INICIAR SESIÓNPOV: Valentina
Damon estava cercado por três mulheres quando olhou diretamente para mim e ergueu a taça como se brindasse à minha irritação. Uma delas tocava seu braço. Outra ria com a cabeça inclinada para trás. A terceira, uma morena de vestido dourado, mantinha a mão perto demais do peito dele. E Damon parecia perfeitamente à vontade no centro daquela pequena constelação de decotes, perfumes caros e sorrisos interessados. Mulherengo incorrigível. A definição deveria ter me tranquilizado. Em vez disso, senti algo desagradavelmente parecido com calor se espalhar pelo meu peito. “Não faça essa cara.” Aurora surgiu ao meu lado com duas taças de champanhe e me entregou uma. “Que cara?” “A de quem está decidindo se j**a uma mulher da varanda ou o homem que permitiu que ela encostasse nele.” “Não estou olhando para Damon.” Aurora acompanhou meu olhar até o outro lado do salão. “Claro. Você só está admirando o arranjo de flores atrás dele.” “Exatamente.” “E as flores têm ombros largos, mãos bonitas e uma boca obscena.” Levei a taça aos lábios para esconder o sorriso. “Você está impossível hoje.” “Estou sóbria. É pior.” Tentei voltar a atenção para o palco, onde Henrique conversava com dois investidores. Ele gesticulava com confiança, bonito em seu terno azul-marinho, perfeitamente adaptado ao papel de futuro marido que nossas famílias aprovavam. Seguro. Previsível. Correto. Meu corpo não reagia a Henrique com a violência absurda que reagira quando Damon segurou meu pulso. O pensamento me incomodou. Apertei a taça. Não significava nada. Desejo não era prova de compatibilidade. Se fosse, Damon Castellani já teria construído relações duradouras em metade dos continentes. “Você está pensando nele”, Aurora murmurou. “Estou pensando que mulheres inteligentes deveriam manter distância de homens como Damon.” “E mulheres muito inteligentes?” “Deveriam correr.” “Interessante. Você parece parada.” Antes que eu respondesse, a morena de vestido dourado deslizou os dedos pela lapela de Damon. Ele baixou a cabeça para ouvir alguma coisa. Ela se aproximou. Meu estômago contraiu. Ridículo. Damon era noivo. Eu também. Não havia absolutamente nenhum motivo para que aquela cena me incomodasse. Talvez por isso eu tenha percebido que ele não sorria de verdade. Seu rosto exibia a expressão sedutora de sempre, mas os olhos permaneciam frios. Distraídos. Até encontrarem os meus. Então tudo mudou. O canto de sua boca se ergueu. Ele disse algo às mulheres, afastou-se do grupo e atravessou o salão em minha direção. Aurora soltou um suspiro satisfeito. “Vou embora antes que a tensão entre vocês arruíne minha maquiagem.” “Não existe tensão.” “Claro. E eu sou freira.” Ela desapareceu antes que eu pudesse segurá-la. Damon parou diante de mim. “Está com ciúme?” “De você?” “Não precisa parecer tão ofendida.” “Eu precisaria me importar para sentir ciúme.” “Você me observou por quase dois minutos.” “Estava tentando descobrir quantas doenças podem ser transmitidas por contato visual.” Seu sorriso se abriu. “Sabia que estava prestando atenção.” “Você é incapaz de ficar cinco minutos sem ser adorado?” “Consigo ficar mais tempo quando estou ocupado.” Meu olhar estreitou. “Não vou perguntar.” “Posso explicar.” “Não quero saber.” “Tem certeza? Eu explico muito bem com as mãos.” O calor que surgiu em meu ventre foi imediato. Baixo. Inconveniente. Damon aproximou-se um passo, obrigando-me a erguer o rosto. Seu perfume envolveu meus sentidos, e a lembrança de sua mão sobre a minha voltou com uma nitidez absurda. “Você deveria ter vergonha”, murmurei. “Já conversamos sobre isso.” “Não conversamos. Você falou obscenidades e eu tentei preservar sua dignidade.” “Minha dignidade está ótima.” Seus olhos desceram até minha boca. “Minha paciência é que está sofrendo.” “Com tantas mulheres oferecendo consolo?” “Nenhuma delas é você.” A frase veio mais baixa. Menos brincalhona. Meu coração tropeçou. Eu ri porque ele esperava que eu levasse aquilo a sério. E eu não seria ingênua. “Você fala isso para todas.” “Não.” “Damon, há três mulheres atrás de você que provavelmente acreditam ter recebido tratamento exclusivo.” “Elas receberam champanhe.” “E o resto?” “O resto eu não ofereci.” “Que sacrifício.” Ele inclinou a cabeça, estudando-me. “Está curiosa sobre o que eu ofereceria a você?” “Nem um pouco.” “Seu rosto não concorda.” “Meu rosto está