INICIAR SESIÓNMelinda
Empurro a porta devagar, tentando não fazer barulho, roubando alguns segundos antes de encarar a realidade. Mas ele percebe, como sempre. — Vai ficar aí parada, me espionando, ou vai entrar de uma vez? — A voz do meu avô sai rouca e fraca, mas ainda carregada daquela rabugice que só ele tem. Sorrio, apesar do nó na garganta. — Achei que estava dormindo... não queria te acordar. Ele revira os olhos, o corpo magro afundado nos lençóis. — Dormir nesse lugar é impossível. Toda hora alguém vem me cutucar, me virar, me espetar. Eu não sou frango de padaria. Solto uma risada curta e caminho até a cama, largando a bolsa na cadeira ao lado. — Eu trouxe biscoitos. Daqueles que você gosta, com cobertura de açúcar. — E você acha que eles vão me deixar comer isso aqui? — Ele arqueia a sobrancelha. — Esses médicos querem me matar antes do câncer. — Vô! — Dou uma risada nervosa, apertando a mão dele. — Não fala assim. Ele aperta de volta, surpreendendo-me com a força que ainda tem. — Eu falo do jeito que quiser, menina. Você não sabe como é ficar preso aqui. Quero ir pra casa. — Em casa não tem enfermeiras nem equipamentos — digo baixo, engolindo em seco. — Aqui, você está sendo cuidado. — Sendo cuidado? — ele resmunga, mas os olhos brilham com um humor teimoso. — Eu sou velho, não inútil. Rio, deixando a tensão escapar um pouco. — Você sempre foi difícil, sabia? Ele sorri de canto, cansado, mas sincero. — E você sempre foi a única que aguentou essa minha rabugice. — Alguém tinha que te amar, né? — Meus olhos ardem, mas tento disfarçar. Ele passa o polegar áspero no dorso da minha mão, um gesto pequeno, mas cheio de significado. — Você sempre foi a melhor parte da minha vida, Meli. Não se esqueça disso. Meu coração aperta, e tudo que consigo fazer é balançar a cabeça. — Então fica aqui. Luta comigo, tá? Eu não posso fazer isso sozinha. Ele respira fundo, fecha os olhos por um instante e depois volta a me encarar com aquele olhar que mistura doçura e teimosia. — Eu vou lutar, mas você promete não deixar essa carinha triste estragar meu humor? Quero ver você sorrindo, igual agora. Forço o sorriso, mesmo com as lágrimas ameaçando cair. — Prometo. — Ótimo. — Ele dá um leve aceno, satisfeito. — Agora, abre a bolsa e me mostra esses biscoitos, antes que alguma enfermeira chata apareça. Solto uma gargalhada de verdade dessa vez. E nesse momento, mesmo com toda dor, ainda temos um ao outro. E isso vale mais do que tudo. ** A porta range e a doutora Silvia Steveson aparece, com aquele ar profissional, mas o olhar que me lança não é bom. Meu coração já se aperta antes mesmo de ela abrir a boca. — Melinda, podemos conversar um instante? — diz, com a voz calma demais. Meu avô ergue as sobrancelhas e cruza os braços ossudos. — Conversar sobre o quê, doutora? Eu tô aqui, não sou criança. Se for pra falar da minha vida, eu quero ouvir também. Ela dá uma risadinha curta, balançando a cabeça. — Prometo que já volto pra falar com o senhor. É rapidinho. Ele resmunga, bufando, mas se cala. Eu respiro fundo e sigo a médica até o corredor, com meus pés parecendo chumbo. Assim que a porta se fecha atrás de nós, o sorriso educado dela se desfaz. É a seriedade que me mata, porque sei que não vem coisa boa. — Melinda, eu não tenho boas notícias. — Ela prende a respiração, escolhendo as palavras. — O câncer do seu avô evoluiu para o estágio dois. Agora, o tratamento precisará ser mais agressivo. Minha garganta trava e meus olhos queimam. — O que isso significa? Ele vai piorar? — Minha voz sai falhada, pequena. — Vai ser mais difícil, sim. Os efeitos colaterais serão mais fortes. — Ela suspira. — Mas ainda há chances de melhora se iniciarmos o tratamento certo. Meu coração dispara, minha