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O Sorriso do Serpente

Autor: Vilenir Reed
last update Fecha de publicación: 2026-08-22 02:50:42

O som pesado de passos subindo a grande escadaria principal fez o ar no escritório botânico congelar. Martha cobriu a boca com as mãos trêmulas, encolhendo-se entre as prateleiras de frascos e raízes secas.

— Saia pelos aposentos dos servos no fundo da ala, Martha. Agora — ordenou Edmund em um tom imperioso, porém em voz baixa.

A parteira não hesitou; fez uma mesura rápida e deslizou pela porta secreta atrás da tapeçaria de veludo escura.

Edmund virou-se para Anne. Ele fechou a caixa de prata com o diário e o frasco de veneno, guardando-a rapidamente em uma gaveta secreta no fundo da escrivaninha. Seus olhos cinzentos buscaram os dela com um brilho de aviso.

— Mantenha o queixo erguido e a guarda alta — murmurou ele, a voz firme enquanto ajustava a gola da camisa. — Thomas é um mestre em manipular palavras. Não demonstre fraqueza ou suspeita.

— Ele não me intimidará, Edmund — respondeu Anne, ajustando o xale sobre os ombros e dando um passo para o centro da sala.

Um bater de palmas lento e sarcástico ressoou no corredor, seguido pela aparição de uma figura elegante, porém sinister.

Lorde Thomas Vance entrou no cômodo com a desenvoltura de quem se julgava o verdadeiro dono da propriedade. Ele vestia uma casaca de veludo azul-marinho de corte impecável, embora levemente umedecida pela chuva, e carregava uma bengala de castão de prata banhada a ouro em formato de cabeça de serpente. Apesar da aparência jovial para seus cinquenta anos, havia uma frieza cruel no contorno de seus lábios.

— Ora, ora... o que temos aqui? — disse Thomas, seus olhos pequenos e astutos varrendo o ambiente antes de pousarem em Anne. — Uma reunião secreta nas sombras da ala abandonada no meio de uma tempestade? Não me diga que já está assustando sua nova noiva, meu caro sobrinho?

— Esta é a minha esposa, Lady Anne Thorne — disse Edmund, dando dois passos à frente e posicionando-se de forma sutil, porém protetora, diante de Anne. — E este é o meu lar. A que devo a honra da sua visita inconveniente a esta hora da noite, tio?

Thomas deu uma risada curta, apoiando as duas mãos sobre o castão da bengala.

— Ora, Edmund! Um homem não pode vir parabenizar o sobrinho pelo casamento repentino? Fiquei extremamente surpreso quando soube da notícia em Londres. Uma cerimônia tão discreta, sem convidados, sem os bailes habituais da sociedade... Quase pareceu um ato de desespero para cumprir o testamento do meu falecido irmão.

O olhar de Thomas desviou-se para Anne, analisando-a da cabeça aos pés com um escrutínio velado de desprezo.

— E você deve ser a jovem Montgomery. Uma família de bom nome, embora... falida, se a minha memória não falha. O falecido barão deixou uma dívida considerável, não é mesmo? É fascinante como o desespero financeiro une as pessoas.

Anne sentiu o sangue ferver diante do insulto disfarçado de cortesia, mas lembrou-se do aviso de Edmund. Ela deu um passo à frente, saindo de trás do marido e encarando Thomas com um sorriso impecável de frieza aristocrática.

— A necessidade financeira pode unir negócios, Lorde Thomas — declarou Anne, com a voz clara e serena. — Mas a honra e o dever sustentam um casamento. Coisas que me parecem bastante alheias a um homem que invade a propriedade do próprio sobrinho no meio da noite sem ser convidado.

Um silêncio pesado caiu sobre o ambiente. As sobrancelhas de Thomas se ergueram em leve surpresa, e por uma fração de segundo a máscara de civilidade do homem vacilou, revelando uma sombra de fúria contida.

— Uma esposa com língua afiada — comentou ele, o tom descendo para algo quase perigoso. — Cuide-se, minha jovem. A última mulher que tentou ocupar este lugar nesta casa não teve uma vida muito longa. Blackwood Manor costuma ser fatal para damas delicadas.

— Anne não é delicada — interrompeu Edmund, com a voz grave como um trovão distante. — E se você pronunciar mais uma ameaça sob este teto, Thomas, esquecerei os laços de sangue e o farei colocar para fora pelos servos.

Thomas sorriu, ajustando as luvas de pelica.

— Não há necessidade de violência, meu caro. Vim apenas trazer minhas felicitações... e avisar que estarei hospedado na vila próxima pelas próximas semanas. Pretendo acompanhar de perto a administração da propriedade. Afinal, acidentes acontecem, e a linhagem dos Thorne precisa de proteção.

Ele fez uma reverência exagerada e zombeteira para Anne.

— Uma boa noite para o casal. Que durmam bem... se conseguirem.

Thomas girou sobre os calcanhares e caminhou devagar pelo corredor, o som ritmado de sua bengala batendo contra o chão de madeira ecoando como uma contagem regressiva.

Quando o som dos passos finalmente sumiu, Anne soltou o ar que nem percebera que prendia. Ela olhou para Edmund e viu as mãos dele fechadas em punhos tão rígidos que os nós dos dedos estavam brancos.

— Ele sabe que nós sabemos — sussurrou Anne.

— Não — disse Edmund, virando-se para ela com o olhar em chamas. — Ele veio testar a nossa força. Mas ele cometeu um erro ao vir até aqui.

Edmund aproximou-se de Anne, segurando-a suavemente pelos ombros. O toque quente de suas mãos fez um arrepio percorrer a espinha dela.

— Amanhã à noite, a duquesa de Devonshire fará o baile de abertura da temporada. Thomas estará lá, esperando nos ver acuados. E nós iremos, Anne. Vamos mostrar à sociedade de Londres que o Conde de Blackwood não está mais sozinho... e que não recuaremos.

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