cansado de ouvir besteira.” “Então talvez eu devesse mostrar em vez de falar.” A respiração falhou em meus pulmões. Damon percebeu. Sempre percebia. Ele ergueu a mão e, com a ponta dos dedos, tocou uma mecha solta perto da minha têmpora. O gesto foi quase casto. Ainda assim, minha pele despertou inteira. “Não faça isso”, pedi. Minha voz saiu mais baixa do que pretendia. “Isso o quê?” “Finja que suas cantadas significam alguma coisa.” O sorriso dele desapareceu por um instante. “E se significarem?” Meu corpo respondeu antes da razão. A pulsação entre minhas pernas se tornou mais forte, e odiei a facilidade com que ele me desorganizava. Henrique me beijava, me tocava, dormia ao meu lado, e eu jamais sentira aquela espécie de antecipação elétrica, como se o simples movimento da boca de Damon pudesse prometer algo que eu não conhecia. Algo demais. Afastei-me. “Você está noivo.” “Você também.” “Então pare.” “Diga que não sente nada e eu paro.” Abri a boca. Nenhuma palavra saiu. Damon se aproximou do meu ouvido. “Esse silêncio está ficando perigoso, Valente.” “Você é um mulherengo convencido.” “Este mulherengo faria você esquecer qualquer comparação antes de a noite acabar.” A voz dele deslizou pela minha pele. Quente. Baixa. Segura demais. Minha imaginação o traiu em meu lugar. Por um segundo, vi suas mãos percorrendo meu corpo com a mesma calma provocadora com que havia tocado meu cabelo. Imaginei sua boca, sua voz ordenando que eu parasse de fingir, o peso dele perto demais. A imagem me deixou úmida. A vergonha veio logo depois. “Você se acha irresistível.” “Não para todas.” “Que alívio.” “Só para você.” Antes que eu respondesse, uma mão firme envolveu minha cintura. Henrique. Ele me puxou para junto do corpo com força suficiente para quebrar o espaço entre Damon e mim. “Está incomodando minha noiva de novo?” O tom parecia leve. A mão em minha cintura, não. Damon olhou para os dedos de Henrique apertando meu vestido. Depois, ergueu os olhos devagar. “Valentina sabe dizer quando está incomodada.” Henrique sorriu sem humor. “Ela não precisa dizer. Eu conheço minha futura esposa.” A frase deveria ter soado carinhosa. Soou como marcação de território. Damon sustentou o olhar dele por um instante longo. “Então deve saber que ela não gosta de ser segurada assim.” Henrique afrouxou a mão imediatamente. Meu peito apertou. Damon havia percebido. Henrique, não. “Vamos”, Henrique disse, voltando-se para mim. “Meus pais querem uma fotografia.” Assenti. Quando ele retirou a mão da minha cintura para ajeitar o paletó, um brilho surgiu entre seus dedos. Seu telefone. Henrique virou a tela para baixo depressa demais. Mas não antes que eu visse uma mensagem no visor. S.: Precisamos conversar sem que ela descubra. Levantei os olhos. Henrique já guardava o aparelho no bolso. Quando olhou para Damon, havia ciúme em seu rosto. Quando olhou para mim, havia outra coisa. Culpa.POV: Valentina— Fique até eu dormir.As palavras escaparam antes que meu orgulho pudesse detê-las.Damon estava ao lado da cama, com a camisa ainda amarrotada pelos meus dedos e o paletó largado sobre a poltrona. A luz baixa da suíte desenhava sombras no rosto dele, tornando-o mais cansado do que eu já tinha visto.Por alguns segundos, ele não respondeu. Apenas baixou os olhos para minha mão vazia sobre o lençol, como se talvez se lembrasse de como eu a mantivera presa à camisa dele.Eu lembrava.Lembrava do calor sob o tecido, da batida firme do coração dele, da voz baixa prometendo que não iria a lugar nenhum.Agora eu pedia exatamente isso.Que ficasse.— Tem certeza? — perguntou.O cuidado no tom me irritou.— Não transforme isso em uma audiência.— Não quero que você acorde amanhã achando que eu ultrapassei algum limite.— Estou pedindo.— Eu ouvi.— Então por que continua aí?O canto da boca dele quase se moveu.— Porque você parece pronta para discutir com o próprio pedido.—
POV: Valentina“Não consigo respirar.”A frase saiu sem som.Ao meu redor, o salão continuava cheio de vozes, taças e números milionários sendo negociados como se nada estivesse acontecendo.Damon estava a poucos metros, sentado à cabeceira de uma mesa com investidores estrangeiros. Um contrato de expansão aberto diante dele. Nicolas falava com um dos executivos enquanto Bianca observava os jornalistas espalhados pelo evento.Eu deveria estar ao lado de Damon.Sorrindo.Convincente.Perfeita.Em vez disso, minhas mãos estavam frias e o vestido parecia apertado demais contra minhas costelas.Uma câmera virou em minha direção.O flash explodiu.Por um segundo, não vi o salão.Vi a porta entreaberta do apartamento de Henrique.Ouvi a risada de Serena.Senti outra vez o gosto da humilhação, o peso das manchetes, o nome da minha família usado como algema.“Senhorita Alencar?”Alguém tocou meu braço.Recuei com força.A taça que eu segurava caiu no chão.O cristal se partiu.Todas as vozes
