LOGINA atmosfera na sala havia se tornado densa, carregada por uma tensão gélida que parecia congelar o ar. Foi naquele momento que Afonso foi tomado por uma crise de tosse seca. O mordomo, que havia acabado de entrar segurando uma bandeja com medicamentos, apressou o passo ao ver o estado do patrão e depositou a xícara fumegante sobre mesa.— Senhor Afonso, está na hora do seu remédio. Daqui a pouco também precisamos fazer a inalação. — Avisou o funcionário, com a voz carregada de preocupação.Com as mãos trêmulas, o velho patriarca ergueu a xícara e engoliu o líquido amargo de uma só vez. O mordomo então se virou para Emanuel, lançando um olhar de súplica para ele.— Senhor Emanuel, o senhor conhece bem o estado de saúde do seu pai. Por que insistir em contrariá-lo dessa forma?Emanuel suspirou fundo, engolindo as palavras que ainda queria dizer.— Descanse um pouco. — Ele se limitou a murmurar, virando as costas e deixando a sala a passos largos, sem olhar para trás.Assim que a porta s
— Luana, não acredito que a Natacha é a mulher do seu tio Emanuel! E os dois ainda por cima têm um filho juntos? — O choque na voz de Liliane, que ecoou pelo estúdio, era do mesmo tamanho do da própria Luana ao rolar o feed e ver os assuntos do momento na internet.Luana até sabia que o tio tinha um filho com uma atriz famosa, mas a identidade da mulher sempre foi um segredo muito bem guardado, e o susto veio todo de uma vez hoje. A trajetória de Natacha não era novidade para ninguém no país. Ela começou aos dezesseis anos e passou oito fazendo figuração, até estourar de vez aos vinte e quatro com o filme "Margaridas". O problema é que aquele mesmo sucesso a transformou na atriz mais polêmica da sua geração.A entrega ao papel exigiu demais da imagem dela. As cenas quase sem roupa a jogaram direto para as capas de revistas masculinas, transformando-a no símbolo sexual da época, o delírio dos homens e o alvo do ódio de muitas mulheres. A pressão do público foi tanta que ela precisou d
Era verdade. Se Liliane simplesmente abaixasse a cabeça e voltasse para casa para assumir seu papel de herdeira, teria o mundo aos seus pés, uma realidade muito mais confortável do que a situação miserável em que se encontrava. No fundo, ela sabia que não era feita para a vida dura, pois bastaram quinze dias no emprego de meio período para que a vontade de jogar tudo para o alto a consumisse. Só não tinha desistido ainda por um único motivo.Desviando o olhar com uma pontinha de culpa, Liliane tentou se justificar, quebrando o silêncio:— Eu... eu preciso aprender a andar com as minhas próprias pernas em algum momento da vida.— Se jogar no mundo para sofrer sem ter a menor capacidade de se sustentar... — Valentino fez uma pausa, encarando-a com frieza. — Não sei se digo que você procurou isso ou se sinto pena.O tom sarcástico dele soou calmo até demais. Para Liliane, no entanto, aquela tranquilidade era a mais pura zombaria, um reflexo do descrédito absoluto que ele nutria por ela.
Será que ela ouviu direito?Embora precisasse de uma desculpa para se aproximar de Valentino, Liliane ainda não tinha um plano concreto. E agora, de repente, a solução perfeita caía em seu colo! Tentando disfarçar o sorriso largo que insistia em aparecer, Liliane adotou uma expressão pensativa.— Sabe que isso faz sentido? — Comentou ela, sustentando a encenação. — Vou procurar o Valentino mais tarde para conversarmos.Assim que terminou de falar, Liliane fez menção de ir embora. No entanto, incapaz de conter a euforia que borbulhava no peito, ela se virou de supetão e segurou as mãos da cunhada com um entusiasmo contagiante.— Luana, a partir de hoje eu te idolatro! — Exclamou ela, com o seu habitual exagero.Sem esperar por uma resposta, Liliane virou as costas e partiu, cantarolando uma melodia animada, com os passos leves e o coração em festa.Luana acompanhou a partida dela com o olhar, deixando transparecer um lampejo de surpresa no rosto. Afinal, tinha apenas jogado uma isca par
Quinze dias se passaram. A data, que originalmente marcaria a suntuosa festa de noivado da família Souza, precisou ser adiada devido ao julgamento de Afonso. A equipe de advogados de Emanuel moveu céus e terras durante a fase de apelação, conseguindo apresentar provas contundentes de que Carlos estava envolvida em um assassinato antes de morrer. Com aquela reviravolta no caso, a pena inicial de seis anos de prisão em regime fechado foi reduzida para três.Além disso, levando em consideração a idade avançada de Afonso e sua total colaboração ao longo de toda a investigação criminal, o juiz acabou convertendo a sentença em apenas um ano de liberdade condicional.O pátio do tribunal estava mergulhado em um silêncio quase sepulcral. Ficava evidente que a família Souza havia acionado seus contatos e influência para abafar qualquer vazamento sobre o julgamento, evitando assim o alarde da imprensa e dos jornalistas que costumavam rondar a alta sociedade em busca de escândalos.Cercado por um
O sorriso de Helena congelou no mesmo instante, mas ela foi rápida em desviar o olhar para disfarçar o nervosismo. Tentando manter a pose de esposa dedicada, forçou um tom de voz suave: — Do que você está falando, querido? Que história é essa de Macondo? Fui trabalhar em Riviera, é claro.— Você ainda tem a coragem de mentir na minha cara! — Berrou Henrique, perdendo o resto de controle que lhe sobrava. Num ataque de raiva, ele bateu na mesa de centro, jogando as xícaras de chá no chão, que se espatifaram em pedaços. Ele se levantou de um pulo e apontou o dedo bem no rosto dela. — Você foi até Macondo atrás do Ricardo! Não ache que sou um idiota que não sabe de nada!A ficha de Helena por fim caiu, deixando-a sem reação por alguns segundos. Tentar descobrir como ele havia descoberto a verdade não faria diferença alguma agora. Sendo encurralada daquele jeito, a única saída era assumir tudo de uma vez. — Está bem, é verdade! Eu fui procurar o Ricardo em Macondo, sim! Mas eu só fiz isso
Valentino vestiu a camisa enquanto dizia:— Não pensei muito na hora.— É, faz sentido. Afinal, você... — Sandro cutucou o peito dele com o dedo e fez o formato de um coração. — Talvez tenha se apaixonado, né?— Professor Valentino, o senhor está aí? — Perguntou Luana, abrindo a porta e entrando bem
Amanda nunca imaginou que um dia ele fosse se lembrar disso. Sentou-se ao lado dele e tocou seu braço com suavidade.— Ricardo, isso aconteceu quando você tinha oito anos. — Disse Amanda, com voz tranquila. — É completamente normal não lembrar de tudo. Não adianta ficar remoendo essas coisas do pass
Gustavo estava sentado em um pavilhão no centro do jardim da casa de chá, jogando xadrez com um velho amigo. Vestia uma roupa de seda pura, folgado e elegante, os fios grisalhos cuidadosamente penteados para trás, transmitindo aquela serenidade de quem carrega anos de sabedoria. Enquanto pensava no
Valentino percebeu o desconforto de Luana e, com o tom mais sereno, falou: — Ele não vai te acusar de nada. — Sei disso, Valentino. — Respondeu Luana, forçando um sorriso que não chegava aos olhos. — Mas não preciso que resolvam por mim. Consigo lidar sozinha.Ricardo arqueou as sobrancelhas, deix