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O último sonho roubado

Penulis: Taty Costa
last update Tanggal publikasi: 2026-10-06 22:24:31

Laysa passou os dias trancada no quarto, sem tablet, sem números, sem ar.

A frase de Ted ainda queimava: “frígida, sem sal, esquisita”. Nada que outro homem já não tenha lhe dito, mas vindo dele, por quem o seu coração batia, a fazia se entristecer muito mais.

Na sexta-feira à noite ela respirou fundo, desceu as escadas e bateu na porta do escritório.

Argos estava sentado, lendo relatórios antigos, um copo de café preto na mesa. E pilhas de papéis ao seu lado.

— Pai… posso falar com você? — perguntou da porta, tentou forçar um sorriso que não chegou aos olhos.

— Entra, filha — ele respondeu, baixando os papéis.

Laysa sentou-se na cadeira à frente dele, as mãos no colo. Respirou fundo e se encheu de coragem para pedir algo muito importante.

— Eu preciso ir embora por um tempo. Quero passar uma temporada nos Estados Unidos. Só um ou dois meses. Preciso respirar.

Argos ergueu os olhos devagar.

— Você sabe a minha resposta. Nenhuma filha minha atravessa o oceano sozinha. Nunca.

— Pai... — Laysa pensou em mil argumentos, mas nenhum saiu de sua boca.

— Escute. Isso é para a sua proteção. Tenho medo que te façam mal.

Laysa não quis demonstrar o sorriso ironico, mas ele apareceu, quem poderia machucá-la mais do que Ted?

— Pai… eu... — Ela resolveu contar, sempre teve uma relação tão boa com o pai. Por mais que nunca dissesse, era o seu orgulho. — Eu estou de coração partido. Destruída. Por isso que sair de Londres. Preciso... respirar.

Argos pousou os papéis. Pela primeira vez em dias, o olhar dele amoleceu. Seu coração se apertou pela filha.

— Quem te machucou, Laysa? Me dá o nome. E...

Ela balançou a cabeça. Sua íris escureceu de raiva.

— Não vou dizer. — Ela jamais condenaria Ted. Se a cabeça dele estava a prêmio por Nina, seria morto no mesmo minuto se soubesse o que fez a ela.

— Foi o Daniel?

— Não, pai. Jamais. Daniel é meu amigo. Meu melhor amigo.

Argos ficou em silêncio, estudando-a. Sempre via a filha na companhia de Daniel e Ted. Mais de Daniel do que de qualquer outro. Mas se não foi ele, quem seria?

— Então quem te machucou tanto assim? A sua dor me fere também.

Laysa engoliu o choro. Por mais dificil que fosse, era bom poder contar com o carinho e compreensão do pai.

— Alguém que nunca vai pagar pelo que fez. — Ela respondeu com a voz embargada.

— Te desonrou?

— Não... Claro que não. Nos beijamos e eu fui uma boba que me apaixonei, mas não passou disso, eu juro.

Argos suspirou. Era um problema a menos para lidar.

— Não vou perguntar mais... Porém, saiba que dessa casa você não sai.

Laysa abaixou a cabeça. Não tinha mais forças pra insistir.

— Vamos resolver isso, minha filha. — Argos suavizou. — Você não tem um pai à toa... Vou cuidar de você.

Aquilo não resolvia.

*****

No sábado de manhã, Nina bateu suavemente na porta do quarto de Laysa.

— Mana… posso entrar?

Laysa deixou. Não tinha energia pra brigar.

Nina sentou na beirada da cama, um copo de chá de camomila nas mãos, a barriguinha já aparecendo de leve. Sorriu tímida, sem nenhuma malícia.

— Laysa… eu pensei em um nome pra bebê. Se for menina… vou chamar de April. O que acha?

O mundo parou.

April... O nome fez eco nos ouvidos de Laysa.

Desde os sete anos todas as bonecas de Laysa se chamavam April. Era o nome que ela repetia nas brincadeiras de casinha, o nome que escrevia nos cadernos, o nome que guardava pro dia em que tivesse uma filha de verdade.

Laysa sentiu o peito rasgar.

— É sério isso? Vai mesmo colocar o nome que eu escolhi.

Nina piscou confusa.

— Por isso mesmo eu quero esse. Você sempre achou lindo e eu estou grávida e você nem pensa em se casar. — Nina realmente falava sem malicia. Girava a faca sem sentir que estava machucando a irmã.

A constatação era um soco no estômago.

— Eu deveria saber... Você não tem a intenção de me deixar com nada que eu goste, não é?

— Não é isso, eu só pensei... — Nina tentou.

— Faz o que você quiser! Você nem sabe o sexo do bebê e eu espero que seja menino! — Laysa quase gritou enraivecida.

Nina saiu dali se perguntando o motivo da irmã estar tão brava. Afinal, ela não tinha filhos e nem era casada, que mal teria em colocar um nome tão bonito no seu bebê?

Nina era muito ingênua não percebia que estava tirando o último pedacinho de sonho que restava em Laysa.

******

Não demorou muito para todos saberem da gestação. Nina não pode esconder por muito tempo e como Laysa previu, o pai não puniu Ted, pois ele era o seu afilhado, o garoto que cresceu em sua casa e filho do melhor amigo.

Argos sentiu o golpe, sentiu-se traído por Ted, mesmo assim o perdoou e exigiu uma retratação. Um casamento, para que a sua filha pudesse andar de cabeça erguida.

Na noite de sábado, Argos chamou todos para a sala de jantar.

Ted estava lá, sério, de terno escuro.

Nina ao lado dele, de vestido longo azul, a mão na barriga.

Argos ergueu o copo de água, a voz firme, mas com um fundo de emoção.

— Amanhã, domingo, faremos o jantar de noivado oficial. Ted e Nina vão se casar. E pra facilitar tudo, pra proteger minha filha e meu neto, os dois vão morar aqui. Nesta casa. Até o bebê nascer e depois também. Pelo tempo que for necessário.

Ted olhou para Laysa por meio segundo. Sem culpa.

Nina sorriu, radiante, achando que estava construindo um conto de fadas.

Laysa sentiu o peito ser esmagado. A situação que já era ruim acabava de ganhar mais uma camada de dor.

Passar o resto da vida vendo o homem que amou desde a adolescência acordar ao lado da irmã. Ouvindo o choro do bebê no corredor. Vendo-os felizes como recem-casados, era demais para suportar. Veria a filha deles crescer com o nome que era o sonho mais secreto do seu coração. E depois disso, nunca teria...

Ela pensou em protestar, mas uma mensagem insistente tocou no celular da irmã.

— Oh, meu Deus, saiu o resultado! É menina! — Nina vibrou e abraçou Ted que beijou-a discretamente por estar na frente do sogro.

A mãe delas estava lá e se alegrou também assim como Argos.

Laysa se retirou discretamente, sua presença era dispensável. Sempre foi. E se tinha alguma chance de preservar algo que amava, estava agora perdida.

Ela se trancou em seu quarto. Entrou no closet como fazia desde pequena quando o mundo parecia grande demais.

Abraçou as próprias pernas e deixou as lágrimas escorrerem.

— Quem se importa que isso te destrua, o que te mate, ninguém liga para uma garota sem sal, frígida que nem você. — As palavras saiam de sua boca, mas não eram suas. Era a voz de Ted cravada em seu peito.

O celular no chão ao seu lado vibrou.

Parker.

"Espero que você esteja melhor e pense na minha proposta... Será um prazer te ter aqui comigo."

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