POV: Damon “Durante seis meses, nenhum de nós se envolve com outra pessoa.” Valentina leu a nova cláusula sem levantar os olhos. Estávamos no meu escritório, separados pela mesa, enquanto a cidade refletia nas janelas atrás dela. O contrato aberto entre nós parecia mais perigoso do que no dia em que propus o noivado. Talvez porque agora existisse um beijo. Uma cozinha. Um robe. E a pergunta que ela fizera no capítulo anterior ainda presa em algum lugar entre minha garganta e meu orgulho. Você beijaria outra mulher? Eu não respondera. Não de verdade. Em vez disso, passara a madrugada inteira tentando transformar ciúme em linguagem jurídica. Valentina virou a página. “Exclusividade afetiva e física.” “Sim.” “Isso não estava na primeira versão.” “Não era necessário antes da coletiva.” “E agora é?” “Agora somos um casal público.” Ela ergueu os olhos. “Falso.” “Para nós.” A frase saiu seca demais. Corrigi o tom. “Para o restante do mundo, qualquer envolvimento paral
POV: Valentina Damon rasgou o cartão de Henrique ao meio. Depois em quatro partes. Depois em oito. O som seco do papel se partindo atravessou a sala enquanto as rosas vermelhas permaneciam diante de nós como uma provocação exagerada. “Eu não disse que podia fazer isso.” Minha voz saiu baixa. Damon deixou os pedaços sobre a mesa de centro. “Ele ameaçou você.” “Ele tentou me manipular.” “Usando documentos que podem incriminá-la.” “Eu sei ler, Damon.” “E eu sei reconhecer uma ameaça.” A mandíbula dele estava rígida. O homem que brincava com tudo havia desaparecido. Não restava sorriso, cantada ou ironia. Apenas aquela tensão escura nos ombros e a mão fechada ao lado do corpo. Bianca recuou discretamente. “Vou pedir que retirem as flores.” “Não”, respondi. Ela parou. Damon virou o rosto para mim. “Você quer ficar com elas?” “Quero que sejam fotografadas, catalogadas e entregues ao jurídico.” O silêncio durou um segundo. Então Damon assentiu. “Faça isso”, disse a Bi
POV: Damon “Eu presto atenção em você.” Valentina permaneceu imóvel no sofá. A mão dela ainda repousava sobre meu joelho por causa do ensaio, embora Bianca tivesse se afastado para atender a ligação havia alguns minutos. Nenhum dos dois parecia disposto a mencionar isso. Os olhos dela continuavam presos aos meus. “Desde quando?” A pergunta veio baixa. Perigosa. Retirei a mão de sua cintura devagar, mais por necessidade do que prudência. O toque havia deixado de parecer parte do treinamento no momento em que ela me desafiara a lembrar do vestido. Azul-escuro. Costas abertas. Cabelo solto sobre o ombro esquerdo. Eu poderia ter contado que ela usava um perfume mais cítrico naquela época. Que mexera no brinco direito três vezes enquanto fingia ouvir Henrique falar sobre investimentos. Que rira de verdade apenas quando um garçom derrubara champanhe no sapato de um político arrogante. Poderia ter contado que saí daquela recepção com raiva de um homem que mal conhe
POV: Valentina “Porque conquistar você agora seria fácil demais.” A resposta de Damon ficou suspensa entre nós. Eu ainda estava diante dele, de robe, coração acelerado, esperando que completasse a frase. Então a porta da cozinha se abriu. Uma funcionária entrou carregando uma bandeja, parou ao nos ver próximos demais e baixou os olhos imediatamente. “Desculpem. A assessora chegou.” Damon fechou o último botão da camisa. A máscara voltou ao rosto dele com uma precisão irritante. “Peça que aguarde na sala.” A mulher assentiu e saiu. Eu permaneci imóvel. “Fácil demais?”, repeti. Damon pegou a caneca e levou-a à pia, como se não tivesse acabado de me provocar de um jeito muito mais perigoso do que todas as cantadas anteriores. “Você está vulnerável.” “Isso não me torna fácil.” Ele se virou. “Não foi o que eu disse.” “Foi exatamente o que disse.” “Eu disse que seria fácil confundir conquista com fuga.” A raiva subiu depressa. “Você acha que eu me j







