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CAPÍTULO 2

Author: Nanda Santos
Por causa da miopia, eu não consegui correr como os outros, então só pude esperar todo mundo escolher primeiro.

No fim, restou apenas o 30º andar pra mim.

Aproveitando o fato de que eu não enxergo nada, o chat já estava tagarelando:

"Essa novata tá morta. Todo mundo sabe que quanto mais alto o andar, mais forte o Boss."

"Principalmente o 30º, é só Boss grande. Chamam até de Casa da Morte."

Quando cheguei ao 30º andar, dei uma olhada em volta. Não era tão diferente do mundo real assim, só tinha mais cheiro de sangue, as paredes eram mais vermelhas, a temperatura era mais baixa e a luz, bem mais fraca…

E além disso… era um apartamento enorme!

E ainda tinha a família com que eu sempre sonhei!

Afinal, na vida real eu não era só uma míope inútil, eu era órfã… e pobre!

Cheguei na porta, estendi a mão sem hesitar, bati forte e berrei:

— Abre logo a porta, eu tô em casa! Se não abrir, eu vou morrer de fome!

O chat ficou chocado:

"Ela tá pedindo pra morrer, né? Todo jogador bate educadamente ou espera quietinho o humor da entidade melhorar."

"Não vou ver uma maluca sem cérebro. Vou trocar de live, vou pro canal da Olívia."

"Vê sim! Continua vendo! Quero ver como ela vai morrer!"

Na verdade, eles é que não entendiam meu raciocínio.

Se é um mundo de interpretação de papéis, e as entidades são minha família…

Então é óbvio que eu tenho que agir naturalmente!

Quem é que volta pra própria casa e diz, super educado:

"Oi, tem alguém aí? Poderia abrir a porta, por favor?"

A batida mal tinha acabado e a porta abriu, lançando um vento gelado que percorreu meu corpo.

Soltei até um suspiro de conforto.

Aquilo ali era um paraíso de verão! Nem precisava de ar-condicionado.

Baixei o olhar e vi uma sombra vermelha pequenininha.

Mesmo com minha visão borrada, deu pra perceber duas tranças balançando, devia ser uma criança de vestido vermelho.

A criança sorriu de forma sinistra e se lançou pra cima de mim, com as mãos geladas apertando meu pescoço.

Eu aproveitei o movimento, abracei ela e, sentindo o vestido todo encharcado, reclamei:

— Criança não pode ficar com roupa molhada! Tira isso já! Eu vou te dar roupa seca!

Meu nariz se mexeu. Um cheiro forte de sangue veio direto na minha direção e, aflita, perguntei:

— Você se machucou? Onde está a caixa de primeiros socorros? Eu trato você.

O chat queria me bater:

"Garota, abre esses olhos! Essa é uma das Bosses da Casa da Morte! O vestido não tá molhado, tá encharcado de sangue dos jogadores que ela esquartejou! E esse cheiro de sangue não é porque ela se machucou, é o sangue dos jogadores na saia dela."

"Relaxa. Quando ele voltar pra casa, ela tá morta."

Claro que eu não vi nada disso.

Entrei abraçada com a criança, tirei o vestido vermelho dela e vasculhei o quarto de princesa até encontrar um vestido branco novinho.

As mãozinhas que apertavam meu pescoço foram afrouxando, quase sem perceber.

Sentindo a hesitação dela, peguei uma toalha quente, cheguei mais perto e fui limpando, devagarinho, o sangue do rosto dela.

Só então consegui ver que era uma linda menina.

Sorrindo, apontei pro meu próprio rosto:

— Somos família, é normal ajudarmos uns aos outros. Mas… não acha que devia me dar um beijinho pra agradecer?

A menina segurou a barra do vestido branco, toda envergonhada, aproximou-se devagarinho e deu um beijo rápido no meu rosto antes de fugir pra trás.
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