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Capítulo 2

Autor: Peachy
Meus ouvidos zumbiram. Fiquei ali, paralisada.

A marca de companheiros de alma é o vínculo supremo. Compartilhá-la significava romper o nosso laço, rasgar minha alma ao meio e enfiá-la no corpo de outra mulher. Para qualquer companheira vinculada, seria como uma humilhação sem fim.

Ao me ver hesitar, Zale deu um passo rápido à frente.

— Kressa, você sabe que jurei amar você, e apenas você, por toda a eternidade. Isso é apenas uma medida temporária, um ato desesperado para salvar uma vida! Melora pode não ser sua irmã de sangue, mas, aos olhos dos deuses, ela é sua família. É só por um tempo. Assim que o núcleo divino dela estiver estável, serei seu companheiro e de mais ninguém. O único e verdadeiro pai de Philon.

— Mãe, você não pode ser generosa pelo menos uma vez?! — Philon correu até nós em algum momento, com suas mãozinhas agarradas firmemente à perna de Zale enquanto me encarava de baixo para cima, com a testa franzida em uma expressão severa.

— A tia Melora está sentindo tanta dor! Por que você não pode simplesmente dividir um pouquinho do amor do papai? A tia Melora me disse que, se você compartilhasse só um pouco, ela pararia de tossir sangue todos os dias. Por que você é tão egoísta?

Egoísta.

Encarei a criança que eu havia arriscado a própria vida para trazer ao mundo. Depois, o homem que havia jurado me amar por toda a eternidade.

Então as coisas tinham chegado àquele ponto. Aos olhos deles, lutar para proteger meu próprio marido, minha própria alma, era egoísmo.

Mas agora... já não importava mais. Se Melora queria tudo, então que ficasse com tudo, com cada pedaço. Eu havia desistido.

Ergui a cabeça e fitei os olhos de Zale.

— Tudo bem. Eu aceito.

Um lampejo de surpresa e algo parecido com piedade cruzou os olhos de Zale.

— Sério?

Sem perder um segundo, ele materializou a Lâmina do Olimpo do nada e a estendeu para mim.

Esbocei um sorriso fraco.

"Ah, Zale. Você não consegue sequer se dar ao trabalho de esconder o quão desesperado está, não é?"

Segurei a lâmina pesada. Sem pensar duas vezes, cortei meu próprio pulso.

O sangue sagrado da companheira verteu, pingando no chão de mármore frio. O vínculo se despedaçou.

Assisti à marca suave que carregava meu nome no peito de Zale irromper em chamas. Quando a luz desapareceu, uma marca brilhante em forma de escama de sereia assumiu o seu lugar.

Ele e Philon pareceram tão aliviados e orgulhosos.

— Kressa, assim que Melora estiver estável, restauraremos o nosso laço. Não se preocupe, eu nunca vou trair você!

Zale derramou o próprio sangue sobre o círculo mágico, selando o ritual. Ele olhou para mim, suspirando, e delicadamente colocou uma mecha rebelde de cabelo atrás da minha orelha.

— Kressa, você está sendo muito mais sensata agora. Eu sei que não tenho sido perfeito, negligenciei os seus sentimentos. Assim que Melora estiver bem, Philon e eu vamos compensar você e nós três seremos felizes novamente, exatamente como antes.

— É, mamãe! — Philon se intrometeu, falando como um pequeno adulto.

— Você é tão legal com a tia Melora! Estou orgulhoso de você!

Observando os dois, senti meu coração como cinzas mortas. Eu havia me apegado a um último resquício de esperança por eles. Agora... tanto fazia. Eu estava pronta para desaparecer.

Me coloquei de pé para ir em direção ao meu quarto, mas uma onda violenta de tontura me atingiu, e então minha vista escureceu.

Logo antes de a escuridão tomar conta, vi o rosto em pânico de Zale.

---

Acordei com um calafrio que vinha do fundo dos ossos. Meus olhos se abriram devagar. Eu ainda estava jogada no chão de mármore frio.

Olhando para cima, vi Zale e Philon. Pai e filho me encaravam, com os rostos exibindo uma mistura de preocupação e total decepção.

Quando recobrei os sentidos, Zale soltou um suspiro visível de alívio, mas sua testa permaneceu profundamente franzida.

— Kressa, você pode, por favor, parar com esses dramas? Você tem ideia do tamanho do susto que me deu quando desmaiou de repente? Eu já não lhe disse? Embora nosso vínculo esteja temporariamente rompido, eu ainda amo você. Você não precisa recorrer a desmaios infantis para me testar!

— Viu, papai? Eu disse que ela estava fingindo de novo! — Philon endossou, com um bico nos lábios.

— Mamãe, você não pode parar de ser tão imatura? Está fazendo a gente se atrasar para levar o colar da tia Melora!

Fingindo?

Forcei um sorriso amargo e me apoiei para levantar.

O veneno era um mentiroso adorável. Ele silenciava a agonia da maldição e congelava a decadência do meu corpo, tudo isso enquanto devorava minha força vital por dentro. Ele pintava minhas bochechas com um rubor saudável e radiante para os meus últimos três dias. Pelo visto, estava funcionando perfeitamente.

Forcei-me a ficar de pé.

— Minha magia estava apenas um pouco instável. Estou bem, vou ao templo com vocês. Há pergaminhos de transferência de domínio que exigem o selo pessoal de Melora.

Zale assentiu, ele não pareceu surpreso. Meus pais já deviam ter lhe contado.

No templo, Melora estava em seus aposentos, admirando as joias que os mortais haviam lhe oferecido.

— Kressa! Você veio! — Melora parecia pálida, mas definitivamente muito melhor. Não deixei de notar o triunfo arrogante em seus olhos.

— Obrigada por confiar o seu templo a mim, Kressa. Não se preocupe, não vou decepcioná-la!

— Exatamente, Kressa. — Minha mãe resplandeceu.

— Com Melora como alta sacerdotisa, você finalmente poderá relaxar no Palácio do Deus do Mar. Não é um alívio?

Puxei os últimos pergaminhos de dentro da minha bolsa.

— Sendo assim, quero que ela fique com todo o meu ouro e meus bens também. Dessa forma, não terei que me preocupar com absolutamente nada.

Os deuses e servos presentes no templo me encarararam, chocados.

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