boca se adianta antes mesmo da razão. — Então façam. Façam tudo. Eu não me importo, só quero que ele melhore. É aí que ela hesita, e essa pausa me corrói. — Melinda. .. o início desse novo tratamento custa em torno de dez mil dólares. Sinto o sangue sumir do meu rosto. Dez mil. É como se ela tivesse enfiado a mão no meu peito e arrancado meu coração. Mas não acaba por aí, porque cada palavra dela a seguir é como uma lâmina nova. — E além disso, o setor financeiro entrou em contato comigo. — Seus olhos baixam, quase como se sentisse vergonha. — As últimas despesas não foram pagas. Se o valor não for quitado em até uma semana, não poderemos manter seu avô aqui. Ela estende uma folha, que eu pego com as mãos trêmulas. Meus olhos batem nos números e eu quase não consigo respirar. Cinco mil dólares. Meu mundo despenca de uma vez só. Não tenho como pagar isso, nem agora e nem depois. Muito menos somado aos dez mil a mais de tratamento. É cruel, desumano, devastador. Quero gritar, quebrar essa parede fria do hospital e chorar até não restar nada de mim. Mas não posso, não na frente dela. Engulo o choro, mordo a língua e me seguro como quem se agarra a uma corda podre prestes a arrebentar. Ele é tudo o que eu tenho. Meu avô é minha única família, minha razão para não ter desistido do mundo. Eu vou dar um jeito, nem que eu precise trabalhar dobrado, pegar todos os turnos, vender o que ainda sobrou dentro de casa. Nem que eu tenha que sangrar até os ossos. Eu não vou desistir dele. Nunca. **DamonO vento da noite sopra leve, trazendo o cheiro de carvão queimando e carne assando lentamente na churrasqueira. As risadas do pessoal da Cobra ainda ecoam lá fora, altas, bagunçadas, vivas. Alguém grita alguma piada idiota, outro reclama do jogo de cartas, e Ernesto provavelmente está exagerando alguma história como sempre faz. O som mistura com música baixa vindo da área externa, criando aquela sensação estranha de normalidade que eu nunca imaginei fazer parte da minha vida.Mas aqui dentro, na varanda iluminada apenas pela luz amarelada que escapa da cozinha, tudo parece mais calmo. Mais lento.Melinda dorme no sofá, encolhida de lado, a cabeça apoiada em uma almofada macia, uma das mãos repousando sobre a barriga arredondada, onde nossa filha se mexe preguiçosamente de vez em quando. Fico parado observando as duas por alguns segundos longos demais, incapaz de desviar o olhar. É impossível não sorrir.Ela é o lar que eu nunca pensei que teria.Por tanto tempo, achei que o pass
Dois anos. Dois anos se passaram, e às vezes ainda é difícil acreditar que tudo isso é real.Um ano em que Damon me pediu em casamento e nos casamos no mesmo dia. O sol de Las Vegas está se pondo devagar, tingindo o céu com tons de laranja e rosa, enquanto o cheiro de churrasco invade o quintal da nossa nova casa. A risada de Hina ecoa do outro lado, enquanto ela e Sally discutem sobre quem faz o melhor, as duas completamente competitivas, como sempre. Ernesto e Natalie estão se beijando descaradamente perto da piscina, e Elliot tenta convencer Frank a pular na água vestido. Eu observo tudo com uma mão sobre a barriga já arredondada, sentindo a nossa garotinha se mexer. Damon diz que ela chuta quando sente cheiro de comida, o que, segundo ele, é um traço meu.Sinto o calor, o barulho, a vida pulsando ao redor e me pego sorrindo sozinha. Há dois anos, eu nunca imaginaria estar aqui, cercada de pessoas que se tornaram a minha família. Pessoas que viram o pior e o melhor de mim e,
