de Melora.

— Ah, Kressa. Fico tão feliz que tenha recuperado o bom senso. — Pela primeira vez no que parecia uma eternidade, meu pai pousou a mão no meu ombro, com a voz impregnada de um alívio caloroso e evidente.

— Você ainda é a nossa menina boa e sensata.

Assisti àquele momento de felicidade daquela pequena família, sentindo nada além de uma triste ironia. Hilário, minha mãe só sorria para mim quando eu estava abrindo mão da minha vida por Melora.

Mas eu estava curiosa. Quando eles finalmente vissem a verdadeira face de Melora e percebessem que eu tinha partido para sempre, será que se arrependeriam?

---

Naquela noite, retornei ao Palácio do Deus do Mar.

Meu companheiro, Zale, e nosso filho, Philon, estavam junto ao altar. Eles teciam pérolas das profundezas do oceano em um colar de bênçãos para Melora.

Talvez o veneno tivesse me deixado leve a ponto de eu não fazer barulho, mas os dois riam juntos, ignorando completamente o fato de eu ter chegado em casa. Zale prendeu a última pérola, virou-se e me viu. O sorriso dele congelou por um segundo antes de voltar ao lugar.

— Kressa? Quando você voltou? — Ele deixou o colar inacabado de lado e caminhou em minha direção, abrindo os braços para aquele abraço que me era tão familiar.

Eu me esquivei do seu toque.

As mãos dele congelaram no ar. Um lampejo de mágoa cruzou seus olhos antes que ele soltasse um suspiro exausto. Sua voz suavizou:

— Você ainda está zangada por causa da Maçã de Ouro? Kressa, você sempre foi tão resiliente. Melora precisava dela, sem aquilo, ela teria morrido. Assim que ela se recuperar, eu levarei você ao Mar do Leste para ver as suas auroras favoritas. Tudo bem?

Encarei o colar. Cada pérola brilhava com a magia do deus do mar. Era no tom azul-oceano favorito de Melora.

Que irônico. Eu estava prestes a morrer, e só agora descobria que meu marido de cinco anos realmente tinha paciência. Ele costumava chamar as pulseiras de oração que eu trançava para ele de "cafonas". Sob a influência dele, Philon também havia se distanciado de mim.

Entreguei minha alma àquele palácio, e tudo o que recebi em troca foi a frieza de sua negligência. Antes, eu teria perdido a cabeça por causa daquilo. Agora, não dava a mínima. Sentei-me em uma elegante cadeira de coral e comecei a arrumar minha bolsa de magia.

Meu silêncio o fez hesitar. Ele colocou o colar sobre a almofada de veludo e se aproximou de mim, enquanto estendia a mão para tocar a minha, com um toque leve, hesitante. O olhar dele estava repleto de uma incerteza investigativa.

— Kressa, tem uma coisa sobre a qual preciso conversar com você.

Ele semicerrou os lábios, parecendo desconfortável. Hesitou, então disparou:

— É sobre a sua irmã, Melora.

Meu coração despencou. Um pensamento absurdo me atingiu.

As palavras seguintes dele foram como o golpe de um raio:

— Melora consumiu a maçã, mas a alma dela ainda está fraca. Por isso, estou planejando me casar com ela temporariamente. Vou compartilhar a nossa marca de companheiros de alma com ela para aliviá-la.

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