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O pôr do sol na Costa Mortal era de uma beleza melancólica.Selene carregava um buquê de flores das ninfas do mar e uma garrafa de vinho divino. Ela caminhou silenciosamente em direção a um monumento simples. Talhado na pedra estava o nome de Kressa e, acima dele, o seu símbolo: um único girassol em plena floração, voltando sempre a sua face para a luz.— Kressa, eu estou aqui novamente. — Selene disse baixinho, colocando as flores no chão.Ela cumpria aquele ritual todos os meses. Vinha mantendo a promessa há tantos anos.Sentou-se e abriu o vinho. Serviu duas taças: uma para Kressa, outra para si mesma.— Tenho muito a lhe contar hoje. — Selene contemplou o ocaso, com a voz serena. — Sobre as pessoas que a traíram. Todos receberam exatamente o que mereciam.A brisa marinha roçou sua face. Parecia que Kressa a escutava atentamente.— Sua mãe, Hécate, lançou-se no Rio Estige e tirou a própria vida. — A voz de Selene não demonstrava oscilações. — Ela queria encontrar os fragm
Alguns anos se passaram.Zale permanecia no santuário do Palácio do Deus do Mar, fitando a estátua de Kressa. Ele a esculpiu após a sua morte, utilizando a mais rara pedra da lua para moldar suas feições. Na escultura, Kressa sorria com gentileza, exatamente da forma como costumava olhá-lo.— Kressa... — Zale estendeu a mão. Queria tocar a bochecha dela, mas seus dedos tremeram no ar e recuaram.A dor de tê-la perdido o esmagava como a pressão das profundezas do oceano; ele mal conseguia respirar. Dia após dia, noite após noite, a morte dela o torturava.— Pai. — Uma voz gélida ecoou às suas costas.Zale virou-se. Deparou-se com Philon, agora com dezesseis anos. A criança outrora alegre guardava apenas ódio e repulsa no olhar.— O que faz aqui? Ainda interpretando o papel de marido enlutado pela esposa que você mesmo assassinou? — A voz de Philon cortava como lâminas gélidas.— Philon... — Zale engasgou. — Eu sei que você me odeia, mas...— Odeio você? Sim, odeio você, e odei
Apenas o vento gélido e cortante respondeu a Melora.Zale parou por um instante, mas não olhou para trás. Os Altos Sacerdotes ampararam-se mutuamente, cambaleando em direção à noite escura. Todos eles sabiam que Melora estava certa, ela não fora a única que matara Kressa.Melora permaneceu sentada nos degraus, congelando. Seu corpo desprovido de magia tiritava sob a ventania. Seu cabelo estava bagunçado; seus olhos, completamente vazios. Aquela expressão de inocência havia desaparecido para sempre.Selene observava tudo friamente, oculta pelas sombras do templo. O luar banhava seu rosto, refletindo sua indiferença. Contudo, quando ela baixou os olhos para o pergaminho que começava a se desvanecer em suas mãos, suas pupilas avermelharam-se. O papel transformou-se em uma luz dourada e sumiu no vento. Exatamente como Kressa fizera ao virar poeira estelar.Selene cerrou os punhos com força, cravando as unhas nas palmas das mãos. Se lembrou de quando conheceu Kressa há cinco anos atrás.
Matthew golpeou o chão com seu cajado, então clamou ao céu em desespero:— Eu acolhi uma víbora em minha casa! Eu assassinei a minha própria filha! — Sua voz quebrou. — Kressa! Minha Kressa! Eu sequer a vi uma última vez!O velho sacerdote caiu de joelhos, batendo no próprio peito e soluçando desesperadamente.Zale fitava o pergaminho na mão de Selene com o olhar perdido.— Kressa... para quem ela entregou seu poder divino? — Sua voz era seca como palha morta.— Para os devotos necessitados do reino mortal. — Selene declarou com frieza. — Ela queria que seu poder amparasse aqueles que realmente precisam.O coração de Zale foi dilacerado.No testamento, Kressa planejou tudo meticulosamente para os fiéis mortais. Calorosa e generosa, como sempre foi. Contudo, não escreveu uma única palavra sobre ele ou sobre Philon. Nem no momento de sua morte ela os perdoou.— Não, não, não! Isso não é real! — Melora sentiu um calafrio congelante. Ela ajoelhou-se e agarrou firmemente a perna d
Zale extrapolou na bebida nas adegas do palácio. Três dias inteiros se passaram e garrafas vazias cobriam o chão. Ele exibia uma barba desgrenhada e olhos completamente vazios.Kressa estava morta. Sua esposa, sua companheira de alma. Ela havia se desfeito em poeira estelar e desaparecido. E ele era um de seus assassinos.De repente, uma fria mensagem mágica materializou-se no ar.— Zale. Amanhã ao meio-dia. Templo de Nêmesis. Leitura do testamento de Kressa.A voz de Selene era gélida e sem calor. Zale colocou-se de pé, vacilante, e saiu cambaleando da adega.---No dia seguinte, ao meio-dia, quatro pessoas aguardavam do lado de fora do Templo de Nêmesis. Zale exibia uma palidez cadavérica. Os Altos Sacerdotes amparavam-se mutuamente, com os olhos imersos em desespero. Melora torcia as mãos, nervosa, com o coração latejando no peito.As portas do templo abriram-se vagarosamente. Selene emergiu das sombras. Trajava uma túnica negra e sua fisionomia era gélida. Ela os fulminou co
As pernas de Zale fraquejaram. Ele desabou sobre os degraus de mármore.— O fio da vida foi cortado... — Ele balbuciava. — Impossível. A Kressa não pode estar morta...O filamento dourado partido brilhava debilmente em sua mão. Cada feixe de luz parecia uma maldição sobre os seus pecados.— Como ela morreu? Alguma criatura a matou? — Hécate perguntou, trêmula. A Deusa do Destino balançou a cabeça.— Os estágios finais da Maldição Mortal do Tártaro. A alma dela foi consumida pelo fogo da maldição, não deixando nada além de poeira estelar. — Sua voz não carregava emoção alguma. — A representante escolhida por ela entrará em contato com a família em três dias para os ritos fúnebres.Bum!A mente de Hécate ficou em branco. Os estágios finais da Maldição Mortal do Tártaro!Ela se lembrou de Kressa no salão tossindo cinzas negras, mal conseguindo se manter em pé. E ela havia coberto o próprio nariz com repulsa! Chamara Kressa de "mau agouro"! Acusara Kressa de estar encenando pa