DamonEnquanto caminho para o corredor que leva ao octógono, ouço o som da torcida aumentar em um rugido coletivo. O ar é quente, pesado e vivo. O chão vibra sob meus pés, e por um instante, fecho os olhos de novo.Penso nela. Na Melinda que sobreviveu, que enfrentou monstros, que ainda encontrou espaço para me amar. E penso que prometi que nunca mais ninguém a machucaria. As luzes estouram sobre mim. O som da multidão é ensurdecedor, vibra nos ossos, pulsa dentro da cabeça como um segundo coração. O nome dele ecoa junto com o meu, Roger Tigger . O desgraçado entra sorrindo, o mesmo sorriso cínico de sempre. Mas hoje… hoje é diferente.O árbitro nos chama para o centro, as luvas se tocam e eu encaro aquele rosto com a calma de uma fera paciente. Sinto o sangue circular quente, o ar frio queimando por dentro. A campainha soa e tudo desaparece.Ele vem primeiro, rápido. Um cruzado de direita que passa raspando o meu queixo. Eu desvio e ouço o zunido do golpe no ar. Respondo com um
Damon As luzes do vestiário são fortes demais, quase ofendem. Fico olhando para o reflexo distorcido no espelho, o suor já escorrendo mesmo antes de subir para o octógono. A adrenalina começa a bater, mas hoje ela vem misturada com algo que parece calma. Não é paz, exatamente. É foco.O som distante da torcida chega abafado, como se houvesse algodão nos meus ouvidos. Respiro fundo e penso em tudo o que aconteceu nos últimos meses, em cada merda, cada queda, cada erro. Penso em como quase perdi tudo. E em como, de alguma forma, encontrei ela no meio do caos. Melinda. Fecho os olhos e vejo o sorriso dela. Vejo o jeito que ela olha para mim, não como se eu fosse um lutador, ou um cara invencível, mas como se eu ainda tivesse conserto. E, caralho, talvez eu tenha. Por ela, eu tenho tentado.A terapia… nunca pensei que fosse dizer isso, mas não é tão ruim quanto imaginei. Não é fácil, também, eu sangro por dentro toda vez que abro a boca para falar das coisas que enterrei, mas o dia
Melinda O cheiro metálico do sangue que gruda no ar é do homem que tentou destruir a minha vida. Ele impregna minhas narinas, pesado, sufocante, se misturando ao gosto amargo do medo preso na minha garganta. Minha respiração ainda é um tropeço desajeitado, curta demais, rápida demais, como se meus pulmões tivessem esquecido o ritmo certo de funcionar. As mãos dele, grossas e trêmulas, brilham sob a luz fria do corredor, manchadas de vermelho. Damon me encara como se esperasse alguma palavra mágica que o fizesse recuar antes que ultrapasse uma linha sem volta. — Diga que quer ele morto e eu o mato agora — ele sussurra, a voz rasgada de raiva, tão baixa que parece mais perigosa. — Eu juro por tudo o que eu tenho, Mel. Eu o mato. Meu peito se aperta por dentro de um jeito doloroso. Aquele ímpeto violento dele me assusta profundamente, porque eu vejo que não é ameaça vazia. Damon faria. Sem hesitar. Sem remorso imediato. E, ao mesmo tempo, existe uma parte pequena, ferida e infantil den
Damon O volante range sob minhas mãos. O trânsito está completamente parado, um mar de luzes vermelhas refletindo no para-brisa, e tudo o que consigo pensar é que devia ter saído mais cedo. O rádio está desligado, o silêncio do carro só é quebrado pelo som distante das buzinas. Meu celular vibra no painel e o nome de Ernesto pisca na tela. Suspiro e atendo. — Onde diabos você tá, cara? — A voz dele vem alta, misturada com barulho de gente falando atrás. — Preso no trânsito — respondo, esfregando o rosto. — Parece que todo mundo resolveu sair ao mesmo tempo hoje. Ele ri, um riso debochado, típico dele. — É, o universo tem um senso de humor peculiar. — Faz uma pausa, e o tom muda para algo mais leve. — Natalie tá aqui comigo. Não entendo. — Ela tá aqui porque quis te dar espaço pra conversar com a Melinda. Foi ideia dela, aliás. Disse que vocês precisavam de um tempo sozinhos, sem plateia. Aperto mais o volante, sentindo o coração acelerar. — É... eu fui até lá. — Eu sei — el







